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Shirlei Massapust
Como o personagem Conde Drácula virou vampiro? A resposta está no livro. No início, um distinto agente imobiliário inglês, de religião cristã protestante, escolhe respeitar o valor moral da fé de uma idosa estalajadeira em seu amuleto apotropaico, sendo ela cristã do rito católico romano. O mesmo cidadão é convencido da veracidade de fatos insólitos por um doutor em medicina apegado à doutrina espírita, que inesperadamente confessa a insuficiência de seu saber e pede socorro a um historiador. Enquanto uma mulher exímia na arte da taquigrafia decodifica documentos importantes, céticos contra-atacam a magia ofensiva de um nobre romeno, descendente de Átila, bissexual assumido, homem que cozinha e limpa o próprio lar às escondidas, colecionador de mobília antiga, şolomonar[1], estudante de magia espano-lusitana que vira morcego sul-americano.
O mundo inteiro ganha voz em Drácula, para o bem ou para o mal. Estudar é a alma do negócio. Enquanto os personagens estudam para resolver problemas, um leitor apto a entender referências presumivelmente estaria habituado a consultar as mais ecléticas publicações de época. Em 1897 o leitor poderia localizar até um personagem do livro, o professor húngaro Arminius Vambery (1832-1913), que lecionava línguas orientais na Universidade de Budapeste. Este ser vivente é o douto orientador que instrui o fictício Dr. Van Helsing sobre o fictício ramo oriental da histórica família Drăculești.
Bram Stoker conheceu Arminius em 30 de abril de 1890, no Beefsteak Room, onde a elite intelectual local se reunia após pernoitar no Lyceum Theatre. O ficcionista se admirou a ponto de homenageá-lo em sua novela mais famosa, além de escrever um capítulo biográfico em obra de não ficção. “Ele é um linguista maravilhoso, escreve doze idiomas, fala fluentemente dezesseis e lê mais de vinte[2]”.
Harry Ludlam, biógrafo de Stoker, sugere que tal erudito estimulou a imaginação de ouvintes aleatórios, parolando sobre a História da Romênia.[3] Os historiadores norte-americanos Raymond MacNally e Radu Florescu opinaram que o decantado mentor pode ter comentado o seguinte fragmento de The Land Beyound the Forest (1888)[4], o qual traz uma variante da lenda espano-lusitana de Salamanca, gerada durante pesquisa de campo na Transilvânia, pela folclorista Jane Emily Gerard (1849-1905).
Eu poderia tão bem mencionar a Scholomance (Şolomanţie) ou escola, supostamente existente em algum lugar no coração das montanhas. Ali os segredos da natureza, a linguagem dos animais e todos os feitiços mágicos são ensinados pelo diabo em pessoa. Apenas dez estudantes são admitidos por vez e, quando o curso de ensinamentos termina, nove são libertos para retornarem às suas casas. O décimo estudante é detido como pagamento e, montado sobre um dragão (zmeu)[5], torna-se o aide-de-camp do Diabo.[6]
Compare com o que a espavorida estalajadeira, dona duma pousada na Costa de Carvajal, em Salamanca, Madrid, falou ao cavaleiro português Francisco Botello de Moráes e Vasconcélos, quando ele informou que viajava na intenção de realizar estudo de campo sobre a lenda das “Cuevas de Salamanca”, no sítio arqueológico composto pelas ruínas da Igreja de São Cipriano e seu sistema espeleológico oculto; onde, no século XVI, havia uma sacristia usada como sala de aula pelo pároco Clemente Potosí.
