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O Segredo da Sabedoria de Kuṇḍalinī

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por Antar Firak

Vou compartilhar com você algo muito especial e que muito provavelmente poucos estudantes tiveram acesso aqui no Brasil, o trecho inicial do Kuṇḍalinī-vijñāna-rahasya do último mestre da linhagem trika que acabamos de citar, disponibilizado no blog do professor Christopher Wallis.

O Segredo da Sabedoria de Kuṇḍalinī

Autoria: composto por Swami Lakshman Joo (1907-1991), com a ajuda (anteriormente não creditada) de Paṇḍit Dinanāth Yakṣa (1921-2004); os dois primeiros terços foram traduzidos por Alexis Sanderson (com edições e pequenas alterações de CW) e o terço final foi traduzido por Christopher Wallis*.

Verso de bênção:

Que Kuṇḍalinī, o poder que manifesta o universo, conceda a vocês as torrentes de seu êxtase cósmico, irrompendo de sua fonte, unida à vasta e sublime iluminação percebida em seu brilho, fazendo vibrar os seis chakras [1] , despertando na consciência a doce ressonância produzida por sua passagem, concedendo bem-aventurança ao atingir a união com o Senhor no lótus de mil pétalas, [estável e] centrada [mas] permeando o universo.

Introdução

      Abordo certos assuntos referentes à realização ( vijñāna ) de Kuṇḍalinī, de acordo com meu próprio entendimento e os ensinamentos transmitidos a mim por meu guru .
O termo Kuṇḍalinī refere-se ao poder de Emissão [mundana] ( visarga-śakti ) de Śiva, que, por ser universal, é idêntico ao Eu ( ahaṃtā ) em sua plena expansão. Os textos revelados de nossa tradição dizem que Ela possui três espirais e meia. Destas, a primeira é o modo de individualidade no qual predominam os objetos da cognição; a segunda, aquele em que predomina o ato de cognição; a terceira, aquele em que predomina o cognoscente; enquanto a meia espiral restante é aquele ‘Eu’ cuja natureza essencial é o estado de pura consciência. Tal é a análise esotérica de Kuṇḍalinī revelada em nossos textos sagrados.

 

Esse texto é uma preciosidade e fiquei emocionado quando pude estar em contato com o mesmo, Swami Lakshmanjoo nos traz uma visão da interpretação esotérica com base nos ensinamentos de Abhinavagupta emitidos em seu Tantraloka, elas representam ecos antigos de uma tradição que pode ser a única fonte real para compreendermos o que os antigos estavam realmente querendo dizer quando mencionaram Kundalini.

A segunda frase da introdução sintetiza, nas palavras de uma linhagem de mestres iluminados, que Kundalini representa o Poder Universal da Consciência (Shiva) que Manifesta (Emite) a Criação,  assim como também representa o Eu em sua Plena Expansão (Englobando o Conceito de Ahamkara =  Ego), basicamente a nossa exposição no início do texto.

Logo em seguida o texto expõe a associação do símbolo serpentino e suas três voltas e meia com os aspecto trino do Ser, o conhecido, o conhecimento e o conhecedor (doutrina exposta no Gita) e que representa as Deusas Para, Parapara e Apara, o cerne da filosofia da escola Trika de Abhinavagupta, conforme explicado por Christopher Wallis logo abaixo:

“O Trika (Trindade) era um sampradaya incomum porque, em sua fase posterior, sua doutrina englobava dualidade, não-dualidade e o ensinamento inexprimível além da dualidade e da não-dualidade. Por isso o grande mestre Abhinavagupta fez do Trika o ponto de apoio de sua conclusão final, e a explicação de toda a tradição do Tantra Saiva. Abhinava abraçou a versão mais fortemente não-dualista do Trika conhecida como “Trika Kaula”, que dizem ter sido fundada pela filha de Tryambaka, tornando-se a única linhagem importante a ter sido fundada por uma mulher. Resumidamente o Trika Kaula é uma versão tornada mais essencial, interior e estética do Trika, e portanto, é considerada uma expressão mais elevada e esotérica. Os adeptos do Trika adoraram três deusas: a doce e gentil Para-devi (Deusa Suprema), flanqueada por Suas duas emanações mais baixas, ferozes e semelhantes a Kali chamadas Parapara e Apara.”

Aqui também um trecho do capítulo 4 do Tantra Sara ( A Essência dos Tantras) de Abhinavagupta, onde ele menciona as divindades do Trika:

“Toda a realidade é abrangida por três Potências básicas. Ela, por quem a Suprema Divindade sustenta, percebe e manifesta tudo isso – desde Siva até a terra – como pura Consciência indiferenciada, é o seu Sagrado Poder Transcendente, a Deusa Suprema (Sri Para-shakti). Ela por quem (Ela apoia, percebe e manifesta tudo), uma vez que a diversidade dentro da unidade é o Seu Poder Intermediário por intermédio sagrado (Sri Parapara-shakti). Ela por quem (ela apoia, percebe e manifesta tudo) como totalmente diferenciada, caracterizada pela (aparente) separação mútua, é o seu poder sagrado inferior (Sri Apara-shakti). Ela por meio de quem ele devora esse processo triplo, abraçando-o somente para si como percepção unitária, é simplesmente a sua Deusa Abençoada Sri Para (em sua forma mais abrangente), denotada por outros nomes (nas escrituras), como Matrsadbhava ‘Mãe Existência/ A Essência dos Conhecedores, Kalakarsini (A Protetora e Removedora do Tempo) ou Vamesvari (A Deusa que Emite a Realidade).

