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Excertos de Evangelho Segundo Marcos
Comentado por Ya’aqov, seguidor de Ya’aqov
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Estabelecida a divisão do que acontecerá no ciclo que ocorrerá em Assiah, Jesus deve garantir que todas as formas que fará uso se encontrem em perfeita sintonia com a vontade de Yahweh.
Todo o processo criativo-criador realizado na mente de Elohim segue um ritmo de “expansão e contração” dentro do espaço mental estabelecido no primeiro dia da criação (Gênesis 1:1-5). Assim, da mesma maneira com que o universo “se expande” de Atziluth (אצילות) até Assiah (עשיה), no processo descrito do segundo dia ao quarto do Gênesis; ele se contrai de Assiah (עשיה) até Atziluth (אצילות) no quinto e no sexto dia. Este processo de “expansão e contração” não ocorre apenas no sentido “vertical” da manifestação (entre mundos), mas também no “horizontal” (inter mundos).
(20) E vai para casa. E junta-se de novo a turba de modo que eles não podem nem comer pão.
O versículo tem início com a indicação de Jesus faz um movimento introspectivo. Isto é, no momento anterior, após a sua manifestação em Yetzirah (יצירה), Jesus se ergue e expande a sua atuação por todo o Mundo Formativo, organizando-o. Concluída essa etapa “expansiva”, há um movimento de introspeção, no qual ele se volta para dentro de si, em um ato simbolizado pelo retorno à casa, a fim de organizar tudo o que passou a compor o seu íntimo.
Essa necessidade de organizar o que passou a compor o íntimo de Jesus é encontrada tanto na indicação de que a turba o acompanhou, quanto na impossibilidade de comer o pão.
O pão é um alimento, normalmente, feito com trigo e é fruto da ação humana. Essa dupla referência “material” destaca duas condições de natureza espiritual. A primeira está vinculada ao fato de que o trigo é o vegetal que representa Chesed (חסד)[1], a “Misericórdia[2]” divina que se encontra em Briah (Mundo Criativo). A segunda é a necessidade da ação humana para que essa “misericórdia” tome forma e passe a nutrir o corpo físico. Unindo os dois símbolos, percebemos que o pão é considerado um alimento espiritual porque ele simboliza, dentre outras coisas, a misericórdia divina na ação humana, que serve de base substancial para a construção dos mundos[3].
Como a turba ainda está muito presa às formas “antigas”, elas relutam em entrar em harmonia com Jesus e, por isso, não comungam do pão. Essa impossibilidade momentânea de comer do pão e, consequentemente, se moldarem à misericórdia divina, apresenta um conflito interno em Jesus que necessita ser resolvido a fim de que ele pacifique Yetzirah (יצירה) e possa “descer” em direção à Assiah (עשיה).
(21) E tendo os seus ouvido, saíram para submetê-lo, pois diziam[4]: “Está fora de si”.
A fim de compreender melhor este versículo, temos de focar a nossa atenção no verbo “submetê-lo”, que, no texto em koiné é apresentado como kratísai (κρατῆσαι) e possui o significado de “aguentar”. Aqui, ele foi traduzido como “submeter”, pois essa palavra em português está vinculada à ideia de obedecer a vontade, que, conforme visto anteriormente, é uma palavra (thelema) que expressa a ação divina[5]. Assim, entendemos que essa ação não é realizada por Jesus, mas pelas virtudes que existem dentro dele. São elas que se manifestam de maneira a fazer frente ao que está sendo dito, que “está fora de si”. Ou seja, diante das “acusações” internas, as virtudes atuam de maneira a servir de bastião da vontade divina, impedindo que a ação desarmônica se espalhe e tome conta do corpo.
(22) E os escribas, os vindos de Jerusalém, diziam: “Tem Beelzeboul”* e que pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios.
A primeira parte do versículo indica a origem dos conflitos que estão acontecendo no íntimo de Jesus: pensamentos associados a ideia do sagrado, simbolizados nos escribas (responsáveis pelo contato com o sagrado) vindos de Jerusalém (indicando o coração, a sede dos pensamentos[6]). Assim, em função do período de organização interna, simbolicamente, Jesus passa a ser assediado por pensamentos conflituosos. Este conflito apresenta uma dualidade de formas de se pensar.
