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Dragões não existem

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Yury Henrique

Existe um livro infantil de Jack Kent chamado “Dragões não existem” (tradução livre para o original: theres no such thing as a dragon). Nessa história o personagem Billy Bixbee encontra um dragão pequeno em seu quarto e corre descendo as escadas para informar sua mãe sobre a presença do animal. A mãe, no entanto, é categórica ao afirmar que dragões não existem sem nem mesmo olhar para onde o garoto apontava. Diante dessa negação, a criatura começa a aumentar de tamanho de forma acelerada, se antes tinha o tamanho de um pequeno gato agora assume o tamanho de um cachorro e consome o alimento do menino, passando a ocupar os móveis da casa. O crescimento é tão severo que, eventualmente, o animal fica maior que a própria residência, carregando a estrutura física nos ombros enquanto caminha pela vizinhança.

A situação só muda quando o pai de Billy chega encontrando apenas o terreno vazio e um rastro de destruição nas ruas. Seguindo esse rastro ele encontra sua casa em cima do dragão que comia pães de uma padaria do bairro e ao conversar com a família ele chega a conclusão de que de fato é um dragão. Diante dessa afirmativa do pai, a mãe de Billy finalmente encara o dragão e decide admitir que o dragão é real. No momento em que a mãe aceita a presença da criatura, ela diminui de tamanho rapidamente até se tornar pequena outra vez.

Essa história apresenta uma descrição precisa do que ocorre com o medo, a ansiedade e a angústia na experiência humana. Ao ignorar um sentimento desconfortável, o indivíduo não faz com que ele desapareça da realidade. Pelo contrário, a falta de atenção e o esforço para negar o que se sente dão ao sentimento um espaço livre para se expandir sem controle. A ansiedade aumenta quando a pessoa evita pensar nas causas de sua inquietação, e o medo se torna um impedimento para as ações cotidianas quando não é devidamente nomeado. A angústia acumulada e acorrentada pelo silêncio acaba por ocupar todos os aspectos da rotina, prejudicando o raciocínio e as relações sociais.

O enfrentamento direto é a ferramenta que reduz essas emoções a um volume que pode ser administrado. Quando a realidade é encarada de frente, o problema perde a característica de algo desproporcional e assume seu tamanho verdadeiro, permitindo que a pessoa encontre meios de lidar com a situação.

Sob uma perspectiva espiritual, a aceitação da verdade é um requisito para o bem-estar e para a tranquilidade da consciência. A negação persistente de fatos ou de estados internos cria um distanciamento entre o indivíduo e sua própria natureza. A falta de honestidade sobre as aflições gera uma tensão constante que impede o desenvolvimento pessoal. A espiritualidade se fortalece na clareza e na coragem de admitir as fragilidades humanas.

Ao reconhecer a existência de uma dificuldade, ocorre uma liberação da energia que antes era utilizada para sustentar uma percepção falsa. A aceitação permite que o equilíbrio seja restaurado, pois a paz interior depende da concordância entre os acontecimentos vividos e o que é reconhecido de forma consciente.

Ao considerar essa necessidade de encarar a realidade para que ela perca sua força negativa, você identifica algum sentimento que tem evitado nomear ultimamente?


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