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Por Robson Belli
30/06/2026
Sente aí, pega seu café e vamos conversar sobre uma coisa que me fascina há um tempão: a ideia de que o Senet, aquele jogo de tabuleiro egípcio antiquíssimo, seria uma espécie de “avô espiritual” do Xadrez Enochiano que a Golden Dawn nos legou. É uma afirmação ousada, eu sei. Mas calma, que tem fio de meada aqui e a gente vai puxar ele com cuidado, separando o que é evidência histórica do que é leitura simbólica e correspondência mágica. Porque no meio ocultista a gente adora juntar as duas coisas, mas é bom saber quando estamos pisando em qual terreno.
Primeiro: o que diabos é o Senet?
O Senet é um dos jogos de tabuleiro mais antigos de que se tem registro. Estamos falando de algo que aparece no Egito por volta de 3100 a.C., com tabuleiros encontrados em túmulos do Império Antigo e representações em pinturas funerárias. A própria Nefertari foi retratada jogando Senet numa parede da sua tumba, e acredite em mim, não era um passatempo qualquer.
O tabuleiro tem 30 casas dispostas em três fileiras de dez. Dois jogadores movem suas peças conforme o resultado de bastões ou ossinhos lançados. E aqui está o ponto que interessa pra gente: com o tempo, o Senet deixou de ser só lazer e virou uma alegoria da jornada da alma pelo além, igualzinho temos feito com o taro hoje em dia sabe! As casas finais do tabuleiro passaram a representar etapas perigosas do submundo, do Duat, e ganhar o jogo simbolizava a alma alcançando a vida eterna ao lado de Rá e Osíris. Tem inclusive capítulos do Livro dos Mortos do antigo egito que dialogam com isso.
Ou seja: desde a origem, o Senet não é “só um jogo”. É um mapa ritualistico da passagem entre os mundos. E segura essa ideia, porque ela é a chave de tudo.
Agora: o que é o Xadrez Enochiano?
Pula uns bons milênios e chega a Londres do fim do século XIX, com a Hermetic Order of the Golden Dawn. Ali, dois nomes que você conhece bem: MacGregor Mathers e a esposa dele, Moina Mathers desenvolvem o que ficou conhecido como Enochian Chess (ou “Rosicrucian Chess”, em algumas fontes).
A grande sacada é que o Xadrez Enochiano não foi pensado primariamente como jogo competitivo, e sim como uma ferramenta de:
- Adivinhação: uma forma de geomancia/xadrez oracular onde a posição das peças e o desenrolar das jogadas respondem perguntas;
- Meditação e skrying: uma maneira de “entrar” nas Tabelas Enochianas, aquelas grades elementais que vêm do sistema de John Dee e Edward Kelley do século XVI;
- Treino das correspondências mágicas: cada peça é regida por uma divindade egípcia, cada quadrante por um elemento, cada elemento subdividido nos outros quatro.
O tabuleiro é de 8×8 casas (formato de xadrez normal), mas dividido em quatro quadrantes elementais (Fogo, Água, Ar, Terra), e cada partida usa um dos quatro Tablets Enochianos como “campo de jogo”. As peças carregam nomes e imagens de deuses egípcios: Osíris, Ísis, Hórus, Aroueris e companhia. Tem dado envolvido também, herança do antigo chaturanga indiano, que historicamente é o ancestral real e documentado de todo xadrez, mas o Senet eh mais velho.
Sacou onde isso vai chegar? Dois jogos. Tabuleiro como cosmos. Dados como vontade dos deuses. Peças como divindades egípcias. Vitória como travessia espiritual.
O argumento: por que dizer que o Senet é o “pai” ou “avo”?
Aqui eu preciso ser honesto contigo, porque respeito demais quem estuda esse meio pra te empurrar lorota. Existem duas formas de sustentar a afirmação do título, e elas valem coisas bem diferentes.
