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Magia do Caos

Sobre o Livro do Prazer

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por Kenneth Grant

Publicado pela primeira vez em O Livro do Prazer, 93 Publishing, 1975

Austin Osman Spare nasceu em Snowhill, Londres, em 1886. À exceção de William Blake, John Martin, Aubrey Beardsley, Sidney Sime e de um mero punhado de outros, a Inglaterra não produziu artista que se igualasse a Spare em pura habilidade e fecundidade imaginativa.

Spare não foi apenas um artista gráfico; escreveu quatro livros sobre aquilo que descrevia como feitiçaria simbólica: O Livro do Prazer (1909–1913), O Foco da Vida (1918–1921), Anátema de Zos (1924) e O Livro da Palavra Viva de Zos (1951–1956), uma coletânea de aforismos e fórmulas mágicas que permanece inédita até hoje.¹

Spare publicou alguns de seus desenhos em livros como Inferno Terrestre (1905), Um Livro de Sátiros (1907) e em periódicos; também ilustrou alguns livros de outros escritores, mas as quatro obras mencionadas acima são tudo o que restou de suas extensas pesquisas ocultistas. Elas traçam a evolução e o desenvolvimento do curioso sistema de feitiçaria que o ocupou até sua morte, em 1956. Eram, contudo, meros sinais de pontuação, pausas, entre o fluxo constante de trabalhos gráficos que produziu quase ininterruptamente durante uma existência obscura, aparentemente desprovida de acontecimentos e marcada pela pobreza.

Embora Spare não tivesse nenhum mestre específico no que dizia respeito à sua arte,² teve de fato uma mestra — ou talvez guru fosse um termo mais apropriado — em sentido “mágico”. Durante seus anos mais impressionáveis, as circunstâncias o levaram à companhia de uma bruxa confessa, uma misteriosa Sra. Paterson, que se tornou sua amiga e o iniciou nos mistérios de sua arte. Ele era extremamente reservado a respeito da Sra. Paterson. Tudo o que consegui extrair dele ao longo de oito anos de amizade foi que ela já era muito idosa quando ele a conheceu e que afirmava descender de uma linhagem de bruxas de Salem, na Nova Inglaterra, que Cotton Mather não conseguira erradicar.

Spare não se dava bem com a mãe e via a Sra. Paterson como uma “segunda mãe”. O pouco que dizia sobre ela explica grande parte de sua obra e de sua devoção ao ocultismo durante toda a vida. Em certas ocasiões, ela era capaz de se transformar em uma mulher de beleza sedutora: fizera isso na presença dele como prova de seus poderes mágicos.³ Além disso, deu-lhe as chaves por meio das quais ele obteve acesso ao Sabá das Bruxas, o genuíno acontecimento extraterrestre do qual a versão popular não passa de uma paródia degradada e grotesca. Foi durante sua exaltação à dimensão em que esse acontecimento ocorre que ele aprendeu a explorar o subconsciente por meio dos símbolos sencientes e do alfabeto do desejo descritos em O Livro do Prazer. Uma vez demonstrados, esses métodos precisavam ser trazidos para baixo e “aterrados”, e Spare levou vários anos para integrá-los às próprias técnicas criativas.

O Livro do Prazer incorpora as primeiras e vagas incursões pelas regiões subconscientes que ele exploraria mais plenamente em livros posteriores, pois deve-se compreender que não havia nenhum credo de Zos e Kia — a Imaginação e a Vontade — nos ensinamentos que recebeu no Sabá; estes eram de natureza puramente prática e mágica. Foi Spare quem uniu as práticas da bruxaria às doutrinas do Nem-Nem e do “Eu” Atmosférico, que interpretou com uma fantástica destreza manual. Essas doutrinas foram inspiradas por seus primeiros estudos, pois Spare era um leitor onívoro, e algumas de suas influências mais evidentes — de Lao-Tsé a Aleister Crowley — são facilmente reconhecíveis.

