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por Obito
Estamos na China antiga, época das Primaveras e Outonos, o período dos Reinos combatentes se aproximava. Não se deixe enganar pelas cortesias, pelas reverências, pela complexa teia de emaranhados de rituais. Aqui é um lugar de morte. Ela está no ar, na terra, nos rios, nos sorrisos dos aliados.
Era uma terra onde se vivia e se morria, controlar qualquer coisa além disso era uma ilusão. Aquela foi uma época de violência disfarçada de polidez, de pactos feitos ao nascer do sol e quebrados sob a luz da lua. Mas também foi uma época de florescimento, foi nesta época que o Taoismo, o Confucionismo e o Legalismo surgiram e começaram a tomar forma, mas não como forma de compreender as verdades ocultas do mundo e sim como forma de tentar responder a pergunta: “Como viver em um mundo que está constantemente sendo despedaçado?”.
Não podemos nos esquecer que a China era Território Wū, a terra dos xamãs.
E, antes de mergulharmos em seu mundo, precisamos entender um dos maiores problemas modernos de se estudar a cultura da China, aqui no ocidente ao menos: conseguir classificar e catalogar suas crenças. São meramente filosofia ou fazem parte de uma religião? Eles falam de medicina ou do magia?
Para compreender exatamente esse ponto, vamos olhar para o caracter 心 xīn, normalmente traduzido como “coração”. Na cultura chinesa 心 é muito mais do que coração, ele representa mente, espírito e coração, é uma palavra que nos mostra o mundo físico, os órgãos, quanto sutil, os sentimentos, pensamentos, o fluxo entre todos. E na China antiga essa diferença entre cérebro e mente, corpo e alma, filosofia e magia, era ainda mais irrelevante. O ar era a manifestação do 氣 Qi e o simples ato de respirar era um ato mágico. Para os Wū antigos o mundo não era vivido, ele era respirado.
Era uma magia discreta e poderosa que, com o tempo, se transformou em religião, alquimia, medicina. Mas nunca deixando o invisível completamente separado.
Em um texto Taoista, descoberto em 1993, o Taiyi Shengshui (A Grande Unidade se Manifesta na Água) literalmente mergulhamos em uma visão da criação:
O Grande Um manifesta-se na Água,
e a Água, voltando-se, une-se ao Grande Um.
Assim sendo, o Céu se completa.O Céu, voltando-se, une-se ao Grande Um.
Assim sendo, a Terra se completa.Céu e Terra, por sua vez, unem-se um ao outro.
Assim sendo, o 神espiritual e o 明luminoso se completam.O 神espiritual e o 明luminoso, por sua vez,
unem-se um ao outro.
Assim sendo, o 陽 Brilhante e o 陰 Sombrio se completam.O 陽 Brilhante e o 陰 Sombrio, por sua vez,
unem-se um ao outro.
Assim sendo, os Quatro Tempos se completam.Os Quatro Tempos, por sua vez, unem-se uns aos outros.
Assim sendo, o Frio Abissal e o Calor Ardente se completam.O Frio Abissal e o Calor Ardente, por sua vez,
unem-se um ao outro.
Assim sendo, a Umidade e o Ressecado se completam.A Umidade e o Ressecado, por sua vez,
unem-se um ao outro.
(Até que) se completa o Ciclo da Colheita — e ali repousa.
Temos aí a criação dos espíritos terrenos e ctônicos, tanto da terra quanto dos antepassados. O espírito que forma as estrelas o sol e a lua. O surgimento do Yin e Yang (o Sombrio e o Brilhante), as quatros estações, os sopros (Frio e Calor, Umidade e Ressacado) até o ciclo da vida na terra.
Com esse mapa era possível se comunicar com espíritos, curar (ou fazer alguém adoecer), viajar entre mundos. E permeando a tudo isso havia, e há, o Qi.
Pergunte a acupunturistas “o que é Qi?”
A resposta invariavelmente virá como uma variação de:
“O Qi é Fisiologia. A tradução mais comum em uma palavra é ‘Energia’. É o total de acontecimentos que aquecem, animam, protegem, comunicam e permitem a locomoção, o pensamento e fala. O Qi é o princípio animador no centro de toda a vida, o que diferencia você de uma pedra.”
É uma bela visa, mas bem limitada. Uma pedra também tem Qi, a água tem Qi, o calor também, o próprio vácuo.
