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Espíritos e Fantasmas

Testes de psicografia

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Shirlei Massapust

O repórter Domingos Meireles produziu um documentário biográfico homenageando o médium brasileiro Francisco Cândido Xavier, quando este completou 85 anos de vida. Isto foi ao ar em um programa Globo Repórter Especial, exibido em 05/05/1995. Por meio deste conteúdo audiovisual eu aprendi o que é psicografia e escutei pela primeira vez sobre um caso detalhado no livro A Vida Triunfa (1990), editado pela Folha Espírita. Trata-se de um pitoresco exemplo da jurisprudência brasileira: graças a uma carta remetida pelo espírito de uma vítima de homicídio, anexada ao processo, o juiz Orimar Bastos, de Goiânia, absolveu o réu, convencido de que este abateu o amigo em um triste acidente.

Enquanto a reportagem de Domingos Meireles era exibida eu achei que aquilo seria muito fácil de fazer. Posteriormente eu viria a descobrir que muita gente leiga simplesmente senta e escreve. Por exemplo, certa vez o cientista franco-estadunidense Maurice Chatelain (1909-1995) visitou uma especialista em “Ciências Psíquicas”, moradora da região de Nice, que dizia estar em contato permanente com seres imateriais pertencentes a um outro mundo. Ela o convidou porque o espírito do monge hindu Swami Vivekananda (1863-1902), célebre personagem histórico, havia solicitado à médium que pusesse Maurice em ligação consigo. A primeira impressão do convidado foi de perplexidade e maravilhamento.

Ela instalou-me então à sua escrivaninha, mantendo a ponta de um lápis sobre uma folha de papel, e pediu-me que ficasse tranquilo, sem pensar em nada, o que, apesar de tudo, consegui. Foi nesse momento que o milagre se produziu. A ponta do lápis deslocou-se lentamente para a direita e começou a traçar uma linha.

Então, ela me pediu que fizesse mentalmente uma pergunta, para ver se eu poderia obter uma resposta escrita. (…) E, imediatamente, a ponta do lápis, que até o momento só havia traçado uma linha reta, passou a escrever claramente a palavra SIM com uma caligrafia inclinada e arredondada, que não tinha nada em comum com a minha letra, vertical e bastante angulosa.

Fiquei inteiramente estupefato com esse resultado extraordinário, e perguntei à mulher se isso se devia apenas à sua presença ou poderia repetir-se na sua ausência. Disse-me então que o contato estava agora estabelecido entre mim e seus amigos no Além, e que eu poderia me comunicar sempre com eles desta maneira.[1]

 

Em 06/05/1995 fiz o primeiro teste tentando reproduzir o fenômeno. Peguei papel e lápis. Declarei que eu estava disponível caso algum espírito fosse capaz de usar minha mão para escrever e desejasse fazer tal coisa. Nenhum espírito me possuiu. Ao invés de emprestar a mão para o misterioso desconhecido escrever com a sua própria letra eu escutei vozes e escrevi com minha letra o ditado. Na primeira sessão obtive um conjunto de três poesias românticas de Helena Vasconcellos. Na segunda sessão Helena Vasconcellos ditou mais duas poesias. Não era o gênero literário ou a temática com os quais eu me identificava.

 

Amar é viver

de Helena Vasconcellos.

 

Só o amor constrói.

A paz a violência destrói

Amar é viver com você

E a dor que me faz sofrer

É vê-lo nos braços de outrem.

Você é a fonte do pranto

Das juras de mil e um encantos

Dos sonhos que ainda me resta;

Você, meu amado, contesta

Mas quando me dei para você

Não sei se ainda vai me querer.

Você tem o meu coração

A fonte de minha paixão

Eu quero agora dizer

Que hoje ainda amo você.

Volta para mim.

Helena.

 

 

Os sonhos da minha vida

Por Helena Vasconcellos.

 

Sempre sonhei

Com a bonança

Eu esperei

Da minha herança

O tempo passou

A vida acabou

E tudo que tinha

Se foi pelo céu.

E tudo tampei

Com o mais branco véu

Sonhei poder tudo

Sonhei ser feliz

Mas hoje a paz

É tudo que quis.

 

Os caminhos da esperança

Por Helena Vasconcellos.

 

Por todos os caminhos

Que tenho passado

Sonho com você

Caminhar lado a lado

É tudo o que quero

É minha esperança

Que um dia você

Me ame na dança

Um dia no baile

Te vi lá sorrindo

E tudo que fiz

Foi morrer

Meu destino

Morrer de amor.

