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Por David Bowles
Estou sempre procurando maneiras de combinar meu amor pela poesia, pela tradução e pelo macabro, por isso fiquei encantado de tropeçar em uma espécie de “creepypasta” lenda da Internet sobre um poema japonês amaldiçoado que causa tragédia e morte caso você o leia em voz alta. Rapidamente procurei a peça, intitulada “Tomino No Jigoku – Tomino’s Hell (O Inferno de Tomino)”, e soube imediatamente que precisava do meu toque amoroso. As traduções em inglês eram ruins, quase incompreensíveis (se é que ainda são sinistras). Uma rápida leitura dos japoneses me convenceu de que era hora de uma versão nova e mais precisa em verso inglês.
O Inferno de Tomino é um poema japonês originalmente escrito por Yomota Inuhiko, acredita-se que esse poema é “amaldiçoado”. O poema foi publicado no livro “The Heart is like a Rolling Stone” e incluída em uma coleção de poemas em 1919, feita por Saijō Yaso intitulada Sakin ou Gold Dust (Poeira Dourada). O poema tem várias palavras macabras com uma tradução bem estranha. Diz a lenda que quem o ler em voz alta, sofrerá graves consequências do tipo, sofrer um acidente, ferir-se ou até receber uma “adorável” visita da doce Tomino que te leva para se divertir com o sofrimento no inferno, é aconselhável pelas pessoas ler apenas mentalmente. Eles creem nessa lenda, pois no Japão se acredita que as palavras têm poderes e que certas coisas não devem ser ditas.]
[Há um possível caso relatado que diz que, em um dia um locutor de rádio resolveu recitar esse poema em um programa. No meio de sua leitura, começou a se sentir mal e perdeu o ar. O homem acabou caindo no chão e se feriu. Foi levado ao hospital imediatamente e precisou de 7 pontos. Mas mesmo tendo essa lenda ele nunca aceitou a hipótese de que isso foi uma possível consequência do poema.]
Aparentemente, a história da condenação de uma menina por atos sem nome, “Tomino’s Hell” foi publicada, descobri, em uma coleção de poesia de 1919 por Saijō Yaso intitulada Sakin ou Gold Dust (Poeira Dourada). O poeta foi professor universitário e viveu na França por um tempo, estudando na Sorbonne; sua obra é fortemente influenciada por poetas franceses, especialmente simbolistas como Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Paul Valéry (com os quais se tornou amigo). Embora o trabalho posterior de Saijō fosse ostensivamente para crianças, ele estava repleto de símbolos e jogos de palavras estranhos que poderiam ser bastante inquietantes.
[Você é um jovem curioso que ama desafiar essas coisas, não é mesmo? Se quiser tentar a sorte o poema está abaixo na versão original. Já que é uma lenda japonesa é melhor ler a versão original, fique por sua própria conta e risco.]
Aqui está o poema Tomino no Jigoku original, em japonês:
トミノの地獄
Tomino no Jigoku
姉は血を吐く、妹(いもと)は火吐く、
Ane wa chi wo haku, imoto wa hihaku,
可愛いトミノは 宝玉(たま)を吐く。
Kawaii tomino wa tama wo haku
ひとり地獄に落ちゆくトミノ、
Hitori jigoku ni ochiyuku tomino,
地獄くらやみ花も無き。
Jigoku kurayami hana mo naki.
鞭で叩くはトミノの姉か、
Muchi de tataku wa tomino no ane ka,
鞭の朱総(しゅぶさ)が 気にかかる。
Muchi no shuso ga ki ni kakaru.
叩けや叩きやれ叩かずとても、
Tatake yatataki yare tatakazu totemo,
無間地獄はひとつみち。
Mugen jigoku wa hitotsu michi.
暗い地獄へ案内(あない)をたのむ、
Kurai jigoku e anai wo tanomu,
金の羊に、鶯に。
Kane no hitsu ni, uguisu ni.
皮の嚢(ふくろ)にやいくらほど入れよ、
Kawa no fukuro ni yaikura hodoireyo,
無間地獄の旅支度。
Mugen jigoku no tabishitaku.
春が 来て候(そろ)林に谿(たに)に、
Haru ga kitesoru hayashi ni tani ni,
暗い地獄谷七曲り。
Kurai jigoku tanina namagari.
籠にや鶯、車にや羊、
Kagoni yauguisu, kuruma ni yahitsuji,
可愛いトミノの眼にや涙。
Kawaii tomino no me niya namida.
啼けよ、鶯、林の雨に
Nakeyo, uguisu, hayashi no ame ni
妹恋しと 声かぎり。
Imouto koishi to koe ga giri.
啼けば反響(こだま)が地獄にひびき、
Nakeba kodama ga jigoku ni hibiki,
狐牡丹の花がさく。
Kitsunebotan no hana ga saku.
地獄七山七谿めぐる、
Jigoku nanayama nanatani meguru,
可愛いトミノのひとり旅。
Kawaii tomino no hitoritabi.
地獄ござらばもて 来てたもれ、
Jigoku gozaraba mote kite tamore,
針の御山(おやま)の留針(とめはり)を。
Hari no oyama no tomebari wo.
