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Grupo de Ur

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O Grupo de Ur foi uma associação esotérica italiana que se manifestou a partir de 1927 e da qual recebeu seu nome a série de fascículos mensais intitulada UR (1927–1928). O nome deriva da expressão fonética u-r, existente no caldeu e no rúnico, com os significados de fogo e de touro ou carneiro, respectivamente, além de aparecer como prefixo «ur-» no alemão, indicando algo primordial, antigo.

O Grupo surgiu em janeiro de 1927. Entretanto, do romance Amo, logo existo, de Sibilla Aleramo, publicado naquele mesmo ano e no qual a autora recordava suas experiências sentimentais e intelectuais de 1925–1926 com Julius Evola e Giulio Parise, deduz-se que o cenáculo iniciático já estava ativo pelo menos desde 1926.

Fundado por Julius Evola, o Grupo teve entre seus primeiros integrantes Arturo Reghini, representante da orientação neopitagórica da Schola Italica de Armentano, e Giovanni Colazza, discípulo de Rudolf Steiner, pertencente à corrente do esoterismo cristão. Eles reuniram ao seu redor diversos buscadores dedicados à ascese iniciática, unidos pelo interesse comum em estudos esotéricos semelhantes, com o propósito de revitalizar a tradição perene dos antigos mistérios.

Julius Evola foi o primeiro diretor da revista UR. A composição do Grupo permaneceu desconhecida, mas estima-se que tivesse entre doze e quinze integrantes. Evola ampliou rapidamente sua influência sobre a revista do Grupo, até afastar de sua direção, no final de 1928, Arturo Reghini e seu discípulo Giulio Parise. Graves desavenças pessoais com Parise haviam, de fato, provocado uma cisão no próprio Grupo, após a qual, em janeiro de 1929, Evola fundou uma nova revista chamada Krur.

O Grupo de Ur declarava-se independente das escolas ou tendências esotéricas surgidas nas épocas moderna e contemporânea, como a teosofia, a maçonaria, o espiritismo etc., preferindo vincular-se a uma tradição universal anterior às formas doutrinárias particulares. Além de hermetistas e seguidores de Kremmerz, foram aceitos em seu interior alguns católicos e uma parcela significativa de adeptos de Steiner, cuja antroposofia, ao rejeitar toda espécie de mediunidade em favor de uma abordagem «solar», tão ativa e consciente quanto possível, das questões ocultas, inspirou sem dúvida grande parte dos integrantes do Grupo.

Objetivos do Grupo

Já em 1925, Evola havia defendido a formação de uma «elite espiritual» como remédio para as agitações sociais da época, em favor de um fascismo da «potência», em vez da «violência», capaz de conduzir as massas, em lugar de procurar conquistar sua aprovação.

Como ele próprio relata, o objetivo do Grupo de Ur era duplo:

Primeiro, suscitar uma força suprassensível capaz de auxiliar cada integrante no trabalho de desenvolvimento de seus próprios poderes espirituais.

Segundo, direcionar essa força superior, já individualizada, para o ambiente social em geral, retificando, nos bastidores da história, todas as demais forças influentes de seu tempo.

Arquiteturas do Foro Italico inspiradas no culto à romanidade.

Foram constituídas ramificações operativas do Grupo em Roma e em outras cidades da península italiana: as chamadas «cadeias», isto é, energias coletivas baseadas em intenções e exercícios comuns. Dentre elas, apenas a da cidade de Gênova foi descrita com maior detalhe. Desconhecem-se os integrantes dessa cadeia, sabendo-se apenas que era composta por cinco pessoas e que seu diretor havia pertencido anteriormente à «Fraternidade de Myriam», fundada por Giuliano Kremmerz.

Essas cadeias, presentes também em outras tradições esotéricas, como a dos rosacruzes, são formadas por grupos de pessoas vinculadas por uma transmissão iniciática, que se reúnem para restabelecer o contato individual e direto com o mundo celeste e procurar influenciar também pessoas e acontecimentos.

