Categorias
Baixa Magia Satanismo e Luciferianismo

The Traitors e as 4 Lições do Jogo Social

Este texto já foi lambido por 118 almas.

por Morbitvs Vividvs

The Traitors é um reality show de competição psicológica, inspirado no aclamado jogo de salão Mafia. A ideia é simples, os jogadores são divididos entre Fiéis e Traidores. Todas as noites os Traidores escolhem um fiel para morrer. Todas as tardes, os Fiéis tentam acusar um dos jogadores de ser um Traidor, eliminando alguém, culpado ou inocente do jogo. Passadas mais de quatro temporadas, o programa se mostrou um privilegiado laboratório para observar o jogo social, pois torna visíveis mecanismos que normalmente operam ocultos como a construção e a erosão da confiança, as disputas por poder, a pressão por pertencimento e estratégias de persuasão e manipulação.

O que trago a seguir são 10 lições do comportamento humano, baseado nas quatro primeiras temporadas, bem ao gosto dos fãs de Robert Greene.

Lição 1
SIMPATIA NÃO É ALIANÇA

Existe uma concepção bastante popular segundo a qual as pessoas agradáveis são também pessoas confiáveis. A origem dessa crença é fácil de compreender. O homem gosta de ser apreciado, protegido e tratado com consideração, e encontra grande satisfação em acreditar que aqueles que lhe proporcionam essas sensações possuem um interesse sincero por seu bem-estar. Assim, uma pessoa que demonstra afeto torna-se honesta; aquela que oferece proteção torna-se leal; alguém que nos faz sentir importantes passa a ser considerado incapaz de nos prejudicar. Na quarta temporada de The Traitors, Rob Rausch compreendeu muito bem a utilidade dessa associação. Sua proximidade com Maura Higgins, reforçada por gestos de proteção durante as provas, estabeleceu entre os dois uma relação que parecia dispensar qualquer demonstração adicional de confiança. Quando surgiram suspeitas contra Rob, Maura preferiu acreditar na experiência que havia construído ao seu lado. Afinal, por que deveria desconfiar de alguém que sempre lhe parecera tão atencioso? Não era aquela a mesma pessoa que havia demonstrado preocupação com sua segurança? Certamente! E era também a pessoa que possuía todos os motivos para conservar essa impressão favorável! O que torna a situação particularmente interessante não é a possibilidade de que Rob tenha utilizado a simpatia como instrumento de manipulação, mas a dificuldade de Maura em reconhecer que a gentileza de alguém não constitui garantia de que seus interesses sejam compatíveis com os nossos. Admitir que Rob poderia estar enganando-a exigiria reconhecer que sua confiança talvez tivesse sido mal depositada. E o orgulho humano frequentemente considera mais desagradável reconhecer um erro de julgamento do que continuar acreditando numa mentira.

Júlio César encontrou uma situação semelhante em 44 a.C. Advertido sobre possíveis perigos, considerou não comparecer ao Senado, mas foi convencido a sair de casa por Décimo Bruto, um homem que desfrutava de sua confiança e que participava da conspiração contra ele. César conhecia a existência de inimigos políticos e estava perfeitamente familiarizado com as disputas pelo poder em Roma. Entretanto, aquele que conseguiu persuadi-lo não se apresentou como adversário. Apresentou-se como amigo! Os inimigos declarados de César não possuíam a liberdade de aproximação que Décimo desfrutava, pois a hostilidade manifesta naturalmente desperta precauções. A confiança, ao contrário, permite que alguém se aproxime sem provocar a mesma resistência. Seria absurdo concluir que todas as amizades constituem conspirações disfarçadas ou que o homem deve tratar cada demonstração de afeto como uma tentativa de traição. Mas seria igualmente absurdo imaginar que a existência de uma relação agradável elimina a possibilidade de interesses contrários. O homem que não consegue distinguir uma coisa da outra transforma sua própria necessidade de afeição em uma conveniente vantagem para aqueles que desejam utilizá-la.

