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Explorando a Visão Tradicional Sobre Kundalini

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por Antar Firak

Invoco o Sagrado Nome de Kali Maa, a Maravilhosa Grande Mãe que Ama e Protege os Filhos e Filhas do Vama Marga Tantra, que Ela nos abençoe com discernimento e clareza na transmissão dessa sabedoria que me foi entregue pelos Mestres e Mestras que me guiaram até aqui.

Quero começar a segunda parte deste artigo agradecendo o alto grau de interesse dos buscadores dentro desse tema e principalmente ao site Morte Súbita, onde estamos publicando essa série de reflexões sobre um conceito tão profundo quanto Kundalini, e que temos a intenção de, tanto quanto nos for possível, desmistificar muitas das idéias errôneas que vemos disseminadas através da internet de forma geral.

Nunca vai ser suficiente enfatizarmos nessas linhas que não queremos dar a última opinião dentro do tema, isso seria ridiculamente absurdo, mas a nossa clara intenção é abrir a discussão de forma mais profunda e ampla e principalmente embasada pela tradição, que literalmente vem desenvolvendo esse sistema a milhares de anos, e com isso, devolver a base espiritual,filosófica, ritual, yóguica e fisiológica que representa Kundalini Shakti.

Vamos partir da base que fornecemos na primeira parte deste artigo onde descrevemos, através de diversos pontos de vista de profissionais do campo científico, a fenomenologia dos tremeliques experienciados dentro dos processos das referidas “ativações de kundalini”, e a partir de agora vamos mergulhar dentro das tradições indianas, sobretudo no Yoga e nos Tantras, para demonstrarmos de fato as raízes do conceito de Kundalini, não com achismos intuídos nem tampouco com canalizações de entidades extraterrestre para a tristeza do jovem místico, vamos nos ater puramente a base do ensinamento, para que possamos avaliar se isso realmente tem alguma aplicabilidade em nosso contexto atual.

Te desejo um bom estudo, Jaya Maa!


A Consciência (Shiva) observa Seu Poder Manifestado (Shakti) em toda a Criação. No Ser Humano essa União entre Consciência e Poder torna-se Ahamkara, ou ego, quando identificado com a vida material, ou seja, em movimento descendente e para fora. Por sua vez, quando identificado com a vida espiritual, em um movimento ascendente e interior, a União entre Consciência e Poder torna-se Kundalini.

Acima está descrito o conceito central da tese exposta nesse artigo e que também representa o cerne da minha prática pessoal dentro das tradições do Yoga e do Tantras e que está profundamente embasada do ponto de vista escritural, nos comentários tradicionais e também em grandes nomes que atualmente representam essas visões clássicas dentro do âmbito acadêmico.

Vamos começar nossa exposição citando uma das primeiras fontes tradicionais conhecidas pela grande maioria do público interessado em Yoga e Tantra de forma geral, esse é o Hatha Yoga Pradipika que foi escrito por Swami Swatmarama por volta do século XV d.c (entre 1400 e 1450), e que é um dos textos fundamentais do Hatha Yoga, e embora não represente a primeira menção ao conceito de Kundalini, é a base para muito do que chegou até nós, então começar por ele faz todo sentido.

O capítulo III desta obra é intitulado: Kundalini, o Poder Serpentino e do verso 106 a 108, podemos ler: “A Grande Deusa Kundalini dorme fechando com a sua boca a passagem através da qual pode ascender ao Brahmarandhra, o lugar onde não existe nem dor nem sofrimento. Kundalini Shakti que dorme sobre o bulbo proporciona libertação ao Yogi e escravidão ao ignorante. Aquele que conhece Kundalini, conhece o Yoga. Kundalini se descreve enroscado como uma serpente; aquele que conseguir fazer a Shakti se movimentar do Muladhara para cima, alcançará a libertação, sem sombra de dúvida.”

