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Como Asmodeus Encontrou sua Coroa no Corpo da Pombagira no Brasil Império.
por Danilo Sena
Dedicatória
Dedico este pequeno texto de estudo a Asmodeus, a quem, por intermédio de seu sacerdote, Pai Marcello de Lalú, presto minha gratidão reconhecimento e amor. Essa força vem se fazendo presente de maneira extremamente sutil e oculta, tecendo-se na interação e íntima relação entre Mestre e Discípulo, Sacerdote e Divindade.
“Sua força se manifesta indiretamente no corpo como um instinto sem freio. Sua presença se faz na consciência como um predador à espreita. É uma hiena que se esconde nas sombras a te observar, que te devora no prazer, no desespero e em seu riso. É o ácido que corrói o metal ou a saliva de uma planta carnívora que seduz sua presa e a devora por inteiro.”

Dedico também esse texto ao meu grandioso Mestre, Marcelo Lalú, que também contribuiu para a criação desse texto. Um homem digno, honroso, extremamente culto e virtuoso. Pessoa esta que após uma longa jornada de 30 anos pude encontrar novamente na terra e berço onde nasci e cresci. Nossos caminhos se cruzaram e revelaram algo que já estava escrito no astral a muito tempo, um linda e grandiosa trajetória a ser construída, com conquistas, aprendizados , muitíssimo respeito e admiração.
Laroyê, Exú. Exú Mojubá!
Faz o que tu queres, há de ser o todo da Lei.
Introdução

Gustave Doré – Inferno Canto 21
Ilustração da obra: A Divina Comédia por Dante Alighieri
Tratar de demônios, ou melhor, estudar a respeito da natureza desses seres, não é uma tarefa fácil. Há de se entender que, no curso da história humana toda divindade que foi subjugada por um povo que se fez dominante teve suas divindades demonizadas, ainda que, dentro dessa cultura, em potencial, pudessem existir cultos ctônicos, cultos direcionados a energias sublunares e forças que atuam na terra ou abaixo dela.
O presente artigo propõe uma análise cronológica e comparativa da figura de Asmodeus, desde suas origens nas tradições judaica e islâmica, passando pela demonologia cristã medieval, até sua ressignificação no contexto brasileiro como Pombagira. Inicialmente, busca-se compreender que o estudo da natureza demoníaca não é tarefa isenta de complexidade: na história humana, divindades de povos conquistados foram sistematicamente demonizadas pelos dominadores, mesmo quando, em seu contexto original, representavam potências ctônicas ligadas às energias sublunares e às forças subterrâneas da terra.
Suas origens no Oriente e no Judaísmo

O encontro de Asmedai com o rei Salomão, ilustração para o livro “Rei Salomão e Asmedai”, de Ch. N. Bialik. A foto acima encontra-se no Centro de Arte Judaica, Manuscritos Iluminados de Esther – Illuminated Esther Scrolls,The Center for Jewish Art.
Trarei uma breve contextualização desde os primórdios do povo semita e outros que ali habitavam a região. É preciso enfatizar que tudo que sabemos de anjos e demônios provém de uma série de eventos histórico, advindos da antiga pérsia até ao que compreendemos como o Cativeiro Babilônico:
Embora os judeus tenham sido deportados pelos babilônios após a invasão de Nabucodonosor, a cultura babilônica era herdeira direta das civilizações suméria e acádia. Os babilônios adotaram e adaptaram antigos mitos e figuras dessa tradição como Os Vigilantes e os Apkallu: Os Sumérios (5000 a.C. – 2000 a.C.) e Acádios (2334 a.C. – 2193 a.C.) falavam de sete sábios semidivinos (Apkallu), criados pelo deus Enki para civilizar a humanidade. Após o dilúvio, alguns deles teriam irritado os deuses ao ensinar magia e se relacionar com humanos. Não só isso, mas há também influencia do Zoroastrismo como veremos a seguir. Para o estudante sério, não será difícil compreender as similaridades de Divindades como Anu, Enil, Ball, Moloch, Marduk, Ahura Mazda, Ahiram e etc..
O Cativeiro Babilônico – 586 a.C. e 538 a.C
O Cativeiro da Babilônia foi um período histórico que ocorreu entre 586 a.C. e 538 a.C., marcado pelo deslocamento forçado de grande parte do povo judeu para a região da Babilônia.
No século VI a.C., a Babilônia, sob o comando de Nabucodonosor II, consolidou-se como a principal potência da região. Nessa mesma época, o Reino de Judá, tendo Jerusalém como capital, vivia um contexto de grande fragilidade política, conflitos internos e pressão externa.
As principais causas do Cativeiro foram a instabilidade política interna, as constantes rebeliões do povo judeu contra o domínio babilônico e a expansão militar da Babilônia, fatores que acabaram enfraquecendo e levando à queda do Reino de Judá.
O evento ocorreu em etapas: o primeiro cerco a Jerusalém em 597 a.C., a destruição completa da cidade e do Templo em 586 a.C. e, posteriormente, o período de exílio. Durante o exílio, os judeus entraram em contato com a cultura babilônica, mas conseguiram preservar sua identidade religiosa e cultural por meio de suas tradições e práticas.
O fim do Cativeiro aconteceu com o Édito de Ciro, em 538 a.C., que autorizou o retorno dos judeus a Judá e a reconstrução do Templo de Jerusalém. O período pós-exílio foi fundamental para a reformulação do judaísmo, influenciando profundamente a identidade espiritual e cultural do povo judeu.
O Impacto Direto do Exílio (586 a.C. – 539 a.C.)
Transportados para a Babilônia, os escribas judeus se confrontaram com uma imponente paisagem de templos, palácios e símbolos religiosos de grande poder visual. Diante disso, eles reconfiguraram a imagem da corte celestial de Javé, elevando sua majestade para que pudesse rivalizar simbolicamente com o esplendor do império de Nabucodonosor II:
Querubins e os Lamassu: Os mesopotâmicos esculpiam os lamassu (ou shedu), colossais figuras híbridas — touros ou leões alados com cabeça humana — que guardavam as entradas dos palácios e templos. No exílio, especialmente nas visões do profeta Ezequiel, essa imagem foi adaptada para os querubins bíblicos: seres alados compostos que sustentam o trono divino e atuam como guardiões da presença de Deus.
Lamassu no Museu do Louvre, Paris – França
Serafins e as Serpentes Aladas: O conceito de serafins (“os ardentes”) incorporou traços das serpentes aladas e flamejantes da iconografia acádia e babilônica. Estudos apontam também que existe referência a estas serpentes no Egito antigo. Essas criaturas, ligadas ao fogo, ao veneno e à renovação, foram reinterpretadas como símbolos de purificação divina e proteção sagrada.

Uadjit, serpente alada da mitologia egípcia
A Reorganização dos Textos e a Burocracia Celestial (Séculos V–IV a.C.)
Após a conquista persa e a libertação (539 a.C.), os escribas que retornaram a Judá dedicaram-se à compilação e edição dos textos sagrados. Influenciados pelo modelo administrativo altamente hierárquico da Babilônia, onde o rei governava por meio de uma rede organizada de mensageiros e funcionários, os judeus projetaram essa realidade no plano divino:
A Estruturação da Angelologia: Deus passou a ser concebido como um grande Rei Cósmico, que não mais caminhava diretamente sobre a Terra, mas dirigia um vasto exército celestial. Esse exército era composto por anjos organizados em categorias, patentes e funções específicas — mensageiros, guerreiros, protetores, espelhando a corte e a burocracia imperial babilônica.
Fase 4: O Desenvolvimento da Demonologia (Período do Segundo Templo, Séculos III–I a.C.)
Durante o período do Segundo Templo, a demonologia judaica ganhou grande complexidade, nutrida pelas crenças e práticas mesopotâmicas que persistiam entre as comunidades da Diáspora:
Lilith e a herança das Lilitu: Na tradição sumero-acádia, as lilitu eram demônios femininos associados ao vento, à noite e à sexualidade perigosa, que ameaçavam especialmente grávidas e bebês. O judaísmo assimilou essa figura, transformando-a em Lilith, retratada como a primeira esposa rebelde de Adão que se tornou rainha dos demônios.

Lilitu, Wikipedia
Pazuzu, Azazel e os espíritos do deserto: A ideia de entidades malignas que habitavam regiões áridas e causavam doenças como o demônio babilônico Pazuzu, que influenciou fortemente a figura de Azazel. Mencionado no Levítico e desenvolvido no Livro de Enoque, Azazel foi associado a bodes, locais desolados e rituais de expiação.