A psicologia moderna atribui parte desse comportamento ao chamado efeito halo, pelo qual uma característica favorável leva o observador a presumir a existência de outras qualidades que ainda não foram demonstradas. Uma pessoa simpática passa a parecer honesta, uma pessoa atraente parece mais inteligente e alguém que expressa sentimentos semelhantes aos nossos torna-se, em nossa imaginação, digno de confiança. É curioso que o homem, tão preocupado em exigir provas quando seus interesses materiais estão envolvidos, frequentemente abandone qualquer exigência semelhante quando sua vaidade é satisfeita! O satanista não considera necessário desprezar a amizade ou negar o prazer proporcionado pelo afeto. Ao contrário, reconhece que esses sentimentos constituem algumas das experiências mais satisfatórias da existência humana. Mas justamente porque lhes atribui valor, não os distribui indiscriminadamente. Amar a todos significa deixar de distinguir aqueles que merecem nosso amor; confiar em todos significa abandonar a capacidade de reconhecer quem merece nossa confiança. Se alguém demonstrou lealdade, que receba a consideração correspondente! Se alguém apenas conseguiu fazê-lo sentir-se importante, que receba o apreço devido a uma companhia agradável, mas não necessariamente as mesmas prerrogativas de um aliado comprovado. Não existe virtude em entregar voluntariamente seus interesses a outra pessoa simplesmente porque ela aprendeu a dizer aquilo que você gosta de ouvir. A confiança deve ser uma escolha, e não uma obrigação imposta pela agradável sensação de ser admirado.

Lição 2
UMA EXPLICAÇÂO DE MERDA SERÁ MAIS ACEITA QUE EXPLICAÇÃO NENHUMA

O homem tem uma extraordinária dificuldade em reconhecer sua própria ignorância. Ele pode tolerar quase qualquer explicação para um acontecimento, desde que a explicação lhe permita acreditar que compreendeu o que ocorreu. Em The Traitors, cada eliminação noturna coloca os Fiéis diante dessa dificuldade. Alguém desaparece do castelo, os responsáveis continuam convivendo normalmente com os sobreviventes e não existem informações suficientes para determinar com segurança quem participou da decisão. Seria razoável admitir que, nessas circunstâncias, grande parte das suspeitas não pode passar de conjectura. Mas o homem raramente se satisfaz com aquilo que seria razoável! Um participante que permanece em silêncio certamente está escondendo alguma coisa. Aquele que fala excessivamente deve estar tentando desviar a atenção. Uma mudança de voto é interpretada como evidência de conspiração, enquanto a manutenção de uma posição anterior pode ser apresentada como indício de que alguém preparou cuidadosamente sua estratégia. Se o acusado demonstra nervosismo, sua reação confirma a culpa; se permanece tranquilo, sua serenidade é considerada ainda mais suspeita. O que deveria fazer um inocente para provar sua inocência? Aparentemente, nada, pois o julgamento já foi realizado antes mesmo que seu comportamento pudesse ser examinado! O grupo não está necessariamente procurando descobrir quem é o Traidor. Muitas vezes está procurando razões para justificar a suspeita que já escolheu alimentar.

A psicologia denomina necessidade de fechamento cognitivo o impulso de reduzir a incerteza por meio de uma conclusão definida. O fenômeno explica por que uma acusação convincente pode proporcionar alívio mesmo quando não é sustentada por evidências suficientes. Quando um culpado é identificado, o mundo volta a parecer compreensível; existe uma causa para o acontecimento, um responsável pelo perigo e uma ação que pode ser tomada para restaurar a tranquilidade. Pouco importa, naquele momento, que a explicação possa estar errada. A convicção já produziu o efeito emocional desejado! O mesmo mecanismo opera fora do castelo, quando os homens encontram explicações simples para conflitos que mal compreendem ou aceitam histórias convenientes porque elas confirmam suas opiniões anteriores. Durante séculos, a humanidade atribuiu acontecimentos desconhecidos à intervenção de forças sobrenaturais, e muitos continuam encontrando causas misteriosas para suas frustrações pessoais. O indivíduo que não consegue explicar seu fracasso pode atribuí-lo à inveja de seus adversários; aquele que desconhece as intenções de seus semelhantes pode inventar uma conspiração para justificar suas suspeitas. Em todos esses casos, a explicação possui uma vantagem que a investigação cuidadosa não oferece: dispensa o desagradável reconhecimento de que ainda não sabemos o suficiente.