赤い留針だてにはささぬ、
Akai tomehari date niwa sasanu,
可愛いトミノのめじるしに。
Kawaii tomino no mejirushi ni.
Aqui está minha interpretação deste poema muito sombrio e perturbador (com notas de rodapé sobre assuntos importantes). Na verdade, não li a coisa em voz alta, então não posso falar se a maldição é real. Vou deixar isso ao seu critério.
Segue a tradução:
O Inferno de Tomino[1]
A irmã mais velha vomita sangue,
a irmã mais nova cospe fogo
enquanto a doce e pequena Tomino
apenas cospe as joias.[2]
Sozinha Tomino
caiu nesse inferno,
um inferno de escuridão total,
sem nem mesmo flores.
É a irmã mais velha de Tomino
aquela que a chicoteia?
O propósito da flagelação
paira escuro em sua mente.[3]
Amarrando-a e espancando-a, ah!
Mas nunca se estilhaça o suficiente.
Um caminho seguro para Avici,[4]
o inferno eterno.
Naquele mais sombrio dos infernos
orientá-la agora, eu rezo…
para a ovelha dourada,
para o rouxinol.
Quanto ela colocou
naquela bolsa de couro
para se preparar para sua caminhada para
o inferno eterno?
A primavera está chegando
ao vale, à floresta,
aos abismos em espiral
do inferno mais escuro.
O rouxinol em sua gaiola,
as ovelhas a bordo da carroça,
e lágrimas bem nos olhos
da doce e pequena Tomino.[5]
Canta, ó rouxinol,
na vasta e enevoada floresta…
ela grita que só sente falta de
sua irmãzinha.
Seu lamento desesperado
ecoa por todo o inferno…
uma peônia de raposa
abre suas pétalas douradas.
Descendo as sete montanhas
e sete rios do inferno…
a viagem solitária
da pequena e doce Tomino.
Se neste inferno elas forem encontradas,
que elas venham até mim, por favor,
aqueles espinhos de punição afiados
da Montanha das Agulhas.[6]
Não apenas por um capricho vazio
É carne perfurada com alfinetes vermelho-sangue:
eles servem como placas de sinalização infernais
para a doce e pequena Tomino.[7]
-traduzido por David Bowles
29 de junho de 2014
[1]. O termo aqui traduzido “inferno” é “jigoku”, o complexo infernal budista no qual pessoas muito pecaminosas podem reencarnar. Observe também que o poema segue um padrão silábico 7-7-7-5, evocativo da maioria dos versos tradicionais japoneses.
[2]. O que está acontecendo aqui não é imediatamente óbvio, mas claramente as irmãs de Tomino estão sofrendo enquanto ela não está.
[3]. Aparentemente as chicotadas que Tomino está recebendo no seu caminho para o inferno são merecidas (embora outra possível leitura dos japoneses possa ser “o propósito da flagelação o preocupa”, sugerindo possivelmente que ela não sabe porque está sendo punido. Para mim, parece que ela sabe.
[4]. O poema revela que Tomino está indo para o “mugen jigoku”, a tradução japonesa do sânscrito “Avīci”, ou “sem ondas”. Avīci é o mais baixo dos infernos do budismo, aquele cujos tormentos duram tanto tempo (éons e éons) que as almas parecem estar presas lá pela eternidade. Há cinco pecados horríveis que você pode cometer para acabar neste lugar: criar um cisma dentro da comunidade de monges e monjas budistas, derramar o sangue de um Buda, matar uma pessoa iluminada, ou (AHAM) assassinar intencionalmente o pai ou a mãe de alguém (!). Caramba, acho que poderíamos ter acabado de descobrir o que Tomino fez[17] Claro, isso é ler o poema literalmente, sobre o qual ver a nota nº 7.
[5]. Me impressiona que as ovelhas e o rouxinol são simbólos das irmãs de Tomino.
[6]. A Montanha de Agulhas (Hari no Yama) é outra característica encantadora do inferno budista. É aqui que os atormentadores dos malditos recebem seus espinhos.
[7]. Outra tradução possível seria “Não apenas por um capricho vazio / vou furar com alfinetes vermelhos de sangue / as marcas sobre o corpo / da doce e pequena Tomino”… De qualquer forma, a conclusão é arrepiante! Agora, dado que o poeta tinha uma predileção por poesia simbolista, é muito provável que toda essa conversa sobre a descida de Tomino ao inferno seja mera metonímia, e que algum outro tipo de inferno terrestre de relações interpessoais esteja sendo descrito. O artigo da Wikipédia japonesa em Saijō sugere que ele escreveu este poema sobre a morte de sua irmã ou de seu pai; dados os objetivos da poesia simbolista (para evitar descrever as coisas em si e, em vez disso, descrever seus efeitos), me impressiona que o poema se destina a mostrar a angústia emocional de Saijō após a morte de alguém, comparando a culpa de seu sobrevivente a uma viagem ao inferno.
***
Fonte:
BOWLES, David. “Tomino’s Hell” by Saijō Yaso. David Bowles, 2014. Disponível em: <https://davidbowles.us/poetry
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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.
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