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O envenenamento e a cura de “Deus” – A Qliphah Samael (parte I)

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Este artigo faz parte do Sefer Tehiru, um projeto independente de pesquisa e escrita dedicado à Cabalá heterodoxa.

Samael, ao lado de Lilith, a Rainha do Sitra Achra, ocupa um lugar central no imaginário místico judaico como figura adversarial por excelência, associado aos papeis de acusador e opositor de Yahweh, bem como à iniciação humana – previamente interditada – na arte do conhecimento do bem e do mal. Ainda que amplamente desenvolvido na literatura rabínica e cabalística, com abundantes referências, seu nome não aparece de forma literal no texto bíblico. Essa ausência faz com que sua presença, paradoxalmente, seja ainda mais intensa: Samael converte-se em foco de uma construção interpretativa densa, sustentada por diferentes camadas exegéticas que, tanto na expressão luminosa quanto sombria da ortodoxia, acabam por ser sintetizadas na tradução do seu nome como “Veneno de Deus”.

Samael (סַמָּאֵל) tem, como núcleo, a palavra sam (סַם), que significa, em sua base, “especiaria”, como aquelas usadas para na composição do incenso. No hebraico pós-bíblico, porém, o termo se expande e passa a comportar os sentidos de “droga”, “medicina” e “veneno”[1], podendo “droga” ser entendido aqui num sentido amplo, medicinal ou não, de onde deriva a raiz smm (סמם), “envenenar”[2]. Essa palavra tem relação direta com o aramaico[3] sam (סַם) e sama (סַמָּא) que, igualmente, significam “medicina” e “veneno”, mas também “cor, pigmento” e “ingrediente”[4]. Em um campo semântico mais amplo, sam pode ainda ser compreendido como “essência” ou “soma”, ou seja, aquilo que reúne ou inclui elementos diversos[5]. Já aqui, nos primeiros níveis filológicos, sam delineia-se como uma substância que tanto cura, quanto intoxica, contemplando um campo ambíguo de ação sem que essas duas dimensões se anulem mutuamente.

O hebraico sam também tem proximidade com o acádio shammu, “planta, droga, medicina”, e com o árabe sum e sma, que significam “veneno” em alguns textos, refletindo, portanto, o mesmo campo de sentidos em aramaico e hebraico. O plural de sam é samim (סַמִּים), que é a forma que aparece de fato no Tanakh, sempre como uma referência a substâncias aromáticas como, por exemplo, em Ex 30:34:

Iahweh disse a Moisés: “Procura aromas [samim (סַמִּים)]: estoraque, craveiro e gálbano, aromas e incenso puro, cada um em quantidade igual. Com eles farás um perfume, uma composição aromática, obra de perfumista, misturando com sal puro e santo.

É curioso observar que em hebraico moderno samim significa também “drogas ilícitas, narcóticos”[6]. Mas esse sentido dúbio torna-se particularmente explícito no hebraico rabínico e, posteriormente, na literatura talmúdica — aproximadamente entre os séculos I e VI EC — onde a palavra sam aparece referindo-se a uma substância preparada que pode tanto agir como remédio quanto como veneno, o que se evidencia nas expressões sam chayim (סם חיים), “elixir da vida”, e sam mitah (סם מיתה), “elixir da morte”, presentes no Talmude Babilônico[7], indicando uma substância que poderia influenciar o ser humano provocando um duplo efeito no corpo: cura e intoxicação.

De todo modo, embora haja convergência entre o hebraico moderno e mishnaico em termos dos efeitos, no uso da língua nesse período, sam ainda não poderia ser relacionada simetricamente a droga no sentido moderno, mas algo mais próximo de uma substância de intervenção que altera um determinado estado físico, corporal, o que pode também ser deslocado, por analogia, com uma alteração moral ou espiritual. Mas o terreno para o desenvolvimento posterior já está definido, dado que é possível pensar nos efeitos provocados por diversos tipos de plantas, inclusive as enteogênicas e aquelas das quais são sintetizadas substâncias diversas. Esse campo de sentidos simultâneos é fundamental para o entendimento e o trabalho com esta Qliphah, na medida em que Samael representa uma potência de transmutação ambígua.

Tudo isso nos leva, consequentemente, a algumas questões: qual a dosagem e o contexto do uso de uma determinada substância para que ela possa agir como elixir ou como veneno? Dado que o efeito dessa substância é duplo, o processo também o será? Quer dizer, a cura pode advir, portanto, a partir de uma espécie de envenenamento? O oposto também é válido, a busca da cura, sem os devidos cuidados, pode levar a um processo de envenenamento?

