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Em 1583, John Dee e Edward Kelley registraram as primeiras transmissões do que ficaria conhecido como Enochiano. Dee tinha então 56 anos, e sua biblioteca em Mortlake continha aproximadamente 4.000 volumes para comparação, a Biblioteca da Universidade de Cambridge na mesma época tinha cerca de 450. Ele não era um entusiasta do oculto. Era o homem que em 1570 escreveu o prefácio matemático para a primeira edição inglesa de Euclides, que navegadores usaram para cartografiar o Atlântico Norte, e que Elizabeth I consultava pessoalmente em assuntos de astrologia e criptografia.
Esse perfil é o ponto de partida de qualquer hipótese séria sobre o Enochiano. Não porque ele prove qualquer coisa, mas porque ja elimina o caminho mais fácil o da fabricação ingênua. Um homem assim não produz uma língua por acidente, e dificilmente a produz sem deixar rastros do que absorveu.
A questão que esta hipótese propõe é simples: esses rastros apontam para algum lugar específico? Sim apontam, devemos lembrar que John Dee era fluente em hebraico e para entendermos isso :
O fenício se consolidou por volta de 1050 a.C. como sistema puramente consonantal 22 letras, nenhuma vogal, O hebraico paleo derivou diretamente dele, mantendo essa arquitetura até aproximadamente o século V a.C. O sistema massorético, que introduziu os sinais vocálicos que o hebraico moderno usa, só foi sistematizado entre os séculos VI e X d.C. O hebraico que Dee estudava através da Cabala cristã era o bíblico ainda majoritariamente consonantal na sua lógica profunda. A Cabala cristã que ele praticava vinha de uma linhagem documentada: Pico della Mirandola em 1486 incorporou a Cabala judaica ao neoplatonismo renascentista, e Johannes Reuchlin em 1517 sistematizou o hebraico cabalístico com o De Arte Cabalistica. Dee herdou essa tradição. Seu Monas Hieroglyphica de 1564 demonstra um domínio da estrutura interna das letras hebraicas que vai além do ornamental.
O que se observa no Enochiano, e que esta hipótese toma como ponto de partida, é que sua estrutura profunda parece consonantal as vogais aparecem, mas de uma forma que um estudioso do hebraico antigo talvez reconhecesse como secundária à arquitetura da palavra, não como fundação dela. Isso não é afirmação linguística definitiva. É uma impressão estrutural que merece investigação mais rigorosa do que recebeu até agora.
Mas se essa impressão estiver correta, ela cria imediatamente um problema que a influência hebraica pura não resolve : por que existem vogais fixas nos nomes angélicos enochianos?
Dee estava construindo, em paralelo com a língua, uma hierarquia de 91 partes da Terra sob 30 aethyrs, com inteligências angélicas organizadas em correspondências planetárias estritas. Esse modelo espíritos divididos por esferas astrais, hierarquias com correspondências fixas não tem origem clara na tradição hebraica. Mas temos que lembrar John Dee era um mago, oculista, kabbalista e matemático, com certeza ele teve contato com grimórios mágicos por exemplo além do livro de soyga que ele se baseou para criar o sistema, já existia grimórios como Higromanteia, Greek Magical Papyri, Testament of Solomon, Key of Solomon e Picatrix onde passou pela influência grega e hebraico moderno com consoantes já e sua divisão dos anjos dominando os dias planetas e funções, Ou seja, quando Dee estava ativo no século XVI, a tradição salomônica grega já existia havia pelo menos 200–300 anos O higtomanteia, Greek Magical Papyri, Testament of Solomon, Key of Solomon e Picatrix, Sua lógica foi fundamentalmente helenística também E a tradição que carregava esse sistema para dentro do universo mágico-angélico medieval e renascentista era representada, entre outros textos, pelo Higromanteia, Greek Magical Papyri, Testament of Solomon, Key of Solomon e Picatrix e suas versões latinas derivadas, que circulavam nos manuscritos europeus desde pelo menos o século XIII.
