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por LöN Plo
Peter J. Carroll é uma desses salvadores que aparecem quando uma cultura já está fedendo por dentro, mas ainda tem tempo de passar perfume caro antes da foto. O ocultismo já estava cheio de velhos empoeirados, ordens secretas com papel timbrado, nomes hebraicos mastigados por aposentados nervosos, pirâmides na decoração e no modelo financeiro, juramentos ridículos e aquela necessidade patética de fingir que tudo veio de uma civilização morta há milénios não de um sujeito entediado numa sala úmida cheirando chá barato e charutos caros.
Alguns chamam Carroll de profeta do caos. Acho que ele odiaria esse termo. Profetas são péssimos. Sempre querem sua carteira, sua obediência ou sua filha. Carroll não tinha bem o talento nem o carisma de um profeta. Ele foi mas como um técnico chamado para olhar o painel de controle de uma usina psíquica que começava a soltando faísca. Ele chega, vê os ocultistas ajoelhados diante de máquinas antigas chamando fios desencapados de “tradição”, e pergunta a única coisa que presta:
Isso ainda funciona?
Ele não pergunta quem comprou a maquina, nem quem a fabricou. Ocultista adora origem. Origem é o crack do ocultista. Diga que uma prática veio da Atlântida, do Tibete secreto, da Suméria, de uma ordem invisível, de uma linhagem iniciática guardada por barbudos e metade da plateia já está de joelhos. A outra metade está vendendo o curso.
Enfim, Carroll olhou para esse circo e disse: foda-se a origem. Antiguidade não é prova. Tradição pode ser como dizia Chesterton, a democracia dos mortos. Mas isso não significa que antigamente sabiamos votar melhor.. Se Um erro velho continua sendo um erro, só que numa moldura mais prestigiada.
Carroll tratou a crença como ferramenta. Chave inglesa. Martelo. Alicate. Software temporário rodando numa máquina de carne ansiosa chamada ser humano. Seu ‘Pretty Love Snappy’ de Silicone. Você usa. Testa. Aperta. Quebra. Troca. Joga fora. Pega outro. Esse é o primeiro crime dele. E também sua principal virtude. Enfim já falei demais, vamos aos livros.
Os 9 Livros de Peter Carroll

O ponto de partida é Liber Null, publicado originalmente antes de sua reunião editorial com Psychonaut. Na edição combinada Liber Null & Psychonaut, de 1987, o material aparece como “dois volumes completos em um”. Liber Null traz rituais e exercícios para ocultistas comprometidos, gente disposta a fazer mais do que comprar um baralho bonito e posar para fotografias de gosto duvidoso. Psychonaut funciona como manual de teoria e prática mágica voltado ao trabalho grupal, à ação xamânica e comunitária, à exploração coletiva da consciência e das máscaras que chamamos de identidade. O livro foi publicado em português em 2016 pela Editora Penumbra.
Aqui Carroll é como um técnico da Claro que teve que encaixar seu chamado fora do horário normal de trabalho. Seco. Técnico. Agressivo. Sem paciência para sentimentalismo espiritual de vitrine. Liber Null pega a magia cerimonial pelo colarinho e sacode até caírem dela os brocados, os perfumes caros, os nomes pomposos, a pose aristocrática e todo dinheiro roubado. O que sobra é gnose, sigilo, visualização, concentração, transe, metamorfose da crença, disciplina da vontade e experimentação direta. Ele também faz algo que nenhum grande ocultista fez antes. Cita suas fontes. Ele não esconde que sua obra é uma sistematização e expansão do trabalho de Austin Osman Spare. Não há muito espaço para o turista místico. Carroll não oferece conforto. Ele oferece método. E método, quando levado a sério, costuma ser menos agradável do que consolo.
Em Psychonaut seu humor parece ter melhorado e ele amplia esse programa.Grupos mágicos, funções sociais do magista, criação de sistemas simbólicos, exploração da consciência, invocação, evocação, construção de identidades operatórias. A passagem de um livro para o outro já revela uma tensão que nunca abandona Carroll. De um lado, magia como disciplina pessoal extrema, quase uma academia mental para desmantelar hábitos, automatismos e crenças herdadas. De outro, magia como construção social, cultural, comunitária e em ultima instância, civilizacional.

