Categorias
Vampirismo e Licantropia

Sonhando com Vampirismo

Este texto já foi lambido por 44 almas.

Shirlei Massapust

            Um dos mais deploráveis costumes da juventude masculina carioca é dissecar filhotes de aves e grandes insetos para ver o que tem dentro. Sempre que via, eu tentava impedi-los e as vezes apanhava dos garotos por estragar a brincadeira. Em 1992 sonhei que eu estava em casa junto com umas cinco ou seis amigas. Aline, Andréia, Mércia, Tatiane, etc. Era uma tarde ensolarada. A kombi do troca-troca passou na rua. Andréia e eu trocamos garrafas vazias por pintinhos. Andréia ficou com um pintinho amarelo e eu com um preto. Pensei que minha mãe iria brigar, mas ela gostou. Botamos os pintinhos em cima da mesa da cozinha e começamos a jogar milho picado para eles comerem.

Eu estava preocupada em arranjar um local melhor para os filhotes ficarem antes de sujarem a mesa fazendo titicas. Então não vi um intruso se aproximando. Um daqueles jovens cruéis que maltratavam animais pegou o pintinho amarelo da Andréia e arremessou dentro da panela com água fervendo que cozinhava macarrão, sobre o fogão. Ele riu e foi embora. Derramei todo o conteúdo da panela no chão na tentativa de salvar a vida da ave, mas era tarde demais. Já estava morta. Eu tive vontade de chorar, mas me levantei do chão – onde havia agachado para apanhar o corpo – e desci a escada. Senti tanto ódio daquele sujeito que o segui até o quintal do primeiro andar, onde ele esperava junto a dois outros rapazes de uns quatorze ou quinze anos para me baterem se eu tentasse alguma coisa.

Mas o que eu fiz foi tão brutal que os comparsas arredaram o pé. Pulei no pescoço do inimigo, mordi e suguei-o feito vampira, até acordar. Não descobri nenhum prazer neste ato, embora a cultura pop descrevesse sensação de euforia e efeitos quase psicodélicos em vampiros durante a sucção sanguínea.

Neste dia, quando eu estava no corredor do caminho da saída do colégio, olhei para traz e havia um rapaz igual ao do sonho, exceto pelo fato de mostrar-se péssimo, pálido, com olheiras roxas ao redor dos dois olhos. Estava titubeante quanto à saída. Ao invés de seguir caminho atravessando o estreito corredor onde eu me encontrava, este aluno uniformizado retornou para dentro da escola (coisa que nenhum aluno faz na hora da saída, a não ser que subitamente deseje ir ao banheiro). Nos dias seguintes procurei por tal pessoa no horário do recreio, porém nunca mais o vi, não descobri o seu nome nem soube a qual turma do Colégio Sagres ele pertencia.

Fiquei pensando nisso. Acabei com a ideia fixa – e provavelmente errônea – de que ele teria sonhado o mesmo que eu. Por isso o adolescente deveria me temer, apesar de eu ser uma menina que ele seria capaz de surrar sem nenhuma dificuldade.

Na verdade, eu não refletia bem o estereótipo de antagonista vampira consagrado por personagens como Mary Matoso. Em data próxima sonhei que solicitei a dois artistas de xarpi que se abstivessem de pichar a Igreja Nossa Senhora das Dores. Falei que igrejas deveriam ser respeitadas mesmo que eu não entrasse nelas. Só para fazer mofa de mim eles começaram a jogar pedras nos vitrais e tentaram furtar vasos de plantas, de modo que entramos em confronto. No final eles fugiram e eu coloquei os vasos no lugar.

Esses sonhos foram ficando cada vez mais malucos. Em 05/11/1993 sonhei que um famoso cantor vampiro (que só existia no mundo onírico) compareceu ao enterro de uma cantora humana parecida com a Angélica Ksyvickis. O vampiro estava apaixonado por ela e desejava transformação, mordendo-a mesmo morta. Embora esse vampiro pudesse andar de dia, seu poder de criar outros vampiros só funcionava à noite. Sendo assim ele teria que esperar até o pôr do sol, mas o velório já estava acabando. Então o vampiro começou a perturbar a cerimônia funerária com finalidade de adiar o enterro.

