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Vampirismo e Licantropia

Vampyrismo Real: Indiferentes ao Fim

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O Vampyrismo Real não aguarda o apocalipse, somos indiferentes à necessidade de um. Buscar sentido sob forma de colapso é uma lógica escatológica presente nas religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) ao menos em um segmento dominante delas para não generalizarmos – há muitas nuances em cada uma delas, prefiro as mais brandas e generosas inclusive.

Enquanto “Afins e do Sangue” preferimos a vida como ela acaba sendo, dispensando qualquer clímax apoteótico garantido – doutrinário e teleológico. Inclusive o Vampyrismo Real é realmente anti teleológico no fechamento da conta, mas falaremos disso outra noite. Repare que uma existência sem clímax garantido, requer um tom adamantino próprio que requer muito mais habilidade e força do que apenas esperar (ou alegar) trabalhar pelo fim de tudo. Qualquer ideia de que o sentido precisa de um evento extremo (ou apocalíptico) para se legitimar é indicador de quem não entendeu nossos princípios, hábitos e costumes; tal como outros aspectos e traços perenes de como atravessamos as últimas cinco décadas e pouco neste “selvagem jardim” enquanto algo perene e que arriscamos como Tradição jamais tradicionalismo de qualquer tipo – isso é coisa do baixo clero e das casas da ladainha.

Sabe uma outra coisa muito importante para todo afim e do “Sangue”? Vampyrismo Real sem Romantismo Estrutural (assombro, espanto e afins – pense em nomes como Rudolff Otto ou ainda Abrahan Hescel) degenera em totalitarismo. E se tem uma coisa que verdadeiramente desprezamos é o autoritarismo (nazismo, stalinismo, facismo e afins). Qualquer manifestação de espectro político extremado e bipolarizado é mais danoso do que se pensa.

Deixa eu recapitular o que conversamos até agora sobre Vampyrismo Real hoje: “Indiferença ao apocalipse” e a “preservação do assombro e do romantismo estrutural”. A primeira nos educa para que uma existência sem clímax é ainda mais carregada de intensidade, força e requer habilidade. A segunda ensina a sustentar a profundidade sem recorrer ao fim como justificativa. Nada mal. Viver sem clímax garantido é mais difícil do que esperar pelo fim, porque simplesmente elimina o álibi. Deixando para lá um evento final que organize tudo, cada gesto precisa se bancar por si. Não há redenção prometida, não há fechamento narrativo; restando apenas a continuidade sem fim.

Essa história de continuidade sem fim é coisa delicada, muito preciosa, meus nobres amigos e amigas. Penso que inclusive as amigas entendem disso muito melhor do que os amigos, considerando a vida como acaba sendo. A ideia de cíclico e de Ouroboros se diferencia tanto desse niilismo meia boca de rede social e novas espiritualidades de hoje que sequer encaram a densidade de um Demônios de Dostoievski ou ainda o Sonho do Homem Tolo; bem como um Pais e Filhos de Turgueniev. Soando mais como um niilismo gourmet de praça de alimentação escandinava. Nesse ponto o Vampyrismo Real se diferencia tanto do niilismo quanto do milenarismo. Ele não deseja o colapso, nem se desespera diante da ausência de sentido transcendental.

Lembra que somos indiferentes ao apocalipse? Pois é. Lembra da alegoria ou metáfora do “Sangue” (procura meus podcasts no spotify e youtube, explico isso há mais de duas décadas neles, com base e história). O Vampyrismo Real atua e opera no entre mundos, entre meios, no intervalo, no fluxo contínuo, onde a existência não será resolvida – apenas refinada ou embrutecida. É o mistério do “Sangue” que elimina a dependência do colapso como fornecedor de sentido. Ela dissolve a herança escatológica, você sabe aquela mesma matriz que, em tradições como o Cristianismo, organiza o tempo em direção a um clímax final. Ao abandonar esse eixo, o Vampyrismo Real recusa não só a promessa de redenção, mas também o conforto psicológico de um desfecho.

Alguns prontamente irão lançar que inexistindo um desfecho sempre há o risco do esvaziamento. Faz algum sentido, não acha? Nada de clímax, nada de teleologia e de nenhum grande evento que acaba com tudo – pode ser que a existência pode colapsar não no excesso mas na indiferença total, na anestesia, na aridez. É um raciocínio adulto, vamos concordar. Só que é exatamente aqui onde entra aquele nosso outro vetor:

A preservação do assombro e do espanto (um tipo de romantismo estrutural) não é um luxo estético, é uma arquitetura e engenharia de percepção. Ela reintroduz intensidade sem precisar recorrer ao extremo. Em vez de depender do fim para gerar significado, o sistema aprende a extrair densidade do “contínuo”, do fluxo e da vida como ela acaba sendo. É por isso que chamamos de “Romantismo Estrutural”. Não é sentimentalismo. É um mecanismo de sobrevivência simbólica. Sem ele, o Vampyrismo Real brutaliza e degenera em algum totalitarismo estético, mais ou menos como andam muitas subculturas urbanas hoje; bem como algumas instituições formais e informais de esoterismo, bruxaria e ocultismo por aí.