A primeira forma está vinculada à fase inicial do processo criativo-criador, no qual, por intermédio da nomeação, estabelece-se a diferenciação entre as partes da manifestação e, consequentemente, a capacidade de compreender essas diferentes partes. Já o segundo grupo de formas está relacionado à segunda etapa do processo criativo-criador, que é a etapa da unificação, do “retorno à casa do Pai”, da compreensão da unidade.
Os dois conjuntos de formas parecem ser antagônicos, posto que, enquanto um separa, o outro une, porém, eles são complementares, conforme foi verificado na nomeação dos “expedicionários”[7]. Jesus nomeia os meses e, assim, os define, caracteriza, peculiariza, funcionaliza e os entende, compreendendo suas capacidades. Porém, ele os compreende de maneira una, como etapas de uma coisa maior e, por isso, apesar de respeitar a peculiaridade de cada etapa, elas nunca são vistas de maneira separadas, pois integram de maneira íntima e indissociada algo maior, que é uno. As etapas não existem separadamente do todo, pois tudo é Um e Um é tudo.
Esse conflito entre formas de se pensar é representado na acusação de que Jesus “tem Beelzeboul”. Este nome é uma corruptela do nome do deus fenício de Acaron, Baal-zebud, e que foi consultado pelo rei Ocosias (2 Reis 1:2). Originalmente, o nome significava “Senhor da Casa”, contudo, na corruptela em hebraico [Ba’al Zebûwb (בעל זבוב)], ele passa a significar o “Senhor das Moscas”, indicando a sua composição plural e o vínculo com os aspectos da matéria[8]. E é justamente esse vínculo com a matéria e a essa pluralidade, simbolizada pelas moscas[9], que os pensamentos associados às antigas formas determinam qual é a fonte do poder de Jesus para “expulsar os demônios”, Baal-zebud.
2 Reis 1 : 3
“Mas o Anjo de Yahweh disse a Elias, o tesbita: ‘Levanta-te e vai ao encontro dos mensageiros do rei de Samaria, e dize-lhes: Porventura não há um Deus em Israel, para irdes consultar Baal Zebud, deus de Acaron?’”
(23) E tendo-os chamado, em comparações dizia a eles: “Como pode Satanás Satanás expulsar?
Este versículo nos apresenta um ponto chave nos ensinamentos contidos no texto do Evangelho. Até então, estruturas mentais foram apresentadas representando o bereshit bara Elohim (Gênesis 1:1), porém, é aqui que o mecanismo dessa estrutura “psicológica” começa a ser explicado.
A primeira parte do mecanismo consiste em não afastar aquilo que causa o incômodo. Os pensamentos conflitantes são convidados a se apresentarem (“tendo-os chamado”) e, tranquilamente, Jesus conversa com eles. A tranquilidade na forma de falar de Jesus se constata pelo fato de que o texto, além de apresentar um comportamento normal, sem indicativo de mudança de atitude por parte de Jesus, aponta que ele fala por comparações. Isto é, o seu discurso não é acusativo ou agressivo, mas visa explicar uma condição e, por intermédio da compreensão do que ele está dizendo, busca fazer com que a mente dos seus interlocutores seja persuadida a seguir pelo caminho que ele está apontando. A persuasão na fala e ações de Jesus é aquela que surge da compreensão (gnose) que arrasta o indivíduo a se comportar de uma determinada maneira porque entende o que sente e sente o que entende, unificando todos os seus aspectos manifestos de acordo com a vontade (thelema).
Romanos 12 : 17 – 21
“A ninguém pagueis o mal com o mal; seja vossa preocupação fazer o que é bom para todos os homens, procurando, se possível, viver em paz com todos, por quanto de vós depende. Não façais justiça por vossa conta, caríssimos, mas dai lugar à ira, pois está escrito: A mim pertence a vingança, eu é que retribuirei, diz o Senhor. Antes, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber. Agindo dessa forma estarás acumulando brasas sobre a cabeça deles. Não te deixes vencer o mal, mas vence o mal com o bem.”