Qi antes de ser conceito, é movimento e mais ainda, ele é o que torna o movimento uma possibilidade, algo real.
Calor é matéria em movimento, aumente o movimento e você aumenta o calor. Luz são fótons em movimento. Imagine rolar uma bola pelo chão, se você tira o movimento dessa cena, termina com uma bola parada em um ponto. Se você tirar apenas a bola dessa cena, termina com aquilo que torna a cena possível.
Qi não é simplesmente o princípio da vida, é a dinâmica que permite que algo, como a vida, aconteça. Sem movimento nada existe. Nem luz, nem calor, nem matéria, nem pensamento.
No século VI a.C., Qi não era uma “energia mística”, semelhante à Força dos Jedi, como se tornou depois. Era algo mais cru, mais físico, mais real:
氣 = ar + sopro + vapor + hálito + fluxo vital.
É literalmente o sopro que anima (se lembra de Deus soprando a vida para dentro de Adão?) mas também é o padrão invisível que organiza. É atmosfera viva. Há sempre o úmido, o denso, o vibrante, o subterrâneo. Tudo existe entre seco/úmido, claro/escuro, quente/frio.
Não é uma substância, uma energia escondida dentro das coisas. É o meio pelo qual as coisas acontecem. Confuso? Então se prepare que a estrada fica muito mais esburacada daqui em diante.
Antigamente se acreditava que o ar era o Qi condensado, como a água é a umidade condensada, algo invisível que se torna mais denso e visível. Em sua forma mais sutil, antes de se tornar ar, ele é o que permite que o som do canto se espalhe, a dança levante o espaço, a oferenda “chegue” aos espíritos. No ritual, o Qi carrega a intenção. Ele chama, invoca, perfuma, abre passagem.
E, claro, ele também é o responsável pela saúde do corpo (lembre-se, corpo e espírito não são coisas diferentes, são momentos diferentes do seu ser). “Viver é concentrar Qi, morrer é o Qi se dispersar”. Assim, não havia “fatores patogênicos” circulando e causando doenças, havia ambientes, travessias, intensidades. Pense um momento, o vírus da gripe está presente o tempo todo em nossa atmosfera, ao nosso redor. Às vezes você está bem, é verão, o clima está agradável e, sem ninguém sequer espirrar perto de você, seu nariz começa a se entupir, os olhos se enchem de água e você entra no inferno astral dos espirros e febre, da mesma forma que você pode estar no meio do inverno, pegando ônibus de janelas fechadas, metrôs lotados de pessoas fungando e passar incólume. O que acontece em ambos os casos? Vai lá, pense em uma resposta bem científica e lógica agora.
No rituais chineses, reunir Qi não significa apenas curar o corpo, significa reintegrar o espírito, restaurar a ligação com o mundo.
Respirar não está apenas uma troca de gases, um processo mecânico de oxigenar seu sangue e liberar o gás carbônico que seu corpo produz. Ao inspirar, você acolhe o Qi do ambiente:
– o frescor da primavera, o calor úmido do verão,
– a secura do outono, o frio do inverno.
Ao expirar, você devolve ao mundo um Qi transformado pelo seu corpo, aquecendo o ar frio, umedecendo o ar seco.
Respirar é sua participação contínua no movimento do mundo e você nunca está fora do Qi, mas está sempre sendo atravessado por ele. A respiração é, portanto, a sua interação contínua e inevitável com esse sopro.
Se o Taiyi é um mapa do invisível, a respiração é um dos veículos para se ir de um ponto a outro e o “Pingente de Jade da Circulação do Qi” (行气玉佩铭) é uma das chaves que dão a partida nesse veículo.
Um amuleto para a todos controlar
Diferente de outros tantos objetos e textos antigos, o Pingente de Jade não foi encontrado em um túmulo antigo ou dentro de um vaso enterrado em algum lugar insuspeito. Ele surgiu em catálogos de coleções particulares no final da dinastia Qing e início do período republicano (fins do século XIX e início do século XX), e entrou no livro Sandai Jijin Wencun”, obra do estudioso 罗振玉 Luo Zhenyu, que catalogava inscrições antigas em bronze e jade.
Ele pertencia ao colecionador Li Mugong (李木公) de Hefei, mas hoje faz parte do acervo do Museu de Tianjin (天津博物馆), para onde foi transferido após ser adquirido pelo antigo Museu de História de Tianjin.