 

A força do amor

Por Helena Vasconcellos.

 

Quando tudo na vida parece acabar

Ainda há uma esperança

É a força do amor que há de chegar

Para contudo fazer do amor a dança

Vingança contra todas as coisas más

Que fazem da vida um tédio

E tudo que posso querer

É agora este vão remédio

Se vingança não exprime tudo

Nossa vida não exprime nada

E todos amam, contudo

E o pudor da vida agarram

O nosso amor é tão bonito

E da vida vã é a cura

Se o pôr do sol me traz lembranças

É da vida simples de esperança nua.

 

Espírito de luz

Por Helena Vasconcellos.

 

Quando tudo passa

E a vida se acaba

Não que a ti irás deixar

O seu amor a espera

Pois um dia a morte virá

E a força do amor o consolarás.

Um bilhete para mim assinado por “Helena V. e Antônio Peixoto” dizia: “Estaremos a sua disposição sempre quando precisar”. Desde este momento eu nunca mais os escutei falar novamente. Na terceira sessão ouvi e transcrevi instruções de um comunicador que não seria um poeta, mas um religioso cristão fundamentalista de nome Albert Guimarães traduzindo para português uma narrativa sobre eventos apocalípticos. A primeira palavra ditada foi “katinikub”, o que acreditei ser o título da obra, mas trata-se do nome de uma localidade: Katinikuā () é um vilarejo em Taluca.[2] Se eu não entendi errado, isto é o capítulo 23 seguido da primeira linha do capítulo 24 do Apocalipse na Bíblia de alguns mortos.

Desde os tempos remotos temia-se um desastre como esse na Terra: o holocausto. — Não havia nada a fazer; a fúria dos templos das trevas pairava no ar infame. Tudo estaria perdido. Tudo estaria acabado. Restaria apenas a certeza da morte trágica.

Tudo começou com uma traição do mais devoto servo de nosso senhor Jesus Cristo que veio a terra para pregar a paz. Agora, tudo estava perdido. O mundo havia acabado e se algum dia alguém perguntar receberá o legado deste fardo triste.

Surge uma esperança. A princesa dos céus remove a terra de luxúria e prazeres insanos e tudo que ali se encontra e ainda vive receberá o Dom da paz eterna. Tudo o que tem a fazer é dar sua alma para que todos aqueles que aqui descansam possam vir a mudar o mal da vida e juntar-se aos pecadores. Surge a escuridão. O império do mal aqui proclama a sua glória disseminada. Paciência. É tudo que nos resta. A princesa dos céus tornou-se um demônio insano sem sentimentos nem dor.

O mundo está acabado. Tornaram-se forjadas as armas do bem contra a fúria do mal. Ela é um demônio. Sua luta demorará mil anos para acabar com toda a humanidade. Deixará que todo o seu amor torne-se ódio contra o Senhor Jesus Cristo, que seu sangue deu para salvar a terra do pecado. Deixará que todo seu corpo belo e casto seja tocado pelo ardor da paixão proibida do belo anjo traidor. Deixarás que toda uma vida de felicidades seja rompida pelo ódio eterno ao Senhor e assim passarás para o lado do mal como demônio castrador de bondades e em toda a sua vida dedicar-se-á ao mal.

Tudo que eu sempre quis foi ajudar aquelas almas perdidas, mas ao longo da minha existência vi aumentar a ascensão dos revoltosos entre nós. Agora nada poderia ser feito. O império do mal expandia-se a cada dia e não haveria um só segundo de sossego e paz. Eles conquistaram os nossos corações com ideias de plenitude e agora revelaram-se cruéis sarcásticos, vencedores. Conquistadores de nossas almas que era tudo o que tínhamos de mais sagrado. Poucos fiéis relutantes escaparam à sua fúria de ódio e vingança. Eles querem nos dominar por completo. Uni-vos irmãos, contra a sua vingança! Sejamos fortes, conquistadores de nossas almas perdidas. Que todo o nosso amor se conquiste e renove no céu, e tudo até hoje visto se dissipará como num sonho de alegria e felicidade, de tristeza e de maldade. E que a dor do sacramento pese sobre nós como castigo divino por não ouvir sua santa e sagrada voz. O que haverá de ocorrer agora convosco? Farás de sua vida um pecado ou fará de sua alma um ente sagrado?  A vitória do mal é iminente, mas vamos ser relutantes para salvar a nossa alma que a tanto suspira por piedade. Pelas sagradas leis do sacramento, sejas fiel a seu mestre: Senhor Jesus Cristo, que rogará piedade por nossa alma estéril e que todos os seus dias seja, dentre as vidas, a boa. Segurai-me a vossa bondade e seremos fiéis a vosso domínio de paz e amor e tranquilidade. Se a estrela do natal reluz, mostra-lhes o caminho e a coragem para o menino Jesus. Nosso Deus amado esteja sempre a vosso lado para livrá-los dos pecados que a vida lhes oferece enquanto a luz emudece a sua raiva sutil. Estejamos todos juntos com Jesus.