Compreender esse contexto trino da filosofia não dualista da escola Trika é fundamental para visualizarmos melhor os fundamentos de Kundalini, e um ponto crucial de ser mencionado é que um dos textos mais conhecidos desta escola é o famoso Vijnana Bhairava Tantra, o clássico ensinamento das 112 técnicas diretas, e aqui vale fazer uma pausa e comentar sobre isso de forma mais específica.

Recentemente, nos debates da internet, uma ativadora de kundalini me disse que existiam 112 formas diferentes de ativar a kundalini, claramente uma alusão ao texto sagrado do Vijnana Bhairava Tantra, mas que obviamente ela não conhece, afinal de contas temos no verso 23: “Essas formas de meditação sobre Shakti, como a perfuração sucessiva dos chakras (pela Kundalini), são descritas apenas para aqueles de intelecto menos desenvolvido que ainda estão apegados a ações rituais e formas externas.”

Será que ela leu esse verso?

O mais complicado disso é que essas pessoas enchem a boca para falar de coisas que elas sequer conhecem de fato, é como um blefe num jogo de truco onde você pede 6 sem ter nada na mão, apenas o sonho de ganhar de algum jeito…

No livro o Tantra Iluminado, que apresenta uma visão tradicional e acadêmica ao mesmo tempo está escrito algo importante:

“ Outra escritura do Trika, provavelmente a mais incomum de todas as escrituras do Tantra Saiva do período inicial, é chamada Vijnana-bhairava-tantra ou ‘Escritura da Sabedoria-Bhairava”. Esse texto ensina uma forma esotérica de Trika em que um praticante de alto-adhikara (aptidão e qualificação¹) cultiva métodos traiçoeiramente simples para acessar diretamente a consciência expandida luminosa – em outras palavras, métodos para se tornar perfeitamente centrado na plenitude absoluta do estado natural de consciência que resulta na dissolução de todos os construtos de pensamento até a sua base.”

E na nota de rodapé ¹ acrescenta-se: “Graus superiores de adhikara podem ser alcançados apenas através do processo de refinamento e ‘polimento’ engendrado pela prática e contemplação espiritual regulares. Seu Guru determina qual é seu nível de adhikara.”

Com todos esses apontamentos fica claro que Kundalini nunca foi algo pueril e disponível para todos, mas sistemas completos de yoga, rituais e estruturas filosóficas complexas, destinadas apenas àqueles que já se provaram no caminho e atingiram os píncaros da expansão de consciência (altos níveis de adhikara), e isso não é o praticante que autodetermina, mas a própria linhagem.

Percebe como tudo isso distoa absurdamente do que vemos na internet hoje em dia? São gurus autoproclamados que se apropriam de culturas alheias sem o menor respeito, misturam a cruz de Cristo, com os chakras tântricos, as entidades da umbanda, os feitiços da magia européia e as medicinas do povo originário, e nessa bagunça os sistemas se perdem, com a desculpa de que estamos no século XXI e a tradição saiu de moda!

Agora vamos pensar nesse hype atual dos ativadores de kundalini de forma sincera e direta, porque agora você já tem uma dimensão muito mais clara sobre qual a visão da tradição sobre Kundalini, e baseado nessa compreensão de que Kundalini é o Poder da Consciência que Manifesta Toda a Criação, inclusive o “ser individual”, e não apenas como algo fora Dela, mas como a própria Essência que à Tudo Anima, fica a pergunta óbvia: “Como alguém pode ativar a kundalini de uma pessoa?”

Percebe como a própria pergunta se torna completamente absurda quando colocamos ela no contexto correto? Se Kundalini é a Deusa Mãe e o Próprio Ser Individual, como outro ser humano pode se arrogar a ter tal poder?

Mas vamos imaginar que isso realmente seja possível, e o guru da internet pode realmente ativar Kundalini em você em uma sessão online, ou mesmo em um final de semana num airbnb alugado, e através desse processo você atinja a última realização disponível para uma consciência humana encarnada, basicamente o problema da vida humana está resolvido, basta a pessoa ter dinheiro para pagar esse profissional que o último nível será desbloqueado…

Sinceramente, eu sou um mero professor, reconheço minha ignorância sobre inúmeras coisas, mas isso me soa como algo completamente estúpido e mesmo sendo uma formiguinha dentro das minhas linhagens não posso deixar de honrar o que aprendi e falar a verdade para as pessoas, porque é exatamente por esse tipo de desinformação que vemos tantos gurus surgindo, criando dependentes automatos que invariavelmente em algum momento se darão conta da situação de abuso, sutil ou explicíto, no qual se encontram, porque a pessoa que diz que é capaz de fazer isso para alguém (salvo gurus verdadeiros, se é que isso ainda exista…) está claramente agindo de má fé.

E aqui temos dois caminhos como costumo falar, ou a pessoa não sabe o que é Kundalini e está repetindo a ignorância de outras pessoas como se fosse verdade, e aqui temos um cenário menos pior porque ela realmente acredita no que fala, mas está mal informada. Agora o real problema é quando a pessoa é estudada, compreende a tradição, e mesmo assim traveste e prostitui o ensinamento para explorar pessoas de forma consciente… e neste segundo cenário é onde mora o maior perigo.