Esse trecho nos traz alguns pontos que saltam aos olhos do estudante e buscador bem treinado na sua jornada espiritual, quero dizer, a primeira coisa apontada no texto é que quando Kundalini ascende até o topo da cabeça o ser alcança o lugar onde não existe nem dor e nem sofrimento e esse é um apontamento importante para nós, e mesmo que seja apenas no sentido metafísico da coisa, essa cessação do sofrimento dentro do ponto de vista de um processo de desenvolvimento é algo que muitos desejam, mas com efeito, que poucos alcançaram na prática.

Então, surge inevitavelmente uma primeira questão, será que nessas ativações de kundalini onde as pessoas narram com alegria que sentiram uma energia subindo até o topo da cabeça, estão fazendo as pessoas atingirem essa cessação do sofrimento?

Outro ponto que nos chama atenção é que Kundalini Shakti concede libertação ao Yogi mas escravidão ao ignorante, e esse pequeno trecho é uma das coisas mais lindas, simples e elucidativas a respeito desse conceito sobre o qual estamos nos debruçando e além disso, representa uma das grandes chaves esotéricas para a compreensão do mito de Deus, o Jardim do Éden, Adão, Eva e a Serpente, mas por ora, eu deixo esse ponto para a sua intuição.

O que podemos trazer de uma forma totalmente prática é que dentro desse conceito está implicita a dualidade simbólica da serpente, sobretudo dentro do contexto de Kundalini, pois para aquele que vive no sentido interno e ascendente, o yogue, esse poder concede a libertação final, ao passo que para o ignorante (pashu), a pessoa comum e escrava de si mesma, presa nas ilusões do mundo fenomênico, tem nesse poder a raiz de sua própria escravidão, quer queira quer não, quer goste quer não, quer saiba ou não sobre os mecanismos e leis espirituais que regem a nossa realidade.

“Aquele que conhece Kundalini conhece o Yoga”, esse trecho é claríssimo nas suas implicações mais óbvias e diretas e aqui podemos trazer duas formas de ver o termo yoga, o primeiro deles vem do seu contexto mais conhecido de “união” o Eu inferior com o Eu Superior, e no segundo em seu contexto de “método” ou “sistema” prático para a expansão da consciência de forma gradativa até a união perfeita, ou seja, em um caso estamos cientes de que o processo de Kundalini resulta na união perfeita com o divino em nós e no outro, compreendemos que essa união é feita de forma gradativa, através de processos científico-espirituais, tão conhecidos em diversos sistemas yoguicos e tântricos.

Por fim, “aquele que conseguir mover Shakti para cima alcançará a libertação, sem sombra de dúvida.”, e o que me alegra neste trecho é a ênfase: “sem sombra de dúvida”, afinal de contas, caso isso de fato aconteça em um ser, este conquistou a meta final da vida e depois disso, basta apenas irradiar a luz plena e perfeita desse estado último da consciência.

A melhor parte disso é que hoje você pode atingir esse resultado em uma imersão de final de semana ou até mesmo em uma sessão online de 1 hora, quem diria?

Existe um outro trecho do capítulo III deste texto que vale a pena ser citado, versos de 1 a 3: “Assim como Ananta, a serpente infinita, sustenta a terra com suas montanhas e florestas, da mesma forma a Kundalini é o fundamento de todas as práticas de Yoga. Quando a Kundalini desperta por mediação do Guru, todos os chakras e todos os granthis são atravessados. Então Sushumna nadi torna-se o caminho real do Prana, a mente inativa e o Yogue vence a morte.”

Aqui nós temos mais alguns apontamentos importantes, primeiro de que os vários sistemas yoguicos encontram a sua plena realização em Kundalini, seja de forma direta ou indireta, da mesma forma que coloca o Guru como condição para o sucesso do processo e a mente inativa, bem como a vitória sobre a morte, como resultado da jornada espiritual.

De certo os ativadores de kundalini esqueceram desse contexto, afinal de contas muitos deles dizem que canalizaram sozinhos o seu próprio método de kundalini, ignorando completamente o contexto tradicional e milenar que existe muito antes deles sequer estarem no ovo de seus pais!