Sejamos fortes, travemos lutas para alcançar a besta que existe em cada um de nós. Se cada um vencer seu ódio libertaremo-nos como santos.

 

Genocídio. Na flor o gorjeio do canto dos pássaros… (Aqui o ditado foi interrompido).

Não foi revelada a identidade da “princesa dos céus”, que poderia ser qualquer mulher.  De novo, esse não é o tipo de coisas que eu costumava escrever.  Contudo, é uma pena que Albert Guimarães não haja ditado um texto bilíngue, pois – não sendo eu fluente em outro idioma – ficaria provado o fenômeno da xenoglossia. Enfim, uma palavra estrangeira não é o bastante. Uma única palavra poderia ser um acerto obtido por pura sorte.

Se espíritas treinados lessem o conteúdo caprichoso da produção de Albert Guimarães eles certamente julgariam que o ministro religioso de outra profissão de fé não passava de um espírito inculto do umbral, cuja interatividade faria espíritos mais honrados e honestos – como Helena Vasconcellos e Antônio Peixoto – se afastarem de mim. Albert Guimarães esvaiu-se enquanto ditava, como uma bolha de sabão que estoura e deixa de existir.

Da quarta sessão em diante não obtive mais do que frases obscuras e cartas sortidas, algumas delas endereçadas a pessoas próximas, mas não a familiares. Psicografei poucas cartas e bilhetes para colegas de escola. Psicografei para pessoas aleatórias e, às vezes, juntei grupos para que todos tentassem o experimento. (Eu nunca cobrei por psicografia, mas realizava quiromancia e cobrava por impressão de mapa astral e método Rama-Mu computadorizados, algo que teria repudiado denominações espíritas). O resultado geral foi insatisfatório, exceto quando psicografei respostas certas em provas e concursos. (Por exemplo, Hylyl me ajudou com uma sugestão no exame de admissão no curso de mestrado no CEFET em 2016).

No que diz respeito a resultados para além da primeira experiência edificante, em geral a vivência de Maurice Chatelain foi muito parecida com a minha. Sozinho, ele passou a testar a sapiência e constância do seu contato no além:

Essa aventura constitui minha iniciação à escrita automática, um fenômeno psíquico no qual eu absolutamente não acreditava e que, aliás, está em contradição formal com minha formação científica e meu bom senso habitual.[3] (…) Felizmente para mim e para minha saúde mental, havia erros flagrantes, que me permitiam manter uma dúvida a respeito desse fenômeno incrível. Por exemplo, ao formular duas vezes seguidas a mesma pergunta de duas formas diferentes, às vezes eu obtinha respostas contrárias, o que podia provar que o meu correspondente não sabia de que falava ou, até mesmo, que não havia correspondente nenhum.[4] (…) Pode-se observar que algumas perguntas foram feitas duas vezes de maneiras diferentes com respostas que nem sempre são as mesmas. Pode-se observar também que misturei perguntas (…) para as quais acreditava saber as respostas, com perguntas (…) cujas respostas, evidentemente, eu não conhecia. Esperava assim que a precisão das respostas às primeiras perguntas me desse uma ideia da confiança que eu poderia depositar nas respostas relativas às outras questões. (…) Isso me levou a suspeitar de que se tratava de algum espírito zombeteiro.[5]