Trata-se de um pequeno ornamento de jade em formato de prisma de doze lados, com 45 caracteres gravados em escrita de selo, que descrevem de forma poética e concisa um ciclo completo de respiração meditativa e é considerado o texto mais antigo sobre práticas de cultivo da energia vital (养生).
Suas inscrições detalham o caminho do Qi pelo corpo, do armazenamento profundo à ascensão e conclui com o princípio fundamental: “Seguindo isto, vive-se; invertendo, morre-se” (顺则生;逆则死). Sua datação ainda é tema de debate acadêmico, mas o consenso geral aponta o Período dos Reinos Combatentes (475–221 AEC), com base na análise paleográfica do estilo da escrita.
Se para um ocidental interpretar textos chineses antigos não é um trabalho fácil, para estudiosos chineses ele chega a ser um pouco mais complicado. Existem diferentes versões do texto, todas elas interpretações acadêmicas divergentes dos mesmos 45 caracteres, cuja leitura é por vezes ambígua devido à antiguidade da grafia e ao desgaste natural do jade.
O maior problema é que muitos dos caracteres escritos não existem mais, eles podem ter sido extintos, podem ter se transformado em outros caracteres com significados levemente ou completamente diferentes. Ao se conversar sobre esses textos com estudiosos, impossível não notar uma leve expressão de “Que porra esse cara estava dizendo?”. Eles precisam se jogar em outros textos da época que sobreviveram aos dias atuais e, usá-los como uma espécie de pedra de roseta, tentando decifrar o que estão lendo.
1 – A Versão de Guo Moruo, a “Padrão”.
Ela é o resultado da decifração feita pelo historiador Guo Moruo em 1953 e é focado na fidelidade arqueológica do objeto.
行气,深则蓄,蓄则伸,伸则下,下则定,定则固,固则萌,萌则长,长则退,退则天。天几舂在上;地几舂在下。顺则生;逆则死。
Conduzir o Qi:
Quando [está] profundo, então acumula.
Quando acumula, então se expande.
Quando expande, então desce.
Quando desce, então se fixa.
Quando fixa, então se consolida.
Quando consolida, então germina.
Quando germina, então cresce.
Quando cresce, então retorna (ao ponto de origem/cume).
Quando retorna, então [atinge o] Céu.
O mecanismo do Céu pulsa no alto;
O mecanismo da Terra pulsa embaixo.
Seguir [este fluxo] é viver;
Invertê-lo é morrer.
Ou, em uma tradução mais fluida:
Ao praticar a circulação do sopro vital:
Quando a respiração se aprofunda, ela se acumula no interior.
Acumulada, ela se expande.
Expandida, ela desce (para o baixo ventre/região pubiana).
Descendo, ela se estabiliza.
Estabilizada, ela se consolida.
Consolidada, ela começa a germinar (como uma nova energia).
Germinada, ela cresce e se desenvolve.
Crescida, ela retorna ao seu ápice (sobe novamente).
Retornando ao ápice, ela atinge o Céu (o topo da cabeça).
A força vital do Céu pulsa no alto (na cabeça);
A força vital da Terra pulsa embaixo (no abdômen).
Agir em conformidade com esse fluxo ascendente e descendente é a vida;
Agir contra ele é a morte.
2 – A Versão de Shen Shou, a “Prática”.
Esta segunda versão é popular em manuais de Qigong Moderno, defendida por autores como Shen Shou (沈寿). Ela é basicamente uma versão mais curta, um costume dos entusiastas desse tipo de prática que, muitas vezes, removem as referências metafísicas do final para focar apenas nos nove passos técnicos da respiração.
Mas além disso, ela possui algumas diferenças:
行气,吞则蓄,蓄则伸,伸则下,下则定,定则固,固则萌,萌则长,长则复,复则天。
Praticar a respiração:
Engolir [o ar], então acumular.
Acumular, então expandir.
Expandir, então descer.
Descer, então fixar.
Fixar, então consolidar.
Consolidar, então germinar.
Germinar, então crescer.
Crescer, então retornar.
Retornar, então [atingir] o Céu.
3 – A Versão Filosófica, a “Alternativa”.
Esta surge de pesquisadores como Li Xueqin, que sugerem que alguns caracteres no jade original eram “empréstimos fonéticos”, caracteres com som igual, mas significados diferentes, oferecendo o que se acredita que fossem os caracteres desejados no texto.