A esse respeito, Evola registra em sua autobiografia, O caminho do cinábrio, que o próprio Mussolini teria receado o perigo de uma ação mágica à distância contra ele por parte do Grupo de Ur, algo que também estaria ao alcance de seus poderes, até tomar conhecimento da verdadeira finalidade, exclusivamente espiritual, das cadeias.

O Duce, aliás, já havia sofrido três atentados desde 1926, aos quais determinadas «pistas» ocultistas não teriam sido alheias. Quanto às atividades do Grupo, segundo Gary Lachman, teriam efetivamente ocorrido rituais destinados a influenciar o fascismo e a infundir nele o espírito guerreiro e viril da Roma antiga. Não se tratava, em todo caso, de um retorno ao paganismo em suas formas exteriores e dogmáticas, mas de uma recuperação do núcleo esotérico e primordial da tradição ítalo-romana.

Adversários e simpatizantes

O Grupo de Ur atraiu tanto adversários quanto simpatizantes. No meio católico, foi atacado em 1927, nas páginas da revista Studium, por Giovanni Battista Montini, futuro papa Paulo VI e, na época, assistente eclesiástico central da FUCI, sob a acusação de «abuso do pensamento e das palavras, de aberrações retóricas, de evocações fanáticas e de magias supersticiosas».

Entre os supostos partidários do Grupo, chegou-se a incluir, indevidamente, como uma de suas integrantes, Maria de Naglowska, ocultista russa, amiga de Evola e teórica da magia sexual, que havia vivido em Roma até meados da década de 1920. Essa inclusão era imprópria porque, durante o período de atividade do Grupo, ela já se encontrava, como era amplamente conhecido, no Egito, de onde nunca mais retornou à Itália.

Outro estudioso atento dos escritos esotérico-iniciáticos de UR foi o antropólogo Mircea Eliade, como se depreende de um conto cuja composição ele concluiu em 1941. Seu interesse pelo Grupo pode ser facilmente compreendido como um aspecto de seu interesse juvenil por todas as expressões de doutrinas arcanas, tanto ocidentais quanto do antigo Oriente indiano.

A assinatura dos Pactos de Latrão, em 1929, com o consequente desaparecimento das atitudes anticlericais por parte do fascismo e sua aproximação política com o Vaticano, inviabilizou a possibilidade de o Grupo de Ur promover uma transformação do fascismo, causando à associação diversos problemas que levaram à sua dissolução.

Após a Segunda Guerra Mundial, outra associação tentou retomar na Itália as atividades do Grupo de Ur: o Grupo dos Dióscuros, que atuou em Roma, Nápoles, Messina e Milão e que, diferentemente do Grupo de Ur, colocou no centro de seus objetivos operativos a «tradição romana primitiva».

Segundo G. B. Forster, o nome do Grupo e seu significado «indubitavelmente inspiraram Umberto Eco» na formulação da definição de Ur-fascismo, apresentada por ele em um artigo publicado na The New York Review of Books em 1995, no qual discute e descreve os aspectos em torno dos quais o fascismo se forma e se consolida.

A revista

Julius Evola.

A expressão dos trabalhos internos do Grupo de Ur foi a revista, na qual os autores dos artigos assinavam com pseudônimos, pois preferiam difundir seu pensamento a promover a própria pessoa.

O diretor da revista foi Julius Evola, conforme aparece na capa de 1927; juntamente com os «organizadores» Pietro Negri (pseudônimo de Arturo Reghini) e Giulio Parise, na capa de 1928; e novamente Evola, sozinho, em 1929, quando o nome da revista foi alterado para KRUR.

UR e KRUR

Nas revistas UR e KRUR foram publicados numerosos textos hermético-alquímicos, como a Turba philosophorum, além de outros trabalhos de natureza filosófica e ritualística de diversas procedências.

Entre eles encontram-se textos antigos, como o APATHANATHISMOS, ritual de Mitra também conhecido como Grande Papiro Mágico de Paris; a primeira tradução italiana de «LUCE», realizada a partir do original grego e confrontada com a versão alemã de Dietercich e com a versão inglesa de Mead, acompanhada de introdução e comentários de EA, LEO, LUCE e Pietro Negri. Esse texto conteria o único ritual dos antigos Mistérios que chegou completo até nós, em uma redação que provavelmente data do início do século IV d.C.