Ainda no ambiente do Hatha Yoga, no livro A Síntese do Yoga Aurobindo escreve: “O primeiro objetivo da imobilidade da asana é liberar-se da agitação que infligimos ao corpo e força-lo a conservar energia prânica, em lugar de dissipá-la e desperdiçá-la. A experiência na prática de ásana não é de uma cessação ou diminuição de energia pela inércia, mas de um grande aumento de força, um influxo e uma circulação de forças maiores. O corpo, habituado a eliminar energia supérflua pelo movimento, no início está mal preparado para suportar esse aumento e essa ação interior contida, e revela seu desconforto por tremores violentos.”

Por essa citação de Aurobindo vemos que a pessoa comum mal consegue conter o impulso de movimento da energia vital e que a descarrega e a desperdiça constantemente, sendo o trabalho do ásana no Hatha Yoga, ajudar o praticante a aumentar a quantidade de energia vital (Prána) e a conservá-la no sistema, de forma que ele adquira cada vez mais habilidades no seu manejo.

Importante salientar que, embora Prana esteja associado e faça parte de Kundalini, não são conceitos idênticos, pois Prana representa a energia vital enquanto Kundalini o Poder Total da Consciência, de forma que, se temos dificuldades em lidar com a potência dos ares prânicos (vitais), imagine o Poder Cósmico e Espiritual de Kundalini.

No livro O Poder da Serpente é dito: “Kundalinī é a forma estática da energia criativa nos corpos, o qual é a fonte de todas as energias, incluindo o Prāna. De acordo com a teoria deste autor, Kundalinī é alguma força que é distinta do Prāna, compreendendo este termo como significando vitalidade, ou princípio de vida, o qual na entrada dos corpos mostra-se em diversas manifestações de vida que são os Prānas menores, dos quais a inspiração é chamada pelo nome geral de força em si mesma (Prāna).”

Dito isso, vale demais a pena construirmos uma ponte repleta de citações históricas, que vai unir o Hatha Yoga Pradikipa, texto central das correntes do Hatha Yoga, ao Tantra Clássico, demonstrando então que o Hatha é um sistema que surgiu a partir do declínio da era clássica do tantrismo, vejamos o trecho do livro O Tantra Iluminado de Christopher Wallis na página 236:

“ Vamos descrever brevemente o desenvolvimento (alguns dirão declínio) do Tantra para o que, no período pós-clássico, passou a ser chamado de hatha-yoga. Muito mais pesquisas são necessárias para esse assunto, mas o trabalho mais recentemente feito por estudiosos europeus tem lançado uma luz muito bem vinda. Nos séculos XII e XIII, a linhagem Sambhavananda sul-indianas do Tantra Saiva apresentou uma prática centrada na ascensão da energia kundalini através de seis centros sutis chamados chakras. Esse é precisamente o sistema que encontramos nos textos hatha-yoga posteriores. O texto de ponte entre essa linhagem Sambhavananda do Tantra Saiva e o hatha-yoga posterior é o Compêndio de Matsyendra, recentemente traduzido pelo estudioso europeu Csaba Kiss. Ele conta a história de Matsyendra e seu discípulo principal, o homem que se acredita ter fundado a tradição prática de hatha-yoga.

De acordo com o Compêndio de Matsyendra, no século XIII, um membro da família real do reino de Chola (atual Tamil Nadu), que mais tarde se chamaria Gorakshanatha, conheceu um mestre chamado Matsyendra (claramente nomeado em homenagem ao fundador do Kaulismo, de cinco séculos atrás). Essa reunião foi tão impressionante para Goraksha que ele vagou pela Índia por dois anos procurando Matsyendra, finalmente encontrando-o na região ocidental. Matsyendra estava se esbaldando com vinho e mulheres, e quando Goraksha se aproximou dele humildemente, e ele, sem indícios de julgamento de tal conduta, passou pelo teste e recebeu a iniciação do mestre.