Dentro da minha jornada já conheci inúmeras pessoas desse segundo tipo e quando você questiona elas com profundidade, quase que invariavelmente, são pessoas sem nenhuma base de conhecimento real, e que canalizaram um método único e exclusivo com um nome ancestral diretamente das vozes da própria cabeça… é sempre a mesma narrativa, que é vendida como a última atualização do sistema galáctico (contém ironia intencional).

Isso me parece bizarro, porque todos eles tem certeza dessa exclusividade de suas canalizações, mas como se explica que centenas de pessoas a partir de 2020 (recente) começaram a falar a mesma coisa aqui no Brasil?

A única explicação plausível é a de que o astral colocou um novo pacote de atualizações na plataforma terrena e essas pessoas fizeram o mesmo download, e assim estão repetindo as mesmas coisas, embalando teoria polivagal e tremores neurogênicos como Kundalini, sem sequer se dar ao trabalho de fazer ao menos uma pequena pesquisa sobre o fundamento do conceito, porque até o GPT, com todas as suas limitações, explicaria isso de cara, mas a inflação do Ego que surge a partir de uma identidade que ajuda e salva as pessoas já é grande, imagina a do ativador de Kundalini, esse aí já foi pro nível de megaultratranscendência.

O fenômeno parece novo porque a “roupa” está zerada, mas a dinâmica é a mesma usada desde sempre: “Eu tenho o poder de fazer por você o que você não consegue, para isso você me entrega o seu poder pessoal em todas as áreas da sua vida e eu te salvo”, a narrativa perfeita do romance amoroso tóxico que vemos dentro das dinâmicas relacionais de poder na religião, política e sociedade de forma geral.

Agora, retomando a nossa exposição, convém que nós façamos uma breve introdução sobre a questão da sexualidade dentro do tantrismo, assunto este que é basicamente o cerne da interpretação ocidental, mas no contexto tradicional representa mais uma parte da visão sagrada, tão importante quanto qualquer outro aspecto.

E aqui é importante dizer que existem infinitas possibilidades de se refletir na questão sexual dentro do tantrismo, mas aqui vamos apresentar três delas de forma mais rápida: a) o puritanismo dos tradicionalistas que dizem que a visão erótica/sexual dos tantras é apenas simbólica e não factual; b) a desorganização dos atuais terapeutas e massagistas tântricos que acreditam que tudo lhes é permitido no campo da sexualidade, ignorando propositalmente a tradição e c) uma síntese entre os opostos, onde reconhecemos e respeitamos os sistemas da tradição mas não ficamos presos e limitados a isso.

Com o embasamento tradicional nós temos liberdade para aplicar os sistemas em nosso contexto atual, adaptando-os da melhor forma possível, de forma que possam ser práticos e eficientes dentro do nosso dia a dia e principalmente, dentro do nosso contexto cultural, psicológico e muitos outros fatores determinantes para a personalidade do brasileiro, afinal de contas, não somos indianos!

Em relação aos rituais sexuais presentes no tantrismo, faz sentido explorarmos um trecho do capítulo 22 do Tantra Sara ( A Essência dos Tantras) de Abhinavagupta, anteriormente já citado:

“Como afirmado pela tradição, Brahman é um todo uno: a bem-aventurança é inerente ao corpo, mente e alma. O mundo e seu fruto proibido são pecados para os insensatos, mas meios de realização para aqueles com os olhos abertos.

 

Siva está ávido por entender como Sakti brinca, e Ela entusiasticamente busca desvendar os caminhos Dele. Assim, o jogo erótico é iniciado, com Siva como o macho corajoso, e Sakti se manifestando como a fêmea desejosa.

Os ritos eróticos requerem um parceiro em quem se possa confiar; hábil em yoga, não subjugado pela luxúria. Casta, status ou aparência não devem ser colocados acima da qualificação singular: estar apaixonado. O casal deve visualizar-se como sendo divino; somente então seus corpos devem se entrelaçar. Vendo-se mutuamente como Siva e Sakti, devem estar livres da identidade humana.

O encontro erótico é um meio de engajamento espiritual, não com o propósito de gozo egoísta. É um meio de estabelecer a firmeza da mente para além da inconstância, sobre um alicerce divino. Os mundanos entregam-se a comportamentos impróprios; esses mesmos atos, para os yogis, trazem favor. Para os tolos, ceder ao desejo traz angústia; para o yogi, a adoração Kaulika traz sucesso.

O aspirante deve ser firme em seu caráter como yogi, ele deve ter uma parceira, uma yogini de alta classe. A bem-aventurança de Siva é durável e contínua para sempre; o casal encontra isso refletido em sua união. Muito sobre este assunto jamais será escrito, o mistério sempre permanecerá oculto.

Somente aqueles que anseiam por Deus com todas as suas forças encontrarão Sua graça iluminando sua noite. O estado mais elevado está além do que pode ser dito; um presente para o casal que está pronto para ser despertado. É transcendente e imanente, em repouso enquanto a energia surge; espírito e carne são um, nenhum compromete o outro.”