Pazuzu, Wikipedia.
O processo de demonização, discriminação, degradação, desumanização e difamação cultural dos povos escravizados pelos escravagistas

Ritual de sacrifício Judaico, Kapparot. Foto de Dima Vazonich / Flash90 no jornal Times of Israel.
Grande parte da literatura demoníaca, mítica envolvendo seres supranaturais advém do processo histórico que vimos acima. E por conta disso, todo entendimento que temos sobre a literatura sagrada nesse contexto, é fruto de um processo “natural” que ocorreu ao longo do desenvolvimento da humanidade enquanto seres mais “aprimorados…” Os judeus começaram a conquistar outros povos e a demonizar seus deuses no período da conquista de Canaã (séculos XIII a XII a.C.), logo após a sua saída do Egito, mas o processo de “demonização” teológica desses deuses só se consolidou séculos mais tarde, atingindo o ápice justamente durante e após o Cativeiro Babilônico, sendo este um fenômeno compreensível até os dias de hoje. E vou exemplificar para você compreender. A figura do Diabo na bíblia não existe. O que há é um anjo acusador cujo papel é apontar as falhas humanas. Sim, um Anjo. A figura do Demônio que temos hoje é fruto e reflexo expansionismo e proselitismo católico que ao dominar territórios como a Índia, Grécia, eventualmente parte da Arábia, vieram a incorporar as pernas do Deus Pã, sendo este a representação da natureza, o tridente de Shiva ou de Poseidon, sendo estes respectivamente representações da Entropia e ao arquétipo das águas do inconsciente (Enki também se faz presente neste contexto), a pele avermelhada dos povos Árabes, representando sua força e vigor muito exaltada na cultura islâmica com beleza e dignidade.
Sendo assim, muito das histórias e mitos semíticos que conhecemos hoje como as histórias do Rei Salomão, Tobias e Sarah, advém desse processo. E isto não é diferente dos dias de hoje… Basta você observar o conservadorismo protestante Estadunidense diante da proferição da fé Islâmica, onde a fé, cultura e tradição de um povo milenar é reduzida a “Terrorismo”. Talvez eu possa ter ido muito longe, que tal olharmos para nosso Brasil? Onde a cultura Afro é extremamente alvo de preconceito e intolerância pela riqueza de seus rituais. Matar um animal para se alimentar, não é diferente de matar um animal para fins sagrados. O problema é que você vai no super mercado e já tem tudo pronto alí pra você e sua família, afastando-te do que um dia já foi a caça e contato direto com a natureza…
Até hoje, o povo judeu realiza ritos de sacrifício; um deles, bastante comum, chama-se Kaparot, no qual o judeu passa um galináceo sobre sua cabeça com o intuito de expiar os pecados. Essa mesma ave, sacralizada, é sacrificada e entregue à divindade. Ao passo que nós, enquanto brasileiros, vítimas de uma colonização judaico-cristã, somos vítimas das mesmas acusações daqueles que defendem o povo de Abraão. Para mais informações sobre esse ritual, visite o artigo “Kapparot: O Despacho no Judaísmo” no site mortesubiota.com.
Podemos tomar como exemplo também uma classe de indivíduos que foram marginalizados na antiga Grécia dentro de sua própria cultura: refiro-me ao Göes. Göes é um termo utilizado para designar o uivo, o canto noturno das criaturas que habitavam a noite. O Göes, na Grécia, era aquele feiticeiro, comumente discriminado pela sociedade por estar às margens dela, em detrimento de sua relação com reinos e espíritos de regiões mais densas. Da mesma maneira, temos o Kimbanda, feiticeiro e curandeiro, que também é responsável por lidar com energias mais densas.
Pois bem, um mago não é muito diferente de um exorcista, dependendo do contexto sociocultural no qual está inserido. John Dee, um grande mago da coroa britânica, só conseguiu exercer seu magistério (a origem da palavra magus vem daí) por conta de a Inglaterra ser protestante, ao passo que essa designação era mais liberal a nível de estudos em relação a Igreja Católica Apostólica Romana, que censurava e controlava o conhecimento. Em contrapartida, um mago, nos dias de hoje, não é bem visto, sendo frequentemente preterido em relação a um padre exorcista que passou anos dentro da Igreja Católica aprendendo as mais variadas e verdadeiras artes da magia cerimonial (prefiro chamar de magia cerimonial, esse lance de baixa e alta magia é bastante pejorativo e discriminatório, o camponês que ascende a velha para uma colheita farta pode alcançar o mesmo objetivo que um padre ou nobre a evocar as energias de Saturno ou Jupter), por detrás de paredes cravejadas de ouro, onde o sagrado e o profano dividiam espaço entre missas e os mais deliciosos bacanais. Bacanais estes muito conhecidos por serem praticados pela família dos Bórgia….
Nesse sentido, podemos observar que a figura do mago e do feiticeiro sempre esteve presente nas mais variadas culturas, assim como o entendimento desses povos acerca de certas energias também esteve presente em classes mais abastadas, como os pobres, os servos e os feiticeiros… Este é o intuito deste texto: expor, breve e resumidamente, o histórico de Asmodeus, das práticas mágicas e compreender a origem junto ao papel dessa entidade e como ela chegou até o em meio a essa classe social, ou melhor entre os povos marginalizados e excluídos no Brasil Império.
Primórdios do Monoteísmo, a semente do mal no Zoroastrismo.

Ahura Mazda lutando contra Angra Mainyu (Ahiram)
Para início de conversa, creio que se faz necessário compreender certos recortes históricos a respeito da linha temporal que nos leva até aqui. Com isso, refiro-me a um culto que existiu bem antes dos cultos a Baal, Moloch e Ishtar: o culto da religião zoroastra e de seu profeta.
Neste culto ancestral (que até hoje é vivo, Freddie Mercury professava a fé Zoroastra) a divindade principal, Ahura Mazda, antagoniza com Ahriman, um espírito do caos e da destruição. Ahriman possui uma milícia de espíritos subordinados a ele; dentre estes, para nós, destaca-se Aeshma Dæva, demônio da fúria, da ira e da violência. Atuava diretamente para destruir a criação de Ahura Mazda, em particular a vaca sagrada, símbolo da criação (acredito que uma de suas cabeças, relacionadas à figura de Asmodeus na modernidade, advenha daí, dessa iconografia de um ser que leva consigo o ícone de um búfalo ou de uma vaca, justamente por, em seus primórdios, ser uma força antagônica ao símbolo que já foi sinal de vida, fertilidade e fartura, como Hathor, Ápis e Mitras).
Aqui, não havia relação direta com a luxúria; porém, muitos estudiosos acreditam que ele seja o responsável pelo chamado “impulso agressivo”. Se fosse para dizer isso em poucas palavras, ele é a libido, é a adrenalina, o instinto de bater ou correr, a centelha, o ímpeto inicial que se acende na consciência até chegar ao corpo. Para maiores informações a respeito de Asmodeus na cultura zoroastra, recomenda-se a leitura do texto O Diabo no Imaginário Cristão, de Nogueira (2002).
As figuras de Asmodeus, Ashmedai e Æshma aparecem ligadas por tradições distintas, mas com traços conceituais semelhantes. Nos textos persas antigos, Æshma surge inicialmente como um epíteto ligado a uma divindade da tempestade (curioso é que Javé também está comumente relacionado a tempestades e a metalurgia e forças vulcânicas pelo povo quenita), sendo posteriormente transformado na personificação da fúria, da violência e da ira. Com o tempo, passou a representar, de modo geral, a força do mal, tornando-se um dos nomes associados a Ahriman. Tanto no Zend-Avesta quanto nos escritos em pálavi, Æshma é descrito como um agente que promove discórdias: quando falha em semear conflitos entre os justos, volta-se contra os ímpios e, em último caso, provoca disputas até mesmo entre demônios.

Imagens de Ahura Mazda (a esquerda) e Angra Mainyu – Ahiram (a esquerda), figuras principais do Zoroastrismo. Foto de Sadat Quayium, tirada em 07 de Abril de 2017 no Uzbekistão. Essa foto encontra- se a venda no site Alamy.com.
Sua presença na tradição Judaica e mitologia Semita.
No texto Shayast ha-Shayast, Æshma aparece como o principal instrumento de Ahriman em suas investidas contra a humanidade, sendo retratado como um servo inquieto que retorna ao inferno para relatar as dificuldades encontradas em sua missão destrutiva. Apesar das aproximações temáticas, análises linguísticas indicam que não é possível identificar diretamente Ashmedai com o Æshma-dæva persa, já que não há correspondência convincente entre os elementos linguísticos envolvidos, nem exemplos claros dessa associação nas fontes iranianas.
Ainda assim, há paralelos evidentes entre Æshma e o Asmodeus descrito nos textos judaicos apócrifos. No Testamento de Salomão, Asmodeus é apresentado como um espírito que conduz os seres humanos à impureza, à violência e à hostilidade, características que ecoam a atuação atribuída a Æshma. A semelhança torna-se ainda mais clara no Bundehish, onde se afirma que, onde quer que Æshma estabeleça suas bases, inúmeras criaturas acabam perecendo, reforçando sua imagem como força devastadora e agente do caos.

