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Magia do Caos

Magica de Rua

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por Parick Dunn, excerto de “Postmodern Magic”

Não sou particularmente afeito a poltronas. Se a magia funciona, então deve funcionar tão bem na rua quanto no templo. Se funciona na rua, devemos usá-la ali, assim como a usamos no templo. Deixar de integrar a magia à nossa vida leva a exercícios masturbatórios, como livros canalizados e novas revelações que, no fim das contas, apenas repetem antigas revelações, às vezes usando exatamente as mesmas palavras. Conheço magos que nunca realizaram um feitiço prático, apesar de sua constante imersão em longas “operações” envolvendo anjos, demônios, deuses e coisas do gênero. Apesar de todo o trabalho, dos templos ricamente decorados e dos instrumentos cuidadosamente construídos, eles nunca parecem manifestar uma mudança em si mesmos ou no mundo ao redor. Em outras palavras, nunca saem da poltrona.

Isso provavelmente se deve ao medo. Afinal, quando alguém tenta fazer magia na rua, no mundo real, sem vestes cerimoniais nem instrumentos, e ela não funciona, o mago precisa admitir que esteve mentindo para si mesmo durante todos esses anos. Todo aquele trabalho foi desperdiçado. Praticar magia é um exercício de confiança em si mesmo. Quanto mais cresce essa confiança, maior se torna a autoridade. Não existem magos teóricos.

Por isso, sempre defendo a prática da magia em lugares públicos. Não é preciso entoar cânticos usando todos os paramentos para fazer magia. Realizar atos mágicos simples em uma cafeteria, em um clube ou no escritório pode parecer, externamente, algo tão banal quanto olhar distraidamente para o vazio ou brincar com um guardanapo. Não é necessário chamar atenção para a magia em lugares públicos; na verdade, é melhor não fazê-lo. Mas como alguém pode realizar ações simples e imperceptíveis e, ainda assim, provocar uma mudança real no mundo simbólico? Mesmo uma mente infinitamente flexível não consegue entrar prontamente em transe sempre que deseja. Ou consegue?

Descobri que a chave para a magia de rua é a âncora. Uma âncora é uma ação simbólica simples — um gesto, uma palavra ou um movimento — que já foi associado pelo mago a um estado simbólico. Na verdade, o conceito não é diferente do instrumento mágico, exceto pelo fato de que, em vez de vincular o estado simbólico desejado a um objeto, o mago o vincula a uma palavra ou a um gesto, ambos fáceis de executar em público sem serem notados. Isso é semelhante ao uso de palavras bárbaras, do qual falei anteriormente. Experimente o exercício a seguir.

EXERCÍCIO PRÁTICO
Criando uma âncora

Sente-se ou deite-se confortavelmente em um lugar onde não será incomodado. Seu objetivo é criar um estado mental de poder sereno, uma espécie de transe hipnótico leve, e depois vinculá-lo a um gesto.

Relaxe por completo, concentrando-se em cada parte do corpo e relaxando conscientemente os músculos, um de cada vez. Quando estiver tão relaxado que não conseguir reunir vontade suficiente para erguer o braço, você estará se aproximando de um estado de relaxamento adequado. Sua mente deve permanecer alerta; talvez você até perceba que ela está mais alerta do que o normal. Fui arrancado de minha primeira experiência com esse estado mental por uma série de horríveis ruídos de algo sendo esmagado. Quando abri os olhos, percebi que o som vinha do meu gato andando sobre o carpete.

Agora comece a contar as respirações; inspire e expire de maneira muito lenta e profunda. Diga continuamente a si mesmo que está entrando em sua autoridade. Nesse estado, você pode manipular a estrutura simbólica do universo para que ela se ajuste à sua vontade. Gosto de contar até cinco, mas algumas pessoas preferem dez. Outras preferem fazer a contagem regressiva de dez até um. Quando alcançar o número escolhido, você deverá estar profundamente relaxado, mas também energizado e pronto para qualquer tarefa.

Continue respirando de maneira relaxada enquanto faz um gesto discreto com uma das mãos. Pode ser algo tão simples quanto cruzar os dedos ou encostar o dedo mínimo no polegar. No fim das contas, não importa o que você escolher, pois será você quem atribuirá significado ao gesto. Ao fazer o gesto escolhido como âncora, diga mentalmente a si mesmo: “Quando eu fizer este gesto, retornarei instantaneamente a este estado mental sereno, relaxado e poderoso, no qual sou capaz de perceber tudo e realizar qualquer coisa.” Repita isso três vezes enquanto mantém o gesto; depois desfaça-o e saia do transe invertendo a contagem anterior.

Quando abrir os olhos, volte às suas atividades habituais; isso ajudará a ancorá-lo novamente na realidade convencional. Caso deseje realizar um banimento antes e depois desse exercício, pode fazê-lo, embora não seja estritamente necessário, pois você não está lidando com entidades externas a si mesmo. Quando quiser retornar ao estado de consciência que acabou de ancorar — essa gnose, como às vezes é chamada —, faça o gesto da âncora, respire profundamente algumas vezes e você estará lá. Não considero esse estado mental particularmente alterado. Suspeito que nossa mente habitual — confusa, desordenada e desatenta — é que seja o estado alterado de consciência. Baseio essa conclusão nos resultados da meditação regular, que tende a me deixar mais alerta, relaxado e, ao mesmo tempo, saudável. As tensões de uma mente destreinada frequentemente levam à doença e à desordem.