A estalajadeira perguntou por onde eu andava. Respondi. Ela suspirou, pondo as duas mãos na cabeça, e disse: “Senhor, em nome do Deus único, Vossa Mercê não se meta em tal caverna. É nela que o Demônio Catedrático habita; e por salário requer um estudante de cada sete que entram. Somente o Marquês de Villena o enganou, deixando-lhe a sombra ao invés do corpo. Mas o pobre Marques sofre pela perda da sombra desde aquela época; coisa que nos faz estremecer as carnes.[7]
O Conde Drácula não tem sombra nem projeta reflexo no espelho. Sombras não tem sombra. Uma imagem hipnagógica não pode ser fotografada ou filmada. Suponho que informações foram trocadas entre Stoker e Vambery porque, depois daquele dia, o novelista decidiu transferir a ambientação da trama da Áustria para a Transilvânia. Foi quando o antagonista ganhou um nome e o livro mudou de título. Era The Undead e tornou-se Drácula. A abstração do humano responde ao personagem Van Helsing:
Conforme Arminius, a família Drăculeşti constituiu uma valorosa e nobre árvore genealógica, apesar de nela continuamente brotarem ramos cujos membros são acusados por seus conterrâneos de ter pacto com o Maligno. Eles aprenderam seus segredos na Șolomanţie, localizada na área duma cadeia montanhosa situada à margem dum lago, em Sibiu, onde o diabo reivindica o décimo aluno como seu honorário.[8]
O folclorista Harry Senn acidentalmente achou o referido local durante pesquisas de campo realizadas em 1975 e 1977. Ele gravou narrativas sobre dragões sobrevoando Sibiu, durante tempestades de granizo. Nelas, o feiticeiro (şolomonar) frequenta o lago Iezerul Mare, no Munţii Cindrel, lar do zmeu que controla o clima. Um lenhador que trabalha junto ao pai, em Tilişca, descreveu um episódio completo:
Certo dia meu pai subiu a montanha para cortar lenha e viu um homem vestido de preto com um livro enorme debaixo do braço. O homem parou na margem do lago e começou a ler o livro. Ele chamou um dragão, montou-o quando saiu e voou embora. Teve início uma chuva de granizo. O homem era um şolomonar.[9]
A primeira tradução brasileira foi a versão de Lucio Cardoso, chamada Drácula: O Homem da Noite (1943). Nela não se nomeia os “segredos” de Satã, o Diabo.[10] Considerando que a versão de Lucio Cardoso é a favorita de Rubens Francisco Lucchetti, conforme me foi dito por ele mesmo, não é admirável que este último haja optado pela omissão do parágrafo no capítulo de seu resumo autoral onde os “informes” recebidos da “Universidade de Budapeste[11]” são lidos.
Na tradução de Maria Luísa Logo Bittencourt, com primeira edição publicada em 1960, pela Vecchi, existe um espaço físico chamado Şolomanţie, onde nobres assinam “pactos com o diabo[12]”. A próxima tradução influente seria a de Theobaldo de Souza, com quatro edições da L&PM impressas em 1985, 1993, 1997 e 1999, e uma pelo Círculo do Livro, em 1988. Trata-se duma tradução pomposamente mais volumosa que o original, em linguagem mais erudita que a do próprio Bram Stoker. O jargão seleto por Theobaldo de Souza é o extremo oposto da linguagem coloquial salpicada de uso artístico da vulgaridade, característica do estilo de Maria Luísa Logo Bittencourt.
Seria perfeito, se não omitisse a referência à Şolomanţie, mantendo a alegação de má fé contra a estirpe de degenerados que “se apoderaram dos seus torvos segredos nos antros de necromancia”, naquele lago “onde o Demônio ia recrutar o seu dízimo humano”.[13] Vera Renoldi produziu, em 2002, uma tradução relativamente fiel, sem reduções nem exaltações. Ela descreve a ação do nobre que “seus contemporâneos acreditavam ter feito pacto com Satanás”, cujos “segredos de necromancia” foram assimilados numa localidade nominada Şolomanţie.[14]
A palavra necromancia vem do grego nekrós (νεκρός), morte, e manteía (μαντεία), adivinhação. Na fonte mais remota, “nigromantes[15]” deriva do italiano nigro, que significa negro, a cor preta, sendo o termo usado para definir a atividade exercida pelo protagonista branco, o Marquês de Villena, da lenda da Caverna de Salamanca.
Na edição de bolso traduzida por David Jardim Júnior, em 1988, o capítulo XVIII foi severamente podado, suprimindo até a menção ao correspondente de Budapeste, retratando Van Helsing como um sabichão autodidata.[16]
A ausência de Şolomanţie não prejudica o valor didático da versão ilustrada de Tudor Humphries, publicada primeiro em Londres, em 1996, traduzida para português por Hildergard Feist no ano seguinte[17]. Esta redução repleta de notas marginais foi planejada para familiarizar o leitor com folclore duma grande variedade de países, usos e costumes estrangeiros, cenários, etc. Seus desenhos são realísticos. A aproximação do leitor com a alteridade se realiza por meios alternativos aos existentes no original, adequados ao público alvo infanto-juvenil educado nos últimos anos do século XX.
O desafio de recriar o cenário ideal para retratar a localidade, com tão poucos dados descritivos disponíveis, estimulou a imaginação do roteirista Francisco de Assis Pereira da Silva e do desenhista Nico Rosso, ao trabalhar em parceria no romance gráfico O Vampiro da Noite. A dupla fantasiou em mais de uma centena de páginas ilustradas como o anti-herói nasce, cresce e é envolvido numa súbita guerra religiosa de cruzados ofendidos contra muçulmanos ofensores. Ele não vê outra solução que não a aceitação da proposta dum debochado diabo carnavalesco, para aprender com ele a perder a humanidade, transformando-se num vitorioso rei vampiro.