O Tantra é maravilhoso, porque ao mesmo tempo que temos liberdade para explorar o caminho do melhor jeito para nossa experiência atual, temos a segurança e alegria de termos bons professores e professoras que já trilharam esse mesmo caminho e nos transmitem os desafios, armadilhas, possíveis atalhos e alegrias do caminho, por isso que ao mesmo tempo que somos consciência ativas agora e podemos experienciar, temos a tranquilidade de termos uma boa base por trás, que nos dá respaldo e coragem para o último salto.

Esse trecho de Abhinavagupta nos apresenta claramente que: 1) a visão puritanista que acredita que os ritos sexuais no tantra são apenas simbólicas está enganada e uma limitação, pois claramente o criador do Tantra Sara revela com clareza durante todo o capítulo 22 a base do ritual Kaula e 2) a visão hedonista e libertina sem contexto dos terapeutas e massagistas atuais, que focam excessivamente no prazer e em uma sexualidade exacerbada e sem contornos também está precipitada, por que os extremos aqui não se aplicam, é um caminho de iniciados e iniciadas que já se trabalharem por tempo suficiente e que tem o respaldo tradicional de uma linhagem para se dedicarem a este tipo de prática.

Atualmente uma das versões mais conhecidas sobre os ritos sexuais do tantrismo é o Panchamakara, sobre o qual já falei algumas vezes em meus conteúdos na internet, mas que é o tema central de desenvolvimento para os meus alunos mais próximos, porque esse ritual compõem o desenvolvimento de Kundalini através do trabalho com os 5 Elementos e o Centro de Consciência que os dirige, e a culminação do ritual é o Maithuna, ou seja, o Rito Sexual.

E não, sexo tântrico não é sobre transar devagar e respirando tudo bem?

Acredito que nesse ponto do texto você já pegou que Tantra é uma tradição iniciática e nesse contexto, essas interpretações limitadas sempre correm um grande risco de estarem atrapalhando o desenvolvimento real do sistema e espalhando inverdades, muitas vezes sem maldade, mas que de forma prática, acabam mais contribuindo para a confusão generalizada dentro dessa salada onde as pessoas misturam um pouco de conhecimento com os pensamentos intrusivos e muita confiança na comunicação, então nessas questões sempre recomendamos cautela máxima.

Vamos introduzir agora em nosso assunto, mais um sampradaya clássico dos tantras, a famosa Sri Vidya, e que nos apresenta um contexto muito interessante dentro dessa fase de nossa reflexão, Wallis escreve:

“ Do ponto de vista da Sri Vidya, o desejo (iccha) é a força motriz do universo, uma vez que sem ele nada surgiria, e a Consciência Divina permaneceria estática. O trabalho do praticante espiritual, portanto, é primeiro liberar seus julgamentos sobre seus próprios desejos, julgamentos que causam uma contração da Consciência. Em segundo lugar, fundir seu desejo limitado ao padrão mais amplo da vontade divina. Isso não significa desistir do desejo, mas sim aprender a querer apaixonadamente o que a Deusa quer, o que exige tornar-se um com Ela. O que a Deusa quer é apenas fluir em padrões relacionais de harmonia cada vez maiores, e naturalmente, entramos nessa dança quando nossos desejos condicionados, que surgem de uma falsa sensação de carência, são dissipados. Mas isso não pode acontecer enquanto julgarmos e condenarmos nossos desejos, em vez de perceber que são a mesma energia que a Vontade Divina, limitada por nossa ignorância em expressá-los em harmonia máxima.”

Aqui temos o entrelaçamento perfeito entre ontologia e epistemologia do tantrismo não-dualista, onde no sentido ontológico temos uma visão monista e dinâmica, que não vê o mundo como ilusão a ser descartada, mas como expressão vibrante da Consciência. O Desejo ao invés de ser visto como um estado psicológico/fisiológico negativo, torna-se a força motriz que cria e sustenta o cosmos, e isso significa que existe uma continuidade entre o Divino e o Humano e uma igualdade de natureza, embora uma diferença no grau de percepção na escala.

Quando tratamos da visão epistemológica da Sri Vidya vemos que ela se dá através da dissolução de avidya (ignorância) quando ele cita a “falsa sensação de carência”, pois deriva do erro básico da separação, e sendo assim, o erro não é o desejo em si, mas a falta de percepção da fonte do desejo, que nada mais é do que a própria Deusa (Tripura/Kubjika/Kundalini) e o método basicamente é através da não-contração da consciência experimentada quando se vai além dos próprios julgamentos, e assim, é possível expandir a percepção e atingir o conhecimento verdadeiro, ou seja, a fusão perfeita com a Deusa e Sua Vontade.

Vejamos mais um trecho do capítulo 22 do Tantra Sara:

“ Como a chama da consciência, medite Nela, não permita que nenhuma distração agite sua mente. Os objetos rituais, o local e as deidades guardiãs são todos permeados pelo Senhor; não são entidades separadas. Use mantra e devoção para encerrar o macrocosmo transcendente no receptáculo de sua adoração, o microcosmo imanente.

A luxúria mundana é a maneira pela qual os ordinários se arrastam; enquanto o sexo transcendente é o caminho para Deus. Quando o princípio norteador do amor é sustentado, todos os chakras vibram em harmonia e a unidade é alcançada. Aprenda a ser desapegado, mesmo quando os sentidos estão em chamas; seja um aspirante, participe do jogo divino.