Tem sido repetido que a verdade liberta o homem, mas a verdade não possui grande utilidade para aquele que já decidiu o que deseja acreditar. Uma informação contrária às suas convicções pode ser rejeitada, uma evidência inconveniente pode ser reinterpretada e uma contradição manifesta pode ser transformada em demonstração de que seus adversários estão tentando enganá-lo. Se uma acusação é verdadeira, por que seus defensores deveriam temer seu exame? Se uma explicação corresponde aos fatos, por que seria necessário impedir que outras possibilidades fossem consideradas? E se a maioria das pessoas concorda com determinada conclusão, desde quando o número de indivíduos convencidos constitui prova de que estão certos? A dúvida, tão frequentemente condenada por perturbar a tranquilidade das crenças estabelecidas, é precisamente aquilo que permite distinguir uma convicção justificada de uma ilusão confortável. O satanista não necessita aceitar uma explicação simplesmente porque ela é popular, tampouco deve considerar vergonhoso admitir que desconhece a resposta para determinada questão. A ignorância reconhecida pode ser corrigida; a ignorância transformada em certeza dificilmente permite que alguma correção seja realizada. Se os Fiéis estivessem menos preocupados em demonstrar que conhecem a verdade e mais dispostos a descobrir aquilo que realmente aconteceu, talvez encontrassem menos inocentes para condenar. Mas, naturalmente, é muito mais satisfatório anunciar que se descobriu um Traidor do que admitir diante de todos que ainda não se sabe quem ele é!

Lição 4
O MEDO DE INJUSTIÇA CRIA PESSOAS INJUSTAS

A justiça tem sido apresentada como uma das mais elevadas virtudes humanas, mas seus defensores frequentemente demonstram uma surpreendente disposição para abandoná-la quando seus próprios interesses parecem ameaçados. O homem que condena a agressão encontra justificativas para agredir quando acredita estar se defendendo; aquele que exige provas antes de uma condenação pode considerar suficiente uma suspeita quando teme tornar-se vítima; e o indivíduo que proclama seu compromisso com a lealdade pode abandonar um aliado assim que a confiança nele deixa de parecer vantajosa. Na segunda temporada de The Traitors, CT, Trishelle e MJ chegaram juntos à decisão final. Os três eram Fiéis, e nenhum Traidor permanecia no jogo. MJ desejava encerrar a competição, mas CT e Trishelle preferiram continuar eliminando participantes. Depois de uma votação empatada, escolheram MJ, que perdeu sua participação no prêmio. Seria possível interpretar a decisão como uma simples manifestação de ganância, pois dividir o dinheiro entre dois participantes é financeiramente mais vantajoso do que dividi-lo entre três. Entretanto, não podemos afirmar que essa tenha sido a única motivação. A desconfiança havia se tornado uma parte tão importante da experiência dos jogadores que abandonar a procura por inimigos parecia mais difícil do que continuar a competição. Que situação admirável! Os Fiéis finalmente haviam eliminado todos os Traidores, mas continuavam necessitando de alguém para condenar! O perigo já não precisava existir para que os comportamentos produzidos por ele continuassem sendo praticados.

Um exemplo historicamente muito mais brutal das consequências que o medo e a insegurança podem produzir ocorreu em 1629, quando o navio holandês Batavia naufragou próximo à costa australiana. Enquanto o comandante procurava socorro, Jeronimus Cornelisz assumiu o controle de parte dos sobreviventes, concentrou armas, isolou adversários e organizou uma campanha de assassinatos que deixou aproximadamente 125 mortos. Outros sobreviventes, liderados por Wiebbe Hayes, conseguiram organizar uma resistência. A tragédia inspirou diretamente Marc Pos a conceber o formato que posteriormente se tornaria The Traitors, inicialmente chamado The Mutineers e planejado para acontecer em um navio. Naturalmente, não seria razoável equiparar a gravidade de um massacre real à eliminação de participantes de uma competição voluntária. O que interessa nos dois acontecimentos é a maneira como a insegurança modifica as relações entre as pessoas e oferece oportunidades àqueles que sabem explorá-la. Cornelisz utilizou a vulnerabilidade dos náufragos para concentrar poder, enquanto a desconfiança acumulada entre os participantes do programa contribuiu para que Fiéis eliminassem outra Fiel. O primeiro acontecimento envolveu coerção e assassinatos; o segundo, decisões tomadas dentro das regras de um jogo. Mas ambos permitem reconhecer o perigo de uma situação na qual a suspeita deixa de depender de evidências e passa a justificar a si mesma.