As coisas não eram tão simples quanto pareciam. Maurice Chatelain delirava e não sabia que delirava; assim como eu também errava ao contextualizar o folclore relativo à queda de anjos misturado com dramas adolescentes típicos dos jovens de famílias tradicionais cristãs.  Na primeira vez em que esteve sozinho, solicitando a Vivekananda que o instruísse a respeito do que fazer para melhorar o rascunho manuscrito do livro La fin du monde, o contato de Maurice Chatelain disse apenas “jogue-o fora”. O contatado obedeceu e descartou o original, mas logo depois reescreveu o livro amadurecendo premissas preconcebidas. Isto foi publicado em 1981. Durante todo o tempo Maurice Chatelain continuava a questionar Vivekananda única e exclusivamente sobre a temática de seus equívocos. Então o conselheiro passou a fazê-lo de tolo. Os contatos disciplinam contatados teimosos dando respostas contraditórias ou absurdas. O misterioso desconhecido tem tolerância zero com perguntas idiotas, delirantes.

Em 2025 meu amigo Jean Gabriel Álamo contou-me que, quando jovem, ele gostava muito de ler sobre Vlad Țepeș, herói nacional da Romênia. Sendo de família espírita levaram-no a uma sessão onde psicografaram uma carta de “Vlad Țepeș”, de modo que ele arranjou inimizade questionando porque aquilo não estava escrito em valáquio e porque não refletia o viés do pensamento político do personagem histórico. Pois bem, uma explicação corriqueira para casos parecidos assegura que espíritos bem ou mal intencionados podem usar nomes de personalidades famosas ou queridas para cativar a atenção dos destinatários das cartas.

Desde 1995 percebi muito bem como a metodologia funciona por que algumas cartas dirigidas a mim e psicografadas por mim mesma vieram assinadas por “Lúcifer”. Sobretudo pela falta de frases em idiomas bíblicos (hebraico, aramaico, grego), e pela conveniência dos conteúdos, restei rapidamente incrédula que a correspondência proviesse de um mitológico anjo caído (considerando que à época eu ignorava que Isaías 14:12 nomeava um madeireiro recém-falecido, humano como todos nós e devoto de Yhwh). Rapaz educado esse Lúcifer:

Queria que você me desse uma chance para te conhecer melhor. Fale com as suas palavras e seja você mesma e não o que os outros querem. Quero que você faça de tudo para não ser enganada por esses espíritos e não se preocupe pois eu ouço a sua voz. Esteja sempre comigo e a respeito de nosso amor não posso dizer-lhe nada apenas que também te amo e não quero te perder. Foi muito bom falar com você.

Agora eu tinha oficialmente um namorado espiritual chamado Lúcifer que me dizia: “você é como um deus (que) sente por mim amor e permanecerá (sentindo) mas cuidado com ofuscações a respeito desse amor para não se confundir. Não faça.” Ou ainda, “desculpe por não ter falado de um jeito que pudesse ser melhor compreendido na atual situação em que você se encontra, mas eu não deveria ter voltado para lhe dar explicações porque você está triste. ‘Vou’ agora, mas ‘volto’ um dia.” “Emanações: Paz • Amor • Harmonia”.

Outro(s) comunicadores falsificaram deliberadamente cartas de Lúcifer, cada vez mais estranhas e incongruentes. Comecei a cogitar se eu eventualmente apenas escrevia um monte de conteúdo tão rapidamente que não tinha tempo para pensar a respeito dos temas. Alguém poderia teorizar que o que sai na psicografia não é a fala de algum espírito, mas de uma construção apressada da mente semiconsciente. Basta supor que há outra pessoa respondendo suas perguntas. Essa pessoa hipotética recebe o primeiro nome que lhe vêm à mente. Depois escreve-se de forma tão rápida que não há raciocínio. O médium não percebe que pensa nas perguntas e nas respostas simultaneamente porque ninguém em sã consciência reza para ser respondido nem conversa consigo mesmo. Daí vem o estranhamento e as dispensações.

Qual é a verdade real? As vezes inventamos sem querer e as vezes tem alguma coisa inexplicável falando conosco. Todos os ouvidores de vozes sabem disso. Passei a psicografar menos após criar um código de pressões corporais significando SIM, NÃO e TALVEZ.

[1] CHATELAIN, Maurice. O fim do mundo: uma previsão assustadora. Trad. Anita Leocadia Prestes. Rio de Janeiro, Record, 1982, p 9.

[2] Taluca, é uma divisão administrativa de alguns países do subcontinente indiano

[3] CHATELAIN, Maurice. Obra citada, p 167.

[4] CHATELAIN, Maurice. Obra citada, p 10.

[5] CHATELAIN, Maurice. Obra citada, p 173.

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