O casamento de Tobias e Sarah. A primeira noite, 1733
Agora que comentamos sobre sua possível origem e nascimento, podemos seguir com suas demais transformações ao decorrer da história. Vamos migrar agora para a cultura judaica e sua visão a respeito dessa entidade. Antes de mais nada, vale dizer que, dentro da cultura judaica, sua presença se faz em mais de um texto.
No Livro de Tobias, Asmodeus aparece pela primeira vez. De acordo com Tobias, Asmodeus, o “rei dos demônios”, nas versões hebraica e caldaica, é uma adição posterior, tendo-se apaixonado por Sara, filha de Raguel. Por essa razão, impediu-a de ter um marido. Depois de matar sete homens sucessivamente nas noites de seu casamento com ela, tornou-se inofensivo quando Tobias se casou com ela, seguindo as instruções dadas pelo anjo Rafael. Asmodeus “fugiu para os confins do Egito, e o anjo Rafael o prendeu”.
No Testamento de Salomão, a figura de Asmodeus apresenta semelhanças marcantes com a descrição encontrada no Livro de Tobias. Trata-se de uma obra pseudoepigráfica cujas partes mais antigas remontam ao século I. Quando o rei Salomão lhe perguntou seu nome e quais eram suas funções, Asmodeus respondeu:
“Entre os mortais, sou chamado Asmodeus. Meu propósito é tramar contra os recém-casados, para que não consigam se unir. Eu os separo por meio de inúmeras calamidades, arruino a beleza das virgens e afasto seus corações. […] Levo os homens ao desvario e ao desejo ardente mesmo quando possuem esposas, fazendo com que as abandonem e, dia e noite, procurem outras mulheres e outros homens. Assim, acabam caindo em pecados e em atos de derramamento de sangue.”

Rei Salomão e o Rei dos demônios, Asmodeus”
Por Ze’ev Raban.
Salomão soube ainda que o arcanjo Rafael era capaz de neutralizar o demônio e que a fumaça da fel de um determinado peixe o punha em fuga (cf. Tobias 8,2). Utilizando esse conhecimento, o rei queimou o fígado e a fel do peixe, vencendo a “malícia insuportável” de Asmodeus.
Subjugado, o demônio foi obrigado a colaborar na construção do Templo. Acorrentado, ele amassava o barro com sua pá e carregava água. Salomão, porém, decidiu não lhe conceder a liberdade, “porque aquele feroz demônio, Asmodeus, conhecia até o futuro”.
A Tradição Islâmica de Evocação de Djinns: Contexto e Fontes Principais
Na tradição islâmica, os djins (ou jinn, em árabe: جن) representam uma categoria fascinante de seres invisíveis que habitam um plano paralelo ao dos humanos. Diferentemente dos anjos, que foram criados a partir da luz, e dos humanos, moldados do barro, os djins surgem de um fogo sem fumaça, conforme descrito no Alcorão (Surata 55:15 e 15:27). Essa origem flamejante explica sua natureza etérea, volátil e, por vezes, imprevisível — capazes de assumir formas diversas, atravessar paredes ou voar, mas também sujeitos a paixões, erros e moralidade própria.
A crença nos djins não é um acréscimo folclórico posterior: ela está profundamente enraizada desde os primórdios do Islã. O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) recebeu revelações específicas sobre eles, como na Surata Al-Jinn (72), onde se narra como um grupo de djins ouviu a recitação do Alcorão e se converteu ao Islã, maravilhados com a mensagem. Isso demonstra que, assim como os humanos, os djins possuem livre-arbítrio: podem escolher o bem ou o mal, serem muçulmanos ou não, e serão julgados no Dia do Juízo Final.

Conversa entre demônios, cena do Livro das Maravilhas (Kitab al Bulhan). A figura central a direita é Al-Malik al Aswad, conhecido como o “Rei Negro dos demônios)
Antes da criação de Adão, os djins já povoavam a Terra. Segundo as narrativas clássicas, eles viveram em sociedades complexas, construíram civilizações e, em alguns casos, mergulharam em corrupção e violência. Foi então que Allah enviou anjos para conter o caos, o que gerou uma espécie de “guerra primordial”. Quando Adão foi criado, Iblis — frequentemente associado aos djins, embora alguns estudiosos o classifiquem como um jinn de elevada posição — recusou-se a prostrar-se diante dele por orgulho, sendo expulso e tornando-se o principal adversário da humanidade.

Iblis – Satyanás, cena do Livro das Maravilhas (Kitab al Bulhan).
Ao longo da história islâmica, os djins aparecem tanto em contextos religiosos quanto culturais. O mais famoso exemplo é o profeta Sulayman (Salomão), que recebeu de Allah o poder de comandar exércitos de djins, ventos e animais. Eles construíram templos, palácios e objetos grandiosos para ele, como o famoso trono flutuante. Essa narrativa reforça a ideia de que djins podem ser subjugados pela autoridade divina, mas não devem ser idolatrados.
Com a expansão do Islã, especialmente nos territórios persas, indianos e africanos, as histórias sobre djins se enriqueceram. No folclore popular, eles são divididos em diferentes tipos: marids (poderosos e aquáticos), ifrits (agressivos e flamejantes), ghuls (comedores de cadáveres) e sila, entre outros. Podem se apaixonar por humanos, causar possessões, conceder desejos ou, ao contrário, proteger e inspirar. Essa visão dual — ameaça e oportunidade — permeou a cultura muçulmana por séculos.
Muitas pessoas ao longo da história buscaram formas de interagir com esses seres, seja para proteção, conhecimento oculto ou poder. No entanto, a tradição islâmica ortodoxa alerta fortemente contra isso: a maioria dos estudiosos considera perigoso e proibido invocar djins, pois abre portas para engano, possessão ou influência demoníaca. Ainda assim, práticas esotéricas persistiram em correntes místicas e populares.
Se você se interessa por mergulhar mais fundo nesse universo, as principais obras de referência começam pelo Alcorão Sagrado (especialmente as suratas 72, 55 e 114) e os hadiths autênticos. Depois, vale explorar As Mil e Uma Noites, onde djins como o Gênio da Lâmpada ganharam vida literária imortal. No campo mais sério e teológico, livros como Majmu’ al-Fatawa de Ibn Taymiyyah e obras de Ibn Qayyim al-Jawziyya tratam detalhadamente da natureza, possessão e exorcismo islâmico contra djins. Já em tradições esotéricas, textos como o Picatrix (influência árabe) e manuais de ilm al-ruqya (exorcismo) ou grimórios árabes antigos discutem rituais e maneiras de contato — geralmente envolvendo invocações, selos, incensos e recitações específicas, sempre com forte advertência sobre os riscos envolvidos.
Dentre os grimórios mais influentes sobra o conhecimento e maneiras de contactar os Djins destacam-se:
Shams al-Ma’arif al-Kubra (O Sol do Conhecimento), atribuído a Ahmad al-Buni (m. c. 1225). Considerado o mais poderoso e temido tratado de magia árabe, ele combina sufismo esotérico com magia prática. Aborda detalhadamente a Ilm al-Huruf (ciência das letras), a numerologia abjad, a construção de quadrados mágicos (Wifq ou Wafq) e métodos de invocação de djinns e anjos. Devido ao seu potencial de uso “perigoso”, foi proibido ou censurado em diversos contextos islâmicos ao longo dos séculos.
Manba’ Usul al-Hikmah (A Fonte das Origens da Sabedoria), também ligado a al-Buni, que aprofunda rituais de proteção, cura e confecção de talismãs para o controle de entidades espirituais.
Ghayat al-Hakim (O Objetivo do Sábio), conhecido no Ocidente como Picatrix (século XI, atribuído a Maslama al-Majriti). Um monumental tratado de magia astral e talismânica que enfatiza a conjuração de espíritos planetários e a criação de talismãs alinhados com configurações astrológicas específicas.
Kitab al-Bulhan (Livro das Maravilhas, século XIV), que, embora não seja um grimório puro, oferece valiosas ilustrações e descrições iconográficas dos djinns, especialmente dos Sete Reis.
Kitab al-Ajnas (O Livro das Raças), atribuído a Asif ibn Barkhiya, vizir do Rei Salomão, que classifica as tribos de djinns e fornece conjurações baseadas na autoridade salomônica.
Sharh al-Birhatiya (O Juramento Birhatiya), frequentemente anexado a outros compêndios, composto por 28 nomes de poder (em suposta língua arcaica) considerados irresistíveis a qualquer djinn, comparável ao ritual do “Bornless One” no ocultismo ocidental.
Esses textos formavam o arcabouço teórico-prático que os Malês alfabetizados em árabe podiam acessar e reproduzir em solo brasileiro.
Os Sete Reis Djinns (Mulūk al-Arḍīya) e a Magia Planetária
Uma das estruturas mais importantes era a dos Sete Reis Djinns, cada um associado a um dia da semana, planeta, anjo guardião, cor e metal. Essa correspondência permitia rituais precisos e alinhados cosmicamente:
| Dia da Semana | Planeta | Rei Djinn | Anjo Guardião | Cor/Metal |
| Domingo | Sol | Al-Mazhab | Ruqya’il | Ouro |
| Segunda-feira | Lua | Al-Abyad | Jibra’il | Prata |
| Terça-feira | Marte | Al-Ahmar | Samsama’il | Ferro/Vermelho |
| Quarta-feira | Mercúrio | Borqan | Mika’il | Mercúrio |
| Quinta-feira | Júpiter | Shamhurash | Sarfaya’il | Estanho |
| Sexta-feira | Vênus | Zawba’ah | ‘Anya’il | Cobre |
| Sábado | Saturno | Maymun | Kasfaya’il | Chumbo |
Essas associações guiavam a escolha de incensos, horários, materiais e invocações, sendo especialmente relevantes na confecção de talismãs malês.