行气,实则蓄,蓄则神,神则下,下则定,定则固,固则明,明则长,长则退,退则天,天其杳在上,地其捣在下,巡则生,逆则死。
Praticar o sopro vital:
[Estando] pleno, então acumula.
Acumula, então [se torna] espírito.
[É] espírito, então desce.
Desce, então se fixa.
Fixa, então se consolida.
Consolida, então se [torna] luminoso.
[É] luminoso, então cresce.
Cresce, então recua.
Recua, então [atinge] o Céu.
O Céu, seu mistério profundo, está no alto;
A Terra, seu socar vigoroso, está embaixo.
Percorrer o circuito é viver;
Inverter é morrer.
E então começa nossa jornada.
One for the money, Two for the freak show
Como em toda cultura, os Chineses também possuem seus antepassados que viveram centenas, se não milhares de anos, que nunca adoeciam, que lutavam contra o mal, às vezes pisavam na bola, e terminavam seus tempos sem morte em algum palácio celestial.
E, como em toda cultura, algumas pessoas acreditavam que as histórias, mitos se você preferir, era reais, como todo mito é real também. Algumas dessas pessoas partiam em busca da sabedoria, outras da aventura do descobrimento de mundos invisíveis. Alguns gostavam de conversar com espíritos, montanhas e até a neblina outros desejavam coisas mais simples, como a imortalidade.
E, no centro de todas essas práticas, estava o corpo e a respiração. Algo que com o tempo se cristalizou na alquimia interior e formas mais atuais de magia e práticas místicas.
Estudando o Pingente de Jade temos não só uma visão de crenças passadas, mas um guia xamânica prático para trabalhar o seu 心 xīn.
Mas, partindo dessas 3 interpretações, qual devemos usar? Qual é a mais “legítima”?
Sherlock Holmes certa vez disse “uma vez eliminado o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade”. Uma vez que estamos lidando com xamanismo chinês antigo, não devemos ter problema nenhum com o impossível, vamos abraçar todas as interpretações.
O que elas nos dizem sobre como o Qi age em nosso corpo?
No primeiro texto temos 舂 chōng, que significa “socar” ou “pilar” (no sentido de pilar arroz usando um pilão) para descrever seu movimento. Na época dos Reinos Combatentes, o Qi subia e descia pelo corpo como o movimento rítmico e vigoroso de um pilão socando um grão ou um pistão interno. Não era o fluxo suave que vira slogan de camisetas mas uma pulsação forte e rítmica.
E onde ele pulsava? Se esqueça de Chakras ou de serpentes de energia se enroscando pela coluna.
Na segunda versão, vemos a substituição de “深” (profundo) por “吞” (engolir) e engolir é mais que respirar. Respirar (深) é um processo passivo e contínuo, mesmo dormindo você respira. Engolir (吞) é um ato deliberado, quase agressivo, de incorporação. É como se o praticante não apenas aspirasse o ar, mas devorasse o Qi do cosmos.
Em muitas culturas arcaicas, o ar era visto como alimento. Não é à toa que praticantes de pranayama e taoistas falavam em “comer o vento”. “吞” sugere que o Qi desce não apenas pelos pulmões, mas pelo esôfago, indo direto para o “estômago de energia” (o que futuramente seria conhecido como dantian, o campo de cinábrio do corpo).
Da perspectiva taoista o principal aqui não é por onde o Qi desce e sobe, se pela traqueia ou pelo esôfago, mas que ele precisa de um lugar vazio, o vazio é um termo recorrente em textos dessa natureza: uma xícara só é útil porque é oca, o Tao é vazio como o fole de ferreiro por isso funciona, esvaziar e esvaziar a cada dia, etc.
Ao se cultivar o vazio interior criamos espaço para o Qi habitar e aqui temos duas formas disso acontecer, respirando ou engolindo o ar. O local do corpo onde isso acontece em ambos os casos é o baixo ventre e, à parte da intensidade do ato, o objetivo é o mesmo: literalmente tragar o mundo para dentro de você. O Céu e a Terra, que antes estavam fora, agora são engolidos e passam a pulsar dentro do seu corpo.