Goraksha é agora considerado por muitos como o fundador do sistema hatha-yoga e embora ele não tenha usado esse exato termo, provavelmente há alguma verdade nisso. Parece que Goraksha viajou muito, ensinando práticas como a purificação corporal, posturas chamadas bandha, karanas e mudras, asanas, visualizações sutis do corpo, meditações – tudo destinado a despertar a energia interna da meditação chamada kundalini, levando a um estado de união com o Divino. Ele é o autor provável de alguns dos primeiros textos associados ao hatha-yoga, como O Sol do discernimento (viveka-martanda) e os Cem Versos de Goraksha. Esses textos, juntamente com o Obtenção do néctar de Virupaksa Natha, seriam adotados por um grupo de linhagem que se tornou conhecido como os Yogis Natha, voltando-se a Goraksha Natha como seu fundador, e Matsyendra Natha como seu santo padroeiro.

Os Nathas eram yogis ascetas quase-Tântricos que propagavam práticas alheias ao bramanismo, consagradas em textos com uma visão não-dual, mas que não possuíam um componente filosófico substancial.  O texto mais importante (provavelmente) produzido pelo grupo de linhagem dos Yogis Natha é o Hatha Yoga Pradipika do século XV. Esse texto, o primeiro do hatha yoga a incluir uma ampla gama de posturas que chamou asanas, foi extremamente importante, tornando-se o texto mais citado sobre hatha-yoga após o século XV.”

O fato a ser evidenciado dentro dessa exposição de Wallis é que a linhagem Sambhavananda deu origem ao hatha-yoga, mas quando perguntamos de onde surgiu essa linhagem que deu início ao sistema focado no conceito de Kundalini, vamos chegar a uma das sampradayas clássicas do tantrismo: a Tradição de Kaubjika.

Vejamos mais um trecho de Wallis no Tantra Iluminado que elucida essa conexão de forma inequívoca: “Há alguma evidência de que a tradição de Kubjika  surgiu nos Himalaias ocidentais no final do século X, mas, em caso afirmativo, sua base logo se mudou para a cidade de Candrapura (a Chandor moderna) no reino de Concã (a Goa moderna), local de onde foi transmitida para o extremo Sul. No Sul, uma forma alternativa do Kaubjika floresceu, chamada de linhagem Sambhavananda, em que prevalecia a adoração de Kajjak Navatma-Siva, ou a adoração de ambos como um casal. A linhagem Sambhavananda era sincrética à medida que incorporava a adoração de Tripura, figura central também no Sri Vidya.

Vemos evidências para a conexão do Sambhavananda como o hatha-yoga inicial no sítio arqueológico das cavernas de Panhale-Kaji (originalmente Pranalaka), encontrado no distrito Sindhudurg de Maharashtra, ao norte de Goa. Nestas cavernas, datadas do século XIII, encontramos uma fartura de imagens dos Nathas, uma linhagem que, como já vimos, foi o principal suporte da tradição hatha-yoga em seus primeiros séculos. A Caverna 29 contém imagens de 84 siddhas Natha. As cavernas, que também contém imagens de Tripura, estão localizadas perto do coração da seita de Kaubjika, em Goa, Essas cavernas podem ser o local descrito no Compêndio de Matsyendra como o lugar onde Goraksha, depois de vagar pela Índia em busca de seu professor Matsyendra Natha (que ele conheceu brevemente na região de Tamil), finalmente o encontrou e recebeu sua iniciação.

O acadêmico Mark Dyczkowski publicou recentemente um estudo de doze volumes sobre o Manthana-bhairava-tantra, uma escritura do século XI do sampradaya Kaubjika. Só podemos esperar que isso atraia a atenção de estudiosos e leigos e. como resultado, mais pessoa s perceberão que os elemento de kundalini-yoga, tão populares no ocidente (por exemplo, o sistema de chakra amplamente conhecido), derivam do Tatra Saiva.”