Spare foi atraído por Crowley em 1910, quando se tornou membro da Argenteum Astrum,⁴ pouco depois de contribuir com alguns de seus desenhos para o periódico de Crowley, The Equinox.⁵

Spare afirmava ser um dos primeiros surrealistas. Ele havia visualizado o irracional e transcrito sua visão diretamente dos estratos subconscientes da psique; também era capaz de galvanizar centros primordiais da consciência por meio de uma fórmula de ressurgência atávica que poucos artistas — e ainda menos ocultistas — conseguiram reativar sem causar danos à própria obra ou a si mesmos.

O Livro do Prazer contém um método único de obtenção do controle sobre as energias subconscientes latentes na mente humana sob a forma de atavismos primordiais. É evidente que, se tal energia puder ser acessada e canalizada, poderá ser direcionada a fins criativos ou destrutivos em uma escala infinitamente superior a qualquer coisa realizável pela mente no estado mais limitado que caracteriza a consciência “desperta”. Mas o subconsciente não se submete à sugestão consciente, pois se fundamenta na sensação, e não no pensamento; portanto, devem ser empregados meios táteis e visuais para que ele seja penetrado e impregnado pela corrente vitalizadora da vontade ou do desejo. O processo deve ser encenado simbolicamente, e sua intenção não deve ser formulada de modo consciente, pois “a menos que o desejo seja subconsciente, ele não se realiza”. Era necessário encontrar um método para contornar a mente consciente e plantar o desejo diretamente no solo do subconsciente. Para esse fim, Spare desenvolveu seu próprio sistema de símbolos sencientes, que assumiam um significado secreto e constituíam um alfabeto “sagrado” do desejo, no qual “cada letra, em seu aspecto pictórico, se relaciona a um princípio Sexual”. A partir desse alfabeto, é possível construir as palavras de uma misteriosa linguagem da sensação que reifica as imagens da apetência.

Spare acreditava que os hieróglifos de povos antigos, como os egípcios e os ameríndios, eram vestígios de uma linguagem oculta. O fato de os hieróglifos normalmente apresentarem formas zoomórficas sugere que os egípcios praticavam uma modalidade de feitiçaria que envolvia um processo semelhante ao da fórmula de ressurgência atávica de Spare.

Sabe-se que os sacerdotes da Antiguidade usavam máscaras com cabeças de animais ao realizar rituais destinados a produzir efeitos mágicos; sabe-se também que, quando forças adormecidas eram despertadas, o mago era abalado até as profundezas de seu ser ao manifestar os atavismos que seus encantamentos haviam invocado. As convulsões dos “oráculos” tibetanos e os estranhos fenômenos de possessão espiritual comuns à maioria dos povos da Antiguidade constituem provas da teoria de Spare; provam também que alguma força cósmica passava então a possuir o veículo humano e permitia ao mago realizar feitos sobre-humanos.

A força motriz da fórmula da ressurgência atávica é — como se poderia supor — uma modalidade de feitiçaria sexual. Os Adeptos da Antiguidade ocultaram o processo dos olhos dos profanos, isto é, daqueles cuja inaptidão os destruiria, pois, uma vez libertados esses atavismos, ocorre a obsessão mágica, e não há como reverter o curso dos acontecimentos, assim como não se pode reverter o fluxo do sêmen no instante em que está prestes a irromper. Caso o mago seja incapaz de controlar o poder que invocou, ou de permitir que ele se mova sem obstáculos à medida que aflora na consciência, será literalmente fulminado pela morte ou pela loucura.

O segredo dessa feitiçaria é análogo ao que Crowley ensinava em sua Ordo Templi Orientis, a O.T.O., na qual ele era — e ainda é — o fulcro do poder mágico e o meio de obter acesso a dimensões transumanas e de comunicar-se com os habitantes de outros mundos.

Spare sustentava que mantinha comunicação com Inteligências extraterrestres e forças conscientes dotadas de poder e conhecimento sobre-humanos. Referia-se com frequência à Águia Negra,⁶ que inspirou muitos de seus desenhos “mágicos”. A Águia Negra parece ter sido uma concentração de uma sinistra corrente transcósmica que, segundo H. P. Lovecraft,⁷ fora acessada em sua fase primordial pelos cultos de bruxaria da Nova Inglaterra. Talvez a Águia Negra fosse o alter ego da Sra. Paterson, pois foi pouco depois da morte dela que essa corrente começou a se manifestar na obra de Spare.