Por fim, temos o sufixo el (אֵל) no final do título, que, conforme visto em Gamaliel, significa “força, poder” e, é um termo usado tanto para se referir genericamente a qualquer elohim (um “deus” entre outros), quanto ao elohim Yahweh. Samael, o “veneno de Deus”, sob uma leitura que opera pela inversão torna-se, então, “veneno que se dirige a Deus”. E veneno aqui pode se referir a uma substância, mas também a uma determinada forma de linguagem ou conceito que atua diretamente sobre um determinado padrão mental de crença, “envenenando-o”, ou seja, tensionando-o e destabilizando-o completamente, para que outra configuração possa se estabelecer. O nome Samael passa, assim, a condensar uma potência cujos efeitos não se resolvem por exclusão, mas por sobreposição: não se trata de cura ou envenenamento, mas de ambos operando simultaneamente.

Os efeitos dessa ambiguidade, bem como a ampliação das tensões em Samael, ficam ainda mais evidentes quando se consideram outros dois títulos atribuídos a essa Qliphah no tratado cabalístico de sistematização de Cordovero, o Pardes Rimonim: Tumiel e Ragziel.[8]

O título Tumiel (תומיאל) pode ser decomposto em “tum[i]” + “el”. O componente tumi (תומי), tal como grafado, não aponta para uma palavra atestada em hebraico, mas podemos compreendê-lo a partir da palavra tum (תֹּם, תּוֹם), “completude, perfeição; integridade; inocência”[9], especialmente ao consideramos que o yod pode ter sido acrescentado entre tum e el como uma ponte vocálica[10]. Esse substantivo deriva da raiz tmm (תמם), “ser terminado, finalizado; chegar ao fim; ser concluído”[11].

Portanto o título Tumiel indica uma Qliphah que está relacionada a processos de conclusão e completude, não como a continuidade cíclica – começo, meio e fim – de uma determinada ordem estabelecida, mas como seu esgotamento. Trata-se de uma potência que leva ao término de determinadas configurações mentais, encerrando padrões que, quando ativos, mantém a Alma funcionando dentro de uma estrutura específica. Em termos explícitos, sob a chave da inversão e reversão, não se trata, portanto, de uma “perfeição [que emana] de El”, mas de um estado de plenitude e inteireza que se dirige contra El, isto é, contra aquilo que se estabelece como ordem “divina”, aqui compreendida como os padrões corrompidos de YHVH, especificamente projetadas no nível mental da Alma. De forma explícita, Tumiel é “a completude ou o aperfeiçoamento que se dirige a Deus”.

Por sua vez, o título Ragziel (רגזיאל) nos leva a um campo semântico muito direto no que diz respeito aos efeitos do contato com aquilo que Samael representa. Rogez (רֹגֶז) significa “agitação, excitação” e “ira, raiva”[12], derivando da raiz rgz (רגז), “ficar agitado, tremer, ficar com raiva ou enfurecido”[13]. Em outras palavras, estamos diante de uma dimensão onde as substâncias às quais essa Qliphah se refere, sejam literais ou não, produzem efeitos psíquicos específicos: estados de excitação e agitação diante de uma estrutura aparentemente estável – o que não quer dizer que ela seja, apenas por isso, benéfica. No nível interno, é a agitação da Alma diante da percepção consciente do campo estrutural herdado de YHVH, em forma de padrões psíquicos. Daí compreendermos a associação que Cordovero faz, no Pardes, de Ragziel como o “Príncipe da Inquietação”.

Mas tal inquietação não é gratuita: a agitação opera como mecanismo de exposição, uma etapa de um processo maior, não devendo ser encarada ou abraçada como “a coisa em si”. Aquilo que se mantém latente sob uma ordem aparente, especialmente padrões de submissão e automatismos internalizados como formas de controle, torna-se aqui impossível de não ser visto. A sobrecarga gerada pelo desejo de dominação que determinadas falhas cognitivas impõem sobre o indivíduo, independentemente se ocorrem por vias internas ou externas, manifesta-se, tornando claro um componente servil que não pode mais ser aceito nem ignorado, tampouco negociado. Nesse processo, Samael atua simultaneamente como acusador e vetor de encerramento: os padrões psíquicos que não podem se sustentar diante do veneno de Samael são levados ao limite. É a partir desse ponto, onde certas configurações adoecidas na Alma já não podem se sustentar, que a face de Samael como Serpente começa a se delinear com mais nitidez, levando às suas máscaras como Acusador e Anjo da Morte.


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REFERÊNCIAS

CORDOVERO, Moses. Pardes Rimmonim. Sefaria. [s.d.]. Disponível em: https://www.sefaria.org/Pardes_Rimmonim. Acesso em: 26 set. 2025.