A vida torna-se um esporte, um bhavah de diversão emerge; na consciência de Bhairava, a consciência individual submerge. A essência do mantra emite o chamado, carregando a mensagem: Um é Tudo. Consciência e universo não são separados, o indivíduo e Deus não são díspares. Encontre contentamento em sua vida oferecendo tudo a Deus sem conflito. Aborde o ritual como um asceta frio e rígido combinado com o calor do erótico suave.

Homem e mulher são uma limitação mental; experiencie seu corpo como divino através da consagração. A revelação de Siva e Sakti pode ser encontrada na emoção sexual; o centro da roda permanece imóvel, independentemente da comoção. Consciência e Energia são o mesmo, são um; assim como luz e calor não são diferentes do Sol. Desapegado da limitação, o casal humano entra nesta realidade; à medida que se fundem, seu senso de ele e ela se une.

Os olhos do mundo veem através de uma visão socialmente condicionada; parceiros yógicos veem um ao outro em sua verdadeira luz divina. A busca pelo prazer pessoal não é o objetivo, mas sim transformar a dualidade em um todo beatífico. Lingam e yoni são os chakras nos quais se concentrar; aprenda a irradiar bem-aventurança deste lotus alquímico. Quando os chakras primários são estimulados adequadamente, o resultado é uma epifania espiritual. O casal que é devotado a Deus em fidelidade acessa ambos os aspectos da realidade transcendental: A bem-aventurança inata de Siva é descoberta, e a energia divina inerente de Sakti é desvendada.

Eles atingem o estado além da limitação, a mais alta experiência de liberação. Eles se encorajam mutuamente através do contato tanto com o impulso evolucionário quanto com a tranquilidade. Os fluidos sexuais elevam-se com todas as devidas piedades como oferendas às deidades presidentes, Que, em retorno, abençoam o casal com a consagração de siddhis, atma jnana e liberação. O casal repousa na tranquilidade completa de Siva, com o poder divino de Sakti potencialmente repleto. A mente e os sentidos estão quietos, nada está errado; o desejo mais elevado é cumprido, unido à bem-aventurança.”

Neste ponto não queremos explicar esses rituais, a ideia é apresentar para a grande maioria do público a sua existência e bases filosóficas estruturadas, para que uma discussão madura e consciente possa ser iniciada pelos praticantes sérios que desejam ampliar os horizontes dentro desses estudos correlatos.

Para finalizar essa parte temos mais uma citação de Wallis: “A Srividya surgiu de um culto mais antigo da magia do amor (chamado de culto Nitya), que buscava desenvolver rituais para garantir a afeição do parceiro sexual prospectivo. Sob a influência do movimento Tântriko, isso rapidamente se transformou em um caminho maduro para a liberação, ao adorar o belo esplendor feminino (Sri), que incorpora o próprio néctar da vida humana. É Sri que traz beleza e boa sorte a qualquer lar, vivificando os padrões estáticos de inércia em que o masculino de outra forma cairia. Com os tempos, os Srividya desenvolveram rituais de adoração a Sri como uma jovem (kumari) e como uma mulher fecunda casada (Stri), fonte de auspiciosidade. Sendo o último a se desenvolver, o Srividya é também a única seita do Tantra Saiva original a sobreviver intacta até o presente, embora o custo de o fazer fosse perder de sua independência, sendo assimilada e ‘higienizada’ pelos brâmanes conservadores do sul de Tamil, e hoje praticada exclusivamente por eles.”

Aqui temos então um resumo histórico e também uma visão geral sobre as escolas clássicas tântricas, local onde o conceito de Kundalini se desenvolveu, formando a base real de conhecimento desse tema e graças a Deusa, ainda temos acesso à esses ecos fidedignos do Sanatana Dharma.

Dando continuidade em nossa exposição, vamos prosseguir citando uma figura que muitas vezes é esquecida, mas que de fato foi um dos maiores (se não o maior) catalisadores da disseminação dos ensinamentos tântricos e consequentemente correlacionados à Kundalini no ocidente, pois foi o tradutor de inúmeros tesouros da tradição hindu posterior, estamos falando de Arthur Avalon, pseudônimo de Sir John Woodroffe.

Ele nasceu em 1863, estudou em Oxford e tornou-se advogado. Advogou no tribunal superior de Calcutá e membro e professor de direito na cátedra Tagore da Universidade de Calcutá. De 1904 a 1922 pertenceu ao conselho permanente do Governo da Índia e foi juiz subalterno da suprema corte de Calcutá. Foi nomeado cavaleiro em 1915 e retornou para tornar-se lente de direito indiano em Oxford de 1923 a 1930. Morreu em 1936.

Segundo Henry R. Zimmer: “Os valores da tradição hidu me foram revelados através do enorme trabalho de uma vida de Sir John Woodroffe, dito Arthur Avalon, um pioneiro e autor clássico de estudos indianos, insuperável, que pela primeira vez, mediante muitas publicações e livros, tornou acessível o extenso e complexo tesouro da tradição hindu posterior: os Tantras, um período tão grande e rico como os Vedas, a Epopéia, os Puranas, etc; a última cristalização da sabedoria indiana, o indispensável elo de encerramento de uma cadeia, que fornece chaves para inúmeros problemas na história do budismo e do hinduísmo, na mitologia e no simbolismo.”