Foram publicados ainda excertos do De Mysteriis, de Jâmblico; os Versos de Ouro, de Pitágoras; um encantamento mágico pagão; as Máximas da sabedoria pagã, de Plotino; textos renascentistas, como De Pharmaco Catholico, um códice alquímico italiano «plúmbeo», a Clavis Philosophiae Chemisticae, de Gerard Dorn, e A dignidade do homem, de Pico della Mirandola.

Entre os textos modernos figuravam trechos de O Golem e O rosto verde, de Gustav Meyrink, e o ensaio Perspectivas, extraído de Música das fontes, de Otokar Březina, além de escritos de Aleister Crowley, Giuliano Kremmerz e textos orientais, como um trecho do primeiro capítulo do Kulārṇava Tantra, algumas passagens do Majjhima Nikaya, trechos do mantra tântrico Shri chakra sambhara e três cânticos de Milarepa.

A revista foi publicada sob o nome de Ur nos anos de 1927 (dez fascículos, dos quais dois duplos) e 1928 (oito fascículos, dos quais quatro duplos). Já 1929 marcou o fim da fase operativa do Grupo, com a saída de Reghini e Parise, com os quais Aniceto Del Massa também permaneceu em concordância.

Reghini e Parise foram acusados por Evola de desejar colocar a revista sob o controle direto da maçonaria do Grande Oriente da Itália, cujas lojas, aliás, já haviam sido dissolvidas anos antes e, na prática, encontravam-se no exílio.

A publicação da revista, sempre sob a direção de Evola, foi retomada com a mudança do nome para Krur (oito fascículos, dos quais dois duplos), publicando também contribuições de autores que o haviam abandonado, mas de quem o barão ainda possuía diversos textos.

Tudo isso levou a uma breve disputa judicial com Reghini, que acusou Evola de difamação e plágio. O nome da nova revista derivava do sumério k-r, k-u-r, isto é, residência, casa, montanha e força, e seu conteúdo incluía também um componente nacionalista.

Encerramento das atividades

Em dezembro de 1929 foi publicado o último número de Krur, no qual Evola anunciou oficialmente a dissolução do Grupo, cujas cadeias mágicas dos dois anos anteriores, de resto, já não estavam mais em atividade.

Evola prosseguiu com sua atividade filosófica em uma nova revista intitulada La Torre (A Torre), da qual foram publicados dez números, entre fevereiro e junho de 1930. A publicação foi posteriormente obrigada a encerrar suas atividades após uma intervenção de Achille Starace, em razão de determinadas posições contrárias à atuação do regime fascista.

Alguns integrantes do Grupo de Ur colaboraram com a revista La Torre: Guido De Giorgio (sob o pseudônimo de Zero), Girolamo Comi, Domenico Rudatis e Emilio Servadio.

A viúva de Arturo Onofri, falecido no final de 1928, consentiu que fosse publicado em La Torre um poema do escritor e antropósofo, amigo de Evola.

Reedições

Os fascículos de Ur e Krur foram republicados entre 1955 e 1956, em três volumes, pela editora Bocca, sob o título Introdução à Magia. Essa edição continha profundas modificações editoriais dos textos originais realizadas por Julius Evola, com revisão do orientalista Paul Masson-Oursel.

Uma segunda edição surgiu em 1971, publicada pelas Edizioni Mediterranee com o mesmo título. Em 1987, as Edizioni I Dioscuri também republicaram os três volumes da editora Bocca.

Todas essas três reedições apresentam as modificações introduzidas por Evola.

A editora Tilopa, de Roma, publicou entre 1980 e 1981 uma reprodução fac-similar dos fascículos originais.

Essa atividade editorial testemunha o interesse que tais fascículos continuam despertando entre ocultistas e, ocasionalmente, em grupos políticos, predominantemente de direita.




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