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Magia do Caos

O Feitiço da Banana

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Este é um conto curto que escrevi para uma antologia de ficção pagã chamada Etched Offerings. Claro que a parte engraçada é: não era ficção. Recontado fielmente, o mais perto que consegui do que aconteceu, em terceira pessoa, espero que vocês gostem.

….

— Então, sigilos — disse Arjil — o método básico é pegar sua declaração de intenção — “Eu Quero Uma Banana”, por exemplo.
Ele rabiscou um dedo no ar como se estivesse escrevendo a frase.
— Aí você risca todas as letras redundantes.
Todo mundo observou o dedo dele riscando as letras imaginárias no ar, como se ele estivesse realmente Fazendo alguma coisa.
A maioria deles era muggle raiz — a turma mais nova, do fim da adolescência até seus vinte e poucos, que vivia em volta do café. Uns dois tinham se metido com caça a fantasmas e, na busca por assombrações, acabaram se assustando sozinhos; agora estavam cheios de perguntas para os especialistas estranhos da região. Arjil era conhecido por toda a turma do café como o esquisitão oficial para qualquer coisa fora do normal ou do Outro.
— Depois você pega as letras que sobraram e combina numa espécie de símbolo — isso ajuda a levar sua intenção da mente consciente para o subconsciente e te libera pra jogar sua energia nisso sem precisar ficar segurando a coisa na cabeça.
Robert, o especialista esquisito residente com um tempero wiccano, entrou na conversa:
— Igual eu estava dizendo sobre as ferramentas de ritual, serem um suporte, um símbolo pra certos pensamentos, pra você conseguir focar mais na sua intenção.
— Exatamente — Arjil assentiu. Ele duvidava que os muggles entendessem sequer metade do debate animado deles sobre perspectivas diferentes de enxergar e lidar com o sobrenatural ao longo da última hora, sentados ali na calçada, mas ouviam com atenção. Talvez tivessem aprendido alguma coisa.
— Então, você pega esse símbolo que você fez — Arjil fingiu apanhar o símbolo imaginário — e joga o voo nele.
Ele fez um gesto grandioso de conjuração com a outra mão e, por acidente, deixou poder escapar para o pensamento, infundindo aquele símbolo imaginário que ele tinha, aparentemente, criado. Ele sentiu o magick se mexendo e o símbolo na mente dele brilhou, como se estivesse começando a disparar.
— Que porra é essa? — ele fungou, balançando a cabeça. — Eu não quero conjurar Banana!
Ele amassou o sigilo imaginário numa bolinha e fingiu jogar fora. — Vai saber que diabos isso faria.
Ele estava só zoando, na real — mais pra divertir Robert e Olin do que qualquer outra coisa. Era uma piadinha boba de feiticeiro, e os três deram risada da ideia absurda de conjurar Banana sem querer.
Por uns trinta segundos.
— Eu tô sentindo cheiro de banana — disse um dos moleques do outro lado da mesa.
Todo mundo meio que riu.
Arjil achou que o garoto só estava entrando na brincadeira. Tudo na esportiva.
— Não, sério, eu tô sentindo cheiro de banana.
— Ué, caralho? Eu também!
Olhos arregalados se viraram para Arjil enquanto um cheiro de Banana, espalhado e inconfundível, vinha de algum lugar misterioso e descia sobre o café.
Arjil piscou quando o cheiro acertou em cheio. — Mas que…?
Olin quase morreu de rir. — Você acabou de conjurar Banana. Cara, eu nunca vou deixar você esquecer isso.
— Mas eu não… quer dizer… eu não Quis conjurar nada.
— É isso que deixa a porra toda engraçada — Olin gargalhou.
— Eu não acredito que você fez isso agora — Robert conseguiu dizer, engasgado, limpando as lágrimas de riso.
— É, ué. Acontece — disse Arjil, rindo, meio incrédulo.
A comitiva muggle só encarava, uns dois sorrindo de orelha a orelha, o resto com cara desconfortável. Arjil reconheceu aqueles olhares: a compreensão nascendo, o entendimento de que eles tinham acabado de testemunhar magick, pronto-acabou. Ali.