Este ensinamento indica que devemos alimentar o “inimigo”, porém, este alimento não deve ser vazio, isto é, com questões que remetem ao mal, mas com aquilo que alimenta o espírito, pois Yahweh “te fez padecer de fome e fez-te comer o Maná, que não conhecias e não conheceram teus pais; para fazer-te saber que não só de pão vive o homem, senão que de tudo o que sai da boca do Eterno , disso vive o homem” (Deuteronômio 8:3). E é justamente este mecanismo de conceder “a outra face” a segunda parte do mecanismo de ação psicológica proposta por Jesus.
Ao conceder o outro lado, Jesus indica a necessidade de usar a compreensão para lidar com o desconhecimento; a serenidade para lidar com a ira; o perdão, com a ofensa; a alegria, com a tristeza; o amor, com o ódio, a Luz, com as trevas. Além disso, ele destaca um ensinamento que se encontra presente nas Escrituras, mas que poucos se atentam a ele: a ocorrência da dualidade.
No primeiro dia da criação, uma série de dualidades é apresentada: céus e terra; espírito e águas; luz e escuridão; dia e noite; tarde e manhã (Gênesis 1:1-5) e é, por intermédio dessas dualidades[10], nomeadas por Elohim, que Ele “vê” o que é bom. Ou seja, a compreensão, capaz de transformar a conduta de maneira coercitiva, decorre do entendimento das dualidades. Ao nomear, Elohim individualiza cada coisa e, assim, as separa, momentaneamente, para que seja possível a sua análise e, consequentemente, a compreensão.
A análise proposta por Jesus segue um padrão lógico, de entender os mecanismos e, por intermédio deste entendimento, validar ou refutar um ensinamento. Neste sentido, ele apresenta a indagação “Como pode Satanás, Satanás expulsar?”, isto é, uma coisa não pode ser capaz de se retirar de si, pois, para realizar esta ação, apenas uma força superior a ela tem essa capacidade. Assim, Satanás está limitado pela sua própria condição e apenas uma força superior, no caso, provinda de Yahweh, tem a capacidade de eliminar o que é inferior.
(24) E se um reino contra si se dividir, não pode ser mantido em pé esse reino.
Dando continuidade ao seu método coercitivo, Jesus apresenta analogias visando demover os pensamentos acusativos do seu ímpeto, fazendo-os perceber a sua própria inconsistência estrutural e, assim, perceber que os ensinamentos apresentados por Jesus em seus atos e palavras é a Verdade (Yahweh) que sustenta o universo e serve de caminho para a vida plena.
João 14 : 6
“Diz a ele Jesus: ‘Eu sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém vai ao pai se não através de mim. Se me conhecestes, também meu pai conhecereis. E a partir de agora o conheceis e o olhastes”.
Na passagem transcrita, um ponto que é importante destacarmos é o uso do conjunção kaí (καὶ), que, costuma ser traduzido como “e” ou por “e também” ao longo de todo o texto evangélico. Isto é, o kaí (καὶ) une orações que, apesar de completas em si, se conectam numa relação de coordenação. Assim, só se alcança a vida, por intermédio da verdade, que, por sua vez, só é alcançada ao percorrer o caminho ensinado por Jesus.
Neste sentido, Jesus apresenta o modelo de conduta e, diante de indagações contrárias às suas ações, ele usa de argumentação e de analogias para demonstrar a fragilidade da argumentação contrária, fazendo com que ela desapareça e a única argumentação possível se revele, a Verdade que se manifesta na sua conduta.
Desta maneira, Jesus informa que um reino não pode se sustentar caso se divida. E este processo de divisão é o proposto pelas tentações representadas por Satanás, que buscam testar a humanidade em sua jornada até Yahweh. Enquanto que Yahweh revela a Verdade dissolvendo a ilusão da separatividade e, consequentemente, ratificando a sua conduta como amparada naquilo o que é superior e, portanto, verdadeiro.
A analogia apresentada no versículo, do reino que se divide, encontra respaldo em outras presentes nos textos evangélicos, como sobre a impossibilidade de se seguir dois senhores (Mateus 6:24). Isso ocorre porque sem a unidade central do rei, todo reino perde a sua integridade. Ponto que devemos destacar é que, além do fato de que todos os súditos se encontrem vinculados ao rei e, portanto, acompanharem a sua sorte, o rei é apresentado como o topo de uma pirâmide invertida, ou seja, ele é uma peça única que serve de base para todas as outras e, consequentemente, sustenta o reino. Sem a presença desta peça, a pirâmide invertida se esfacela e quebra, pois o rei é o misericordioso [Chesed (חסד)] que tudo fornece aos seus súditos.
