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Demônios e Anjos

A dúvida é o preço da sabedoria: um breve excerto sobre minha experiência com Samael”

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Por A Morte

A verdade é uma substância desconfortável e, para aqueles que buscam o oculto esperando encontrar um manual de instruções seguro, com deuses de sorrisos fáceis e demônios de regras lineares, costumam naufragar no primeiro sopro de vento. Meu trabalho com Samael, que hoje caminha de forma madura e atrelada a outros seres que cruzaram (e cruzam) meu caminho, teve início por volta de 2013, no seio de um grupo de magia do qual eu fazia parte. Quanta saudade, em especial, de um dos irmãos que virou uma estrela no céu de Nuit.

Naquela época, eu me identificava como magista do caos e satanista. Hoje sou uma ex-satanista não cristã e sempre brinco com isso como se fosse uma grande anedota, afinal, a imensa maioria daqueles que deixam o satanismo o faz de joelhos, com uma Bíblia sob o braço, o que, definitivamente, não é o meu caso. Romper com o dogmatismo reverso do satanismo convencional não me fez buscar o perdão cristão. De fato, me permitiu enxergar as forças do cosmo sem o filtro reativo da heresia adolescente, resquício também das linhas de satanismo pelas quais transitei e com as quais muito aprendi.

Foi justamente nessa transição que a figura de Samael “ressurge” e toma seu lugar em minhas práticas de magia. Lembrando (e porque não dizer, advertindo), Samael não é uma divindade para os fracos, muito menos para quem busca respostas fáceis. Ele é o “trickster” por excelência.

A cosmogonia clássica pinta Samael como aquele que se rebelou contra o criador por considerá-lo um tirano. Samael contemplou a ordem imposta e enxergou nela uma espécie de prisão da estagnação. Para ele, a obediência cega é a morte da alma. Mas, ao contrário do que a simplificação teológica e a ignorância popular insistem em pregar, ele não é um sinônimo genérico para o mal.

Existe uma necessidade profunda de separar a verdade do mito, de uma vez por todas.  Tentarei fazer um pequeno resumo sobre essas diferenças que considero importantes. Samael é constantemente confundido e amalgamado com outras figuras do panteão sombrio, porém cada uma carrega sua própria assinatura de poder:

Lúcifer é o portador da luz, a promessa da gnose, o intelecto refinado e a busca pela divinização do Eu.

  • Satã se apresenta como a figura do adversário arquetípico, a força de oposição bruta, a matéria e a rebelião visceral contra as amarras do dogma, a figura que já habitava o mundo antes da criação.
  • Azazel, por sua vez, é o sentinela, o mestre que desceu para ensinar aos homens a forja das armas, a alquimia e as artes da guerra e da sedução.
  • Azrael é o silencioso anjo da morte, o ceifador que monitora a transição inevitável da carne ao pó.
  • Samael, embora carregue o veneno de deus (Shemal), opera em uma frequência distinta. Ele é a severidade necessária, o testador, o mestre da ironia que usa o labirinto da dúvida como ferramenta de iniciação, que leva a loucura pela certeza do ego.

Samael possui um código de conduta próprio e inabalável, sendo uma ética que não se dobra aos conceitos humanos de moralidade. Sua função não é punir o pecado, mas testar a estrutura.

Samael tem um prazer quase artístico em “brincar” com pessoas de ego duvidoso. Aqueles que se aproximam dele inflados de soberba intelectual, empunhando títulos mágicos vazios ou certezas absolutas sobre si mesmos, são alvos perfeitos de sua ironia, se é que me entendem. Ele puxa o tapete da ilusão e ri enquanto assiste à queda, não por crueldade gratuita, mas porque sabe que apenas sobre as ruínas de um ego quebrado pode nascer um verdadeiro iniciado.

Meu trabalho com Samael desde 2013 me ensinou que o maior perigo no caminho esotérico não são as trevas exteriores, mas nossa própria autocomplacência, a ausência de percepção de limites, o abuso pela ganância na prática mágica sem responsabilidade, o descontrole do ego. Ele nos força a olhar para o abismo de nossas contradições e esse abismo pode nos dragar de volta e não apenas olhar, parafraseando Nietzsche. Esse Ser nos oferece o veneno que cura e o remédio que mata, dependendo da nossa capacidade de digerir a verdade.

Se com o satanismo obtive as primeiras ferramentas de emancipação, foi com Samael que me aprendi a arte de não me curvar a dogma algum, nem mesmo ao dogma da própria rebelião. No fim das contas, a gnose não é um porto seguro de certezas confortáveis, mas um oceano revolto onde a única constante é o questionamento.

Evocar Samael não é um ato de soberania. Evocar Samael é sobretudo um teste de sobrevivência psicológica. Ele desafia ativamente seus operadores, testando a têmpera de quem ousa perturbar seu silêncio ancestral. Ele não opera na lógica tridimensional: Samael dobra o tempo, distorce as percepções, estraçalha ideias absolutas, pune verdades corrompidas, ensina com a sutileza de uma mão de ferro. Não atoa, muitos que trabalham com ele acabam pagando os preços mais altos sendo o mais devastador deles a própria loucura. Se o operador não tiver uma estrutura interna bem equilibrada e um ego que não lhe dê uma bela rasteira, a presença dele não irá apenas iniciar mas fragmentar a psique em pedaços irreversíveis.

A dúvida é o preço da sabedoria. E eu pago esse preço de bom grado.

 

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