Uma alegria selvagem borbulhou e rolou dentro dele com um prazer secreto — eles nunca poderiam desver aquilo, ou descheirar aquilo, no caso; mas tanto faz. Eles iam lembrar, Para Sempre, que magick era real.
No fundo, aquela era a missão dele nesta vida — fazer as pessoas verem, deixá-las acreditar como um dia acreditaram, devolver aquele Deslumbramento infantil a um mundo que tinha ficado cínico demais. Se era algum grande plano dos Deuses que o colocara ali ou uma busca insana e impossível que ele assumira em autodefesa contra a banalidade que desprezava, ele não sabia. Só sabia que era o que tinha que fazer. Sua grande Obra. E se pra isso fosse preciso conjurar Banana por acidente na frente de um bando de muggles, ele estava de boa com isso.
— E É por isso, amigos, que vocês devem sempre ter cuidado com o que desejam — disse Arjil, sério.
Todo mundo riu de novo, exceto Olin.
Olin sacou.
O jovem que tinha começado as perguntas estava falando sobre Encruzilhadas — o que constitui uma encruzilhada, se precisava ser uma encruzilhada “de verdade”, e se você tinha que aceitar qualquer acordo que o diabo que supostamente você encontra ali oferecesse pra perder a alma como um velho blueseiro, ou se isso simplesmente acontecia.
Arjil e Robert apontaram em uníssono para o cruzamento logo atrás deles.
— Aquilo é uma encruzilhada? — perguntou o jovem Adam, parecendo nervoso e empolgado ao mesmo tempo.
— Qualquer lugar onde dois caminhos se cruzam — disse Robert. — Pode ser rua, pode ser trilha de coelho no mato, o que for.
— Ou figurativo, em vez de literal — disse Arjil.
— O “Diabo” — ele fez aspas com os dedos — pode aparecer em qualquer lugar onde sua vida pode virar pra um lado ou pro outro. Um monte de coisas se encaixa como encruzilhada.
— Mas — disse o jovem Adam — tem que ter um acordo verbal?
— Você só precisa concordar. Escolher — disse Arjil.
— Não era pra ter um contrato ou alguma coisa?
— Você só precisa concordar — Robert repetiu.
Arjil ficou impressionado por Robert entender a natureza sutil do magick das encruzilhadas; ele parecia jovem pra isso, mas já tinha ido pra guerra duas vezes, então tinha encarado encruzilhadas à vontade.
Talvez, às vezes, uma figura sombria — algum Loa ou deus antigo, ou o próprio Diabo — realmente aparecesse com uma oferta. Na maioria das vezes, era só escolha: esquerda, direita, ou seguir em frente.
Na maioria das vezes.
Às vezes tinha Alguém ali, e Arjil sentiu aquela sensação estranha e sóbria de que, desta vez, esse alguém era ele.
— Então o que você quer de uma encruzilhada? — perguntou Arjil, encarando o rapaz com um olhar perspicaz.
— O que eu quero mesmo é achar a coisa real, ver o sobrenatural — disse o jovem Adam. — Vocês conhecem algum lugar pra ir? Quer dizer, a gente foi em cemitério e em estrada mal-assombrada e achou uns pontos frios e tal, mas…
— Olha — Arjil interrompeu — magick é traiçoeira. É sutil. A maioria dessas coisas que vocês procuram não está exatamente Aqui. Está em algum Lugar Outro — do outro lado da cerca, por assim dizer. É por isso que quase sempre vocês não conseguem ver nada além de sombras ou relances pelo canto do olho. O “onde” específico não importa tanto — é em todo lugar. Só que na maioria dos lugares essa cerca, ou Véu como alguns chamam, é grossa demais pra enxergar através. Em alguns lugares, porém, o Véu é fino. O que vocês precisam aprender a achar é um lugar Entre. É ali que o magick acontece.
— Como assim?