Qualquer que fosse a identidade do gênio de Spare — a Sra. Paterson, a Águia Negra ou um dos “exércitos de familiares” pelos quais ele habitualmente se via cercado —, permanece o fato de que Spare produziu uma grande quantidade de obras durante estados anormais de consciência ou transes autoinduzidos. Ele não era mediúnico no sentido habitual do termo, tampouco produzia desenhos automáticos da maneira como médiuns espíritas produzem textos automáticos. Em vez disso, Spare transmitia sua obra de modo muito semelhante àquele pelo qual O Livro da Lei e outros escritos mágicos foram transmitidos por Aleister Crowley,⁸ isto é, entrava consciente e magicamente em comunicação com Inteligências sobre-humanas.

Perto do fim da vida, quando Spare vivia mais ou menos recluso em uma favela dickensiana no sul de Londres, perguntaram-lhe se lamentava sua existência solitária. “Solitária!”, exclamou ele e, com um movimento amplo do braço, indicou a multidão de elementais invisíveis e espíritos familiares que eram seus companheiros constantes; bastava-lhe virar a cabeça para captar um vislumbre fugaz de suas presenças sutis.

Descrevi algumas das relações de Spare com seu “exército de familiares” em O Renascimento da Magia, mas o leitor de O Livro do Prazer terá pouca dificuldade em imaginar como eram essas criaturas. Imaginação é a palavra operativa, pois a feitiçaria de Spare é uma forma de imaginação verdadeira, ou de criação de imagens; de “sonhar de verdade”. Ele exaltava a imaginação acima de todas as demais faculdades e afirmava que “os sonhos adquirirão carne” caso a capacidade necessária para reificá-los tenha sido plenamente dominada. Nisso reside a chave de sua feitiçaria: a capacidade de “visualizar a sensação” e transmitir ao observador um mundo de realidade imaginativa.

Augustus John considerava Spare um dos grandes artistas gráficos de sua época e, muitos anos antes, John Singer Sargent, G. F. Watts, George Bernard Shaw e outros o haviam elogiado em termos semelhantes. Spare enviou um exemplar de O Livro do Prazer a Sigmund Freud, que o descreveu como uma das mais significativas revelações dos mecanismos subconscientes surgidas nos tempos modernos.

Qualquer que seja o valor da contribuição de Spare para a arte e a psicologia, sua contribuição para o ocultismo experimental é suprema, pois ele descobriu um método de reificar o mundo dos sonhos sob a égide controladora da vontade plenamente consciente.

KENNETH GRANT
Solstício de Inverno de 1974 e.v.
Copyright © Kenneth Grant, 1975

NOTAS

  1. Com o subtítulo O Grimório Zoético de Zos. Zos era o nome “mágico” de Spare. Uma seleção desses aforismos, acompanhada de uma introdução a Spare e sua obra, será publicada em breve pela Frederick Muller Ltd., de Londres, sob o título Imagens e Oráculos de Austin Osman Spare, de Kenneth Grant. [Publicado em Zos Speaks!, Fulgur Limited, 1999]
  2. Ele foi aluno do Royal College of Art, em Kensington, Londres.
  3. Um fenômeno semelhante ocorreu na presença de Aleister Crowley, quando uma feiticeira idosa se transformou em uma “jovem de beleza enfeitiçante” para fins de vampirismo. Ver As Confissões de Aleister Crowley, organizado por Symonds e Grant, capítulo 42, Jonathan Cape, Londres, 1969.
  4. A Ordem da Estrela de Prata.
  5. The Equinox, “A Enciclopédia da Iniciação”, foi publicado em onze números, dez dos quais apareceram entre 1909 e 1913. Apenas dois desenhos de Spare foram reproduzidos. Ver The Equinox, volume 1, número 2, páginas 140 e 161.
  6. Ver O Renascimento da Magia, Frederick Muller Ltd., 1972, prancha diante da página 149, para uma reprodução da representação da Águia Negra feita por Spare e pintada em 1946.
  7. Howard Phillips Lovecraft, 1890–1937. Escritor da Nova Inglaterra cujos contos de terror envolvem relações com entidades extraterrestres.
  8. Ver As Confissões de Crowley.

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