Ao passar perto de seus admiradores do lado de fora, ele causou duas invasões de fãs ao recinto, ambas rapidamente reprimidas pelos seguranças. O vampiro voltou para perto do caixão e viu a morta, que estava toda vestida de branco, com um véu cobrindo o corpo. Como o sol já estava se pondo, os agentes funerários tentavam apressar o enterro. O cantor correu até um local onde haviam muitos fãs, tomando cuidado para não ser visto. Pediu para algumas crianças fazerem barulho estourando balões de gás hélio, abundantes no local. As crianças começaram a estourar os balões. O cantor provocou outra invasão de fãs, facilmente reprimida. O sol se pôs sem que o enterro fosse concluído. Vitorioso, o cantor se aproximou do caixão da cantora falecida, sem se preocupar com os presentes, tirou o véu branco que cobria a mulher, abaixou a cabeça no pescoço dela e eu acordei.

Em 15/11/1993 tentei realizar uma projeção astral consciente onde li o diário de um vampiro. Ele escreveu: “e eu não podia entender todo o mal que se abatia sobre aquela família. Era tarde quando começou a ocorrer as misteriosas mortes…” Duas páginas depois ele disse: “e também não podia entender porque desejava tanto o sangue de minha irmã. Comecei a descobrir que se tratava de um vampiro. Os vampiros agem…”.

Percebi que tinha localizado o ponto das anotações que eu desejava ler, mas o dono do diário entrou na biblioteca, me viu e ficou parado ao meu lado. Reabri o livro mesmo com ele ali e já não era mais possível ler as páginas porque as letras pareciam ideogramas. O livro foi se afastando, ficando menor e as imagens desapareceram. Acordei as 17h.

Em 28/12/1993 eu sonhei que estava pegando um outro livro para ler. Abri e vi que era de vampiros. Acordei e voltei a dormir mais algumas vezes nessa noite, sempre sonhando que lia o livro e tinha um sujeito me atrapalhando. Em 29/12/1993 sonhei estar com um bando de vampiros. Mordi um pedestre na rua. Depois conduzi o bando para morder um casal que estava na varanda de um casarão. Então os caçadores de vampiros chegaram e todos lutaram. Pulei em cima de um caçador de vampiros, joguei fora sua estaca e sua cruz, depois o mordi também. Acordei.

Em 03/01/1994 sonhei que estava em um restaurante vampiresco que tinha um aviário por traz. Um homem estava dizendo que sangue de boi é melhor que de galinha, mas o cardápio de lá só oferecia opções de galinha, Chester[1] e pato. Ele reclamou que um entre dois fregueses havia jogado sangue fora. Eu pretendia abordar o vampiro, mas acordei antes. Em 13/01/1994 sonhei que eu era uma vampira gênia planejando modos de melhorar as condições de vida duma população africana carente. Porém um vampiro chamado Barão – personagem antagonista duma HQ que nunca ficou pronta – apropriou-se do meu planejamento e, ao invés de ajudar, preferiu colonizar a região onde passou a reinar fingindo ser um deus. (O Barão era um vilão colonialista).

Após esta data eu parei de anotar, porém continuei tendo sonhos com vampiros variados de tempos em tempos. Geralmente eu interpretava o papel de algum personagem fictício do meu universo literário ou de terceiros. Por exemplo, quando ainda fazia curso de graduação em Direito sonhei que era o Vampire Hunter D, com duas mechas de cabelo branco, usando as roupas do Alucard nas imagens promocionais do jogo Castlevania: Symphony of the Night (desenvolvido em 1997). O vampiro Lestat falou qualquer coisa em inglês, “I’m awakening sick, getting out of then…”. Depois se transformou em anjo, em relação com o final do filme Devil’s Advocate (1997).