Djinn de Saturno, Maymun, cena do Livro das Maravilhas (Kitab al Bulhan).
Métodos de Invocação e Práticas Rituals
Os Malês empregavam um conjunto sofisticado de técnicas:
Darb al-Mandal: Prática divinatória usando superfícies refletoras (óleo misturado com tinta preta na palma de um jovem virgem). Através de invocações e transe, os djinns manifestavam-se para responder perguntas sobre o passado, futuro, objetos perdidos ou possessões.
Azimat / Aza’im: Encantamentos de comando (“Azamtu ‘alayka” – “Eu te ordeno”), que impunham obediência ao djinn por meio do conhecimento dos nomes divinos.
Khadim: Busca por um djinn servidor pessoal, estabelecido por meio de pactos rituais prolongados.
Khalwa (Chilla ou Arba’in): Retiro isolado de 40 dias em local limpo e escuro, com dieta restrita (frequentemente vegetariana), jejum e recitação constante de dhikr (nomes divinos) e versículos corânicos, especialmente a Ayatul Kursi, visando purificação e atração de entidades.
Ilm al-Huruf e Wifq: Conversão numérica de nomes e versículos para preencher quadrados mágicos, como o Wifq al-Thulathi (3×3), associado a Saturno e Maymun.
A proteção (Tahsin) era fundamental: círculos mágicos, recitação da Ayatul Kursi, incensos específicos (doces para djinns benéficos, amargos para outros) e talismãs criavam um escudo espiritual contra perigos.
Sakhr/Asmodeus: O Djinn Rebelde e Seu Simbolismo
Figura central era Sakhr (Sakhar), o poderoso Ifrit conhecido no Ocidente como Asmodeus. Segundo a tradição islâmica, Sakhr enganou o Rei Salomão, roubou seu anel mágico, assumiu sua forma e governou o reino por quarenta dias, enquanto o verdadeiro rei vagava como mendigo. Descoberto, Salomão o aprisionou em uma rocha (daí o nome “Sakhr”, que significa rocha), selando-o com o Selo de Salomão e lançando-o ao mar.

Bargah-e Hazrat-e Soleyman – A Corte do Rei Salomã
A pintura mostra o Rei Salomão cercado por seus súditos, que incluem gênios (djinn) e mais de trinta espécies diferentes de animais, desde feras selvagens até criaturas pequenas.

Salomão e a Rainha de Sabá são informados por um anjo sobre seu filho, possivelmente uma alusão ao conto de Nizami sobre a Princesa do Pavilhão de Ouro Amarelo. Um demônio vermelho escravizado no jardim, presumivelmente Asmodeus, é forçado a trabalhar. De Qadimi (1556) – Michael Barry “Arte Figurativa no Islã Medieval e o Enigma de Bihzād de Herāt” (1465–1535).
Nos grimórios, Sakhr é evocado para poder temporal, riqueza, astúcia extrema e conhecimentos ocultos. Sua natureza rebelde e perigosa o tornava um dos Shayatin mais poderosos. Para os Malês, submetidos à escravidão, Sakhr encarnava a possibilidade de resistência e autonomia espiritual — um ser que, mesmo diante do maior rei da tradição, desafiara a ordem estabelecida.
A Herança Esotérica Árabe-Islâmica entre os Malês no Rio de Janeiro: Práticas de Invocação de Djinns, Talismânica e Legados na Espiritualidade Afro-Brasileira
A presença do povo Malê no Rio de Janeiro, embora menos concentrada e documentada que em Salvador, representa uma dimensão essencial para o entendimento das dinâmicas culturais transatlânticas entre a tradição islâmica africana e a formação das religiões afro-brasileiras na capital do Império. Africanos muçulmanos — majoritariamente hauçás, nagôs, bornu e outros grupos islamizados da África Ocidental — foram trazidos em diferentes levas ao longo dos séculos XVIII e XIX. Após a violenta repressão à Revolta dos Malês de 1835 na Bahia, muitos libertos e sobreviventes migraram para o Rio de Janeiro, onde se integraram à vibrante “Pequena África” carioca, especialmente nos bairros do Valongo, Gamboa, Saúde e Santo Cristo.
Nesses espaços, os Malês não apenas preservaram a ortodoxia islâmica (mesmo que de forma discreta, devido à vigilância policial e religiosa), mas também um rico corpus de conhecimentos esotéricos árabe-islâmicos centrados na interação com os djinns (gênios), seres invisíveis criados de fogo sem fumaça, conforme descrito no Alcorão. Esta tradição, conhecida como Sihr (bruxaria/magia islâmica), combinava elementos sufistas, magia talismânica e cosmologia planetária.

MAJMU’A RASA’IL FI ‘ILM AL-SIHR WA AL-TILISMAT
Exemplo de texto que faze parte da tradição árabe de sihr (magia), que envolve o uso de talismãs e procedimentos secretos. Datado aproximadamente em 1594 d.c.
As Práticas Malês no Brasil e no Rio de Janeiro
Os Malês eram notórios por seus patuás (amuletos ou “papéis de oração”), confeccionados com versículos corânicos, diagramas mágicos (Wifq), nomes de anjos, djinns e selos salomônicos. Documentados por Nina Rodrigues, esses talismãs serviam para proteção contra doenças, violência, feitiços e para favorecer alforria e prosperidade. Muitos derivavam diretamente do Shams al-Ma’arif e de tradições talismânicas árabes.

Amuleto. Fonte: João José Reis, 180 anos da Revolta dos Malês)
No Rio de Janeiro, onde a repressão religiosa era intensa, esses conhecimentos circularam de forma mais subterrânea, mesclando-se com elementos de outras tradições africanas. A alfabetização em árabe conferia aos Malês um prestígio especial como “homens de papel”. Após 1835, o fluxo migratório baiano fortaleceu comunidades cariocas que mantiveram práticas de Khalwa adaptadas, confecção de patuás e evocações discretas.
A Continuidade na Quimbanda Malê
O legado mais visível encontra-se na Quimbanda Malê contemporânea, onde Asmodeus (Sakhr) é reverenciado como “Rei dos Demônios” e “Mestre da Lira”. Diferentemente de outras linhas de Exu, onde entidades podem ser vistas como servas, aqui Asmodeus conserva sua autonomia primordial e hierarquia djinn, refletindo a tradição dos grimórios árabes. Essa vertente simboliza a continuidade da autoridade espiritual malê — da escrita árabe e controle de djinns para o domínio da magia e sabedoria oculta no Brasil.
Perspectiva Acadêmica e Considerações Históricas
Academicamente, obras como o Shams al-Ma’arif e o Ghayat al-Hakim são estudadas por pesquisadores como Noah Gardiner e Liana Saif não como “magia negra”, mas como parte das Al-Ulum al-Ghariba (Ciências Ocultas), entrelaçadas à filosofia e cosmologia islâmica medieval. Muitas versões modernas foram “higienizadas”, o que exige cuidado com as fontes.
No Rio de Janeiro, essa herança contribuiu para a formação de uma religiosidade sincrética resiliente, resistindo à assimilação forçada e influenciando a paisagem espiritual da cidade até hoje.
A tradição de invocação de djinns trazida pelos Malês ao Rio de Janeiro ilustra a extraordinária capacidade de adaptação cultural africana-islâmica em contexto diaspórico. Dos grimórios clássicos (Shams al-Ma’arif, Picatrix, Kitab al-Ajnas) às práticas concretas de Khalwa, patuás e evocações planetárias, passando pela figura simbólica de Sakhr/Asmodeus, esse conhecimento funcionou como instrumento de empoderamento espiritual e resistência. Seu eco na Quimbanda Malê demonstra a longevidade dessa herança, enriquecendo permanentemente o patrimônio cultural e religioso brasileiro.
Da Idade Média para a modernidade

