Este texto já foi lambido por 38 almas.
por Herman Faulstich
“A mulher, por mais ordinária que seja, sempre é virgem para o seu amor até que ele a possua, então ela se torna esposa, amante e talvez mãe, mas quando este amor acabar e outro vier, ela será virgem para o outro novamente. Essa virgindade é íntima, não dependendo de um pedaço de pele. Há mulheres de cabaço que são mais impuras, no sentido de uma falsa castidade, do que qualquer prostituta que ganhe honestamente sua vida procurando dar satisfação conscienciosa aos homens que a pagam.”
~Aleister Crowley
Freya é uma deusa nórdica ligada, entre outras coisas, à sexualidade e à morte. É esposa de Óðr e vem do povo Vanir (1), esta uma classe de deuses ligada à fertilidade, sabedoria e magia — o marido era um deus solar dos Æsir. Para os Vanir, a dimensão sexual é de grande importância, inexiste felicidade plena a um adulto sem as práticas sexuais e o que envolve como a sedução e os jogos eróticos. Alcança um status místico/religioso, pois o sexo sacraliza os deuses e os humanos que se prostram ante eles. Não há como uma sacerdotisa de Freya ser virgem ou puritana.
Freya, como Ishtar e outras deusas relacionadas, é erroneamente adjetivada como “deusa do amor”. “Amor”, para essas culturas, é prazer e gozo; a adjetivação vem de pesquisadores cristãos que tentam minimizar o aspecto sexual devido a repressão religiosa. Para os nórdicos, a relação era outra. Virgindade não era atestado de pureza moral ou espiritual; monogamia não era requisito para felicidade conjugal. O mito de Freya reflete isso: ela deitou-se com anões para obter o colar mágico Brísingamen, o mais belo que já existiu que conferiu a ela poder sobre os pontos cardeais. No poema Lokasenna, Loki afirmou que ela dormiu com deuses, elfos e até humanos em tom de crítica e o pai dela, Njörðr, rebateu dizendo que não havia problema em uma mulher ter um marido e um amante.
Percebe-se em outras deusas o mesmo ponto de vista, por exemplo, na esposa de Oðinn, Frigg. Ela ficou com Hoenir na ausência do marido e ele, por sua vez, teve filhos com outras deusas, gigantas e até humanas. Frigga não amaldiçoou as amantes como Hera no caso de Zeus. Não consta que houve separação e ela era tratada de igual para igual com ele, sendo mesmo a conselheira. O sexo também está presente na magia nórdica, uma vez que o Seiðr, o processo mágico das feiticeiras, utiliza energia sexual para manter-se no estado de transe e, assim, fazer o que tem que ser feito, como viajar a outros mundos, inclusive dos mortos que são mais de um na mitologia escandinava. O Seiðr é uma prática Vanir e que Oðinn provavelmente aprendeu ao ser visto em uma ilha tocando tambor com outras mulheres, vestido também de mulher.

Assim como Ishtar, Freya é relacionada com a guerra mas também com sexo em vez do amor, sendo a associação guerra-sexo mais lógica do que guerra-amor. O ato sexual pleno inclui agressividade, pois é o instinto correndo livremente. Da guerra para a morte é um pulo: Freya dividia os mortos no campo de batalha com Oðinn, após um trato feito com ele depois do roubo de Brísingamen por Loki a mando do aesir. Freya escolhia os melhores e mais viris primeiro e os levava para o seu reino chamado Fólkvangr. Era um “pós-vida sexual” enquanto o de Oðinn (Valhalla) era dedicado a beberagem e festa. Sob a alcunha de Valfreya (“Senhora dos Mortos”) ela chega na carruagem puxada por gatos (2) e faz a seleção enquanto as Valkírias faziam o mesmo para Oðinn. A associação com gatos vem de qualidades felinas associadas ao feminino e magia, mas outra linha aponta como servos divinizados em forma bestial. Outro animal relacionado à deusa é o javali: um adorador sacrificou um boi para ela que, em retribuição, o transformou em javali gigante e o cavalgou; ser montado pela deusa era uma benção. A alusão sexual é clara simbolizando a beleza do ato que ocorria mesmo no pós-vida dela, onde alguns mortos eram divinizados alcançando o status de elfos (3).