Ponto que merece destaque se encontra no fato de que esse rei simbólico é aquele que se coloca geograficamente abaixo dos súditos e os sustenta, diferentemente da ideia difundida atualmente de que o rei é sustentado pelos súditos. A “localização” do rei simbólico em seu ato perpétuo de doar é previsto em outros trechos dos textos evangelhos, como em Lucas 12:42-48, da qual se extrai a máxima de “a quem muito é dado, muito é exigido”, isto é, quanto mais “próximo” de Yahweh a pessoa se encontra, mais ela recebe a sua Misericórdia e, consequentemente, mais ele deve fornecer aos demais.
Assim, na busca por seguir os desígnios de Yahweh, cria-se um processo de unificação, no qual aquele que recebe mais misericórdia age sobre aqueles que estão mais distantes.
(25) E se uma casa contra si se dividir, não poderá essa casa ser mantida em pé.”
No versículo anterior, Jesus apresenta argumentação levando em consideração uma análise macro do pensamento que foi proposto e demonstrou que a tese apresentada pelos seus pensamentos, simbolizados pelos escribas vindos de Jerusalém, não tem sustentação naquele nível. Outrossim, mesmo aquele ponto já sendo suficiente para descartar a tese que foi apresentada, Jesus dá continuidade a sua argumentação, apresentando a sua aplicação em uma esfera “menor”, a casa.
Cabe-nos destacar que a casa a qual Jesus se refere não é aquela que serve de morada física para uma pessoa, mas a sua família. Ademais, o uso da expressão “casa” [oikía (οἰκία)] faz alusão a letra hebraica bet (ב), que também significa “casa”, “morada”, e é a letra escrita que dá início ao texto da Torá. Ou seja, enquanto no versículo anterior, Jesus falava da relação do mundo com Yahweh, aqui, ele aborda a relação dos elementos integrantes do mundo, os membros da “casa”.
Assim, verifica-se que a divisão entre os integrantes do mundo é algo que não se sustenta e, portanto, deve haver a união entre os diferentes e, consequentemente, a união com Yahweh:
Mateus 22 : 36-40
“‘Mestre, qual grande mandamento na lei?’ Ele então afirmou a ele: ‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com todo o teu entendimento esse é o grande e primeiro mandamento. Um segundo semelhante a ele: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos toda a lei pende e os profetas.’”
(26) “E se Satanás se pôs de pé contra si mesmo e se dividiu, não pode ficar em pé, mas tem fim.
Nos versículos anteriores, vimos o ensinamento de Jesus aplicado no nível correspondente a relação entre o mundo e Deus; e, depois, vimos a sua aplicação na dinâmica dentro do mundo. Agora, neste versículo, o ensinamento de Jesus alcança a esfera micro, isto é, a sua atuação no íntimo de cada pessoa.
Satanás não é uma figura externa que nos coloca a prova, mas interna. Ele representa os nossos desejos de nos identificarmos com aquilo que “está” e não com aquilo que “é”. Assim, mesmo que Satanás se divida em múltiplos desejos, ele irá se desfazer em virtude desta separação e irá revelar o Deus que está por detrás de tudo, fornecendo, misericordiosamente, o sustento para a vida. Assim, a simbólica expulsão de Satanás o dissolve, fazendo com que ele deixe de existir e, ao mesmo tempo, revele Yahweh, que é de onde vem a força para criar, formar e agir no mundo.
Deste modo, Jesus demonstra que a tese defendida pelos seus próprios pensamentos, simbolizados pelos escribas de Jerusalém, não se sustenta em qualquer esfera que se observe. E, quando negamos essa tese, a verdade se revela, não deixando outra opção senão a de se aderir a verdade.
Por isso Jesus não se colocou contrário aos pensamentos, mas os acolheu, pois entende que eles fazem parte da criação e, portanto, também fazem parte de Yahweh. Agindo com amor, os esclareceu em todos os aspectos, atuando de maneira a não deixar rastro da separatividade e, consequentemente, unificando aquela fonte de pensar a Yahweh.
(27) Mas não pode ninguém, na casa do forte tendo entrado, predar as coisas dele, se antes não amarre o forte, e então a casa dele predará.”