— No meio de uma porta, em becos, encruzilhadas, clareiras no mato, entre duas árvores, em qualquer lugar entre aqui e ali, na verdade. Eu não sei por quê, mas esses lugares têm uma Ressonância particular, um tipo de zumbido que, quando você aprende o que está procurando, você encontra por todo lado se começar a pensar do jeito certo. Talvez porque eles não sejam exatamente lugares, a maioria das pessoas nem pensa neles, então ficam livres das influências estáticas da realidade consensual e, assim, a realidade desses pontos se torna mais mutável — mas isso é outra conversa. Enfim, tem um bem grande logo ali embaixo, na rua.
O jovem Adam pareceu confuso por um momento, então baixou a cabeça, pensando com força.
— Vamos agora — ele disse, tentando parecer tranquilo e casual, mas Arjil sentia a empolgação, a vontade fervendo dentro dele.
— É — pensou Arjil. — Acho que eu sou, de fato, o Diabo na encruzilhada hoje à noite.
Ele considerou por um instante como se sentia em relação a isso. Aquilo era, na verdade, um conhecimento um pouco perigoso que ele estava prestes a ensinar ao garoto, e ele sabia por experiência dura que alguém podia se meter em todo tipo de encrenca. Perceber uma realidade em múltiplas camadas podia muito bem quebrar a cabeça de alguém — e não dava pra voltar atrás; a porta se fechava atrás de você.
Mas ele tinha pedido por isso. Era o que queria. Ele já tinha perseguido o mistério até aquela encruzilhada específica e já tinha aceitado o acordo. Arjil deu de ombros e assentiu. Era o tipo de coisa que ele fazia.
— Claro — disse ele, levantando, terminando o fundo frio do café e pegando seu bastão de caminhada com um sorriso largo. — Quem mais vem?
Robert, Olin, o jovem Adam, um garoto com um sorrisão e a namorada dele, com cara de nervosa, seguiram Arjil enquanto eles desciam a rua.
Eles pararam no meio de uma fileira de prédios antigos em que um tinha sido arrancado — vestígios de reboco ainda grudados nos tijolos gastos, a fundação empenada e tomada por mato.
— Isto — disse Arjil — é um lugar Entre.
Ele sentiu o arrepio na pele quando atravessou o limiar onde a parede um dia existiu. Caminhou com os braços abertos e os olhos semicerrados até chegar exatamente ao centro do lugar, onde a luz do poste era cortada pela sombra dos prédios. Ele amava lugares assim, cheios de possibilidade, aquela sensação de crepúsculo em que qualquer coisa pode acontecer, e sorriu ao sentir o magick rondando ao redor dele como um gato de névoa roçando no seu corpo.
Todos seguiram — Robert e Olin com cautela, porque sentiam também; o jovem Adam com um ar pensativo; e o Garoto Sorridente e a Garota Nervosa grudados um no outro com aquela ressonância que adolescentes têm numa aventura “assustador-divertida”.
— Eu não sinto nada — disse o jovem Adam.
— Eles sentem. Não sentem? — disse Arjil, gesticulando para Robert e Olin. — Um tipo de… zumbido, uma vibração.
Olin abriu seu sorriso maníaco e assentiu — ele parecia um espantalho demente de dentes pontudos quando ficava daquele jeito.
— Ah, sim — disse Robert. — Fica onde ele está e fecha os olhos, me diz o que você sente.
Ele gesticulou para Arjil sair do lugar. O jovem Adam foi até o ponto e começou a girar devagar.
— Não sei… tipo um hummm, sabe? Como um carro com muito grave vindo pela estrada lá de longe ou algo assim, meio que…
— Isso! — disse Arjil. — Essa é a Ressonância.
— Agora — disse Robert — o que vai te ferrar mais tarde é se você realmente sentiu, ou se só sentiu porque ele disse que você ia sentir.
Arjil riu. — Esse é o inferno do negócio inteiro: na maior parte do tempo você fica se perguntando se aquilo estava Mesmo ali, ou se você tirou algo do nada. É muito difícil não pirar — tipo o Ronnie.
Todos sabiam quem era Ronnie.
— Você quer dizer o senhor “eu bati o dedo do pé então deve ser obra dos arquidemônios supremos do inferno querendo me pegar” ou “eu fui no cemitério e ventou então Azazimbulakgresheshal, o sétimo demônio do submundo, estava vindo comer minha alma”? — disse Olin, a voz de baixo dele retumbando com desprezo.