Um dos livros basilares de Arthur Avalon é o Poder da Serpente, lançado em 1919, e que faz clara alusão ao conceito de Kundalini, mencionando nesse trabalho uma visão profunda sobre inúmeros aspectos do sistema tântrico, tanto do ponto de vista filosófico e espiritual quanto nos aspectos práticos e yoguicos, além de trazer a tradução de dois textos fundamentais da tradição: Satcakra-nirupana (“Descrição das seis rodas”) e o Paduka-Pancaka (“O suporte quíntuplo”), de Swami Purnananda, mestre da escola Sri Vidya (datada de aproximadamente 1.550 d.C.), e que conecta o estudo contemporâneo do Tantra com as escolas clássicas já citadas.

Esse trabalho de Arthur Avalon inspirou praticamente tudo o que se desenvolveu de forma séria em relação ao Tantra no ocidente, mas também foi a fonte de muitas distorções como o livro sobre Chakras, escrito por C.W. Leadbeater da Sociedade Teosófica, que acabou por sendo uma obra mais recheada de visões pessoais do seu criador do que base tradicional de fato, e a partir deste livro nós temos o conceito comum de sete chakras e certas práticas com um cunho muito mais “nova era” do que alinhado com os sistemas e linhagens.

É exatamente dentro dessa linha de pensamento, mesmo que as pessoas não saibam, que elas vão usar as pedras para alinhar os chakras, entre muitas outras coisas que não teriam o menor sentido dentro da visão original, mas que no ocidente virou moda, permitindo assim que muitos erros e alucinações sobre o tema hoje sejam dadas como práticas “reais e eficientes”, mas que na verdade são apenas viagens da cabeça ocidental.

Uma das primeiras coisas que nós somos levados a refletir dentro dos sistemas tradicionais que trabalham com Kundalini é a respeito das Nadis, ou canais no corpo sutil, que permitem de fato o verdadeiro trabalho do Yogi/Yogini. Basicamente temos o canal central, chamado de Sushumna, o canal direito (solar), chamado Pingala, e o canal esquerdo (lunar), chamado Ida, sendo que esses dois últimos estão plenamente ativos, enquanto o canal central, Sushumna, está fechado pela “boca da serpente Kundalini” e apenas se abre a partir da harmonização entre os canais secundários, Ida e Pingala, ou seja, o campo psíquico e o campo fisiológico, do alinhamento entre essas duas estruturas, temos a abertura do canal central e a ascensão de Kundalini, e apenas com essa subida que os Chakras serão realmente despertos no corpo sutil do praticante.

Algo que também precisa ser desmistificado é o símbolo que diz que Kundalini está adormecida, e isso claramente é um conceito esotérico e que carrega uma simbologia profunda, pois acreditar que o Poder Cósmico pode estar adormecido seria uma completa loucura e afirmaria a nossa ignorância a respeito da linguagem crepuscular contida nos tantras. E vemos um grande perigo dentro desse contexto em relação aos ativadores de kundalini, porque apenas dessa má interpretação de que Kundalini está realmente adormecida e que esses especialistas podem se dizer ativadores/despertadores, mas vamos deixar tudo às claras para que o as pessoas não caiam nesse tipo de conversa fiada da internet.

Esse Poder Cósmico que é chamado de Kundalini quando está no seu movimento em direção ao Espiritual (União com Shiva), mas quando esse Poder está na direção material e identificada com o mundo é dito que Kundalini está “adormecida”, para o plano espiritual no caso, mas totalmente ativa e em movimento dentro do mundo através do Ego/Ahamkara e é por esse motivo que eu sempre afirmo nas redes, se Kundalini estivesse adormecida nada existiria, de fato, essa é a explicação base da simbologia da latência desse Poder.

No livro O Poder da Serpente o Sr. Avalon escreveu: “Kundalinī Shati é Chit, ou Consciência, em seu aspecto criativo como Poder. Como Shakti é através de Sua atividade que o mundo e todos os seres existem aí. Prakriti Shakti está no Mūlādhāra em um estado de sono (Prasuptā) – ou seja, atividade latente buscando o exterior (Bahirmukhī). É porque Ela está neste estado de atividade latente que através de Si todas as funções do mundo material externo estão sendo realizadas pelo homem. E é por esta razão que o homem está absorto neste mundo, e sob a sedução de Māyā toma o seu corpo e o egoísmo como sendo o Eu real, e assim vai girando a roda da vida em seu ciclo interminável de renascimentos e mortes. Quando o Jīva percebe o mundo como sendo diferente de si mesmo e de Brahman, isso se dá através da influência de Kundalinī que habita dentro dele. Seu sono no Mūlādhāra é, portanto, para a escravidão e a ignorância”

Esse trecho carrega uma chave importante não apenas para compreendermos o que fato é Kundalini, mas para analisarmos os próprios símbolos do cristianismo à luz do esoterismo de forma que possamos desvelar o verdadeiro significado da alegoria do Jardim de Adão, de Eva e da Serpente. Aqui claramente temos o aspecto dualista da serpente, que tanto pode dar o antídoto que liberta a alma como o veneno que a aprisiona, e conforme vimos acima na descrição de Avalon, é a influência de Kundalini identificada (adormecida no elemento terra) com o mundo que gera a sua ignorância a respeito da realidade ontológica do Ser.

