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Existem obras que nos convidam a conhecer um tema; outras nos convidam a atravessá-lo.
Esta pertence à segunda descrição. Aqui, o abismo não é apenas objeto de estudo, metáfora ou construção poética, mas experiência, confronto e possibilidade de transformação. O propósito desta obra é conduzir o sujeito ao encontro de suas próprias profundezas abismais, reconhecendo que o abismo não está somente diante de nós, mas também nos constitui.
Seu objetivo não é simplesmente abordar a sombra, a alquimia, o Feminino Sombrio, as divindades do abismo ou o Caminho da Mão Esquerda, mas compreender como esses elementos, filosofias e forças podem entrelaçar-se em um processo interno de transmutação. A travessia proposta não pretende deixar o buscador exatamente como iniciou. Para aqueles que percorrem a Via Sinistra e se permitem lapidar, ela pode envolver confronto, ruptura, reconstrução e, sobretudo, individuação, conduzindo ao que compreendemos como auto-deificação.
A Via Sinistra não é uma tradição homogênea ou submetida a uma doutrina universal, mas é um campo multifacetado de experiências, filosofias e práticas que valorizam autonomia, individuação, transgressão consciente e soberania do ser. Seu propósito não é conduzir o indivíduo à dissolução em uma divindade superior e consequentemente se anular, mas promover a elevação do sujeito ao nível do divino sem que, para isso, precise abandonar sua humanidade e sua essência.
A auto-deificação, nesse sentido, não representa uma fantasia de onipotência ou superioridade, mas um processo de transformação pelo qual o indivíduo assume a responsabilidade e se torna progressivamente consciente de si, de suas potências, de suas sombras, de sua Vontade e de sua capacidade de criar e recriar a própria existência. É reconhecer-se como agente de transformação, abandonar a dependência de uma autoridade transcendente que determine o valor do próprio ser e construir uma soberania interior que não dependa da aprovação externa. A divindade buscada não é um trono sobre os outros, mas uma transformação radical da relação consigo mesmo.
A linguagem da obra nasce do encontro entre psicologia profunda, alquimia, mitologias antigas, estudos sobre o feminino, tradições esotéricas e perspectivas iniciáticas relacionadas ao Caminho da Mão Esquerda. Essas tradições não são reduzidas umas às outras nem tratadas de forma separada. Ao contrário, suas diferenças são preservadas para que possam dialogar e produzir novas possibilidades de interpretação e experimentação. O livro apresenta-se, portanto, mais como uma abertura do que como conclusão: não pretende esgotar significados, nem descrever tradições, mas inaugurar uma relação mais profunda com aquilo que ainda não foi plenamente compreendido e/ou experimentado.
Nesse percurso, a alquimia ocupa lugar central. Seus conceitos de morte, decomposição, purificação, separação, união e coagulação atravessaram séculos e receberam diferentes interpretações. Em diálogo com a psicologia profunda de Carl Jung, podem ser compreendidas também como representações instrumentais dos processos de transformação da psique. O laboratório alquímico torna-se, assim, um instrumento da própria interioridade: recipiente, matéria, fogo, putrefação e transformação passam a expressar uma experiência que modifica tanto aquilo que é observado quanto aquele que observa.
A proposta desta obra, contudo, desloca o laboratório alquímico para uma dimensão radicalmente encarnada. O corpo é compreendido como o verdadeiro laboratório da transmutação. É nele que os limites são testados, que prazer e dor são experimentados, que a Vontade encontra resistência e possibilidade, que a sombra se manifesta e que a consciência aprende a habitar aquilo que descobriu. O corpo não é mero recipiente da experiência espiritual, ele é instrumento mágico, matéria-prima e campo de operação. A existência inteira torna-se, assim, um laboratório no qual a metamorfose pode acontecer e expressar uma experiência concreta e encarnada de mutação.
A estrutura da obra acompanha as fases clássicas da alquimia — Nigredo, Albedo, Citrinitas e Rubedo —, mas não as interpreta como uma sequência linear rumo à perfeição. Há o abandono da ideia eurocêntrica de linearidade e progresso. A transformação é compreendida como movimento espiralado, contraditório e recorrente, no qual morte e renascimento, dissolução e coagulação, perda e criação permanecem em tensão. Cada etapa conserva as anteriores e há possibilidade de retornar a elas, como uma serpente que engole a própria cauda. A matéria transmutada continua sendo a mesma matéria, mas já não possui a mesma forma e nem se comporta no mundo da mesma maneira.
Nesse processo participam as Mães Obscuras ou Mães do Abismo, forças que acompanham o buscador pelas diferentes etapas da transformação. A experiência pode começar pela perda de identificações, certezas, imagens idealizadas e narrativas confortáveis que organizavam a existência. Algumas formas precisam morrer para que outras possam emergir. O Feminino Sombrio aparece justamente como força capaz de carregar, devorar e transformar. Seu fogo não apenas destrói: modifica a matéria, como a fênix que renasce das cinzas. Aquilo que emerge da sombra pode conter medo, agressividade e violência, mas também criatividade, autonomia, sexualidade, inteligência, ambição e outras potencialidades que determinadas estruturas sociais e morais ensinaram a considerar inadequadas.