Temos então na tradição Kaubjika que é assim nomeada graças a Deusa Kubjika, figura que personifica Kundalini, o poder em espiral e o sistema completo, o poder da deusa liberadora e integradora e que está geralmente adormecida na grande maioria dos seres. As suas escrituras são a principal fonte para a teoria da kundalini yoga e o sistema de chakras atuais, além de Kubjika muitas vezes ser vista como uma emanação de Para, o que a conecta com a Trika Sampradaya. Kubjika também era conhecida por emanar Tripura, o que a conecta diretamente com a Sampradaya Sri Vidya também, o que faz muito sentido nessa nossa reflexão e que certamente abordaremos mais profundamente logo à frente.

Por agora vale a pena registrarmos o mito de origem de Kubjika e o seu profundo simbolismo:

“Era uma vez (antes do Tempo) em que Bhairava, a forma inspiradora de Shiva, visitou a residência do deus Himalaia, onde conheceu a Filha da Montanha, geralmente chamada Parvati, mas aqui chamada Kalika (Pequena Kali). Bastante encantado com ela, Bhairava a presenteia com uma visão do universo ardendo com a êxtase da Transmissão Empoderadora, uma visão que a desperta profundamente. Ele diz que ela deve atingir a sua própria natureza-essência, além de todas as qualidade, e então ele desaparece. Ela fica confusa e desorientada e, em um estado de admiração, pergunta: ‘Quem é você, e o que eu estou fazendo?’

Depois de muito pensar, ela viaja para a Montanha da Lua no oeste para procurar por Bhairava. Aqui, em um paraíso cheio de toda espécie de pássaros, abelhas e plantas floridas, todos requintadamente belos, onde reside o poder do amor apaixonado, ela encontra uma pedra mágica. Ela sobe na pedra e entra em transe yoguico, tendo recebido a energia da Transmissão Empoderadora. Ela se torna a ‘linga feminina’, uma fusão de princípios masculinos e femininos. Nessa forma, ela é feliz em si mesma e, por isso, às vezes é retratada como duplicada e lambendo a sua própria vulva, que é uma das razões pelas quais ela é chamada Kubjika, que significa A Corcunda. Isso simboliza não o narcisismo, mas a fruição introvertida do Absoluto divino quando experimenta a plenitude do seu ser, incluindo todas as suas polaridades. Bhairava aparece e a elogia nessa forma andrógina do linga feminino, tirando a deusa de sua contemplação introvertida, e ela transborda na forma em que é adorada, chamada “bonita, feia e multifacetada”. Bhairava pede a ela a Transmissão Empoderada, mas ela se curva em constrangimento, sabendo que deve ser dada através da união conjugal: que ela deve realizar no mundo externo a sua realização interna. A união de Bhairava e Kubjika (Shiva e Shakti na sua essência encarnada sexual) dá origem ao Ponto Máximo imortal, uma singularidade “ardendo como a luz de dez milhões de sóis”. A explosão desse ponto através do comando empoderador da Deusa (ajna) gera o universo em uma série de emanações (Big Bang?).”

Que coisa mais linda é nossa Grande Mãe, e se o tema central deste estudo sobre o qual nós estamos nos debruçando é Ela (Kundalini), o amor e a devoção devem ser centrais em nossa visão, pois não existe nenhum avanço nesse caminho real e em acordo com as tradições e sistemas ancestrais, sem o desenvolvimento e a aplicação de nosso Bhakti na direção de nosso Ishta Devatta, que representa e personifica Kundalini dentro de nosso sadhana, isso é condição básica.

E neste momento que temos um panorama muito mais profundo e contextualizado sobre a história de Kundalini, com base em registros antropológicos e relatos históricos, podemos contemplar com alegria um horizonte infinito que se descortina à frente daqueles que são devotos e carregam o respeito necessário pelo ancestral, pois podemos perceber que o tema é muito mais amplo do que se diz, o que imediatamente nos causa espanto e até alguma tristeza, ao vermos como algo tão sagrado hoje é tratado de forma tão supérflua.

Confesso que uma das coisas que mais tem atravessado a minha mente nos últimos meses trabalhando dentro desse livro é o choque de perceber que não tem ninguém fazendo nada em relação a isso, que cada um fala o que quer e repetem coisas que ouviram ou leram na internet como se fossem leis e tradições, quando na verdade não são, e isso realmente me entristece, e o único motivo de estar tão empenhado nessa tese é para que as pessoas sérias tenham ao menos uma chance de conhecer algo embasado em meio a tanta bagunça e desinformação.