Em Thelema, o axioma “Todo homem e toda mulher é uma estrela” capitania a visão libertária feminina. Aleister Crowley possuía uma visão sobre o sexo oposta à repressora cristã. Focando na liberdade, a escolha pertence ao indivíduo:
“Para nós, toda mulher é uma estrela. Ela tem, portanto, o direito absoluto de viajar em sua própria órbita. Não há motivo por que ela não deva ser dona de casa ideal se for a vontade dela. Mas a sociedade não tem direito algum de insistir em estabelecer isso como padrão (4).”
O primeiro símbolo feminino thelêmico está na “Mulher Escarlate” que surgiu em Liber AL vel Legis (5). Baseada na figura do Apocalipse bíblico, surge como parceira e contraparte feminina da “Grande Besta (ou 666)”, Crowley como iniciado. Representa, como ele, os valores morais, mágicos e místicos do Novo Æon (6). Outro símbolo é Babalon, surgido durante uma experiência mística cinco anos depois da escrita de Liber AL representando uma etapa metafísica onde o ego perde o seu protagonismo como centro do eu; o iniciado abre-se para novas formas de compreensão da realidade que são limitadas justamente pelo ego. “Morte” é um sinônimo desse evento. Não são figuras, originalmente, ao estilo deusas, por isso carecem de pontos de contato com o humano, como ocorre com divindades. São mais simbólicas do que humanas.
Por isso o feminino em Thelema precisa de um esforço maior de identificação e trabalho. Está presente, mas difuso, seja nos textos seja na representação que aconteceu nas várias mulheres que ajudaram Crowley em sua Obra. Freya reúne qualidades morais e místicas afins às thelêmicas como liberdade sexual, guerra e morte. A deusa representa uma resistência contra a influência cristã que é combatida por Liber AL:
“Que Maria inviolada seja despedaçada sobre rodas: por causa dela que todas as mulheres castas sejam completamente desprezadas entre vós! (7)”
Ou seja, a visão que construíram da mãe de Jesus Cristo, uma visão religiosa específica, restringe o pleno exercício da feminilidade, coisa que ocorre no paganismo com as várias deusas de um panteão ou “faces da Deusa”. O Cristianismo, repetindo o Judaísmo, tratou de ocultar o divino feminino ou sublimá-lo em símbolos como a assexuada Maria que reflete apenas a maternidade. Esta é apenas um dos aspectos femininos, importante sem dúvida, porém a mulher possui mais camadas. O texto forte do Livro da Lei é disruptivo propositadamente, pois atinge um ponto nevrálgico da nossa sociedade. Freya montando o javali é uma iconografia que lembra a versão thelêmica da carta da Força, onde Babalon monta a Besta. Diferente da tradicional onde o feminino domina o masculino, no tarô thelêmico, “Lust” (“Tesão”), ambos estão em conjunção, em união, da mesma forma que com a deusa nórdica. O ato sexual diviniza o ser humano, tanto com Freya quanto em Thelema.

A relação de Freya com a morte também é interessante, pois o seu pós-vida é de gozo e alegria. O Novo Æon reflete isso na frase thelêmica “A existência é pura alegria (8) ”. Os deuses nórdicos seguiam essa linha, por exemplo, em seus processos de purificação antes de uma cerimônia religiosa: por aqui costuma-se usar jejum, banho, retiro etc., mas entre os nórdicos eles embriagavam-se e festejavam, pois honrar os deuses é demonstrar prazer e não podá-lo como faz o cristianismo. Freya é guerreira e a guerra é elemento thelêmico como está em AL por causa do deus Hórus:
“Agora que seja primeiro compreendido que eu sou um deus de Guerra e de Vingança.”
“Também vós sereis fortes na guerra.”
“Espreitai! Retirai-vos! Sobre eles! esta é a Lei da Batalha da Conquista: então minha adoração será pela minha casa secreta (9).”
Apesar da escassa referência mitológica nórdica em Thelema, muitos aspectos coadunam com a essência da mensagem de Liber AL e Freya, na parte feminina, principalmente. Crowley trabalhava com vários deuses, como os gregos, e uma abordagem com os nórdicos cabe totalmente. Hoje existem mais informações arqueológicas do que na época dele e o acesso também é mais fácil. Deuses nórdicos respondem tanto quanto gregos e africanos e possuem tanta profundidade quanto. Basta começar.

(1) Sob um ponto de vista antropológico, há a hipótese dos Vanir serem o povo nativo da região escandinava e os Æsir aos povos germânicos continentais que chagaram naquelas terras posteriormente;
(2) Não o felino doméstico, mas o selvagem e maior. Gatos eram sacrificados a ela;
(3) Na mitologia nórdica, elfos eram ancestrais divinizados;
(4) “Comentários de AL” que é de onde saiu o trecho do segundo slide;
(5) Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, é um texto recebido por Aleister Crowley que norteou a sua obra mágica;
(6) Novo Æon é um novo período que começou com uma invocação a Hórus que levou a recepção do Liber AL vel Legis;
(7) AL, III:55;
(8) “Lembrai todos vós que a existência é pura alegria; que todas as tristezas não passam de sombras; elas passam & se vão; mas há aquilo que permanece.” AL, II:9;
(9) AL, III:3; III,28 e III:9.
Alimente sua alma com mais:

Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.
Faça parte do problema
Recursos Avançados
+ Área Restrita + Eventos Online.
R$37,00 por mês



