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A Descoberta do Porquê Individual: Um Método para Descobrir a Verdadeira Vontade Finita

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Texto de Frater Entelecheia. Traduzido por Caio Ferreira Peres.

Faz o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

“A maior de todas as amarras é a ignorância. Como um homem pode ser livre para agir, se não conhece seu próprio propósito? Vós deveis, portanto, inicialmente descobrir qual estrela de todas as estrelas vós sois, vossa relação com as outras estrelas em vosso redor, e vossa relação e identidade com o Todo.

Em nossos Livros Sagrados são fornecidos diversos meios de realizarmos esta descoberta; e cada um deve fazê-lo por si só, alcançando uma convicção absoluta pela experimentação direta; não apenas raciocinando e calculando o que é provável. E a cada um de vós virá o conhecimento de vossa vontade finita, pela qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro joalheiro.”

—Aleister Crowley, Liber CL (De Lege Libellum)

“É preciso descobrir por si mesmo e ter certeza, sem sombra de dúvida, “quem” se é, “o que” se é, “porquê” se é. Feito isso, pode-se colocar a vontade que está implícita no “Porquê” em palavras, ou melhor, em Uma Palavra. Estando assim consciente do curso adequado a seguir, o próximo passo é entender as condições necessárias para segui-lo. Depois disso, é preciso eliminar de si mesmo todos os elementos estranhos ou hostis ao sucesso e desenvolver as partes de si mesmo que são especialmente necessárias para controlar as condições mencionadas acima.”

—Aleister Crowley, Magick in Theory and Practice

O Conceito de uma Declaração de Porquê

Se você leu meu artigo anterior, sabe que uma das minhas metas na Ordem é fazer com que mais pessoas comuniquem nosso objetivo principal. Elaborei essa noção em uma série de artigos no blog Zero Equals Two. Também estou realizando workshops para Lojas, cujo objetivo é colocar o “porquê” da Loja em uma única declaração.

A ideia motivadora por trás desses artigos e workshops – que eu peguei do trabalho de Simon Sinek – é que as pessoas estão mais interessadas em saber porquê você faz as coisas do que no que você faz. Temos a tendência de falar muito sobre nosso trabalho. Isso faz sentido, porque fazemos um bom trabalho. O problema é que a maioria de nós não se envolveu porque queria trabalhar. Ou, pelo menos, esse não é o motivo fundamental. Nós nos envolvemos e continuamos envolvidos por causa do que o trabalho representa. O trabalho é um símbolo ou representante de nossas crenças fundamentais. Ninguém pode saber em que acreditamos sem que o trabalho o expresse adequadamente. Mas isso também significa que precisamos ter nossas crenças fundamentais em mente o tempo todo, para que o trabalho não comece a representar outra coisa ou não seja feito apenas por si mesmo. É por isso que é tão importante expressar em palavras porquê fazemos o que fazemos. Isso nos ajuda a permanecer autênticos, o que, por sua vez, nos torna mais eficazes em atrair para a O.T.O. o tipo de pessoas que compartilham nossos valores e que, por fim, serão adequadas para realizar o trabalho da Ordem.

Parte do que achei tão convincente nessa ideia é que ela parecia estar de acordo com a noção de Crowley sobre a verdadeira vontade finita. Conforme descrito nas citações acima, a verdadeira vontade finita é o propósito de uma pessoa na vida. Ela descreve a qualidade de seu dom ou serviço no contexto do todo. Embora Crowley reduza a verdadeira vontade finita a profissões específicas (poeta, profeta, etc.), parece igualmente provável que haja muitas atividades e muitos tipos de profissões que possam expressar adequadamente a verdadeira vontade finita de uma pessoa. Portanto, embora a verdadeira vontade finita de uma pessoa não mude, a maneira específica que ela escolhe para expressá-la pode mudar.

E, assim como Crowley reconhece a importância de colocar sua verdadeira vontade finita em palavras – na verdade, em uma única palavra -, o Workshop Why Discovery também culmina em uma única frase que descreve o principal motivo do indivíduo ou da organização:

“Ser ______________ para que _______________.”

Nessa frase, o primeiro espaço em branco descreve a principal contribuição da pessoa ou organização, e o segundo espaço em branco descreve o principal impacto dessa contribuição.

Porquê em toda a Ordem vs. Porquê da Loja

Assim como a verdadeira vontade, a Declaração do Porquê é descoberta, não criada. Crowley criou o Porquê da Ordo Templi Orientis, mas esse propósito foi elaborado e esclarecido de várias maneiras por seus sucessores. Recentemente, li cada um dos discursos de Sabazius no NOTOCON e extraí tudo o que parecia ser uma declaração sobre o propósito ou os valores fundamentais da O.T.O. A partir dessa lista de citações, gerei candidatos Declarações de porquê para a Ordem como um todo:

“Realizar nossos rituais corretamente, com júbilo e beleza, para que as pessoas possam ser levadas à presença do Divino.”