HEBREW UNION COLLEGE. The Comprehensive Aramaic Lexicon Project (CAL). Cincinnati, OH, [s.d.]. Disponível em: https://cal.huc.edu/. Acesso em: 14 abr. 2026.

JASTROW, Marcus. A Dictionary of the Targumim, the Talmud Babli and Yerushalmi, and the Midrashic Literature. London: Luzac, 1903. Disponível em: https://sefaria.org/Jastrow. Acesso em: 19 set. 2025.

ALCALAY, Reuben. The complete Hebrew-English dictionary. v. 3. New York: Macmillan, 1964. Disponível em: Internet Archives. Acesso em: 15 abr. 2026.

JEWISH Virtual Library. Samael. Disponível em: https://www.jewishvirtuallibrary.org/samael. Acesso em: 17 dez. 2025.

KADMON, Baal. Learn the meaning of the name “Samael”. [S.l.: s.n.], 2022.  1 vídeo (YouTube). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zjMq-dDGhfg. Acesso em: 2 mar. 2026.

KLEIN, Ernest. A comprehensive etymological dictionary of the Hebrew language for readers of English. 1st ed. Jerusalem: Carta, 1987. Disponível em: https://sefaria.org/Klein_Dictionary. Acesso em: 02 mar. 2026.

MONTEIRO, Samuel. Hebraico Pro: Bíblia Hebraica Transliterada. Disponível em: https://hebraico.pro.br/r/bibliainterlinear. Acesso em: 18 set. 2025.

TALMUD Bavli. Yoma 72b. In: Sefaria. Edição digital: William Davidson Edition (Koren Noé Talmud). Tradução e comentário de Adin Even-Israel Steinsaltz. Disponível em: https://www.sefaria.org. Acesso em: 14 abr. 2026.

NOTAS

[1] KLEIN, Ernest. A Comprehensive Etymological Dictionary Of The Hebrew Language for Readers of English. 1. ed. Jerusalem: Carta, 1987. Verbete סַם.

[2] KLEIN, 1987, verbete סמם.

[3] O aramaico foi amplamente utilizado pelas comunidades judaicas entre o século VI aEC, após o exílio babilônico, e o século VII EC, início do período islâmico.

[4] HEBREW UNION COLLEGE. The Comprehensive Aramaic Lexicon Project (CAL). Cincinnati, OH, [s.d.]. Verbetes sm, smʾ.

[5] JASTROW, Marcus. A Dictionary of the Targumim, the Talmud Babli and Yerushalmi, and the Midrashic Literature. London: Luzac, 1903. Verbete סַמָּא II.

[6] ALCALAY, Reuben. The complete Hebrew-English dictionary. v. 3. New York: Macmillan, 1964.  Verbete סַם, סַמִּים, p. 1784.

[7] Talmud Bavli, tratado Yoma 72b, ed. digital Sefaria (Davidson/Steinsaltz). Na tradução para o inglês, lemos: “If one is deserving, the Torah becomes a potion [sam] of life for him. If one is not deserving, the Torah becomes a potion of death for him.”

[8] CORDOVERO, Moses (Ramak). Pardes Rimmonim. Safed, c. 1548. Sha’ar 25, perek 4, se’if 9. Disponível em: Sefaria.

[9] KLEIN, 1987, verbete תֹּם, תּוֹם.

[10] Algo comum em diversos nomes teofóricos, especialmente quando temos encontros consonantais duros, tal qual em Taumiel (de taum), Gamaliel (de gamal), Ogiel (de og), por exemplo, ou nos inúmeros títulos presentes no próprio Pardes Rimmonim, em títulos como Ragziel, Keteriel, Kerteiel, Qemetiel, Beliel, Shaariel, Etiel, Uziel, Hazriel, Zefiel, Zeamiel, Ugiel, Qetsfiel, Nachashiel e Avriel, todos associados às Qliphoth e todos contendo o yod como uma espécie de ponte vocálica. Some-se a isso o fato de que e o yod e o vav frequentemente surgem no hebraico como marcadores vocálicos , podendo, em certos casos, aparecer e desaparecer sem alterar a raiz. Podemos especular, a partir do padrão que os nomes sugerem, se esse uso sistemático não reflete uma “estratégia de nomeação”, não como estrutura morfológica natural do hebraico, mas como um padrão sonoro-estrutural deliberado.

[11] KLEIN, 1987, verbete תמם.

[12] KLEIN, 1987, verbete רֹגֶז.

[13] KLEIN, 1987, verbete רגז.

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