Asmodai, o Rei dos demônios, de Compendium Rarissimum Totius Artis Magicae Sistematisatae (c. 1775), século XVIII, autor desconhecido
Quando paramos para analisar qualquer texto sagrado ou mágico, é imprescindível compreender o contexto histórico no qual está inserido. O famoso livro Lemegeton, ou A Chave Menor de Salomão, traz os ofícios de Asmoday; porém, o que desejo trazer à atenção aqui é a mudança que essa entidade sofre nesse momento da história humana que chamamos de Idade das Trevas, período em que a Igreja dominou não apenas o saber humano, mas muitas outras esferas da vida. Foi um período de classificação e hierarquização: reis, vassalos, suseranos, duques, além de ser também o momento em que as artes liberais começaram a circular na Europa, em detrimento do trabalho manual de padres e sacerdotes cristãos.
“O trigésimo segundo espírito é Asmoday, ou Asmodai. É um grande, forte e poderoso rei. Aparece com três cabeças; eventualmente, a primeira é a de um búfalo, a segunda a de um homem, e a terceira a de um bode. Possui também a cauda de uma serpente, e de sua boca jorram chamas de fogo. Seus pés são como os de um ganso. Ele se senta sobre um dragão infernal e traz uma bandeira em sua mão. É o preferido de AMAYMON, e acima dele não existe nenhum outro. Quando for convocá-lo, deve-se proceder com muito cuidado, pois AMAYMON tentará iludi-lo. Asmoday concede o anel das Virtudes e ensina as artes da aritmética, da astronomia, da geometria e todos os ofícios manuais. Responde corretamente ao que lhe seja requisitado. Torna também o magista invisível e revela os lugares onde existem tesouros ocultos, os quais ele guarda. Como AMAYMON, governa 72 legiões de espíritos inferiores.”
De destruidor de casamentos e incitador da lascívia e da luxúria, que condenou a cidade de Sodoma e Gomorra, Asmodeus passou a receber uma roupagem bem mais pejorativa, sendo rebaixado à condição de daemon em uma hierarquia particular, e não mais um grande opositor. Ainda que fosse associado a Ahriman, suas capacidades foram limitadas ao viés intelectual da época. Uma coisa que fica clara nesse trecho é a referência ao anel, que curiosamente serve para impedir que o magista entre em contato com a presença de certos daemons descritos como nocivos em seu hálito. Entretanto, sua condição de ensinar as artes da aritmética, astronomia, geometria e outros trabalhos manuais está diretamente relacionada ao conto de que ele foi o principal arquiteto do Templo de Salomão.
Da magia europeia para a Kimbanda brasileira
I
Rio de Janerio, por Alessandro Ciccarelli, 1844. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil. Créditos – Isabella Matheus
Ao adentrar o campo da Kimbanda brasileira, é fundamental compreender que Asmodeus não chega a esse solo como uma entidade isolada ou transplantada de maneira literal a partir da demonologia europeia ou judaica. Sua presença se estabelece por meio de um processo complexo de convergência cultural sob o viés da prática mágica, do sincretismo operativo e da reelaboração ritual, no qual tradições salomônicas, cipriânicas, africanas e afro-brasileiras se cruzam e se reorganizam segundo a lógica própria da feitiçaria brasileira.
A Kimbanda, enquanto sistema mágico-religioso, não opera apenas com espíritos no sentido moral ou teológico, mas com potências, inteligências e princípios ativos (ou seja, uma cosmogonia e cosmovisão particulares da religião), que se manifestam de forma personalizada conforme o culto, o território e a linhagem. Nesse contexto, Asmodeus passa a ser compreendido não apenas como um “demônio da luxúria”, definição empobrecida herdada da moral cristã, mas como uma força regente dos impulsos, do desejo, da tensão criadora e da volição instintiva que move o ser humano em direção à ação.
A influência salomônica é decisiva nesse processo. A Kimbanda brasileira, especialmente em suas vertentes mais antigas, dialoga profundamente com a tradição goética trazida ao Brasil por meio dos grimórios europeus, em especial aqueles associados ao ciclo de São Cipriano. Esses livros, amplamente difundidos no Brasil desde o período colonial, funcionaram como uma ponte entre a demonologia medieval e o universo mágico local, sobretudo ao se debruçarem sobre obras como o Lemegeton, o Livro de São Cipriano e, especialmente, o Grimorium Verum. É nesse terreno que Asmodeus passa a ser reinterpretado não como um adversário da ordem divina, mas como uma força que pode ser pactuada, direcionada e assentada.
A pergunta que fica é, como Asmodeus chega até nós hoje, se antes ouvíamos falar de mais de Astaroth com o surgimento dessas obras literárias?
É muito simples, o nome de Astaroth em obras como as de Bittencourt e Fontenelle, que explanam a presença do Grimorium Verum nessas tradições como uma primeira tentativa de sintetizar sintetizarem o entendimento e compreensão do que viria ser a Kimbanda, ou seja houve um respaldo DIRETO na tradição grimorial Européia, literalmente, nas quais Astaroth (derivado da deusa Ishtar) é responsável pelas questões de amor e sexualidade e sendo também um membro da trindade demoníaca.
Ao passo que Asmodeus, a presença desta entidade em terittório brasileiro e principalmente Carioca se faz muito antes de tudo isso.
Para você, leitor curioso, desejo, que quer entender essa magia, você necessita entender o povo que a trouxe e a sua história. Afinal pensa comigo, como é que você irá praticar tantra sem entender a história, cultura e tradição indiana? Ainda que fosse um brasileiro morando no Acre…
Pois bem, estamos falando explicitamente de um patrimônio cultural, estamos falando de uma tecnologia espiritual que advém diretamente do povo de Africa que veio até o Brasil em condição de escravos. Tudo começa com o Povo falante do idioma Iorubá, a palavra “Malê” deriva do Iorubá, “Imále” que significa “Muçulmano”. Ou seja, Malê é uma palavra de auto de significação dos muçulmanos africanos onde a maioria advém da antiga Costa dos Escravo que inclui ao que seria atualmente regiões litorâneas da Nigéria, Benim e Togo. Entre tanto, a maioria dos Malês eram conhecidos como Nagôs, denominação dada pelos falantes da língua jeje aos que falavam iorubá, e que acabou por se generalizar, Brasil. É lógico que se você leu e entendeu o texto até aqui, estamos falando da famosa Revolta dos Malês. Na época, a maioria dos muçulmanos que viviam na Bahia era nagô e, embora outros grupos, como os hauçás, fossem mais islamizados do que os nagôs, estes não só constituíam a maior parte dos insurgentes, como também a maioria dos líderes da revolta.

Africano Nagô, reconhecido pelas marcas no rosto.
Fonte: Site Fyadub, 2025.
“E como esse pessoal todo do século XIX que estava lá na Bahia veio parar no rio de janeiro? Eu achava que a Kimbanda surgiu no Sul!”
Sim meu caro leitor, sim… Sua pergunta é legítima e deve ser respondida com base em argumentos históricos devidamente confirmados. Não escrevo com base em achismos ou palavras que ouvi em qualquer podcast… Vou te dar um breve resumo de toda essa história
A Revolta na Bahia (1835)

“Revolta dos Malês” de Sol Bahia
Articulação do movimento:
Sob a liderança de nomes como Pacífico Licutan, os africanos muçulmanos conhecidos como malês planejaram, de forma sigilosa, um levante com o objetivo de libertar pessoas escravizadas na Bahia. A comunicação entre os envolvidos ocorria por meio de escritos em língua árabe, utilizados para preservar o segredo da conspiração.

