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Cultos Afro-americanos

Cauim, a Bebida dos Guerreiros

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de Severino Cavalcante (1976).
Excerto de “Feitiços do Catimbó”.

Estamos em um catimbó no meio do mato. Um a um, os mestres vivos surgem para “abrir mesa”, isto é, fazer uma sessão com os espíritos do além. O termo “abrir mesa” é bem conhecido pelos candomblecistas e é oriundo das reuniões antigas entre os colonos portugueses, em suas terras de origem. Nas aldeias de Portugal, onde os costumes mouros e as reminiscências pagãs formavam o catolicismo popular, era comum “abrir mesa” para invocar falanges do mundo dos mortos. Na ocasião, jogavam-se cartas, lia-se pelas linhas da mão, rezava-se para conseguir a fortuna.

Como o catimbó nasceu da transposição da bruxaria europeia para o Brasil, o termo “abrir mesa” foi instintivamente conservado.

Mas continuemos:

É noite. Os catimbozeiros, vagarosamente, penetram no local onde há a mesa destinada à magia. Esta já está preparada: há a princesa (bacia de louça), duas velas de cera (chamadas de bugias), às vezes uma vela negra, para fumaça às esquerdas ou trabalhos de magia negra, e uma imagem de Santo Antônio, o santo mais aceito pelos magos brasileiros. Esta imagem fica dentro da bacia branca. Também aparecem em primeiro plano as marcas ou cachimbos de cabo longo e a marca-meseira, que é uma cabacinha chocalhante. Há também um crucifixo sem a cruz, uma chave de aço, virgem de uso, para as imantações. A chave de aço é usada para abrir as sessões, fechá-las e fechar o corpo contra feitiços. Os perfumes das ervas misturados ao fumo dos cachimbos enchem a sala de vibrações. Os mestres começam a baixar, um a um, “acostando” em seus médiuns. As bugias são acesas. Não é permitido acender a vela diretamente, e sim através de pedacinhos de papéis que se colocam na mesa para esse fim. Os cigarros (como os de Zé Pelintra) também se acendem desta maneira. As cuias de cauim passam de mão em mão. Um a um, os catimbozeiros vão se encharcando de cauim — cachaça — e ficam em estado ideal para as práticas de feitiçaria. O cauim é a força para abrir o corpo e deixar o mestre entrar.

Os prodígios da bebida diabólica

O nome cauim é de origem indígena. Era a bebida dos pajés. Cada gole de cauim, ou melhor, de cachaça brava com ervas e frutos cheirosos é um passo que o feiticeiro dá para o além. A cada gole, a embriaguez toma conta do catimbozeiro e ele entra em um estado perfeito para macabras incorporações, para prodigiosas loucuras. A bebida e as drogas feitas de ervas, quer usadas em forma de fumo, quer misturadas no álcool, são comuns a todas as formas de bruxaria e também a muitas seitas tradicionais. As cuias limpas, com a cachaça misturada a ervas aromáticas, são a bebida dos deuses e demônios do sertão mágico; são como o néctar dos gregos ou o vinho dos hebreus. Cauim é vida, calor, fortuna, disse-me um mestre e afirmou: beba, dona moça. Esta é a poderosa infusão dos mestres. O charuto ou mussui também não é de fumo comum. Leva erva para fortificar a sessão. E esta erva nada mais é do que uma droga poderosa, uma forma de entrar em transe forçado. Um alucinógeno. A embriaguez toma conta dos chefes ou mestres e dos auxiliares, espécies de médiuns secundários. Os mestres vão baixando, e os espíritos da caatinga, os rezadores que já aprenderam lá nos reinados a curar feridas e preparar remédios, vão encostando e tomando a magia impossível de resistir. Os mestres enfiavam agulhas em sapos, amarravam morcegos. Maria do Balaio, bebendo sem parar garrafadas e cauim, rezava espinhela e moleza até a meia-noite. Zé Pelintra, Zé Malandro, Cabocla Jurema e Maria Redonda bebiam também. Charutos e cachimbos na boca, elas trabalhavam na magia pesada e puxavam rezas antigas, geralmente incompreensíveis.

“Nanaê iê”, uma espécie de velha mãe d’água, incorporou também em um homem mulato, em perfeito estado de embriaguez, mas que ficou firme nas pernas na hora da incorporação. Zé Pelintra só chega pra beber, sem cauim ele não vem. Chega sempre dançando, dando rasteiras.

Malunguinho, feiticeiro malévolo, chegou à meia-noite em ponto. Trabalhou com a cabeça no chão, com panos pretos. Tomou duas garrafas de cauim de uma vez. Ele só trabalha para o mal, e seu feitiço, afirmam, ninguém desmancha.

Pai Joaquim, espírito de negro velho, trabalha também bebendo sua cachaça. É um bruxo autêntico, que retorna de seu mundo estranho e sem luz para as mesas do catimbó. Ele trabalha com morcegos e bichos peçonhentos. Faz a Oração da Cabra Preta. Esta oração, feita à meia-noite, dizem, pode atrair o demônio.

Outro beberrão é Tabatinga, o rei dos espíritos feiticeiros. Este bruxo, que possui milhares de súditos em seu reinado de trevas, bebe sem parar. Só trabalhando no escuro, para ele são apagadas as bugias, ele faz odiosas provocações. Adora as trevas, não aceita o bem. Não gosta que lhe peçam nada de bom.

Mas um dos maiores bebedores de cauim é Manhô, feiticeiro que em vida era mestre de catimbó, e agora, depois de morto, baixa em espírito (dizem os crentes) nas fumaças. Ora faz o mal, ora faz o bem, como os exus da Umbanda. Dá e tira, mas só trabalha com cauim ao lado. Vira cuias e cuias uma atrás da outra. Possui a famosa chave de Vangaló, que abre todos os portões encantados do espaço. Esta chave é mágica, como as varinhas das bruxas, o círculo mágico dos alquimistas negros e dos diabólicos feiticeiros.