Quando a experiência perde o assombro, sobra apenas a forma. E a forma sem assombro e espanto vira regra. Regra vira norma. Norma vira controle. E esse último sempre descamba em narcisismo e dissociação na prática.

Agora deixemos isso de lado. Vamos focalizar nossos dois vetores principais desta postagem: “A indiferença ao apocalipse retira o vício no clímax!” e ” O assombro estrutural reintroduz intensidade sem clímax!” tal alinhamento é sofisticado e oferece uma vida muito, muito mais interessante não orientada por um fim ou finalidade; não dependente de rupturas; não anestesiada pela continuidade sem fim e capaz de sustentar profundidade no fluxo. Uma vida liberta onde qualquer noção de que o sentido precisa de um evento extremo é sinal de incompreensão. Meu ponto é o sentido não “acontece”, ele é cultivado. Ele não vem depois do colapso. Ele emerge da capacidade de sustentar atenção, estética e presença sem garantias narrativas. Eu sei, parece aquele papo de “se alguém precisa de religião para ser bom”. Qualquer jovem adulto que já fracassou em um relacionamento afetivo sabe muito bem, que é sobre o que fazia quando estava junto e não sobre o que aprontou próximo do suposto final, não é mesmo?

É o assombro que impede o Vampyrismo Real de se tornar uma doutrina rígida, mantendo-o como um campo de experiência, não um código de imposição. O “Sangue”, nesse sentido, não é apenas pertencimento — é também vibração estética, capacidade de reconhecer intensidade sem precisar traduzi-la em dogma.

Rumando para o fechamento deste papo – é o seguinte, para nós os Afins e do “Sangue” o erro do escatológico é precisar do fim para revelar o real. O erro do niilista é concluir que, sem fim, nada se revela. O Vampyrismo Real resolve essa tensão ao tornar a própria percepção um instrumento de intensidade. E aqui está o ponto mais exigente e ainda mais raro hoje: Você não está apenas recusando o apocalipse. Você está abrindo mão da necessidade de qualquer validação final. O que resta não é vazio. É responsabilidade estética e existencial contínua.

O que se delineia, ao fim, não é uma recusa juvenil do apocalipse, mas uma maturidade ontológica rara: a capacidade de existir sem depender de qualquer promessa de fechamento. O Vampyrismo Real não se define pela negação de sistemas escatológicos oriundos de tradições abraâmicas, mas pela superação silenciosa da necessidade de que o tempo culmine em um sentido final. Ao retirar do colapso sua função de revelação, desloca-se o eixo da existência para a qualidade da percepção e isso exige mais do que crença: exige disciplina, estética e presença – e um daemon generoso!

Nesse contexto, a preservação do assombro não é ornamento, mas condição de abertura e de possibilidade. É o que impede que a continuidade se torne anestesia e que a lucidez se converta em rigidez. Sem ele, toda estrutura degenera; com ele, a experiência permanece viva, aberta e intensa, mesmo sem clímax. Eis a síntese: uma existência que não espera ser validada, mas se sustenta por si, gesto a gesto e gota a gota do próprio “Sangue”.

Abandonar a necessidade de um fim não produz vazio produz responsabilidade. E é justamente essa responsabilidade contínua, estética e existencial, que separa os que apenas discursam sobre profundidade daqueles que, de fato, a encarnam no fluxo interminável do real.

Muito obrigado pela leitura, sou o Lord A:. tenho alguns livros publicados sobre o tema, um podcast no ar há 20 anos chamado Vox Vampyrica e uma plataforma a redevamp.com e se o que leu aqui no Morte Subita lhe deixou com sede de mais… já sabe onde me encontrar.

5 Lições Centrais do Texto

  1. O sentido não vem do fim — ele é cultivado no processo. A dependência de um evento extremo revela imaturidade perceptiva.
  2. Indiferença ao apocalipse é força, não negação. Ela elimina o vício narrativo no clímax e desloca a existência para o presente contínuo.
  3. O assombro é uma tecnologia, não um luxo. Sem ele, qualquer sistema degenera em rigidez, controle e vazio simbólico.
  4. Viver sem clímax exige mais responsabilidade. Sem redenção futura, cada gesto precisa se sustentar por si mesmo.
  5. O Vampyrismo Real é uma terceira via. Ele não cai nem no niilismo estéril nem no milenarismo ansioso — opera no fluxo, refinando a percepção como instrumento de intensidade.

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