Ainda na segunda versão, temos a substituição de “退” (recuar) por “复” (retornar). Pense que 退 (Tuì) é uma ação linear, algo que foi/sobe, agora recua/desce. É um movimento de vai-e-vem. 复 (Fù) é cíclico e espiralado, significa retornar ao ponto de partida, o processo não tem começo ou fim, é um ciclo ininterrupto, outro assunto recorrente no taoismo, a renovação, o eterno retorno (nada Nietzchiano, pense nas estações do ano que sempre retornam).
Na visão taoista primitiva, a grande jornada do Qi não termina quando ele “sobe ao Céu”. Ao atingir o topo, ele deve retornar (复) para reiniciar o ciclo. É a respiração do cosmos, o que sobe deve descer, o que expande deve contrair, o que vive deve morrer para renascer. Como vimos no Taiyi, para haver criação cada princípio deve voltar-se e unir-se novamente ao que o criou.
Esses dois caracteres (“吞” e “复”) nos mostram a jornada completa, o ciclo sagrado.
Ao engolir, você traga o Qi do mundo para dentro. O cosmos entra em você pela boca e desce como alimento. Assim que desce, ele preenche e se acomoda no baixo-ventre. É a “Terra” dentro de você se formando. Lá embaixo, ele se torna sólido, denso, como uma semente plantada na terra fértil. Existem práticas como “Sentar e Esquecer”, por exemplo, onde você respira jogando o ar para baixo, respirando com a barriga e não com o peito, para se criar um espaço vazio no baixo ventre, o Qi se condensa nesse vazio e se torna o orvalho e então, com o tempo, o orvalho se concentra formando cinábrio. Muitos acreditavam que o cinábrio no baixo ventre poderia resultar em uma vida longa ou quase eterna, dai o costume de se preparar tinturas com ele, algo tóxico, e ingeri-las buscando viver para sempre, Qin Shi Huangdi, o primeiro imperador da China era um que tinha como lema “viver para sempre ou morrer tentando”, fã das tinturas de cinábrio (spoiler: ele não viveu para sempre).
Quando você forma essa terra interna, algo brota dela. A semente de Qi se torna uma planta. Isso é a vida surgindo dentro de você a partir do que você engoliu do mundo. Essa planta cresce, sobe pela “árvore da vida” interna, até atingir o topo, o Céu. Mas ao chegar lá, ela não para, ela retorna (复) à terra para começar tudo de novo.
Esta versão do texto é ainda mais explícita sobre o cosmos internalizado:
O praticante é a árvore do mundo, ele engole a terra (Qi denso) e o céu (Qi leve) e, dentro dele, esses dois crescem e se conectam. Seu corpo é o tronco, seu abdômen são as raízes (terra), sua cabeça é a copa (céu). A respiração é a seiva, o Qi não é apenas ar, ele sobe e desce por essa árvore interna, alimentando todos os níveis do ser.
O ciclo é eterno, “复” garante que isso não é uma jornada de uma vez só. É uma prática para a vida toda, um ritmo a ser mantido, um casamento contínuo entre Céu e Terra dentro do corpo.
E então temos a terceira versão, a mais interiorizada e “mística” de todas. Ela descreve não apenas um processo respiratório, mas uma verdadeira transmutação alquímica do ser.
Temos “实”, a Plenitude, como ponto de partida. Diferente das versões anteriores que começavam com uma ação (respirar fundo ou engolir), esta começa com um estado: a plenitude.
“实” sugere que o praticante já não está vazio. Ele já cultivou algo. Talvez seja a “semente” (精 – Jing) ou a “essência” consolidada em práticas anteriores. É como se o texto dissesse “partindo da plenitude, então podes acumular ainda mais.” É um ciclo virtuoso.
Aqui também aparece “神” shén, o Espírito que desce. Esta é a inversão mais interessante, no ocidente normalmente pensamos no espírito como algo que sobe, que se eleva (a não ser que você não tenha se comportado em vida). Aqui, “神则下” (o espírito então desce).
De novo, lembrando-se que estamos na China antiga, o espírito (神) não era algo etéreo que flutuava para longe. Era uma força que precisava descer e se enraizar no corpo, no baixo-ventre, na terra interior. É como se ele encarnasse, como se o Céu (consciência, espírito) tivesse que descer para encontrar a Terra (corpo, instinto) e, desse casamento, nascesse a iluminação.
Lembra-se do Taiyi?
“O Céu, voltando-se, une-se ao Grande Um.
Assim sendo, a Terra se completa.
Céu e Terra, por sua vez, unem-se um ao outro.
