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RESENHA DE: Peter Staudenmaier. Between Occultism and Nazism: Anthroposophy and the Politics of Race in the Fascist Era. Leiden e Boston: Brill, 2014. vii + 412 pp. ISBN: 9789004264076. €149.00 / $193.00.
Stefan Arvidsson, Tradução Caio Ferreira Peres
O historiador americano Peter Staudenmaier escreveu um dos livros mais minuciosamente pesquisados em que pude colocar as minhas nos últimos tempos. Sua investigação em arquivos profundos é tão impressionante quanto o seu domínio da literatura acadêmica. O tema de sua obra excepcional, Between Occultism and Nazism: Anthroposophy and the Politics of Race in the Fascist Era (Brill, 2014) trata das maneiras controversas pelas quais os movimentos antroposóficos navegaram, sobreviveram e negociaram sua posição no Terceiro Reich e na Itália fascista. Há muitas lições a serem aprendidas do estudo fascinante, detalhado e persuasivo de Staudenmaier.
Staudenmaier dá atenção especial ao uso do conceito de raça nos escritos de Rudolf Steiner e de outros antroposofistas alemães proeminentes durante as décadas de 1930 e 40. A primeira lição a ser aprendida deste livro é a sobreposição impressionante entre as versões antroposófica e nacional-socialista do conceito de raça. Staudenmaier prova isso de forma convincente ao fazer uma leitura atenta de algumas das obras de Steiner (dos textos publicados originalmente, nota bene, e não das edições censuradas publicadas depois da queda do Reich). Para mim, a história descritiva de Staudenmaier revela, mais claramente do que antes, até em que medida a antroposofia era teosofia distorcida pelo chauvinismo alemão. A facilidade pela qual muitos antroposofistas alemães e austríacos aceitaram os ensinamentos Blut-und-Boden, o racismo e o nacionalismo militante do regime do NSDAP corrobora este fato.
Um comentário crítico em relação ao foco de Staudenmaier sobre “raça” seria de que ele se abstém de fornecer um retrato abrangente das ideias e visão de mundo esotérica de Steiner. Essa imagem, mesmo quando construída rapidamente com linhas gerais, daria ao leitor uma ideia da importância relativa da noção de raça para o pensamento de Steiner e também daria ao leitor um vislumbre de outras questões que as imaginações antroposófica e nazista poderiam atrair ou repelir. O capítulo 4, tendo como subtítulo “Afinidades ideológicas entre a antroposofia e o nazismo”, não nos dá isso de qualquer forma substancial. Além do mais, há algo ligeiramente inconsistente entre a afirmação de Staudenmaier de que a antroposofia foi ao longo do tempo marcada pelos nazistas como um “inimigo ideológico” não por causa das diferenças mas por causa da “proximidade ideológica”, e a observação de que enquanto muitos antroposofistas na Alemanha celebravam o despertar de um Novo Reich, outros o denunciavam como uma forma de materialismo.
Em contraste com o que os antroposofistas de hoje em dia frequentemente afirmam, não foram, de acordo com o autor, portanto conflitos ideológicos que fez o regime nazista banir a antroposofia em 15 de novembro de 1935 ou a começar perseguições em 9 de junho de 1941. O pano de fundo da Aktion gegen Gehiemlehren und sogenannte Geheimwissenschaft (“Campanha contra as doutrinas ocultas e as assim chamadas ciências ocultas”) de 1941, com o fechamento de instituições antroposóficas e a prisão de antroposofistas de destaque, é delineado por Staudenmaier como basicamente uma pesquisa pelo Sicherheitsdienst (SD) para uma missão e propósito como uma instituição. A oportunidade atacar a antroposofia, juntamente de muitos outros grupos esotéricos, veio com a peculiar, e extremamente constrangedora para o regime nazista, viagem secreta à Escócia feita por Rudolf Hess, o vice de Hitler. Esta falha de cálculo espantosa feita por Hess, que levou a sua prisão no Reino Unido, removeu do aparato nazista o forte apoio para ideias e práticas “alternativas” e assim abriu caminho para a ala anti-ocultista com os seus nazistas de destaque como o SD-Führer Reinhard Heydrich, Martin Bormann e Joseph Goebbels.

Staudenmaier fornece repetidamente como as pessoas de destaque no movimento antroposófico eram simpatizantes ou membros do NSDAP ou trabalhavam em suas organizações. Ele enfatiza que a antroposofia carecia de doutrinas ou princípios éticos que poderiam colocá-la em oposição direta ao domínio impiedoso nazista. O maior desvio entre os dois movimentos alemães detectado em Between Occultism and Nazism está relacionado a palavra “espiritual” (traduzida de geistig e/ou seelisch) como uma forma de esculpir um “racismo espiritual” do “racismo materialista” nazista. Mas o que este conceito significa? A raça não é por definição algo corporal? Infelizmente, Staudenmaier nunca tenta explicar este uso antroposófico, e esotérico em geral, do “racismo espiritual”. Seria este conceito meramente o resultado de uma retórica elitista mais ou menos vazia ou ele de fato tinha algum tipo de coerência cognitiva? Ao aprender da escrita de Steiner de que mulheres europeias grávidas deveriam evitar ler “romances de negros” pois os seus bebês poderiam se tornar mulatos, duvida-se da vontade de Steiner de pensar claramente nestas questões.