— Exatamente — disse Arjil.
— Puta idiota — disse Olin.
— É.
— Então é nesse tipo de lugar que fantasma e essas coisas acontecem? — perguntou Adam, olhando ao redor como se esperasse que alguma assombração saísse se arrastando da escuridão.
— É, só que, na maior parte do tempo, não acontece. Na maior parte do tempo, você só sente um arrepio como se estivesse sendo observado, talvez veja alguma coisa pelo canto do olho, como eu disse. Mas é mais Provável acontecer em lugares assim. O Véu é bem fininho aqui. Acho que vou acordar isso.
— Ah, merda — disse Olin, quando Arjil tirou uma caneta e foi até uma das paredes.
— Você tá fazendo o que eu Acho que você tá fazendo? — disse Robert, num tom entre desaprovação e diversão.
Arjil abriu um sorriso e assentiu enquanto desenhava o sigilo, depois virou e foi marcar o outro lado do beco.
— O que ele tá fazendo? — disse o jovem Adam, indo até a parede pra ver o que ele tinha feito.
— Bom — disse Arjil, virando do trabalho com um floreio — você lembra do que eu disse sobre sigilos, né? Eu fiz um que funciona como uma rachadura no tecido da realidade. Deixa o magick vazar mais facilmente pro lado de cá da cerca. E qualquer um que… Ah, tarde demais.
O jovem Adam encarava o símbolo na parede com intensidade. Era inofensivo o bastante — só um L cortado por um S em forma de raio. Tinha setas em todas as pontas e um pontinho pequeno de um lado.
— O quê? — disse o Garoto Sorridente.
Arjil virou para os dois que estavam na sombra. — Bom, parte da intenção era enfiar uma farpa na mente das pessoas se elas vissem a coisa — uma dúvida, uma semente de Deslumbramento. Além de deixar os mundos delas um pouco mais interessantes por um tempo, isso ajuda a tornar a própria realidade um pouco mais mutável pra quem tem o dom, afrouxando os laços da realidade consensual.
— Mais interessante Como? — perguntou a Garota Nervosa.
Olin tossiu de um jeito significativo, e todos se viraram para a boca do beco, onde um gato preto estava atravessando. Ele parou e ficou olhando para eles por um bom tempo, antes de seguir sua vida, do jeito dele.
— Assim — disse Robert.
— Agora — disse Arjil, sem conseguir conter o sorriso — isso Podia ter sido só coincidência.
— É, mas não foi — disse Olin.
— Não, mas ainda assim. É assim que acontece — Arjil se virou para o jovem Adam. — Na maior parte do tempo, é isso que você consegue. Pode ser coincidência. Mas Olin, Robert e eu Sabemos que não foi. Claro, a gente pode estar iludido ou querendo que seja real, mas… Isso Acabou de Acontecer. Como você escolhe encarar isso é com você, e depende de que tipo de mundo você quer viver. Quer viver num mundo onde magick acontece? — aí está. Se não — ele deu de ombros — você pode só descartar e esquecer.
— Ninguém vai esquecer que você conjurou Banana sem querer — disse Olin, rindo de novo.
— Ponto — disse Arjil, e puxou o caminho de volta pro café.


Agora vem a parte realmente engraçada disso: eu chego em casa e mando mensagem pra minha garota, que estava lá no Missouri — logo depois que eu termino de contar pra ela, o cara com quem ela estava ficando entra com um monte de bananas e não faz ideia de por que comprou.

Aí ela diz: “já que você tá embalado, eu aceito um milk-shake de chocolate”. Achei engraçado, então faço o negócio de novo, de brincadeira, e nem penso mais nisso. No dia seguinte ela está dirigindo e para em algum lugar e, como está com vontade de milk-shake, ela pede um no almoço. Quando volta pro carro, ela olha o recibo — eles não cobraram o milk-shake. Eu usei magick pra dar um milk-shake de chocolate pra minha amada. pá, eu venci!

Alimente sua alma com mais:


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