O instinto de autopreservação é uma das forças mais importantes da natureza animal, e somente alguém completamente afastado da realidade poderia considerá-lo uma deficiência moral. Quando uma criatura percebe uma ameaça, reage para proteger sua existência. O problema surge quando o medo passa a ser confundido com uma demonstração de que o perigo realmente existe! O homem que teme ser enganado pode começar a interpretar qualquer comportamento ambíguo como tentativa de fraude; aquele que acredita estar cercado de inimigos pode transformar cada discordância em uma declaração de hostilidade. A partir desse momento, suas próprias ações parecem sempre justificadas, pois são realizadas em nome da defesa. Se prejudica alguém, afirma que não teve escolha. Se elimina um inocente, considera o erro uma consequência lamentável da necessidade de proteção. Se continua perseguindo adversários depois que a ameaça desapareceu, explica que está apenas sendo prudente. Que conveniente seria uma moralidade na qual todas as nossas ações se tornassem justas simplesmente porque conseguimos sentir medo antes de praticá-las! O satanista reconhece seu direito de proteger os próprios interesses, mas não precisa transformar cada insegurança numa obrigação de atacar. Isso não representa fraqueza ou submissão a uma moralidade de resignação. Representa a capacidade de distinguir um perigo verdadeiro de uma ameaça imaginária, sem permitir que o medo assuma o controle de todas as decisões. Quem não consegue abandonar uma luta depois que ela perdeu seu motivo não está demonstrando coragem. Está apenas revelando que já não possui domínio sobre os impulsos que o levaram a lutar!

Lição 5
INTELIGÊNCIA SOCIAL SUPERA INTELIGÊNCIA ANALÍTICA

Tem sido repetido que o conhecimento é poder. Essa afirmação certamente possui algum fundamento, mas deixa de explicar por que tantos indivíduos instruídos são facilmente influenciados por pessoas que demonstram possuir muito menos conhecimentos do que eles. A razão é bastante simples: conhecer determinados fatos não significa necessariamente compreender o comportamento humano! Na primeira temporada de The Traitors, Cirie Fields demonstrou uma extraordinária capacidade de interpretar as relações entre os participantes e utilizá-las a seu favor. Conquistou a confiança de Andie e Quentin, administrou as suspeitas que poderiam ameaçar sua posição e escolheu o momento adequado para agir contra Arie, seu companheiro Traidor. Quando os Fiéis acreditavam que poderiam encerrar a competição, Cirie ainda possuía uma vantagem que seus adversários não compreendiam. Ao final, conquistou o prêmio sozinha. Sua habilidade não consistiu em apresentar argumentos intelectualmente superiores, mas em reconhecer o que seus aliados desejavam acreditar e quais relações precisavam ser preservadas até que seus objetivos fossem alcançados. Enquanto outros participantes procuravam descobrir quem estava mentindo, Cirie demonstrava compreender quem estava disposto a acreditar. Essa distinção é fundamental, pois o homem não toma suas decisões exclusivamente com base naquilo que sabe. Seu orgulho, suas necessidades emocionais, suas ambições e seus temores frequentemente possuem uma influência muito maior do que os fatos que lhe são apresentados.

Charles-Maurice de Talleyrand compreendeu esse princípio quando chegou ao Congresso de Viena, em 1814, representando uma França derrotada. Não possuía força militar suficiente para impor suas exigências às potências vencedoras, mas reconhecia que seus adversários não estavam unidos por algum sentimento elevado de fraternidade universal. Rússia, Prússia, Áustria e Grã-Bretanha possuíam ambições particulares, e cada uma estava preocupada em impedir que as outras obtivessem vantagens excessivas. Ao defender o princípio da legitimidade e explorar essas rivalidades, Talleyrand conseguiu recuperar para a França uma influência que suas condições militares dificilmente permitiriam exigir. É interessante observar como os governantes podem proclamar sua dedicação aos mais nobres princípios enquanto procuram proteger interesses perfeitamente materiais! Um pode defender a estabilidade porque teme perder territórios; outro pode proclamar sua fidelidade à legitimidade porque pretende impedir o crescimento de um rival. Todos utilizam palavras respeitáveis, mas suas decisões continuam sendo influenciadas por aquilo que desejam conquistar ou preservar. Talleyrand não precisou convencer seus interlocutores a abandonar essas ambições. Sua vantagem consistiu precisamente em reconhecê-las e compreender como poderiam ser utilizadas. Cirie empregou uma forma semelhante de inteligência ao perceber as necessidades emocionais de seus aliados. Ambos demonstraram que uma posição aparentemente desfavorável pode ser fortalecida quando se compreende corretamente o que os outros desejam e temem.