- A linhagem histórica direta: essa NÃO se sustenta
Se a gente for falar de descendência genealógica comprovada, tipo “o Senet gerou o jogo X que gerou o jogo Y que virou Xadrez Enochiano”, isso não existe documentado. A linha histórica real do xadrez vai do chaturanga indiano (c. século VI d.C.) shatranj persa-árabe, xadrez europeu medieval, Xadrez Enochiano (adaptado pelos Mathers no século XIX). O Senet egípcio não entra nessa cadeia de transmissão física. Ele tinha sumido da prática havia mais de mil anos quando o chaturanga surgiu.
Então, se alguém te disser “está provado que o Senet evoluiu para o Xadrez Enochiano”, isso é falso no sentido literal/arqueológico. Sejamos rigorosos aqui.
- A paternidade simbólica e arquetípica: ESSA SIM se sustenta, e bonito
Mas aqui está a beleza do raciocínio ocultista, que opera por correspondência, não por cronologia. Nesse registro, “pai” não significa “ancestral biológico”, significa fonte arquetípica, modelo primordial, a primeira encarnação de uma ideia. E nesse sentido a afirmação fica forte por vários motivos:
Primeiro: a função idêntica. Os dois jogos são, no fundo, a mesma coisa fantasiada de tabuleiro: um sistema de simulação da jornada da alma. O Senet modela a passagem pelo Duat rumo à imortalidade osiríaca. O Xadrez Enochiano modela o trânsito da consciência pelos planos elementais rumo à integração espiritual. Mesmo motor, mesma intenção, milênios de distância.
Segundo: o panteão compartilhado. O Xadrez Enochiano é escancaradamente “egípcio” na sua roupagem divina. As peças são Osíris, Ísis, Hórus, Néftis. A Golden Dawn era profundamente egitomaniaca. Quando os Mathers buscaram revestir seu xadrez mágico de uma linguagem sagrada, foram beber na mesma fonte teológica que originou o significado oculto do Senet. O Senet é o jogo daqueles deuses. O Xadrez Enochiano convoca aqueles mesmos deuses. A paternidade aqui é de espírito e de panteão, não das regras em si.
Terceiro: o tabuleiro como cosmograma. Em ambos, o tabuleiro deixa de ser superfície de jogo e vira mapa do cosmos e do além. As 30 casas do Senet são estações da viagem póstuma; os quadrantes elementais do Enochiano são os domínios do universo manifestado segundo os Tabelas de Dee. Os dois transformam o ato de jogar num ritual de travessia. Essa é uma assinatura conceitual rara, e o Senet a inaugura milênios antes.
Quarto: o dado como oráculo. Tanto no Senet quanto no Xadrez Enochiano, o azar dos lançamentos não é “sorte” no sentido profano. É a vontade dos deuses se manifestando no jogo, o elemento divinatório que faz da partida uma consulta. No Senet, o resultado dos bastões dizia se a alma avançava no além; no Enochiano, o dado conduz a adivinhação. Mesmíssima lógica de oráculo encarnado no movimento.
Então, afinal, dá pra afirmar ou não?
Dá! desde que você saiba qual afirmação está fazendo.
Se for: “O Senet é o ancestral histórico comprovado do Xadrez Enochiano” por motivos obvios não! e quem afirma isso está confundindo simbolismo com arqueologia.
Se for: “O Senet é o pai arquetípico do Xadrez Enochiano, a primeira manifestação conhecida da ideia de um jogo-de-tabuleiro-como-jornada-iniciática-da-alma sob a tutela dos deuses egípcios” absolutamente sim, e é uma afirmação rica, defensável e linda de se contemplar.
No meio ocultista a gente trabalha o tempo todo com essa noção de que ideias têm pais e mães no plano arquetípico, e que uma forma pode ressurgir séculos depois sob outra roupagem porque o arquétipo nunca morre, só dorme. O Senet codificou, lá no alvorecer da civilização, a intuição de que mover peças num tabuleiro sagrado é ensaiar a própria morte e ressurreição. Quando os Mathers, milênios depois, quiseram fazer exatamente isso com as Tabelas Enochianas e os deuses do Nilo, estavam: sabendo ou não, sendo filhos daquela mesma intuição primordial.
E é por isso que, com a régua certa na mão, conseguimos olhar pro tabuleirinho de 30 casas da tumba de Nefertari e dizer, sem corar: “Olha o vovô do Xadrez Enochiano ali.”
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