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Pontos Riscados e Runas: há Relação?

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por Herman Faulstich

Vira e mexe vejo pelas “internets da vida”, dúvidas sobre as semelhanças de símbolos nórdicos e pontos riscados atribuindo vínculo. Tipo os vikings viajaram para a África e, no contato entre civilizações, os nativos aprenderam o alfabeto nórdico, para séculos depois aparecer em diagramas de magia brasileira. Legal, mas esqueça. “Eram os Deuses Astronautas?” fez escola. Para quem não sabe, foi um livro de 1968 que, com base em semelhança visual entre obras arquitetônicas, religiosas e artísticas de vários povos distintos ao longo da história foi cunhada uma justificativa alienígena para a ocorrência. A semelhança morfológica implica em origem comum, sim, mas não alien. A origem comum é o cérebro humano, o meio e as limitações técnicas de realização. Riscar em superfície dura exige formas limitadas, figuras geométricas simples são comuns a todas as civilizações; retas e curvas qualquer criança faz instintivamente; o melhor jeito de fazer uma estrutura alta é empilhar com base maior do que o topo fazendo uma pirâmide; golfinho parece peixe, mas não é, ambos desenvolverem soluções anatômicas parecidas para viver na água. Começando pelas runas: elas eram alfabeto e não símbolos mágicos e duraram do séc. II até o XVI d.C. O uso mágico prático das runas data dos anos 60 pra cá, ao misturarem com tarô e I-Ching — esqueçam os nazi*.

No caso específico, nem são as runas que confundem com pontos riscados, mas selos nórdicos de grimórios como o Vegvísir, a tal “bússola viking” que não é bússola e nem viking — é um selo nórdico ou Galdrastafir do sec XIX, 800 anos depois do fim da era dos comerciantes guerreiros. A Escandinávia também teve suas práticas salomônicas traduzindo os livros da idade média. Se alguém disser, então, que os pontos riscados podem ter vindo ou sido inspirados nos sigilos grimoriais, aí pode-se discutir. A formação da Umbanda e Quimbanda no começo do sec. XX teve influência do ocultismo, principalmente de fonte francesa. Aliás, pode-se jogar essa influência bem para trás, no Brasil colônia, onde pessoas que lidavam com magia estavam entre os primeiros habitantes daqui.

A inquisição portuguesa começou em 1536 e, a partir de 1546, passou a exilar para o Brasil ‘todos os heterodoxos da religião católica, judaizantes, visionários, feiticeiros, hereges, blasfemadores, sodomitas, padres que pediam favores sexuais (e as mulheres que os concediam), traidores dos segredos do Santo Ofício e outros’. Entre esses ‘outros’ estavam os ciganos.

(…) Essas feiticeiras [portuguesas] preferiam trabalhar sua magia nas segundas, quartas e sextas-feiras por volta da meia-noite; desenhavam círculos e signos salomônicos no chão, faziam oferendas de comida e conjuravam os demônios com versos simples — a origem mais provável dos ‘pontos riscados’.”*

Outra influência bastante provável* nos pontos riscados está no cosmograma bakongo chamado dikenga. Trata-se de um diagrama simples baseado no ciclo solar diário que representa vários aspectos da realidade.

Os escravizados bakongos das regiões chamadas hoje de Congo e Angola, formaram a maioria dos enviados para a capital, Rio de Janeiro, onde nasceram a Umbanda e Quimbanda. Grosso modo, a base do culto aos mortos dessas duas vertentes possuí forte componente dessas regiões.

Simplificado para um desenho de cruz no chão, o dikenga ‘fornece uma invocação mais focada e seletiva da intersecção do mundo espiritual e da terra dos vivos’ e ‘era usado quando indivíduos faziam juramentos de veracidade ou empreendiam rituais privados para buscar ajuda espiritual’.”

Os sacerdotes da macumba no início, invocavam os espíritos através de simples desenhos de giz no chão e que eram chamados de ‘pontos riscados’. Muitos refletiam influências duais do Congo e da Igreja Católica Romana e eram essencialmente cosmogramas desenhados na forma de uma cruz latina.” *

Macumba” uma das manifestações do sincretismo brasileiro, nativa do Rio de Janeiro no final do sec. XIX, com forte componente bantu. Daí kardecistas da região banhada pelas águas do Guanabara buscaram na macumba entidades que resolvessem de verdade os problemas, pois os ”espíritos de luz“ não davam conta do recado nas monótonas seções de mesa branca. O batuque afro entrou, também, para animar formando, assim, a Umbanda, a grande difusora de pontos riscados graças a sua literatura e atividade. Em termos de Gestault pode haver relação no sentido geral das formas utilizadas, acima dos significados diretos como tridente é Exu e arco e flecha é Caboclo. O círculo delimita, a espiral é um padrão dinâmico cíclico, cruz como intersecção; distribuição dos elementos seguindo equilíbrio, proporção, simetria, direção e sentido. O elemento fonético é um diferencial importante entre os pontos e os selos grimoriais:

Então eles cantaram para o poder no ponto e se ajoelharam para eles também. Então, os desenhos se tornaram carne e os espíritos desceram. (…) O visual e o musical-oral (e o gestual-corporal) se compõem, acontecendo juntos como ativadores das presenças das forças no ritual, do axé.” *

Portanto a relação entre pontos riscados e selos nórdicos não é direta, mas indireta pela fonte salomônica e gestalt. Um não veio do outro; Xangô não é Thor, Oxum não é Freya, nem golfinho é peixe, mas que parecem, parecem.

Notas:

* Nazi — Ver o meu post “Ocultismo N@zi, Um Pânico S@t@nico” do dia 17 de janeiro;

* Ambas as citações: Humberto Maggi;

* “Influência bastante provável”: idem;

* Ambas as citações: ibidem;

* Citação: Ligia Velloso Nobre;

*Última ilustração: ponto riscado da Pomba-Gira Menina e Vegvísir respectivamente.

Bibliografia:

– “Encruzilhadas e Cemitérios, Uma Introdução Histórica à Quimbanda” — Humberto Maggi;

– “O Livro Africano sem Título”, Cosmologia dos Bantu-Kongo — Bunseki Fu-Kiau;

– “Terra-chão em Movimento Ponto Riscado, Arte, Ritual” — Ligia Velloso Nobre.

Originalmente: https://www.instagram.com/p/DLm7WpdRJR9/?img_index=1


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