Nesta versão, o pupilo encontra seu mentor às margens do lago. O diabo afasta as águas para o humano atravessar, como Moisés abrindo o Mar Vermelho. No centro do lago, a caverna Şolomanţie fornece passagem ao submundo, Pokol. Drácula desce por uma escadaria de ossos, tal qual Dante Alighieri guiado ao Inferno pelo espírito de Virgílio na Divina Comédia; ou os heróis ameríndios visitando a Xibalba no Popol Vuh, o Morená do folclore xinguano, o Reino dos Mortos.[18]
Antes e depois do derradeiro fim, o protagonista questiona o paradoxo do livre arbítrio frente ao determinismo, quando aquilo que é subjetivamente experimentado como escolha individual acaba correspondendo ao que objetivamente não poderia deixar de ser como foi, conforme a ordem cosmogônica. Drácula é um personagem que lê assiduamente, busca austeridade e fracassa ao tentar escapar do destino. Tudo lhe acontece. Ele só encontra felicidade onde, em tese, nunca deveria haver (no ritual antropofágico); passando a questionar o propósito de sua existência no mundo.[19]

Drácula, ainda humano, e o Mestre diabo diante da caverna.
NOTAS:
[1] O şolomonar, şolomănár ou şolomonár (plural solomonári) é figura recorrente no folclore romeno.
[2] STOKER, Bram. Personal Reminiscences of Henry Irving. London, Willian Heinemann, 1907, p 238.
[3] STOKER, Bram (novela) & WOLF, Leonard (introdução e notas). The Essential Dracula: Including the Complete Novel by Bram Stoker. New York, Plume, 1993, p 291, nota 22.
[4] McNALLY, Raymond T. Dracula: Truth and Terror. USA, Voyager, 1996, nota na página 380 do livro virtual no CD-ROM.
[5] No original ismejev (sic.), forma dialetal do romeno zmeu, dragão vermelho, derivado de zmeură, o fruto da roseira.
[6] GERARD, Emily. The Land Beyond the Forest: Facts, figures and fancies from Transylvania. New York, Harper & Brothers, 1888, p 198-199.
[7] VASCONCÉLOS, Francisco Botello de Moráes i. Historia de Las Cuevas de Salamanca. Madrid, Universidad de Salamanca, 1734, p 34.
[8] Redação original: “The Draculas were, says Arminius, a great and noble race, though now and again were scions who were held by their coevals to have had dealings with the Evil One. They learned his secrets in the Scholomance, amongst the mountains over Lake Hermannstadt, where the devil claims the tenth scholar as his due”. Hermannstadt é a alcunha alemã duma cidade romena que os romenos chamam de Sibiu, situada ao sul da Transilvânia. (STOKER, Bram; WOLF, Leonard. The Essential Dracula: Including the Complete Novel by Bram Stoker. New York, Plume, 1993, p 291; STOKER, Bram. Dracula. Londres, Penguin Classics, 1993, p 309, 518 e nota de Maurice Hindle na página 127). Scholomance, no original em inglês, equivaleria ao romeno Șolomanţie se tal palavra existisse.
[9] SENN, Harry A. Were-Wolf and Vampire in Romania. New York, Columbia University Press, 1982, p 8 e 109.
[10] STOKER, Bram. Drácula: O homem da noite. Trad. Lucio Cardoso. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica “O Cruzeiro” S. A., 1943, p 153.
[11] STOKER, Bram. Drácula. Recontado por R. F. Lucchetti a partir da tradução de Marco Aurélio Lucchetti. São Paulo, Maceca, não datado, p 78.
[12] STOKER, Bram. O Vampiro da Noite. Trad. Maria Luísa Lago Bittencourt. Rio de Janeiro, Vecchi, 1960, p 197-198.
[13] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Theobaldo de Souza. Porto Alegre, L&PM, 1993, p 301.
[14] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultural, 2002, p 237.
[15] VASCONCÉLOS, Francisco Botello de Moráes i. Obra citada, p 8.
[16] STOKER, Bram. Drácula. Trad. David Jardim Júnior. Rio de Janeiro, Ediouro, 1997, p 80-81.
[17] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Hildergard Feist. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p 44.
[18] ASSIS, Francisco de e ROSSO, Nico. O Vampiro da Noite. Em: Álbum Clássicos do Terror: nº 9. São Paulo, TAIKA, não datado, menção a “scholomance” na página 49.
[19] Todos os roteiros produzidos por Francisco de Assis e Helena Fonseca para o Estúdio Nico Rosso, em São Paulo, são estimados pelos colecionadores de romances gráficos nacionais. Porém, apenas “O Vampiro da Noite” é excepcional, se distinguindo dos demais pelo roteiro inteligente, volume de páginas e por um misto de seriedade com visual carnavalesco. O referido romance gráfico data da década de 1970 e não contém nenhum ponto de aproximação com a biografia do Drácula histórico. Nesta arte atemporal, de qualidade invulgar, o Conde Drácula não é Vlad Țepeş nem pertence à sua família. Trata-se de algo totalmente novo, fruto dum exercício de criatividade.
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