Nos versículos anteriores, Jesus demonstrou que o argumento que lhe foi apresentado não tem validade em nenhum dos níveis existenciais que se busque aplicar. Neste versículo, ele apresenta a única conclusão possível que se revela após a dissolução da argumentação que foi apresentada: nada acontece no universo sem a permissão de Yahweh, pois ele é a potência criadora, o “dono da casa” (Gênesis 1:1). Da mesma maneira com que nada acontece na cabeça de uma pessoa sem a sua permissão.
Essa permissão fornecida na mente das pessoas ocorre pelo desconhecimento da verdade, de que Yahweh é a unidade a que tudo sustenta. No momento no qual, passa-se a buscar verdadeiramente a unidade, toda a ilusão se desfaz. Contudo, como Jesus demonstrou, a busca não está em afastar os chamados “maus pensamentos”, mas em trazê-los para uma análise criteriosa da sua estrutura e, como consequência deste ato, demovê-los e incorporar em si mesmo a fonte formadora destes pensamentos, os escribas de Jerusalém. O processo de incorporar estes “escribas”, além de eliminar fontes de pensamentos conflitantes, posto que eles não estarão mais produzindo tais pensamentos, também fortalece os pensamentos harmônicos, posto que eles passam a integrar toda a estrutura do pensar do indivíduo, tornando a sua ação criativa-criadora ainda mais forte pela adesão de novas fontes de pensamento.
(28) “Amém vos digo que, aos filhos dos homens, tudo se deixará ir: os erros e as blasfêmias, quantas tiverem blasfemado.
Dissolvida a ilusão e apresentada a conclusão deste processo, Jesus extrai o conhecimento prático, que podemos chamar de compreensão ou gnose, de todo o processo e, por isso, afirma: Amém [‘âmên (אמן)]. Ao fazer uso da palavra “amém”, Jesus está afirmando que a informação apresentada é verdadeira e, portanto, eterna.
Este processo desempenhado por Jesus é uma emulação do próprio processo criativo-criador descrito no primeiro capítulo do Gênesis, no qual, após analisar alguma coisa, Elohim afirma que algo é bom. Isto é, após a sua ação criativa-criadora mental, Elohim analisa os seus pensamentos e indica o que é eterno, afirmando que é bom (verdade) e o que não é eterno e, consequentemente, é transitório, ilusório e mau.
Aqui, torna-se importante destacarmos que o adjetivo mau não tem caráter pejorativo, mas a indicação de que o apego àquilo que é transitório afasta o indivíduo do que é bom e, consequentemente, o afasta do que é estar verdadeiramente vivo. Ademais, como todo o universo é um ato mental de Deus, ele possui um propósito, um thélos (θέλος), um objetivo, que é gerar o esclarecimento e definir o que é real e o que é ilusão. Assim, pensar para “apenas” ficar na ilusão, escapa ao propósito do ato mental em si e, portanto, é algo ruim.
Esclarecida a utilização do Amém [‘âmên (אמן)], Jesus apresenta a verdade: tudo o que é transitório, todos os pensamentos errados, isto é, todas as proposições que não passam pelo crivo da análise em todos os níveis, tudo o que é fruto da transitoriedade será dissolvido. Isso acontece porque algo que é transitório não pode gerar algo eterno e, portanto, tudo o que a transitoriedade cria, é, por natureza, transitório e deixará de existir. Cabe-nos apontar que o pensamento não cria a verdade, ele é o mecanismo utilizado para revelá-la, pois a verdade é e, portanto, possui natureza superior à do pensamento.
Assim, como o que é transitório irá se dissolver, Jesus nos recomenda a não nos apegarmos a essas coisas, “tudo se deixará ir”. Portanto, não devemos nos apegar aos erros do passado, aos maus pensamentos, às hipóteses propostas que se mostraram falsas, todas essas coisas devem ser deixadas de lado, pois, assim como surgiram, irão se dissolver.
(29) O que, porém, blasfême contra o Espírito Santo não tem dispensa pela eternidade, mas é réu de erro eterno”.
Tudo o que é transitório, por natureza, irá se dissolver e, portanto, não devemos nos apegar a essas coisas. Porém, Jesus informa que existe algo que, apesar de ser transitório, tem a capacidade de se perpetuar eternamente: a negação de Deus.