Abolisiconista Pacífico Licutan
O confronto:
A insurreição reuniu aproximadamente 600 africanos, identificados pelo uso de vestimentas brancas, como os abadás. Durante várias horas, os revoltosos enfrentaram tropas imperiais em diferentes pontos da cidade de Salvador, promovendo um conflito aberto nas ruas.
Repressão e consequências:
A reação das autoridades foi rápida e extremamente violenta. Em menos de um dia, o movimento foi sufocado, resultando em numerosos mortos e na prisão de diversos participantes, que receberam punições severas, incluindo condenações exemplares.
Expansão e vínculos com o Rio de Janeiro:
Embora a Revolta de 1835 tenha tido como principal foco a Bahia, a atuação e a influência dos malês ultrapassavam os limites dessa província, alcançando outras regiões do Brasil. Registros indicam a existência de núcleos malês organizados em áreas como Pernambuco, Alagoas e no Rio de Janeiro.
Após o fracasso do levante e o endurecimento da repressão policial na Bahia, muitos africanos muçulmanos, assim como libertos ligados a essas redes, passaram a deixar a região. O Rio de Janeiro, então capital do Império, tornou se um dos principais destinos desses deslocamentos, oferecendo maiores possibilidades de trabalho e uma relativa ampliação das margens de liberdade.
Esse fluxo migratório ganhou ainda mais intensidade ao longo da segunda metade do século XIX, contribuindo para a circulação de pessoas, ideias e experiências de resistência. Desse modo, formaram se conexões diretas entre a herança dos movimentos baianos e o contexto urbano carioca, estabelecendo pontes entre diferentes espaços da diáspora africana no Sudeste.
O intenso fluxo migratório da Bahia para o Rio de Janeiro, especialmente a partir da segunda metade do século XIX, teve papel decisivo na configuração da cultura urbana carioca. Esse deslocamento trouxe consigo práticas religiosas, manifestações musicais, conhecimentos tradicionais e formas de sociabilidade que marcaram profundamente determinadas áreas da cidade. Esses espaços passaram a ser conhecidos como “Pequena África” — expressão derivada de “África em miniatura”, utilizada por Heitor dos Prazeres — ou ainda como “Pedaço baiano”, conforme aponta a historiadora Mônica Velloso.
A influência baiana foi essencial tanto para a consolidação do samba quanto para a organização das religiões de matriz africana no Rio de Janeiro. Essa presença cultural se refletiu de maneira direta na trajetória do homenageado, sobretudo por meio dos ensinamentos e da convivência com duas importantes figuras oriundas da Bahia: Hilário Jovino e Hilária Batista de Almeida.
Hilário Jovino Ferreira, tio de Heitor dos Prazeres e conhecido como Lalú de Ouro, destacou se como um dos grandes articuladores das festas populares negras na cidade. Foi atuante na criação e organização dos ranchos carnavalescos e teve papel relevante na ocupação dos espaços públicos por manifestações da cultura afrobrasileira, além de contribuir para a difusão dos cultos de matriz africana e para a agregação da comunidade baiana no centro da capital.
Hilária Batista de Almeida, consagrada como Tia Ciata, assumiu posição central nesse mesmo território cultural. Figura fundamental da “Pequena África”, foi responsável por articular rodas de samba e práticas religiosas no início do século XX. Sua residência tornou se um ponto de encontro decisivo para músicos, compositores e líderes religiosos, sendo reconhecida como um dos berços do samba urbano carioca. Heitor dos Prazeres, além de manter forte vínculo afetivo com Tia Ciata — a quem considerava madrinha —, exerceu a função de ogã em seu terreiro, aprofundando ainda mais sua ligação com esse universo cultural e espiritual.
Imagino que agora estar mais do que claro para você, meu caro leitor, que a origem e nascimento da Kimbanda Malei, se faz em terras cariocas, na época do grande império, na pequena África que veio a influenciar nosso samba.
Estou falando explicitamente de Africanos, homens e mulheres cariocas, ainda que fossem Muçulmanos são pessoas que viviam a margem da sociedade e precisavam sobreviver a qualquer custo das maldades do Homem branco e da fome e miséria que assolavam estas pessoas. Estou falando dos Alufás que ficavam na praça XV em pleno século XIX, o intercâmbio destes povos citados previamente, inclusive os Iorubás junto com os Malês (você se lembra que u disse que a palavra Malê veio do Iorubá, certo?) que trouxeram os Djinns, sim, esse intercâmbio proporcionou que parte dessa cultura tão rica também viesse até nossa terra, a nível de magias, tecnologias espirituais poderosíssimas com seres que atravessam não só a cultura Islâmica, como a Judaica e Cristã mediante aos mitos que citei acima ( se você não sabe, Cristianismo, Islã e Judaísmo são religiões semitas, ambas compartilham das histórias de Abrão, Isaac, Jacó, Tobias, mas especialmente o Rei Salomão, grande sábio magista que foi pseudônimo de vários grimórios na antiguidade).

Fragmentos de páginas em Árabe, encontrado com os Malês.
Fonte: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
O Diabo veste saia… E com isso eu quero que você entenda que para essas pessoas que viviam a margem da sociedade, para essas pobres e fortes almas, era a lei da selva, da sobrevivência, do mais forte. Logo, você acha mesmo que a divindade colonizadora, Branca, iria voltar seus olhos a eles? Os marginalizados? Os antagonistas? Mas é claro que NÃO! E foi justamente nesse papel, abraçando a realidade em que viviam e sua própria herança cultural que essa arte mágica, ou melhor, essa magia que é patrimônio CARIOCA se desenvolveu. Foi com a prostituta que conseguia seduzir os corações dos nobres e membros do clero, foi com a bruxa feiticeira, ou bem dizendo, as famosas benzedeiras, parideiras, vovós curandeiras que ajudam suas famílias e vizinhos, estas senhoras que encarnaram involuntariamente o arquétipo da mulher velha, a bruxa, mas que também trazia a cura, ajudava nos partos por mais que fosse marginalizada e discriminada.
Essas foram as principais corporificações que auxiliaram na concepção de Asmodeus como a pomba gira brasileira e não apenas um mero demônio advindo da Europa por uma tradição grimorial, cujo único ofício seria a Sedução. Asmoday é força, é revolta, é resposta as opressões, é o impulso animal / draconiano mais puro que temos dentro de nós. Ele é vingança, traição, luxúria, mistério da noite… Ele é a própria força bruta da mãe natureza e entenda que eu não estou dizendo mãe como mera referência e sim a própria genitora, aquela que alimenta e alimentou e continua a alimentar todos nós, é a natureza, é o espírito indomável. afinal, não foi a mulher que tentou Adão? Não é a mulher que sangra para não morrer? Afinal, não são as mulheres as verdadeiras iniciadas pela natureza quando chegam na puberdade? Pois bem meus amigos, Asmodia é Mulher, é Homem e muito mais do que você pode imaginar.
Pois veja, a menstruação mexe completamente com o corpo e a psique feminina, ela oscila entre a mãe que a braça da mesma maneira como a amante que lhe toma em seus braços. É o sangue que expurga do seu corpo, de suas entranhas para purificar a vida. A pomba gira é o útero da Kimbanda. Se você, caro leitor for um thelemita como eu, percebera que na missa gnóstica, Babalon também é louvada da mesma maneira, o útero a qual todos viemos e retornaremos, a mãe terra, Onilé.
Asmodeus como a pomba gira é o duplo divino do que é chamado Deus, se Deus é complacência e é pai e mãe, Deus também é ira. Todos os demônios e demônias não são partículas do Grande Arquiteto?
Caro leito, já separamos a figura primitiva para o que seria a pombagira. Logo se o demônio possui corpos através da possessão, algo que já é datado desde o tempo de cristo (legião) e também ao longo de toooda idade média, como Asmodeus tendo se transmutado na figura da mulher, da prostituta, da feiticeira, carregando a coroa da pomba gira brasileira, como ela não iria incorporar? Sim, é logico que incorpora e tem seus médiuns. É raro, mascarando-se em 7 pombagiras que se multiplicam em mais 7 e mais 7, sucessivamente.
Ora encontranda nos cabarés e prostibulos daquelo que já foi o epicentro do Império Português, onde se encontrava o “sangue azul”, a prostituta estava lá, a feiticeira, negros marginalizados Cabimda, Angola, Congo, junto dos Alufás Males e Mussirumins e Yorubás. Todos estavam, ou melhor estavam AQUI. Tudo aqui, em plena capital fluminense, a nossa cidade do Rio de Janeiro.
A feitiçaria rolava por de trás dos prostíbulos. Asmodeus irradia-se na figura feminina libertaria da senhora pomba gira Maria Padilha. E numa simbiose quase como o rapto de Perséfone por Hades, o arque demônio, Asmodeus encanta-se por Maria Padilha que é Rainha da Lira, e a linda Maria Padilha somada a seu consorte, resplandecendo e irradiando a fúria que é não só do demônio, como também da própria mulher. Logo estamos lidando com uma força andrógina, assexual, percebem como Asmodeus se transforma na pomba gira da cultura brasileira?
Toda discriminação que os homens e mulheres daquela época sofreram foi corporificada em Asmodia, não foi em Astaroth. Por tanto eu reafirmo, Astaroth veio com base na literatura grimorial, Asmodeus surge com base naquilo que foi e é vivido na pele das ruas do antigo Império Português, na cidade do Rio de Janeiro, na pele e sangue do povo que viveu em terras cariocas.

Cortiço no centro da cidade do Rio de Janeiro, 1906. Acervo Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.
E conforme citei acima, quando o povo Negro saio do Nordeste e veio para o sudeste, eles JÁ ENCONTRARAM outros Malês aqui em terras cariocas, eles já praticavam magia pois viviam pela lei do mais forte, a lei da sobrevivência e da selva! Veja que nosso sincretismo ele vai muito, mas muito além da miscigenação, muito além de colocar um São Jorge e dizer que é Ogum, houve sim um intercâmbio enorme entre o Africano que sabia de suas magias, o Muçulmano que lidava com Djinns, o branco interessado em magia grimorial (Veja por exemplo a palestra de Humberto Maggi a respeito do livro de São Cipriano, onde desde aquela época os brancos colonos já praticavam suas magias e compilavam seus feitiços e mirongas e nisso veio a ser o famoso livro de Cipriano.
Inclusive, falando em “DJinns”, os Alufás Males = Mestres cultuadores de Fá, que tinham ao seu lado o povo Yorubá na figura do Babalorisá e Ifistas cultuadores dos Orisás e Ifá, que eram conhecedores também dos àlùjònnú, ànjònù, qe é o mesmo que DJinn!
Estes eram solicitados pelos Pretos Cabindas no resgate da sua prática religiosa com os Inkisis, assim como o povo Angolano e Congolês recorriam aos mesmos. Pois sua prática já estava bem mesclada a práticas do branco colonizador, com rezas e ladainhas católicas. Elas não eram bem vistos pelos alufás Malês, pois tratavam os, ou melhor, percebiaos como domesticados.