Zinho chefia a linha dos ciganos, ou espíritos que conhecem a maneira de prever o futuro. Ele é aclamado quando baixa nos médiuns sertanejos. A assistência fica muda de espanto quando, usando sua chave mágica, começa a abrir os portões dos reinados do espaço. E, um a um, chegam na sessão espíritos de gitanos, de cartomantes e quiromantes mentirosas, trazidos pela passagem mágica que há entre um mundo material e outro alegórico, os dos reinados astrais.

Daí, vira a mesa. Em breve, ninguém se entende mais. Até brigas corporais entre mestres eu assisti. Os espíritos que chegaram foram inimigos em vida e lutaram corporalmente, até sangrarem os corpos de seus médiuns. Frutos da bebedeira e da alucinação? Ou fases degradantes do mediunismo sem doutrina?

Zinho, com seu punhal chamado Satanás, já cortou muita gente em vida e continua cortando, materializado nas fumaças às esquerdas.

As ervas de Satanás

Muitas ervas e raízes usadas pelos mestres e adeptos dos catimbós são produtoras de alucinações. Ao usá-las, o iniciado perde a sensação de tempo e entra em viagens. As cores, para eles, tornam-se brilhantes; os ruídos são modificados; a música provoca visões coloridas; pequenos e distantes sons tornam-se perfeitamente audíveis; as partes do próprio corpo não parecem pertencer ao experimentador, mas a outrem.

Um detalhe na coloração da pele, ou uma simples dobra na roupa, pode provocar concentração exagerada e longa, e, neste instante, os assistentes imaginam que os mestres vagueiam pelos campos do Juremal ou pelas cidades submersas da Tanema.

Cogumelos também fazem parte dos secretos rituais dos catimbós. E, como todos sabem, os cogumelos são alucinógenos em quase sua totalidade. Os cogumelos sagrados aparecem em todas as religiões antigas; mesmo os primeiros cristãos não deixaram de ser influenciados por eles, como afirma J. Allegro, baseado nos manuscritos do Mar Morto.

Gordon Wasson, grande especialista em cogumelos perigosos, fez uso do peiote, cacto que produz a mescalina, e provou que os índios da região mexicana usavam-no em todos os ritos secretos.

Nossos índios também conheciam o poder dos cactos. Os pajés usavam cogumelos nas práticas invocatórias e entravam em transe mediúnico, conversavam com as estrelas, com a lua, a amada Jaci. E, logicamente, como os nordestinos fundiram conhecimentos europeus com indígenas nos ritos da “fumaça” e das “marcas”, aí estão novamente os mestres entrando em transe, viajando pelas regiões nebulosas da mente humana.

Os adoradores dos cogumelos, com suas rezas, lá estão entre os iniciados na magia do sertão. Maria Rosália, rezadeira, usava um tipo de cacto para tirar a dor de todos os que a procuravam sentindo dores violentas. O que era este cacto senão uma planta dos bruxos, uma droga poderosa?

Dentre os catimbozeiros que usavam ervas e cactos antes do ritual, conversei com Mestre Paulo de Juazeiro, que descreveu sua sensação de “viagem”:

“Uma torrente de fogo subiu pela minha garganta. Invadiu minha cabeça. Senti-me envenenado, morrendo. E me vi no purgatório. Vi o demônio, o tinhoso, me espetando de longe, e chamei por Mestre Carlos.”

Logo, estas declarações só vêm provar a teoria mencionada. A mente deste iniciado estava excitada pelo poder da droga, e o mestre do sertão foi ao próprio purgatório…

A tradição popular não mente quando chama estas ervas de ervas dos feiticeiros, pois todas as plantas que gozam de propriedades venenosas ou narcóticas receberam este nome através dos tempos.

Plínio nos conservou o nome de um grande número destas ervas, indicadas em receitas absurdas, das quais ele próprio mostrou frequentemente a sua importância e seu perigo. Essas composições mágicas da Idade Antiga eram, ora estupefacientes, ora unguentos gozando de propriedades narcóticas. Hesíquio, grande historiador, nos ensina que os antigos evocavam às vezes Hécate com a ajuda de ervas e pomadas que provocavam alucinações, e os iniciados acreditavam ver a deusa da noite. As tribos selvagens da América faziam uso de beberagens e unguentos a fim de obterem visões e profecias, de descobrirem objetos perdidos e de entrarem em comunicação com os espíritos. Os negros recorriam à sua água de fetiche. Os muçulmanos usavam o haxixe e ainda o fazem, continuadamente. O haxixe, afirmam os adoradores de Alá, provoca visões divinas, principalmente as do patamar do céu. No Egito, os sacerdotes de Amon usavam drogas para modificar a inteligência e entrar em transe mediúnico. Algumas destas ervas eram para fazer cantar, outras para previsão, outras para dançar a dança de Seth ou de Anúbis. Em todo o Oriente, usavam-se, mesmo entre os budistas, unções para provocar semelhantes visões fantásticas. Dentre as substâncias usadas para provocar delírio e contato com os deuses, conhecemos: a datura estramônio, o acônito, o heléboro, a beladona (muito usada nos catimbós), a mandrágora, a papoula, o ópio, o piripiri. (*)

Assim, mesmo errando, estes feiticeiros do sertão repetem as mesmas experiências de todos os sacerdotes antigos, medievais e até dos gurus modernos.

(*) — Ver a obra “A cura pelas plantas”, de A. G. Fossat.

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