 Encontro com uma amiga dentro de um sonho

Em 17/08/1993, durante a festa de aniversário de 14 anos de Renata, em sua casa, Mércia alegou haver visto a figura humana representada em um quadro mudar as feições faciais e se mover. Renata retrucou que isso foi mera imaginação, uma narrativa tirada de programas de TV. Ainda em 1993, certa vez Mércia viu um desenho de vampiro fictício que eu havia feito e disse: “eu vi esse vampiro quando fui beber água à noite na cozinha”. O vampiro supostamente perguntou se ela me conhecia, onde eu morava e qual o número do telefone fixo de minha residência. Depois sumiu.

Sabendo que eu mesma havia inventado aquele personagem, fiquei sem acreditar no que ela dizia. Porém, em 06/12/1993 tive um sonho interessante e anotei:

Eu estava no estúdio da Globo onde gravavam alguma coisa que não era de meu interesse. De repente a Mércia veio correndo, esbarrou comigo, disse que todos começaram a virar vampiros e que estavam vindo naquela direção. Eu disse que não tinha problemas porque eu também era uma vampira. Ela saiu correndo na direção oposta. Logo após vieram os vampiros e foram correndo na mesma direção para onde ela foi.

Assim que acordei, fiz um lanche, me arrumei e fui direto para o colégio. Não contei este sonho a ninguém. Á época Mércia era minha colega de classe no Colégio Sagres. Nós estudávamos no turno da manhã e ela sabia que eu compilava histórias de vampiros e narrativas de fatos incomuns. Tão logo cheguei à sala de aula, Mércia levantou de sua carteira e falou-me que havia sonhado comigo naquela noite. Pedi para descrever em detalhes o seu sonho e escrevi isso enquanto ela ditava:

Mércia entrou em um prédio e subiu até o andar onde estavam gravando um comercial para impedir que ele fosse gravado. Chegando lá todos começaram a virar vampiros, inclusive ela mesma. De repente ela estava em casa e todos estavam virando vampiros, até sua tia. No final todos os vampiros foram atrás da Gisele que estava com medo.

Será que algo extraordinário ocorreu naquela noite ou tudo não passou da mais espantosa sincronicidade? Certamente – pelo menos dessa vez – a narrativa de Mércia não deveria ser mera brincadeira pois não havia meios de outrem contar-me o meu próprio sonho sem que antes eu lhe houvesse falado algo a respeito.

Reunindo todos os dados, concluímos que nós sonhamos com o mesmo cenário, diálogo e circunstâncias, na mesma noite, provavelmente ao mesmo tempo. Neste sonho conjunto nós começamos em dois pontos distintos do complexo de estúdios Projeto Jacarepaguá (PROJAC), localizado em Curicica, na Barra da Tijuca.

A invasão de vampiros se justifica pois, em 1993, a juventude brasileira ainda guardava a memória recente da exibição da telenovela Vamp, com 179 capítulos, dirigida por Antônio Calmon e exibida pela Rede Globo de 15/07/1991 até 08/02/1992. Nos episódios finais uma horda de vampiros liderados pelo Conde Vladimir Polanski (Ney Latorraca) ataca toda a população de figurantes da cidade fictícia Armação dos Anjos, com cenários montados no PROJAC.

É digno de nota que um anunciante, a Bolimbola, manteve o comercial do chiclete Vampirus até bastante tempo depois da exibição do capítulo final da novela. Gravado na forma de desenho animado, nele quatro crianças correm para não serem transformadas em vampiros, até que ninguém resista à tentação de mascar a guloseima vampirizadora oferecida pela criança previamente transmutada.[2]

Para os fãs que não tiveram a oportunidade de trabalhar na novela, mas queriam ser vampirizados, o estúdio do maquilador Vavá Torres ainda oferecia modelagem de dentes removíveis de resina acrílica por R$ 100,00 no início do Plano Real. Eu adquiri uma prótese em 1994, mostrei para a galera e teve gente sonhando que fugia de mim.[3]

Ainda sobre o sonho conjunto, em 06/12/1993, sabemos que Mércia desejava impedir a gravação de um comercial. Enquanto isso eu procurava a horda de vampiros. Em um determinado momento nós entramos cada uma por um extremo de um dos corredores labirínticos do prédio onde eu nunca estive em estado de vigília. Mércia corria espavorida enquanto eu andava calmamente na direção contrária. Tentei tranquilizar minha amiga e ela narrou tudo aquilo que repetiu na sala de aula poucas horas depois.