Foi através dessa marginalização que o poder das sombras, o ímpeto humano, tomou força e movimento ao travestir-se de mulher, tentando os membros do clero ( que até hoje fazem muita sacanagem… ) a roubar riquezas e coroas de príncipes, e por aí vai…
Ainda falando de grimório medieval, Asmodia também representa Klepot, essa força é a verdadeira cobra de 7 cabeças, as 7 cabeças coroadas da Besta, personificado na mulher que tentou o próprio homem e que há de cavalgar em cima da própria Besta. 7 personificações do Diabo, as 7 irmãs do inferno… Sim, as 7 irmãs do inferno tal como constam no Testamento de Salomão, que veio muuuuito antes do Grimóriun Verum. 7 irmãs que a saber, constituem não só a mitologia judaica como assim como a Hygromanteia e o próprio testamento de Salomão, são obras imprescindíveis para a compreensão da magia cerimonial. Lúcifer, Mammon, Asmodeus, Belzebu, Leviatã, Azazel, Belphegor, 7 serpentes, 7 pecados primordiais.
Então, peço que perceba e reflita como os mitos de uma cultura são consolidados e como eles se desenvolvem ao longo da história. Veja que por mais que Ishtar tenha sido demonizada e virado Astaroth, é Aeshma Deva, é Asmodeus que se faz presente não só no Rio de Janeiro como também é presente em vastas literaturas do judaísmo de da literatura grimorial da idade média…
Asmodeus é a própria força bruta de todas essas cabeças, cabeças essas das quais também possuem seus reinos, suas falanges e legionários. É a própria Hidra de Lerna que multiplica sua força que é suas cabeças… E, passado pelo Irã, que é a antiga Pérsia com rei Salomão o demônio Asmodeus passou a ser também o Principe das 4 categorias de Djinns (Estes estão completamente presentes dentro do que vocês conhecem de Kimbanda Malei). Lógico, junto ao sub demonios do Grimoriun Verum e alguns da Goétia.
Mas ainda assim você deve estar se pergunto, ok, isso surgiu do nada? Qual o fundamento? Temos algo escrito sobre isso?
Asmoday não aparece com Aluízio Fontenelle, nem com José Maria Bittencourt.
Ele aparece posteriormente na década de 70, com José Ribeiro de Egunitá, que a citaram como pombagira Mirongueira.
Então meu leitor, perceba, eu já lhe dei toda a linha cronológica até o Brasil império, que era na cidade do Rio de janeiro. A partir daí, vemos outros autores tentando traçar referências escritas de cultos que são de família, de tradição, de boa a boca…
Ainda que Asmodia seja a personificação direta de Vanjira/Panjira, formas femininas do Senhor dos Caminhos, diferente de Pambuzila que é uma forma masculina do Orisá Esú no candomblé Ketú e a Vodun Legbá, ou no Candomblé Fon Djedje. Ainda que ela seja tudo isso ao longo da história, o único a mencionar Asmodeus foi José Ribeiro de Egunitá…
Asmodeus não se fez presente nas obras de Bittencurt e Fontinelli. Como já explanei, foi com Zé ribeiro, Rei da macumba do Rio de Janeiro no Plácio de Oya Egunitá na cidade de Deus em Jacarépagua, capital do Rio de Janeiro. Logo, dentro de todo intercâmbio que transpassou tempo e geração e estado do brasil, desde os anos 50, 60 até chegar em 70, onde Asmodeus aparece pela primeira vez em na obra literária de Zé ribeiro (Cito novamente como pombagira mirongueira, logo asmodeus não pertence A NINGUÉM, ELA USA A MÁSCARA QUE MELHOR LHE CONVIR)

Como se já não fosse o bastante se adequa na prática das Kimbandas Sudeste, Sulista, Nordestina, acompanhando seu regionalismo e mesclando na prática do Candomblé, da Macumba Rio, do Batuque gaúcho.
Após citar tudo isto, meus caros leitores…. Concluo com estas últimas informações e espero serem úteis aos caríssimos:
ASMODEUS ou qualquer nome de pombagira que queira dar, através da MÁSCARA que ela usa, sempre será uma força caótica diretamente relacionada ao impulso primordial, em oposição a uma forças sedutora e mental de Astaroth, que provém da deusa Astarte. Os estudantes e leitores mais interessados e fiéis ao assunto, compreenderão minhas palavras, ao ler o épico de Gilgamesh, especificamente ao capítulo da descida de Ishtar ao submundo.
Em resumo, na Kimbanda Malei, a presença de Asmodeus se dá da seguinte forma: algumas Kimbandas utilizam Astaroth porque trabalham o desejo como sedução, palavra e poder simbólico; outras utilizam Asmodeus porque trabalham o desejo como impulso, ruptura da força instintiva. Ao passo que, Astaroth surge inicialmente com base na tradição grimorial Européia. Com Jose Ribeiro de Egunitá
Dentro da Kimbanda, Asmodeus não ocupa necessariamente a posição de comando supremo — função que, em muitas casas, pertence a Exu Rei sob a égide de Lúcifer —, mas assume um papel central no que diz respeito a materialização dos desejos, do ímpeto humano, do impulso do desejo peculiar a todo demônio, a todo ser vivente bem como a humanidade. Trata-se de uma potência que atua sobretudo no campo da atração, da fissura moral e da quebra de contenções sociais, revelando aquilo que é reprimido, oculto ou negado pela consciência O conceito da sombra de Carl Jung)
Essa atuação dialoga diretamente com a figura da Pombagira. Na feitiçaria brasileira, digo a Kimbanda, especificamente a Kimbanda malei, Pombagira não é apenas um espírito feminino, mas a expressão ritualizada da força sexual, autônoma e insurgente. Diversas tradições entendem Asmodeus como a inteligência velada por trás dessa manifestação, não no sentido de identidade simples, mas como princípio regente.
Assim, Asmodeus se apresenta como uma potência andrógina, capaz de se manifestar ora como Exu, ora como Pombagira, conforme o campo de atuação e a necessidade mágica.
A sexualidade, nesse contexto, não é reduzida a um aspecto moralmente condenável, mas compreendida como força cósmica. O desejo é visto como motor da criação, mas também como gerador de conflitos, obsessões e rupturas. Asmodeus governa exatamente essa ambivalência: ele desperta, inflama, intensifica, mas também cobra, consome e destrói quando não é compreendido ou bem direcionado. Por isso, sua presença na Kimbanda Malei exige preparo, disciplina e alinhamento dos seus devotos.
Iconograficamente e simbolicamente, essa potência é frequentemente associada à serpente, ao fogo interno, ao riso predatório e à encruzilhada entre prazer e ruína. Seu culto não visa domesticar a força, mas aprender a caminhar com ela, reconhecendo seus riscos e possibilidades. Daí a insistência, nas tradições mais sérias de Kimbanda, de que Asmodeus não se revela plenamente a iniciantes, atuando primeiro de forma indireta, testando limites, expondo fraquezas e provocando confrontos internos.
Sendo assim, Amadeus na Kimbanda primitiva, ou kimbanda do Diabo, Kimbanda da Encruzilhada, mais tarde classificada e conhecida como Malei que veio de Recife (Nordeste Brasileiro) chegando a terras Cariocas e Gaúchas não é uma simples herança estrangeira que adveio de grimórios europeus. É muito mais do que você pode imaginar. Também não é um anjo, ou melhor é um deva e com isso me refiroo especificamente a um ser que agia, age e trabalha diretamente sob o jugo das forças anti cósmicas. Ahiram, como o próprio Satã, ou Lúcifer, possui o ser preterido(a), aquele a qual odo mito Judeu e Nazareno treme diante de sua potência, é a força cósmica destrutiva primordial, aquele que faz os anjos tremerem, aquele que devorou todos os 7 maridos de Sara ( lembra que falei de 7 irmãs e 7 cabeças? Pois meu amigo). Ele e Ela são a força viva de nossos desejos e pulsões, reelaborados no chão cru e batido da magia e da feitiçaria Brasileira, sem espaço para sentimentalismos imbecis, quanto menos julgamentos vis. Um lobo não se mistura com ovelhas… Quanto menos abelhas comem merda como as moscas, elas buscam o mais puro mel.
É essa a força que atravessou nosso passado colonial, até mesmo antes de tudo isso, desde a antiga Pérsia, Sodoma e Gomorra. Essa é a força por de trás da marginalização de práticas mágicas que representam a resistência cultural resistência cultural dos feiticeiros de nossa terra. Sua presença revela não apenas um demônio da tradição salomônica, mas um princípio ativo do caos criador, indispensável para compreender a dinâmica profunda da Kimbanda enquanto culto de transgressão, poder e transformação.
Dedico este texto a esta força bruta que é Asmodeus, a qual eu vi, presenciei e venho percebendo com mais clareza após ter sido recebido pelo meu Mestre.