Em um primeiro momento, isso pode parecer contraditório, mas, ao nos aprofundarmos na análise do ensinamento, compreendemos o que Jesus quis dizer. O ato de pensar é transitório e visa revelar a verdade, porém, se um pensamento parte de uma premissa de que Deus não existe, este pensamento não poderá revelar a verdade, pois a nega. Assim, aquele que pensa na inexistência de Deus, estará preso “eternamente” à ilusão, conjecturando, sem jamais encontrar a verdade.
Por isso que, dentre as blasfêmias, isto é, dentre os argumentos contrários a Deus, apenas aquele que nega a sua existência tem a capacidade de “aprisionar” o pensador na ilusão da transitoriedade. Enquanto as demais blasfêmias, como visto no versículo anterior, irão se dissolver, pois não partem da premissa de que Deus não é real e, consequentemente, chegarão a revelá-lo em algum momento.
(30) Porque diziam: “Tem espírito impuro”.
Este versículo é a conclusão do anterior, apontando a falha no pensamento daquele que blasfema contra a existência de Deus: a essência que busca é impura, isto é, é transitória e, por isso, não pode revelar a verdade.
Devemos lembrar que, desde o princípio, é apresentada a dualidade de uma forma representada pelas águas e uma essência que a anima e a molda, o Espírito (Gênesis 1:2). Assim, tudo o que é substância possui uma essência consciencial, o Espírito, que é a verdade oculta no que é transitório. Contudo, ao negar Deus, nega-se essa essência e, consequentemente, nada se encontra animando a substância que forma o universo.
NOTAS
[1] Deuteronômio 8 : 7-8 “Yahweh Elohim está te trazendo para uma boa terra, uma terra com correntes fluindo, e fontes subterrâneas jorram no vale a na montanha. Ela é uma terra de trigo, de cevada, videiras [uva], figos e romãs, uma terra de óleo de oliveiras e mel de tamareiras.” A Tradição relaciona esses 7 (sete) “frutos” com 7 (sete) atributos divinos: o trigo a Chesed (חסד); a cevada a Geburah (גבורה); a uva a Tipheret (תפארת); o figo a Netzach (נצח); a romã a Hod (הוד); as azeitonas a Yesod (יסד); e as tâmaras a Malkuth (מלכות).
[2] Em uma tradução literal, Chesed (חסד) significa “graça”, no sentido de ser a extrema compaixão, que generosamente e sem preconceitos doa aquilo o que possui. Além desse significado, também é utilizada como referência ao cumprimento daquilo que foi acordado.
[3] Vide comentários sobre o versículo 26 do capítulo 2.
[4] É comum, no aramaico, fazer o uso do plural indefinido, o que dificulta a compreensão numa tradução para o grego, para se fazer comparação com manuscritos em koiné, ou para o português. Assim, é possível apresentar o texto em português como “e tendo, os seus, ouvido, saíram para submetê-lo, pois dizia-se: ‘está fora de si’.” Isso ocorre porque a expressão “os seus” pode ser interpretada como sendo aqueles que estão com Jesus ou numa alusão aos seus familiares, que são referenciados no versículo 31, mais adiante.
[5] Vide comentários sobre o versículo 40 do capítulo 1.
[6] Vide comentários sobre o versículo 5 do capítulo 1.
[7] Vide tópico “O Ano”, composto pelos versículos de 13 a 19 deste capítulo.
[8] Vide comentários sobre o versículo 23 do capítulo 1.
[9] As moscas, quando em enxame, comportam-se como um ser único, mas composto por uma pluralidade de seres. Além disso, elas costumam estar associadas à ideia de sujeira, em contraste com a ideia da pureza vinculada ao sagrado.
[10] A ocorrência da dualidade não impede a pluralidade. Por toda a Torá, encontramos o apontamento de dualidades que estabelecem limites polares a alguma coisa. Assim, ao estabelecer que existe o dia e noite, a Torá determina que existem dois pólos, mas que existem gradações de luminosidade e escuridão entre esses dois pólos. Em outras palavras, a dualidade não estabelece que só existem duas coisas, mas estabelece que existem dois limites em cada coisa.
Alimente sua alma com mais:

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