“Amar e honrar nossos irmãos e irmãs, para que possamos encontrar no espírito vivo da fraternidade a divindade que buscamos.”

“Ensinar, servir nossas comunidades, criar e realizar rituais cerimoniais, para que possamos iniciar o mundo em Thelema.”

“Apelar para a nobreza, a curiosidade, o desejo de autocompreensão, o senso de aventura e o humor do espírito humano, para que ele possa ser liberado, despertado e desafiado.”

Há outras possibilidades – combinações de “temas” ou pontos fortes essenciais – mas espero que você tenha entendido a ideia.

Embora qualquer organização como um todo tenha seu próprio Porquê abrangente, os departamentos dentro da organização – no nosso caso, as Lojas – têm seus próprios “porquês aninhados” que elaboram o Porquê principal em um contexto específico. Assim, da mesma forma que Nova York e Los Angeles são cidades americanas e têm suas próprias características únicas, a Loja Tahuti e a Safira Estrela causam impressões únicas em seus visitantes e membros, ao mesmo tempo em que continuam a servir aos objetivos mais elevados da Ordem, conforme estabelecido por Crowley.

Essa ideia de uma impressão única é importante. Todas as Lojas estão fazendo o mesmo trabalho básico, mas a sensação que se tem ao entrar nas Lojas pode ser drasticamente diferente. Não é simplesmente uma questão de algumas Lojas serem mais funcionais do que outras. Há um tipo de qualidade, um espírito motivador ou – na linguagem da Descoberta do porquê – um impacto que o lugar tem, e esse impacto é a cola que mantém as pessoas unidas e trabalhando. Entenda sua contribuição e impacto característicos, entenda seus principais pontos fortes que os sustentam, pare de tentar se transformar em algo que não é, e você poderá aproveitar isso para se comunicar e crescer. Isso não é muito diferente da injunção de Crowley de descobrir quem, o que e porquê você é, e evitar atividades estranhas hostis a isso.

A Descoberta do Porquê Individual

Mas, como já sugeri algumas vezes, não são apenas as organizações que têm um Porquê. As pessoas também os têm. E assim como existe um procedimento para descobrir a Declaração de porquê de um grupo, há um processo distinto para descobrir a de um indivíduo.

Assim como a Descoberta do porquê para grupos, a Descoberta do porquê para um indivíduo requer um facilitador. Assim como um membro do “núcleo” de uma Loja não pode conduzir um workshop de Descoberta do porquê para essa Loja, o facilitador da sua própria Descoberta do porquê não deve ser seu melhor amigo ou parceiro. É muito provável que uma pessoa tão próxima a você projete o próprio entendimento sobre você no processo de descoberta. Para grupos, escolha alguém que faça parte da Ordem, mas que seja membro de uma Loja diferente. Para a Descoberta do porquê individual, escolha alguém que o conheça bem o suficiente para se interessar pelo processo com você, mas que não seja seu bff.

Em seguida, a pessoa que está passando pelo processo de descoberta precisa escolher histórias de sua vida que ilustrem como ela se tornou quem é. Trata-se de qualquer incidente ou pessoa que a tenha moldado no tipo de pessoa que é hoje. Pode ser uma experiência com um mentor, treinador ou parente. Pode ser um desafio específico que lhe mostrou algo importante sobre si mesmo. Pode ser um evento único que mudou sua vida ou uma série de eventos. Os requisitos são que ele tenha feito de você quem você é, que tenha tido um grande impacto emocional sobre você e que você se lembre dos detalhes. Para meu próprio processo de Descoberta do porquê e para um processo que realizei para outra pessoa, três histórias foram suficientes.

Quando tiver suas histórias e o facilitador, reserve pelo menos três horas para executar o processo. Você conta cada uma das histórias em detalhes para o facilitador, que ouve atentamente e faz anotações não apenas sobre os fatos da história, mas também sobre o significado emocional de cada evento.

Em seguida, o facilitador analisa suas anotações e extrai os temas das histórias. Esses são os padrões abrangentes e repetitivos que se manifestam em todos os eventos. Essa é a parte em que você realmente precisa da ajuda de um observador objetivo, pois as pessoas geralmente não são muito boas em identificar os temas em suas próprias histórias.