Assim sendo, o 神espiritual e o 明luminoso se completam.”
“神则下” é o momento em que o transcendente/espiritual se faz imanente, em que o espírito aceita habitar a matéria para transformá-la.
Temos então “明” míng, a Luminosidade que brota, substituindo “萌” méng (germinar). Enquanto 萌 é uma imagem biológica, vegetal, terrestre, como uma semente rompendo a terra, 明 (Míng) é celestial, solar, espiritual, é a luz rompendo as trevas (novamente não se uma forma cristã ou moral, é o Yang rompendo o Yin, é a vida que irradia surgindo da terra escura e úmida que a gerou, dar à luz uma criança que passou 9 meses no útero escuro da mãe).
A sequência “固则明” (consolidar então iluminar) sugere que a solidez, a condensação extrema, do corpo/Qi se torna um espelho que reflete a luz do espírito. O corpo denso se torna transparente e a luz interna irradia para fora.
“杳” (Yǎo) e “捣” (Dǎo) nos mostram o Mistério e o Trabalho Bruto, talvez a parte mais “primitiva”, mais mão suja de terra do texto.
“天其杳在上”, o Céu não é apenas “lá em cima”. Ele é profundo, misterioso, inalcançável pela visão. É o “vazio” (无) do Tao Te Ching, o útero de todas as coisas.
“地其捣在下”, a Terra não é apenas “lá embaixo”. Ela é ação bruta, rítmica, transformadora. “捣” é o trabalho do pilão, que separa a casca do grão, que transforma o bruto em refinado. É a alquimia em seu aspecto mais terreno e prático.
Com o tempo, surgiram as escolas de mistério que enxergaram nessa metáfora a base da magia sexual, “preencher o vazio com um sobe e desce rítmico para se criar a vida”, foi nessa época que também se começam a sugerir que a prática sexual mágica tinha como objetivo o orgasmo mas não a ejaculação, pois isso drenaria a energia já acumulada do corpo.
Mas, voltando ao texto, chegamos à visão xamânica máxima:
O Céu é o mistério insondável (杳), a fonte de toda a luz. A Terra é o trabalho incessante (捣), o cadinho onde a transformação acontece. O praticante, com seu corpo, é o ponto de encontro entre esses dois.
Aqui também temos a substituição de “顺” (seguir) por “巡” (percorrer em circuito), a chave final. 巡 não é apenas “seguir” passivamente. É patrulhar ativamente, percorrer o caminho repetidamente, como um guarda que faz a ronda ou como o sol que percorre sua órbita. Implica manutenção do ciclo, consciência constante, prática ininterrupta. Talvez por isso o texto comece falando da Plenitude, se a prática é constante, o praticante já atingiu os pontos descritos nas versões anteriores.
“巡则生” significa que a vida é manter esse circuito funcionando. Nossa respiração passa a funcionar como a órbita do Qi, que nesta metáfora é um planeta que existe no cosmos que nosso corpo se tornou.
Esta é uma das visões mais antigas conhecidas hoje, que nos mostra a visão Wu onde somos parte do cosmos, não apenas calhamos de viver nele. Aqui, o divino não está fora do corpo mas habita e o transforma. Quando a luz brota, o corpo denso se torna luminoso, transparente ao mistério (tenha em mente que o Budismo estava nascendo nesta mesma época em outro canto do mundo).
Para um xamã Wu, o mistério do Céu pulsa na sua cabeça, o trabalho alquímico da Terra pulsa no seu ventre e a vida é um circuito. Ao respirarmos criamos essa órbita interna e mantemos o cosmos em movimento dentro de nós.
E para que tudo isso?
Com certeza não para virarmos vegetarianos e pararmos de usar canudos de plástico.
Ao se reconhecer como parte do cosmos, o praticante tinha algumas possibilidades abertas diante de si. Ele podia se tornar um líder, como lemos no Ne ye: “Uma palavra correta e o mundo se submete; uma palavra firme e o mundo obedece”.
Ele poderia se tornar um sábio que assiste a todas as coisas se manifestarem, eliminando a interferência do mundo e seguindo seu caminho.
Cada praticante acaba buscando seu caminho, seu Tao, alguns rumando para a sabedoria, outros buscando o poder e, quem sabe, se viverem tempo o suficiente, acabam descobrindo que os dois caminhos acabam levando um ou outro.
Alimente sua alma com mais:

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