É claro que você não deve limitar as âncoras à obtenção de estados mentais alterados.

As âncoras podem ser usadas para qualquer objetivo mágico concebível, desde a invisibilidade — que normalmente significa passar despercebido, embora a invisibilidade real seja possível — até o carisma. Siga este procedimento simples para criar uma âncora:

  1. Alcance o estado que deseja ancorar por meio de um ritual, da meditação ou de qualquer outra sequência de atos simbólicos capaz de produzir a manifestação mais profunda possível desse estado.
  2. Faça um gesto ou pronuncie uma palavra que deseja vincular a esse estado, e somente a ele, enquanto diz a si mesmo, simultaneamente, que o estado desejado e a âncora estão ligados.
  3. Repita a afirmação três vezes.

Talvez você queira renovar periodicamente a âncora, mas, em minha experiência, o simples uso costuma ser suficiente para renovar a maioria das âncoras.

Um de meus usos favoritos da âncora é a criação de glamoures. Um glamour é uma projeção mental de sua identidade, destinada a fazer com que os outros o percebam da maneira como você deseja ser percebido. Os glamoures podem aumentar a percepção de sua beleza, força, inteligência ou de qualquer outra qualidade que você deseje. Ocasionalmente, uso um glamour que faz com que eu pareça um monstro perigoso para a mente inconsciente das pessoas, a fim de evitar problemas ao caminhar, à noite, por áreas perigosas da cidade. Um amigo meu experimentou um glamour de ursinho de pelúcia para aumentar as gorjetas em seu trabalho. Ele me contou que suas gorjetas realmente quase dobraram, mas que estava começando a ficar irritado com as pessoas que falavam com ele como se fosse um bebê!

Normalmente, as pessoas não percebem conscientemente o seu glamour. No entanto, tendem a ter uma forte impressão intuitiva da imagem que você está projetando e agem de acordo com ela. Os glamoures parecem acessar uma corrente muito mais profunda do que nossa mente consciente; algo em nosso cérebro reptiliano — a parte primitiva do cérebro relacionada às questões básicas de sobrevivência — reage instantaneamente aos glamoures. Na verdade, acredito que muitos céticos e pessoas completamente alheias à magia usam glamoures habitualmente em sua vida cotidiana. Portanto, os glamoures são bastante fáceis de produzir.

EXERCÍCIO PRÁTICO
Criando um glamour

Alcance um estado confortável de transe. Nesse estado, imagine que está olhando para si mesmo de fora — novamente, como se estivesse vendo a si próprio, em terceira pessoa, em uma tela de cinema. Agora, por meio da força de sua vontade, altere elementos dessa representação imaginária de si mesmo. Acrescente elementos simbólicos que evoquem o tipo de glamour que deseja usar. Caso queira ser percebido como belo, use símbolos de beleza; caso queira parecer feroz, use símbolos de ferocidade. Quando tiver esculpido a imagem até transformá-la na representação simbólica adequada — ela nem sequer precisa continuar parecendo com você —, entre mentalmente nela, de modo que você fique dentro da imagem, olhando através dos olhos dela e sentindo o corpo dela ao seu redor.

Permita-se relaxar dentro da imagem por alguns minutos; depois saia novamente para fazer quaisquer alterações necessárias. Continue fazendo isso até que a imagem esteja tão forte e poderosa quanto você conseguir torná-la. Ela também deve ser simbolicamente significativa e provocar mudanças na maneira como você se porta, na maneira como se sente em relação a si mesmo e naquilo que seus sentidos captam. Quando o glamour estiver o mais forte possível, associe-o a uma âncora, para que possa evocá-lo em qualquer situação.

Devo advertir que os glamoures envolvem um pequeno perigo. Caso você crie um glamour poderoso o bastante e o use com frequência, começará a mudar de forma psicologicamente de acordo com ele. Portanto, se abusar de um glamour com forma demoníaca para assustar possíveis assaltantes, talvez perceba que está adotando comportamentos “demoníacos”. Assim, é mais seguro passar alguns momentos, depois de usar o glamour, lembrando a si mesmo quem você é, por meio do aterramento e de uma reafirmação vigorosa de seu senso de identidade.

É claro que essa sugestão levanta a seguinte questão: o que sou eu, de fato? Sinceramente, não faço ideia. Parece que a maioria das pessoas é composta de glamoures construídos de maneira aleatória, às vezes em conflito entre si, às vezes funcionando em conjunto e, por vezes, completamente reprimidos. Talvez não exista em nenhum de nós algo que possa ser chamado de personalidade. Nesse caso, o melhor que podemos fazer é convencer nossa mente inconsciente de que não somos demônios nem monstros, pelo menos não em tempo integral, e de que podemos ser o tipo de pessoa que desejamos ser, seja lá o que isso signifique. O eu é um enigma e, embora eu não tenha tempo para explorá-lo adequadamente aqui, quis abordar o assunto para mostrar que até mesmo as técnicas mais simples de feitiçaria podem tocar nos mistérios mais profundos do que significa ser humano.


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