Uma pergunta que pode ser levantada em relação a popularidade de ideias racistas nos círculos esotéricos durante o que Staudenmaier chama de “o renascimento ocultista moderno”, que é o período da década de 1870 até a Segunda Guerra Mundial – ele até mesmo fala do ocultismo como um “fenômeno de massas” na Alemanha na década de 1930, uma afirmação que considero ser um exagero – é se existe uma afinidade especial entre o racismo e o ocultismo. Em Alkemi, romantik och rasvetenskap: om en vetenskaplig tradition (“Alquimia, romantismo e ciência racial: Sobre uma tradição científica”) de 1994, a historiadora das ideias sueca, Hertha Hansson, identifica uma tradição epistemológica do “idealismo empírico”. Os exemplos de Hansson desta tradição são a alquimia, a Naturphilosophie romântica e a antropologia física moderna. De acordo com ela, as pessoas dessas tradições tentaram ir dos fatos empíricos observáveis para à identificação de qualidades espirituais (ideais). Como não trabalho no campo de estudo do esoterismo, posso ter perdido discussões acadêmicas nas linhas de Hansson; neste caso, busco participar delas no futuro.1 Também acredito que isto seja um importante caminho para se seguir dado que o estudo do esoterismo frequentemente tende a se isolar do estudo moderno da religião e da cultura em geral; a antroposofia é a ponte perfeita entre o mundo obscuro do ocultismo e da história intelectual e cultural abrangente.
De qualquer forma, uma consequência significante da hostilidade de certos membros influentes do NSDAp e algumas das instituições no Terceiro Reich para com a Sociedade Antroposófica na Alemanha, a Comunidade Cristã e outras organizações com ideologias ou Weltanschauung relacionadas foi o processo pelo qual o movimento antroposófico minimizou o seu lado ideológico, religioso ou teológico e, em vez disso, cultivou seu lado prático: “Quando confrontados com a oposição implacável dos nazistas anti-ocultistas, os antroposofistas não se retiraram para o mundo privado das ideias espirituais mas, em vez disso, focaram em esforços práticos, demonstrando o valor das escolas Waldorf, da medicina antroposófica e da agricultura biodinâmica para a Nova Alemanha”.
O perfil típico – e quando se trata de sobreviver em um ambiente não-antroposófico, muito bem-sucedido – do movimento é, portanto, resultado de uma reorientação durante o Terceiro Reich. Consequentemente, as pessoas de fora atualmente identificam a antroposofia mais notavelmente com as escolas Waldorf, agricultura biodinâmica e produtos de saúde alternativos, não com os ensinamentos sobre raças raízes arianas e avisos contras as influências arimânicas degenerativas. A persona contemporânea da antroposofia como um movimento internacionalista, humanístico e até mesmo “feminino” que experimenta diferentes culturas e danças “eurítmicas” de fato aproxima a antroposofia muito mais da (persona da) Sociedade Teosófica que Steiner e seus aliados depreciavam e romperam para formar um misticismo puramente ocidental em solo alemão.
Os dois últimos capítulos no livro de Staudenmaier tratam do destino da antroposofia na Itália fascista. Tão profundamente pesquisados quanto os capítulos sobre a situação alemã, esses capítulos tendem, no entanto, a se concentrar em demasiado em certos indivíduos cruciais (entre eles Julius Evola, popular hoje em dia entre jovens intelectuais de camisas marrons ou negras) e seu envolvimento com o fascismo. Algo sobre a visão geral de como a antroposofia italiana em geral se relaciona às ideias e ética fascista está ausente. Com exceção de pequenos comentários críticos como os de acima, Between Occultism and Nazism é uma contribuição esplêndida, bem argumentada e meticulosa para o estudo de um dos mais importantes novos movimentos religiosos da Europa moderna.
Link para o original: https://correspondencesjournal.com/ojs/ojs/index.php/home/article/download/20/21
NOTA
1 O editor gentilmente me lembrou de que New Age Religion: Esotericism in the Mirror of Secular Thought (Leiden: Brill, 1996) de Wouter Hanegraaff enfatiza a importância da Naturphilosophie pelo surgimento do esoterismo moderno, e além disso me informa que esta trilha é seguida para o caso de Steiner em Helmut Zander, Anthroposophie in Deutschland: Theosophische Weltanschauung und gesellschaftliche Praxis, 1884–1945, 2 vols. (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2007) e em Egil Asprem, The Problem of Disenchantment: Scientific Naturalism and Esoteric Discourse, 1900– 1939 (Leiden: Brill, 2014).
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