Hoje, com o coração repleto de reverência e admiração, também dedico e presto esta humilde e sincera homenagem ao homem e meu Avô que se tornou lenda:

Pai Jarbas Pereira de Farias, o incontestável Rei da Magia Negra do Brasil e da Europa.
Nascido em Pernambuco e forjado no fogo das encruzilhadas do destino, Jarbas chegou ao Rio de Janeiro nos anos 50 e, com a força de Exu, transformou sonhos em realidade. Do quartel do Exército Brasileiro, onde suas manifestações espirituais impressionavam até generais, até a construção do majestoso Palácio de Zé Pilintra e de Lúcifer em Duque de Caxias, sua trajetória foi marcada por grandeza, poder e fé inabalável.
Coroado Rei da Magia Negra no Cemitério de Roma, na Itália, e posteriormente no Brasil com a presença de grandes nomes da Umbanda, Candomblé e da sociedade, Pai Jarbas elevou a Quimbanda a um patamar nunca antes visto. Foi ele quem trouxe a poderosa Quimbanda da Encruzilhada, de Lungombi e do Diabo de Pernambuco para as terras cariocas, fundando a Quimbanda Gangaloa, uma linhagem pura de magia negra que permanece viva até hoje através de seu legado.
Iniciado em 1957 no Candomblé de Angola pelas mãos do lendário Joãozinho da Gomeia, ele se tornou Tateto respeitado, Pai de Santo de inúmeros artistas, jogadores de futebol, políticos, comunicadores e figuras da alta sociedade. Seu terreiro foi frequentado por ícones como Chacrinha, Flávio Cavalcante, Elke Maravilha, Sandra Bréa e tantos outros que buscavam sua sabedoria e poder espiritual.
Suas festas eram monumentais: sete dias de celebração, milhares de pessoas, ruas fechadas, boi e touro sacrificados com rigor ancestral, e uma energia que só um verdadeiro Rei consegue comandar. Sua generosidade era lendária — promovia Natal para os pobres, Dia das Crianças e ajudava a todos que batiam à sua porta.

Pai Jarbas sentado em seu trono, em seu Palácio Palácio de Zé Pilintra e de Lúcifer em Duque de Caxias
Homem de visão, prosperidade e coração enorme, construiu não apenas um templo, mas um império espiritual. Deixou imóveis em Roma, carros de luxo e, acima de tudo, uma coroa que poucos tiveram a grandeza de carregar.
Em 09 de outubro de 1999, o plano físico perdeu seu Rei, mas o mundo espiritual ganhou um ancestral de luz e poder incomensurável. Seu mausoléu em Duque de Caxias continua sendo um lugar de peregrinação, onde sua memória é cultuada com flores, respeito e gratidão.
Pai Jarbas, o Senhor das Encruzilhadas, o Coroado de Roma, o Rei da Magia Negra, o Tateto de Angola, o construtor de palácios e o protetor de milhares. Seu nome jamais será esquecido. Sua obra continua ecoando através de seu sucessor espiritual, Mestre Marcello de Lalu, e de todos que carregam sua bandeira com honra.

Com eterna gratidão e devoção, Ao Grande Rei da Magia Negra do Brasil e da Europa.
Também dedico este artigo ao Sacerdote, Historiador, Radialista, Filósofo, Teólogo, Tata N’ Gumbula, Ganga Negra Loa, Sacerdote Real de Candomblé Djedje, Iniciado Nago Vodun, Iniciado no Egungun, Ifá, Pai e Guerreiro, o senhor Marcello de Lalú, dirigente do Templo Ilê Madame Satã.
Ao Homem que tenho o maior orgulho e privilégio de dizer que é meu Pai e Mestre Espiritual, a quem muito admiro por sua trajetória, caráter, conduta e virtude pela pessoa que é, foi e sempre será.

Mestre Marcello de Lalú, atual Rei da Magia
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Príncipe coroado pelo Pai Jarbas Pereira de Farias, detentor do legado e herança espiritual do Pai Jarbas.

Danilo Sena
Neófito Kimbanda no Templo Ilê Madame Satã, Noviço Necromante,
Líder da Ordem da Estrela Mor – Raio das Nove Luzes.
Magista Thelemita, Feiticeiro Enochiano, Poliglota, Sitarista e Tarólogo Autodedata, Internacionalista.
Aluno de Robson Belli, também foi Probacionista pela linhagem de Sérgio Bronze na Santíssima Fraternidade A ∴ A ∴ Participou e contribuiu musicalmente como sitarista em eventos da Mystic Fair, Ordo Templi Orientis e do Collegium ad Lux et Nox (CALEN), instituições às quais expresso meus sinceros agradecimentos pelo apoio, acolhimento e pelas oportunidades de compartilhar a arte da música. A elas ofereço meu mais humilde reconhecimento e o firme apoio à continuidade de seu valioso trabalho.
Contato para consultas oraculares – Instagram: @Danil00z
Dou fé e veredito há tudo que foi dito nessas muitas linhas em nome do Diabo.
Salve Asmodeus,
Salve Lúcifer,
Salve Belzebu.
Laroyê Exú, Exú é Mojubá.
Amor é a Lei, Amor sob Vontade.
Bibliografia:
Annette Yoshiko Reed: “Demons, Angels and Writing in Ancient Judaism”. Published online by Cambridge University Press: 16 January 2020.
Kenner Roger Cazotto Terra: “De Guardiões a Demônios. A Histórioa do imaginário do Pneuma Akatharton e sua relação com o mito dos Vigilantes”. Universidade Metodista de São Paulo – UMESP
José (Egunitá), Pomba Gira: Mirongueira.
José Maria Bittencourt, No Reino dos Exus
Aluizio Fontenelle, No Reino dos Exús
https://www.unirios.edu.br/revistarios/media/revistas/2018/16/as_sete_peles_de_asmodeu.pdf
Resenha sobre o filme MALÊS, 2024, Antonio Pitanga.
Página da Escola de Samba, Vila Isabel
GONÇALVES, Renata de Sá. Os Ranchos pedem passagem: o carnaval no Rio de Janeiro do começo do século XX. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (Coleção Biblioteca Carioca), 2007.
LÍRIO, Alba; PRAZERES FILHO, Heitor dos. Heitor dos Prazeres. Sua arte e seu tempo. Rio de Janeiro: ND Comunicação, 2003.
VELLOSO, Mônica Pimenta. “As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro.” Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6 (1990): p. 207–228
LÍRIO, Alba; PRAZERES FILHO, Heitor dos. Heitor dos Prazeres. Sua arte e seu tempo. Rio de Janeiro: ND Comunicação, 2003.
VELLOSO, Mônica Pimenta. “As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro.” Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6 (1990): p. 207–228
https://www.historiadomundo.com.br/hebreus/cativeiro-babilonia.htm
Interfeference Journal, ISSN 2009-3578, Breve análise sobre a vida dos judeus durante o exílio babilônico e seus resultados para o judaísmo, por Euler Lopo Romero
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cativeiro_Babil%C3%B3nico
https://www.paulus.com.br/portal/etapas-da-historia-de-israel-o-exilio-na-babilonia/
https://www.wisdomlib.org/christianity/concept/babylonian-influence
O Diabo no Imaginário Cristão, de Nogueira (2002).
Humberto Maggi – Goetia
Middle East Eye. Shams al-Maarif: Why is this mystic book feared in the Middle East
Wikipedia. Shams al-Ma’arif.
Renaissance Astrology. Shams al-Ma’arif – the Sun of Wisdom / Picatrix-Ghayat al Hakim.
Lebling, R. (2010). Legends of the Fire Spirits: Jinn and Genies from Arabia to Zanzibar. I.B. Tauris.
Guiley, R. E. (2011). Vengeful Djinn: Unveiling the Hidden Agenda of Genies. Visionary Living.
Lecouteux, C. (2022). King Solomon the Magus: Master of the Djinns and Occult Traditions of East and West. Inner Traditions.
Redalyc. Os amuletos árabes da coleção Nina Rodrigues.
Arabic Magic. Classifications & Types of Jinn, Ways of Summoning The Jinn, Al-Mandal.
John Friend Publishing. The Seven Jinn Kings: Real Names the Goetia Gets Wrong.
Scribd. Seven Jinn Kings and Planetary Practices / The Birhatīya Conjuration Oath.
[11] Saif, Liana. The Arabic Influences on Early Modern Occult Philosophy. Palgrave, 2015.
SHWEP. Noah Gardiner on the Pseudo-Bunian Shams al-maʿārif.
Academia.edu. Ahmad al-Buni and His Esoteric Model.
Alcoorão Sagrado.
Bíblia Sagrada.
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