A noção de Feminino Sombrio também é relacionada à história cultural do Ocidente, na qual o feminino foi frequentemente associado ao corpo, à matéria, à natureza, ao instinto, à sedução, ao perigo e à irracionalidade, sempre em oposição ao masculino. Mas essa oposição não é compreendida como natural, mas como construção histórica, cujas consequências atravessam identidades, relações de poder e representações do sagrado. E essas características citadas, não são vistas como algo negativo, mas inerente à essência humana.
As divindades reunidas na obra — Tiamat, Kali, as Erínias, Ereshkigal, Hel, Morrígan, Sekhmet, Baba Yaga, Lilith, Neith, Ma’at, Anánkē, Ushas, Shapash, Hécate, Babalon, Ishtar e Dhumavati — pertencem a contextos históricos e culturais distintos. Não formam uma genealogia homogênea e suas diferenças não são apagadas em busca de um monoteísmo de saia. O que as aproxima, no interior da proposta, é a possibilidade de compreendê-las como presenças transformadoras diante das quais ilusões de controle, identidade e permanência entram em crise.
As Mães do Abismo não são maternais apenas por gerar, proteger ou acolher. Algumas devoram, destroem, separam, testemunham ou conduzem à morte simbólica. A maternidade e sua ambiguidade implica em demonstrar que aquilo que cria também pode destruir e ambas ações fazem parte do processo. O abismo transforma-se simultaneamente em útero e túmulo, lugar de gestação e decomposição. Afinal, é na escuridão do útero onde somos gestados e é para a escuridão do ventre terrestre que geralmente retornamos.
Essa perspectiva modifica também a compreensão da individuação, que nesse caso não é aquela busca vazia e contraditória de usar a sombra para alcançar a luz. Descobrir aquilo que se é e se lapidar para ascender exige integração, exige escuridão, enquanto determinadas concepções de iluminação podem sugerir transcendência, medo do escuro ou fuga da matéria. Na Via Sinistra aqui proposta, é necessário retornar à matéria, ao corpo, à experiência e à escuridão do ventre fértil.
Esse retorno não representa uma queda, mas uma radicalização da transformação, afinal o que está em cima é como o que está embaixo. Por isso, o objetivo não é escapar do corpo para alcançar o divino, mas trabalhar sobre o corpo, pela experiência e através da matéria, até reconhecer nele uma dimensão de divindade. É, portanto, uma reivindicação da carne e da existência, no aqui e agora. O corpo deixa de ser obstáculo à experiência iniciática – como geralmente é no caminho destro – e torna-se seu principal instrumento.
Nesse sentido, a alquimia deixa de ser apenas uma metáfora do autoconhecimento e adquire dimensão existencial. Todo sujeito transformado passa a relacionar-se com o mundo de outra maneira. A transformação se completa quando aquilo que compreendemos e trabalhamos modifica nossa maneira de existir e, consequentemente, a nossa presença no mundo modifica a realidade.
É nesse movimento que a auto-deificação encontra seu sentido mais profundo. Ela não é um ponto final no qual o buscador finalmente se declara completo, mas uma prática contínua de tornar-se. A divindade não é um estado imóvel, mas uma obra em permanente realização e vivência. O ser que se auto-deifica não abandona o processo: torna-se o próprio processo. Dissolve-se e coagula-se repetidamente, reconhece novas sombras, rompe estruturas, revisita antigas matérias e descobre que aquilo que parecia conclusão era apenas outra porta.
Por isso, este livro não promete uma saída do abismo e nem um processo linear ilusório rumo à vitória. Algumas travessias não terminam com a chegada ao destino, se assim fosse tudo estaria acabado, mas a vida e o processo continua. O abismo não precisa ser vencido, assim como a sombra não precisa ser destruída e a matéria não precisa ser negada. A luz não precisa necessariamente constituir um destino, nem o divino precisa estar acima e fora de nós para ser alcançado.
A obra Sussurros da Sombra de Lilith Ashtart convida, finalmente, a reconhecer e trabalhar a própria matéria, assumir a verdadeira Vontade e realizar a transformação de si. A travessia é simultaneamente descida e ascensão, morte e nascimento, dissolução e coagulação, não como forças opostas e separadas, mas como forças complementares. Nuances que fazem parte da vida, entre noites e dias, um processo contínuo no qual o indivíduo deixa de buscar uma forma definitiva e passa a compreender a própria existência como obra alquímica em permanente lapidação. Não há nada definitivo na natureza, tudo está em constante movimento. Há perigos nesse processo, mas o pior perigo talvez não esteja em olhar e lidar com o abismo, mas em passar uma existência inteira, mascarando a verdade interior e evitando descobrir aquilo que, desde suas profundezas abismais, insiste em despertar.
Por Gilmara Ígnea
Historiadora, professora e pesquisadora de Práticas Mágickas.
Criadora do conceito de Dança Performágicka.
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