Mas Avalon continua: “Em suma, enquanto Ela está adormecida, o homem está em seu estado de vigília (Jāgrat). Portanto, diz-se, que a Shakti do iniciado está desperta, enquanto que a do Pashu está adormecida. Portanto, Ela está desperta do sono e, quando desperta retorna para Seu Senhor, que é senão Ela mesma em outro aspecto; Seu retorno, de fato, é a retirada daquela Sua atividade que produz o mundo das aparências, e na qual com tal retirada desaparece. Pois, em Seu Caminho para cima Ela absorve em Si mesma todos os Tattvas que emanaram Dela.”

Dessa forma, basicamente, Kundalini é o Poder que manifesta o mundo das aparências e habita/adormece nele até “despertar” e iniciar a sua ascensão rumo à Shiva, que é Um e a mesma coisa que Ela, assim, Ela no seu caminho de descida emana todos os Tattvas e na sua subida reabsorve todos os Tattvas em Si Mesma unindo-se eternamente ao seu Amado, e aqui temos uma visão bem mais alinhada com o que a tradição compreendia quando falava sobre Kundalini, e temos que concordar que o significado é diametralmente oposto ao que vemos se falando na internet, principalmente dentro do hype dos ativadores de kundalini que não tem a menor base para as suas alegações e confundem o trabalho com o nervo vago, tremores neurogênicos e as fases do orgasmo com algo impossível de ser enquadrado nestes termos, seria um reducionismo completamente absurdo, e é para refutar esse movimento totalmente desrespeitoso com a tradição que estamos produzindo esse material.

Nas últimas décadas vimos o quanto o termo Kundalini foi distorcido, nos EUA mesmo é possível olhar para o movimento do Yogi Bhajan e as inúmeras acusações de abuso sexual, pedofilia, e uma rede de mentiras tão bem contada que serve perfeitamente como alerta para o quanto pode ser prejudicial esse tipo de movimento que se inicia sempre com os melhores propósitos mas sempre se perde no meio do caminho, e é exatamente o que vamos com esse fenomenos dos ativadores de kundalini, criando novos gurus que se arrogam despertar a Kundalini alheia, realmente um completo absurdo que gera dependentes e autorresponsáveis, enquanto esses novos gurus enriquecem e espalham mentiras cada vez maiores, as custas dos seus seguidores.

E pode acreditar, eles sempre se superam, ao ponto de recentemente ver uma profissional indo além da ativação de kundalini e formando transmissores de Shaktipat, e isso é algo tão espantoso que vou deixar apenas o tema aberto, quem sabe do que realmente se trata pode compreender como isso é uma psicopatia de alto escalão, mas vamos seguir em nossa exposição para que as informações estejam disponíveis e as pessoas possam ter uma direção em meio a tanta bagunça e confusão.

Mais um trecho de O Poder da Serpente: “Em suma, Kundalī é o individual corporificado representativo do grande Poder Cósmico (Shakti) que cria e sustenta o universo. Quando esta Shakti individual manifesta-Se como a consciência individual (Jīva), é imergida na consciência do Supremo Shiva, o mundo se torna dissolvido para Jīva e a Liberação (Mukti) é obtida. Entretanto, sob a influência da Shakti Cósmica, o universo continua para aqueles que não são liberados até a Grande Dissolução (Mahāpralaya), no fim do qual o universo novamente evolui para aqueles que não Jīvas cujo Karma não foram esgotados, e que não alcançaram a Liberação. O despertar e o agitar de Kundalīni, ou Kundalīni Yoga é uma forma daquela fusão do individual na consciência universal, ou a união dos dois, que é o final de todo sistema de Yoga Indiano.”

Trabalhar com Kundalini demanda um amplo processo de preparação, bem com muita dedicação dentro do sistema e linhagem que o praticante foi iniciado, o bhakti, ou devoção, é crucial dentro desse desenvolvimento pois a meta final e a união perfeita com Deus, e não há nada maior do que isso, de forma que é uma corrupção ver as promessas atuais de mais dinheiro, mais prazer sexual, mais beleza, enfim, todo tipo de vaidades que mais robustece a identificação do Poder de Kundalini com o mundo comum e a sua consequente escravidão, praticamente estão usando de magia negra para a conquista de coisas transitórias ao invés de estarem focados na Fonte.