Então, ao retomarmos ao nosso raciocínio, percebemos que temos uma cronologia de trás para a frente até então, começamos pela linhagem dos Nathas e o seu texto central chamado Hatha Yoga Pradipika no século XV, depois retornamos ao século XIII com a linhagem Sambhavananda e o Compêndio de Matsyendra e por fim, chegamos à linhagem Kaubjika do século XI com o Manthana Bhairava Tantra.

Embora existam ainda muitos estudos a serem feitos obviamente, temos pela primeira vez na história comprovações acadêmicas que revelam o trajeto de desenvolvimento das tradições tântricas que desenvolveram o conceito de Kundalini, isso é um marco para os verdadeiros buscadores que podem finalmente contar com fontes de informações reais e tradicionais, sem nenhuma interpolação mística ou interpretações nova era que acabaram deturpando o conceito original.

Ao entrarmos dentro do mito da Deusa Kubjika temos dois pontos de extrema importância: A) a Sampradaya Kaubjika é uma das nove escolas clássicas do tantrismo, a exata escola que desenvolveu o sistema tântrico que abraçou o conceito de Kundalini como o Poder da Consciência em Manifestação e B) a Sampradaya Kubjika se desenvolve a partir de conexões de escolas clássicas ainda mais conhecidas como a Sri Vidya, Trika e Kali Kula Sampradaya (escola Krama).

Todas essas escolas têm algumas características em comum muito interessantes, a primeira delas é a sua orientação shakta nos sistemas filosóficos, ou seja, a devoção está centrada em Shakti ( A Grande Mãe) e não em Shiva como é mais popular. Outro ponto importantíssimo é que esse maior alinhamento ao culto Shakta implica em uma visão de realidade baseado no não-dualismo, ou um monismo perfeito para ser mais claro, que diferentemente do advaita vedanta, onde se nega o mundo, é afirmado que: ‘a criação é a manifestação da consciência e idêntica à ela, como o fogo e o poder de queimar são a única e a mesma coisa.’

Essas linhagens e cultos do Tantra Shakta, ou Tantra de Mão Esquerda como é mais conhecido, afirmam o mundo como a Glória de Shiva, isso é Shakti/Kundalini, é a própria vida que te anima não apenas no visível, mas em tudo o que existe e inexiste, assim como nas múltiplas dimensões do seu próprio ser e isso significa que nesse caminho não existe negação da vida, pela contrário, existe a afirmação e a aceitação da vida no seu estado sagrado mais completo e sublime.

Um outro ponto que é bem importante de ser ressaltado é que dentro dessas tradições clássicas o conceito de transgressão era o cerne de seus sistemas, e entre eles existiam várias gradações de transgressão, desde aqueles escolas mais alinhadas à visão cultural, social e religiosa da época, até aquelas que eram completamente marginais ao status quo, era um espectro histórico amplo e diverso, porém existe um fato interessante, quanto mais à esquerda (shaktista), mais transgressivo eram os rituais e mais conectados aos tabus os seus praticantes se tornavam, como em casos de praticantes de ritos sexuais orgiásticos, magias no cemitério, sacrifícios, uso de bebidas, drogas e carne, ou seja, quanto mais fora dos padrões da cultura vigente mais alinhado a proposta.

Óbviamente no transcurso dos séculos os sistemas foram se refinando e muito dos extremismos foram até certo ponto suprimidos, como a seita dos Kapalikas por exemplo, até que atingiram o seu ponto alto no século X e XI, principalmente através do grande mestre Abhinava Gupta, que através do seu trabalho basicamente fez uma síntese de todas as escolas clássicas relevantes dos séculos anteriores e entregou como um legado até os nossos dias, sendo essa linhagem mantida de forma ininterrupta até o ano de 1994 com o último Guru da linhagem: Swami Lakshman Joo.

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