O grego criou o primeiro alfabeto com vogais fixas da história, por volta de 800 a.C., ao adaptar o fenício adicionando letras específicas para sons vocálicos que o sistema semítico deixava em aberto. Essa fixação tornou possível um tipo de nomenclatura que o hebraico antigo não permitia: nomes estáveis, que soam sempre igual independente de quem pronuncia. Para um sistema de magia angélica planetária onde confundir uma inteligência com outra tem consequências rituais.
A minha hipótese pessoal , então, é esta : Dee pode ter operado, conscientemente ou não, com a arquitetura consonantal do universo semítico como fundação, e introduzido estabilidade vocálica a partir do universo greco-bizantino para resolver um problema concreto que seu sistema exigia como solução, como assim? John Dee era um mago Fluente em hebraico, o pelo herabico que deriva da linguagem fenícia não tem vogal só consoante, fazendo um forte paralelo com o enochiano não sendo atoa que o mesmo se refere a linguagem anterior ao hebraico, a língua adamica.
Não há documentação que confirme isso. Não há anotação de Dee dizendo que leu o Higromanteia, Greek Magical Papyri, Testament of Solomon, Key of Solomon ou Picatrix nem que conectou deliberadamente as duas tradições. O que existe é um conjunto de paralelos estruturais que, tomados juntos, formam algo difícil de ignorar: um homem com acesso às duas tradições, com necessidade técnica específica que só a combinação das duas parece resolver, e uma língua resultante que carrega marcas de ambas com uma consistência que pede explicação, não acredito que ele inventou mas se baseou no paleo hebraico e as consoantes, planetas, divisões de funções enochianos e hierarquia vieram de influências gregas e kabbalisticas como base porém para um alfabeto próprio diferente mas com raiz evidente
Isso não é prova. Mas o que uma hipótese honesta oferece e não uma conclusão, mas uma direção. Uma pergunta formulada com precisão suficiente para que alguém, algum dia, possa tentar respondê-la de verdade.
Provavelmente John Dee se baseou no paleo hebraico de três mil anos onde não não existe vogal, livros como Higromanteia, Greek Magical Papyri, Testament of Solomon, Key of Solomon e Picatrix, influências kabbalistas já que e evidente no livro de soyga tabelas hebraicas no qual ele mesmo disse ter se baseado, para então criar um alfabeto próprio.
Fontes:
- John Dee e contexto intelectual
- Harkness, Deborah. John Dee’s Conversations with Angels. Cambridge University Press, 1999.
- Clulee, Nicholas. John Dee’s Natural Philosophy. Routledge, 1988.
- Roberts, Julian & Watson, Andrew. John Dee’s Library Catalogue. Bibliographical Society, 1990.
- Szőnyi, György. John Dee’s Occultism. SUNY Press, 2004
Fenício e Paleo-Hebraico
- Naveh, Joseph. Early History of the Alphabet. Magnes Press, 1982.
- Rollston, Christopher. Writing and Literacy in the World of Ancient Israel. SBL, 2010.
- Yardeni, Ada. The Book of Hebrew Script. Carta, 1997.
- Yeivin, Israel. Introduction to the Tiberian Masorah. Scholars Press, 1980.
Cabala Cristã
- Pico della Mirandola.
- Conclusiones Cabalisticae (1486).
- Reuchlin, Johannes. De Arte Cabalistica (1517).
- Schmidt-Biggemann, Wilhelm. Philosophia Perennis.
- Book of Soyga
- Reeds, Jim. “John Dee and the Magic Tables in the Book of Soyga”, 1994.
Grimórios Helenísticos e Salomônicos
- Marathakis, Ioannis. The Magical Treatise of Solomon (Hygromanteia).
- Betz, Hans Dieter. The Greek Magical Papyri in Translation.
- McCown, Chester. The Testament of Solomon.
- Skinner, Stephen. The Key of Solomon.
- Pingree, David. Picatrix: The Latin Version of the Ghayat al-Hakim.
Alfabeto Grego
- Powell, Barry. Writing: Theory and History of the Technology of Civilization.
- Havelock, Eric. The Literate Revolution in Greece.
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