Com Liber Kaos, Carroll entra em outra fase. A urgência punk rock de Liber Null dá lugar a uma tentativa mais sistemática, mais arquitetônica. O livro da um passo além do “Do it Yourself” e quer formular uma espécie de teoria geral da operação mágica. E aí Carroll começa a mexer com fórmulas, probabilidades, modelos de realidade, treinamento individual, treinamento grupal, organização de templos e estruturação de práticas. A magia do caos, que no primeiro momento parecia uma gangue invadindo o museu do ocultismo, agora começa a montar sua própria oficina, suas próprias ferramentas, sua própria gramática. O chefe da gangue assume seu posto de liderança. E ele é um puta de um nerd.
Há leitores que chegam procurando o choque elétrico de Liber Null e encontram um Carroll mais preocupado em organizar o painel de controle do reator. Para quem quer prática direta, Liber Null & Psychonaut ainda soa mais cortante, mais imediato, mais perigoso no bom sentido. A versão magica do The Anarchist Cookbook. Para quem quer compreender como a magia do caos se tornou uma linguagem de programação Liber Kaos é muito melhor.

Depois veio Psybermagick: Advanced Ideas in Chaos Magick, que, é preciso reconhecer, é essencialmente um caça-niquel criado as pressas por um editor que viu o sucesso das obras anteriores. A obra publicada pela New Falcon Publications já denuncia o crime no título: “psyber”, uma palavra feia mas adequada ao projeto que parece ter como objetivo mostrar a “falácia do ser” a insatisfação do autor com a interpretação de que magia do caos é apenas psicologia aplicada. Carroll escreve em fragmentos, máximas, provocações, pequenos choques de teoria e frases panfletarias. Não é uma daquela obras grandiosas que tirou o sono do autor e dos leitores, mas é uma prova de que Peter estava dormindo pouco.

Depois apareceu o The Apophenion: A Chaos Magick Paradigm, publicado pela Mandrake e apresentado no Specularium. A palavra central aqui é “apofenia”: ver padrões onde outros veriam ruído. Ver sinais onde veem erro, desvio ou problema cognitivo. Carroll, que nunca pareceu particularmente interessado em obedecer aos manuais de sanidade da civilização, transforma a apofenia em chave mágica. Aqui o mago já estava com o nome feito e começou a se sentir a vontade o suficiente para falar sobre as coisas que realmente queria. Faz sentido. A magia, nesse enquadramento é arte. Produzir, escolher, intensificar e explorar padrões significativos. Um padrão assumido com intensidade suficiente pode alterar comportamento, abrir possibilidades, produzir coincidências operacionais, reorganizar a experiência subjetiva e talvez cutucar o tecido probabilístico das coisas, se você estiver disposto a aceitar esse tipo de linguagem sem imediatamente chamar um fiscal ontológico.
The Apophenion pertence ao Carroll cosmológico. O tema é mais profundo que apenas magia. A pergunta é mais incômoda: “que tipo de universo permitiria que algo chamado magia fizesse sentido?” Aqui o magista começa a parecer menos um celebrante excêntrico e mais um filósofo natural criado nas BBS’s do inicio da internet. Alguém tentando operar no espaço mal iluminado entre evento e significado. Estatística como presságio.

Em The Octavo: A Sorcerer-Scientist’s Grimoire ele radicalizou ainda mais a figura do feiticeiro-cientista. A própria obra se apresenta justamente como um grimório de “sorcerer-scientist”. É um livro de magia para pessoas de exatas. Talvez por isso não tenha feito muito sucesso. Ele diz muito sobre a fase tardia de Carroll. Seu ponto é que magia não é oposição infantil à ciência, porém também não é submissão ansiosa à ciência. Em vez disso ele tenta tratar magia e cosmologia como partes de uma mesma investigação. Uma investigação especulativa e arriscada, sim. Às vezes difícil de engolir. Mas não preguiçosa.
Em The Octavo ele não está nada preocupado em convencer o iniciante. Seu publico é pequeno. Os interessados em propor uma física imaginal da feitiçaria. Carroll já escreve como alguém que atravessou o ocultismo tradicional, saqueou suas técnicas, descartou suas autoridades. dormiu com a secretária e agora tenta desenhar um modelo de negócios próprio. Verdade, não está mais derrubando estátuas com a mesma alegria juvenil. Está medindo o terreno depois da explosão.