Veja as palavras de Avalon: “Para usar os termos hindus, o Sādhaka deve ser competente (Adhikārī), uma questão a ser determinado por seu Guru, de quem sozinho o método atual do Yoga pode ser aprendido. Os perigos casuais, contudo, citados pelo autor, vão além de qualquer mencionado por mim pelos próprios Indianos, que parece ser, no geral, desconhecido da questão da “magia fálica”, cujas referências são feitas pelo autor, que fala das Escolas de (aparentemente Ocidentais) “Magia Negra”, que dizem usar Kundalinī para propósitos de estimular o centro sexual. Outro autor diz: “O simples amador no falso ocultismo somente irá degradar seu intelecto com as puerilidades do psiquismo, tornando-se a presa de influências maléficas do mundo espectral, ou a ruína de sua alma pelas práticas imundas da magia fálica – como milhares de pessoas equivocadas estão fazendo mesmo nesta era”. Isto é assim? É possível que a concentração perversa ou equivocada nos centros sexuais e relacionados possa ter o efeito aludido. E é possível que o Comentador Lakshmīdhara alude a isto quando ele fala de Uttara Kaulas que estimulam Kundalinī no Mūlādhāra para satisfazer seus desejos para desfrutar o mundo e não tentar conduzi-La para cima para o Centro Superior, o qual é o objetivo do Yoga, buscando a bem aventurança do super mundano. Disto, um verso Sānscrito segue: “eles são os verdadeiros prostitutos”. Eu, contudo, nunca ouvi nenhum Indiano se referir a este assunto, provavelmente porque não diz respeito ao Yoga neste sentido comum, bem como pela razão da disciplina anterior requerer daqueles que empreenderam este Yoga, a natureza de sua prática, e o objetivo que eles têm em vista, tal possibilidade não se enquadra em sua consideração. O Indiano que pratica este ou outro tipo de Yoga espiritual, normalmente assim não faz por conta de um curioso interesse no ocultismo ou com um desejo de obter o “astral” ou experiências semelhantes. Sua atitude neste e em todos os outros assuntos é, essencialmente, uma religiosidade única, baseada em uma fé firme em Brahman (Sthiranishthā), e inspirado por um desejo de união com Ele, que é a Liberação.”

Esse processo de auto ilusão através da estimulação e busca de conexão com esse Poder, sem o devido preparo, resulta no que Jung vai chamar inflação psíquica, que é um tipo menor de de insanidade em sua definição, e que basicamente gera uma identificação com os elementos impessoais do inconsciente, e aqui temos um dos maiores perigos ao despertar a Kundalini, que é pessoa pensar “eu sou esse poder” ou “eu sou esse deus”, ela sofre uma inflação. Jung adverte: “Não devemos nos identificar com o inconsciente; devemos nos manter de fora e observar objetivamente”.

Se a inflação for levada ao extremo, Jung afirma que ela pode levar à esquizofrenia. A pessoa perde a conexão com o Muladhara (o chão) e fica “suspensa no ar”. Para que o processo seja saudável, o indivíduo deve “deixar algum rastro neste mundo” antes que o processo impessoal comece. Sem a base racional do Muladhara, o despertar da Kundalini destrói a personalidade em vez de renová-la.

No livro A Psicologia do Yoga Kundalini Jung afirma: ““Se o yogue ou a pessoa ocidental consegue despertar a kundalini, o que se inicia não é de modo algum um desenvolvimento pessoal, embora evidentemente um desenvolvimento impessoal possa influenciar o status pessoal, como ocorre muitas vezes e de maneira muito favorável. Mas nem sempre é assim. O que começa são os acontecimentos impessoais com os quais não devemos nos identificar. Se o fizermos , logo sentiremos consequências desagradáveis – experimentamos uma inflação, tudo dá errado para nós.Esta é uma das grandes dificuldades em experienciar o inconsciente  – a pessoa se identifica com ele e se torna uma idiota. Não devemos nos identificar com o inconsciente; devemos nos manter fora, à margem e observar objetivamente o que acontece. Mas então vemos que todos os acontecimentos que ocorrem na ordem impessoal e não humana das coisas tem a capacidade muito desagradável de apegar-se a nós, ou nós nos apegamos a eles.”

Já no trabalho intitulado Kundalini Tantra de Swami Satyananda Saraswati ele orienta: “ “O despertar de kundalini nunca deve ser igualado a obsessões ou neuroses. Quando uma explosão ocorre, ela traz pra fora o que estava dentro de você. Se você tem uma personalidade cheia de obsessões e bloqueios mentais, tudo isso explode. Portanto, antes de uma tentativa de despertar kundalini, você tem de chegar a um ponto de pureza de consciência ou clareza de mente. Pureza de consciência não é uma terminologia religiosa. Você pode ter pensamentos puros em sua mente, mas você não pode ser totalmente puro. Você pode ter pensamentos sobre pureza, castidade, compaixão, caridade e generosidade, mas nos planos subterrâneos da sua personalidade pode haver conflitos ou problemas mentais não resolvidos. Quando a mente entra em meditação, ou Samadhi, esse nível subterrâneo vem à superfície. Você começa a ver todos os detritos e você os sente e os vivencia. Isso pode acontecer a qualquer momento quando você está dormindo, quando você está em um estado de loucura e quando Kundalini está acordando. É por isso que um incansável esforço deve ser feito para tornar a mente livre de todos os arquétipos perturbadores, ou Samskaras, antes de tentar lidar com esse projeto. Uma integração de Karma, Bhakti e Raja Yoga, temperada com Hatha e Jnana Yoga, deve ser adotada em primeiro lugar.”

Acredito que com tudo o que dissemos até aqui já é possível vislumbrar um panorama completamente diferente sobre Kundalini em relação ao que tem sido ensinado na internet, e ao introduzirmos Jung e Swami Satyananda em nossa exposição temos elementos muito interessantes e bem próximos a nossa época, de forma que podemos contemplar esse caminho muito mais prático e em uma linguagem que certamente, faz muito mais sentido para nós.

Sendo assim, convidamos você para a terceira e próxima parte deste artigo, que em breve estará disponível aqui no blog, até a próxima, Jaya Maa!

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