Depois de ter os temas, você escolhe dois que parecem ser mais importantes do que os outros ou em torno dos quais os outros giram. Um deles se torna a contribuição e o outro, o impacto. Em seguida, você redige sua Declaração do porquê. “Ser [contribuição] para que [impacto].”

A meta não é obter algo perfeito, mas algo que esteja 70-80% pronto. Deve parecer que está no ponto, o que significa que ressoa com você, parece “certo” e é acionável. E você não descarta os outros temas que surgiram no processo. Eles permanecem como pontos fortes ou motivadores essenciais. (Algo semelhante acontece no final de um workshop em grupo).

O ideal é que uma dessas sessões dure cerca de três horas. A minha levou cerca de três horas e meia. Uma sessão que realizei para outra pessoa levou duas horas e meia.

Nesse ponto, você tem algumas opções. Você pode começar a colocar sua Declaração de porquê em prática e refiná-la à medida que avança. Optei por refinar a minha fazendo o Exercício com Amigos.

Para o Exercício com Amigos, você pergunta a alguns de seus amigos mais próximos porquê eles são seus amigos. É bastante estranho. No início, você tende a receber muitas respostas genéricas: você é engraçado, atencioso, lembra-se do meu aniversário etc. Mas sua tarefa é investigar as respostas e descobrir porquê essas coisas são importantes para seu amigo. Eventualmente, você começará a se aprofundar nos impactos principais: como você o faz se sentir, o que você faz por ele, porquê é importante para ele que você faça essas coisas.

Suas respostas a essas perguntas geram mais temas. No meu caso, os temas do Exercício com Amigos pareciam bem diferentes dos que meu facilitador e eu descobrimos no processo de descoberta. Então, ele e eu nos reunimos e passamos mais duas horas tentando colocar em palavras os temas que uniam os temas das histórias e do Exercício com Amigos. Isso nos colocou em contato com questões éticas fundamentais que me motivam. Percebi que estávamos no caminho certo, porque imediatamente comecei a aplicar esse novo conjunto de temas a tipos realmente diferentes de cenários e relacionamentos do meu presente e passado. Depois de duas horas exaustivas e muita cafeína, chegamos ao resultado:

“Para acabar com as merdas, para que possamos cair na real!”

Isso foi refinado para:

“Suspender o comum, para que o extraordinário possa se mostrar”.

Uma reflexão posterior me levou a algo ainda mais específico:

“Suspender crenças comuns para que conexões incomuns possam ocorrer livremente”.

A imagem mágica que me veio à mente foi o Atu VI: Os Amantes.

Quando entrei na reta final, lembrei-me desta passagem do Liber AL:

“A palavra de Pecado é Restrição. Ó, homem! Não recuses tua esposa, se ela quer! Ó, amante, se queres, parte! Não há laço que possa unir os divididos senão o amor: tudo mais é uma maldição. Maldito! Maldito seja para os æons! Inferno.”

Sem dúvida, continuarei a aperfeiçoar essa declaração à medida que a colocar em prática. O mais importante é que posso colocá-la em ação e me sinto inspirado por ela. As palavras específicas são inadequadas, mas elas evocam os sentimentos e as associações certas para mim, e isso é tudo o que importa.

Fazendo por Conta Própria

Se você estiver interessado em saber como fazer a Descoberta do porquê Individual, consulte Find Your Why [N. T.: Publicado como Encontre o seu Porquê no Brasil pela Editora Sextante]. Se quiser que eu realize um workshop em grupo para a sua Loja ou se quiser apenas conselhos sobre como fazê-lo, entre em contato comigo por meio deste blog. Embora eu acredite estar melhorando a aplicação desses conceitos à medida que avanço, os exercícios em grupo são descritos em detalhes no mesmo livro e, tecnicamente, qualquer pessoa pode facilitá-los (desde que não seja membro da sua Loja).

Acredito que o processo de Descoberta do Porquê Individual oferece uma maneira prática de começar a pensar sobre a verdadeira vontade finita de cada um, em linhas muito semelhantes ao que Crowley sugeriu. Acredito que o processo em grupo pode ser um meio poderoso de começar a articular quem somos como Ordem e também como Lojas individuais. A Ordem, as Lojas e cada um dos thelemitas têm dons específicos que trazem ao mundo e que fazem mudanças poderosas na vida das pessoas. Esse conjunto de conceitos e exercícios fornece um meio útil de articular esses dons e de trazê-los à tona de forma mais eficaz.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Frater Entelecheia é um membro da Horizon Lodge em Seattle, WA. Ele é membro da Ordem há três anos.

Link para o original: https://thelemicunion.com/individual-why-discovery-method-discovering-finite-true-will/

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