Com The Epoch: The Esotericon & Portals of Chaos, escrito em 2014. É o oposto do livro anterior. Muito mais popular e de forte apelo comercial. Escrito em parceria com o trabalho visual de Matt Kaybryn, trata-se de três grimórios em forma textual, diagramática e também em imagens ou cartas móveis. É sua “Grande Síntese”, preservando o que ainda tem valor nela e reconstruindo-a com ideias científicas modernas, cosmologia, física quântica, Crowley e Austin Spare.
Aqui há uma ironia que merece ser saboreada, de preferência com um café bem ruim. Carroll, o homem que ajudou a tornar suspeita qualquer obediência tradicionalista, parece tentar oferecer ao mundo sua grande cosmologia mágica. Exatamente o tipo de coisa que seus primeiros livros teriam tratado com desconfiança e desprezo. Mas em sua defesa, a diferença está no método. Ele não se arrepende no leito de morte. Não pede extrema unção, nem retorna à tradição de joelhos. Não quer bênção dos ancestrais do ocultismo. Não chama o que oferece de revelação. Ele desmonta, recombina, atualiza, reorganiza no que lhe parece mais completo e mais razoável. Da maquina que ele criou pode sair ouro. Pode sair fumaça tóxica. Frequentemente saem os dois.
A mensagem que ele deixa nesse que é seu último livro pessoal é que o crivo da utilidade não é obrigatoriamente heterodoxo. Há muitas coisas tradicionais que funcionam também. E funcionam ainda melhor quando abordadas tradicionalmente. Não, você não precisa imitar os antigos em tudo. Mas também não precisa ter medo de ir mais fundo do que a superficialidade da inovação por si mesma.

Antes de passar para o próximo livro, falemos de “Chaos Compendium: La magie des Illuminati de Thanateros, publicado pela Camion Blanc/Camion Noir e m 2010. É um compilação francesa com capitulos dos livros anteriores e material da Illuminates of Thanateros que pode ser achado na internet. Se você pesquisar por Peter Carroll aqui na mortesubita vai achar muito mais material.

Interview with a Wizard, de 2022, por sua vez é um ótimo complemento as obras realmente escritas por Carroll. Uma longa entrevista feita por Ian Blumberg-Enge, com 322 páginas, publicada pela Mandrake com valor tanto histórico-biográfico como por seus não raros insights. Entre eles a confirmação de que Peter se via como um dos primeiros representantes de uma tradição de “Sorcerer-Scientists”, aproximando magia de ciência mais do que de religião, fazendo de Octave, visto a cima, a principal obra ao seus olhos.

Por fim, This Is Chaos: Embracing the Future of Magic, lançado em 2025 foi para Peter J Carroll o que Tribalistas foi para Marisa Monte. Uma obra de consolidação coletiva para a qual ele concordou em participar e figurar como principal nome. Aqui Carroll surge menos como autor solitário de um sistema e mais como editor, catalisador, patriarca intelectual, talvez até testemunha de uma corrente que finalmente escapou de suas próprias mãos.
Isso é adequado e um ótimo encerramento, caso não haja obras póstumas escondidas no fraque do Mandrake. A magia do caos, que nasceu como explosão contra sistemas fixos, chega a um ponto em que pode ser apresentada como tradição não engessada, plural, contraditória, com espaço em disputa. A palavra “tradição” talvez irrite alguns puristas do caos, o que é sempre um prazer adicional. Mas é isso que acontece quando práticas sobrevivem tempo suficiente. Elas acumulam história e criam grupinhos. Grupinhos geram descendentes ingratos. Produzem escolas, críticas, dissidências, revisões e gente nova dizendo que os fundadores não entenderam direito sua própria invenção. Sinal de vida, portanto. O pulso do caos bate firme, mas adequadamente desregulado. Talvez tenhamos mais alguns séculos antes do próximo salvador.
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