No momento em que Mércia deixou o corredor e fugiu, o seu sonho mudou e a ação foi transferida de um cenário espelhado no PROJAC para seu domicílio, no Rio Comprido, a cerca de 33km de distância. Foi então que nossa experiência telepática deixou de ser um sonho compartilhado e passou a funcionar como dois sonhos normais.

Com base nestes dados eu concluí que a dimensão onde ocorrem os sonhos é algo suficientemente real para que possamos encontrar amigos sonhadores dentro dela como se estivéssemos esbarrando com eles na rua. Porém ainda restavam pontos obscuros. Se houve encontro dentro do sonho foi só entre Mércia e eu, pois tomei nota de que Gisele e os parentes da Mércia não sonharam nada semelhante neste dia.

Mas se eu era eu, a Mércia era a Mércia e a Gisele não era a Gisele, quem ou o que assumiu a forma de Gisele no sonho de Mércia? Quem ou o que eram todas as outras pessoas que fugiam dos vampiros nos nossos sonhos? E os vampiros? Seriam meras reminiscências da batalha final na novela Vamp? Se os sonhos forem um lugar mutável onde entramos e saímos, quem ou o que são todas as pessoas, criaturas e coisas com as quais todos nós interagimos dentro deles todas as noites?

Se os habitantes não-humanos dos sonhos forem tão independentes de nossas mentes quanto aparenta ser o próprio universo-suporte onde ocorrem os sonhos, me parece razoável propor que haveria alguma espécie de entes racionais além de nós.

Visões diurnas demonstram que vultos podem sair da mesma forma que nós podemos entrar? Ou será que coexistimos em tempo integral, só percebendo muito mal as atividades nesta outra realidade durante estados alterados de consciência?

Imagens voláteis e emaranhamento em mundos paralelos

Os cenários, as pessoas e circunstâncias vividas nos sonhos geralmente não tem nenhum nexo com a realidade da nossa rotina. Entretanto, tais coleções de absurdos podem representar uma outra faixa de sintonia com a realidade maior. Nossa consciência poderia estar emaranhada com qualquer paralelo, se comunicando com outros campos até que todos juntos concebam o absurdo e o extraordinário, enquanto a matéria descansa.

Comunicadores oníricos criam ambientes imersivos com regras temporárias, as vezes recorrentes. Personagens e linhas do tempo são inconsistentes. Durante os sonhos o cérebro reduz a entrada sensorial do mundo físico enquanto aumenta drasticamente a percepção interna, tornando a experiência mal estruturada, mas emocionalmente real.

Embora esses mundos não pareçam tão estáveis ​​quanto a vida desperta, a simples experiência nos leva a questionar se a consciência está sintonizando uma realidade já existente em vez de inventar uma do zero. É certo que a mente não está inativa, mas reagindo ao desconhecido e operando em um modo diferente durante o sono (acessando um estado de percepção que a ciência ainda não compreende completamente).

Eu só espero não haver lhe vampirizado por acidente em meio a algum estímulo delirante do multiverso. 😊

Notas

[1] O Chester da Perdigão é uma marca registrada, e não uma espécie. A ave tem origem em uma linhagem de frango que foi trazida da Escócia para o Brasil em 1980. Poucos anos depois, ele passou a ser comercializado no país.

[2] O baleiro vendia Vampirus na porta da escola e eu colecionava as figurinhas. Na embalagem vinham bolas de chiclete de cores vermelho, roxo e preto, que coloriam a língua.

[3] Em 1994, a Gisele e a Priscila sonharam, em noites diferentes, que eu queria morder o pescoço delas. No sonho da Gisele eu entrei pela janela de sua casa usando próteses dentárias de vampiro e no da Priscila eram presas naturais. Eu nunca sonhei que tentava morder minhas amigas nem jamais faria isso na vida real.

 


Conheça as vantagens de assinar Morte Súbita inc.

Deixe um comentário