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Bruxaria e Paganismo

O Uso Mágico do Sal

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Às vezes, tropeço em alguns conteúdos que me provocam reflexões e questionamentos. Essas provocações, considero muito boas, pois me estimulam a pensar e entender símbolos que são tão comuns, que nem questionamos os seus motivos. Por exemplo: por qual motivo usamos o sal ritualisticamente?

Desde os primeiros agrupamentos de pessoas, muito antes da formação de sistemas religiosos organizados, o sal ocupou um lugar ambíguo e poderoso na experiência simbólica do mundo. Ele não é somente o principal tempero do churrasco, nem somente um recurso de sobrevivência, o sal tornou-se um marcador do limiar entre vida e morte, pureza e corrupção, permanência e dissolução.

Arqueologicamente, o sal foi um dos primeiros minerais a adquirir valor estratégico. Ele preservava carnes, peixes e vegetais, permitindo que comunidades atravessassem períodos de escassez. Ou seja, o sal manifestava o poder de parar o tempo, impedir a decomposição, afastar o mal da deterioração, o que marcou profundamente o imaginário humano. Como observa Mircea Eliade, tudo aquilo que interrompe a corrupção natural da matéria tende a adquirir caráter sagrado, pois rompe a lógica ordinária do tempo e da morte (ELIADE, 1992).

Se a carne não apodrecia, algo nela resistia ao esquecimento. Assim, o sal passou a ser percebido como um agente de permanência e um afastador do mal da corrupção da carne.

No Egito Antigo, o natrão, uma mistura natural de sais, era empregado na mumificação. O corpo salgado tornava-se apto a atravessar o Duat, o reino dos mortos, preservando a forma necessária para a sobrevivência da alma (TAYLOR, 2001). Aqui, o sal não apenas conserva, mas também prepara para a travessia.

Em muitas culturas do Oriente Médio e do Mediterrâneo, o sal passou a simbolizar juramento e aliança. Compartilhar sal era estabelecer um vínculo inviolável, onde a intenção de ambas as partes era a permanência, a fidelidade.

Essa simbologia se mantém em expressões antigas e modernas. Se o sal é o vínculo que afasta o mal e a corrupção da carne, “trair o sal” significava quebrar um juramento fundamental.

Um dos aspectos mais universais do simbolismo do sal é sua função apotropaica, ou seja, a de afastamento de forças indesejadas. Linhas de sal em portas, soleiras, janelas e túmulos aparecem em tradições europeias, africanas e ameríndias. O princípio é o mesmo, o sal impede a travessia do que não pertence ao mundo dos vivos. Assim como dito anteriormente, o sal afasta aquilo que é atrelado ao mal, à impermanência e ao que atua contra a vida.

James Frazer observa que substâncias que “secam” simbolicamente tendem a ser associadas à expulsão de entidades ligadas ao excesso, à umidade e à dissolução, características frequentemente atribuídas ao mundo dos mortos e dos espíritos errantes (FRAZER, 1922).
No folclore europeu e afro-diaspórico, o sal é usado sobretudo em rituais de limpeza espiritual, encerramento de ciclos, proteção de espaços, quebra de influências persistentes.

Embora quimicamente os sejam semelhantes, os tipos de sal carregam leituras simbólicas distintas. O sal grosso, por exemplo, é associado à limpeza mais agressiva e ao rompimento. Seu cristal grande simboliza a quebra e a interrupção abrupta. Pode ser usado em ambientes, altares e banhos sem problemas. Já o sal marinho está mais ligado ao fluxo, à memória ancestral do mar e à purificação contínua, não atuando de forma tão agressiva quanto o sal grosso. O sal refinado, por ter sido mais manipulado pelo ser humano, é considerado menos natural e, por isso, energeticamente neutro, menos eficaz e pouco utilizado ritualisticamente. Devido à sua manipulação industrial, muitos o consideram pobre energeticamente. Ao meu ver, sal é sal e até mesmo o refinado continua mantendo seu papel de purificação. Se a interferência humana fosse realmente um problema na carga energética de objetos e elementos, nunca mais usaríamos velas coloridas, perfumes mágicos, artefatos de metais, trajes rituais, incensos, etc.
Algo importante é saber pensar e concluir com base na própria experiência e não comente pela fala ou escrita de terceiros, inclusive esse próprio texto. Não confie totalmente em mim, meu texto reflete somente a minha experiência.

Nenhum, absolutamente nenhum dos sais é prejudicial energeticamente. O que ocorre é o uso desequilibrado e errado de alguns elementos, que podem prejudicar em vez de auxiliar.
Se tiver dúvidas, acenda uma churrasqueira, salgue a carne e reflita durante um bom almoço.

André Correia
Psicólogo, escritor e faroleiro


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