O intelectual ingênuo acredita que uma demonstração de superioridade lógica deveria ser suficiente para convencer qualquer pessoa racional. Se possui os melhores argumentos, espera que sejam aceitos; se apresenta uma contradição, imagina que seu interlocutor se sentirá obrigado a reconhecê-la; se demonstra que alguém está errado, considera natural que essa pessoa abandone imediatamente sua opinião. Mas quem estabeleceu que o homem é uma criatura dedicada exclusivamente à busca da verdade? O mesmo indivíduo que se considera perfeitamente racional pode recusar uma evidência porque ela ameaça seu prestígio, preservar uma convicção absurda porque a compartilha com seus amigos ou aceitar uma mentira porque ela confirma sua importância. A vaidade não deixa de existir quando alguém adquire instrução. Em muitos casos, a instrução apenas fornece justificativas mais elaboradas para protegê-la! O satanista não precisa desprezar a inteligência analítica, pois seria absurdo abandonar uma capacidade útil simplesmente porque ela não resolve todos os problemas. Deve, entretanto, reconhecer que a habilidade de compreender uma situação não é idêntica à capacidade de influenciar as pessoas envolvidas nela. Ter razão pode proporcionar satisfação intelectual, mas não garante que alguém esteja disposto a reconhecê-la. Se um homem deseja persuadir outro, convém que compreenda não apenas a qualidade de seus argumentos, mas também os interesses, as inseguranças e o orgulho daquele que pretende convencer. De nada serve lamentar que as pessoas não ajam como deveriam quando é possível compreender como realmente agem. A inteligência que exige a transformação de toda a natureza humana antes de produzir resultados talvez seja admirável em teoria, mas possui utilidade bastante limitada no mundo em que somos obrigados a viver!

O EGOÍSMO E SEUS DISFARCES RESPEITÁVEIS

Dos muitos pecados inventados pelos moralistas, o egoísmo talvez seja aquele que revela com maior clareza a contradição entre os ensinamentos convencionais e a natureza humana. O homem é condenado por desejar riqueza, embora seja admirado quando consegue acumulá-la por meios considerados respeitáveis. É acusado de ambição quando deseja poder para si, mas recebe aplausos quando afirma pretender exercê-lo em benefício dos outros. É ensinado a sacrificar seus interesses pelo bem coletivo, embora aqueles que exigem seus sacrifícios raramente demonstrem a mesma disposição para abandonar as vantagens que desfrutam! Como conclusão retomo a terceira temporada de The Traitors, Dylan Efron, Gabby Windey, Dolores Catania e Ivar Mountbatten chegaram juntos à decisão final depois de eliminar a última Traidora. Poderiam continuar votando, reduzir o número de vencedores e aumentar suas respectivas parcelas do prêmio, mas preferiram encerrar a competição e dividir o dinheiro entre os quatro. Na segunda temporada, CT e Trishelle haviam tomado uma decisão diferente ao eliminar MJ e repartir o prêmio entre apenas duas pessoas. O moralista convencional provavelmente consideraria o primeiro desfecho uma demonstração de generosidade e o segundo uma manifestação de ganância. Mas existe uma pergunta que dificilmente seria considerada agradável por aqueles que insistem nessa distinção: quem estabeleceu que compartilhar voluntariamente uma recompensa constitui necessariamente um ato desinteressado? Se os vencedores da terceira temporada encontraram satisfação em preservar suas relações, compartilhar a conquista ou simplesmente encerrar a competição, não estavam também realizando aquilo que desejavam? O fato de que outras pessoas foram beneficiadas não significa que suas próprias necessidades deixaram de ser atendidas!

O satanismo representa essa forma de egoísmo controlado, o que não significa que o indivíduo deva procurar vantagens materiais em todas as circunstâncias, nem que deva considerar qualquer demonstração de generosidade uma deficiência de caráter. Se alguém sente prazer em proporcionar felicidade a uma pessoa que ama, a satisfação dessa pessoa lhe oferece uma recompensa emocional perfeitamente legítima. Se prefere conservar uma amizade em vez de adquirir uma quantia adicional de dinheiro, está simplesmente reconhecendo que aquela relação possui maior valor para ele do que a vantagem financeira disponível. O egoísmo não exige que todos os desejos sejam medidos em dinheiro! O homem pode buscar reconhecimento, afeição, segurança, prestígio ou a satisfação de agir conforme suas próprias preferências. O que torna sua decisão verdadeiramente individual é a liberdade de determinar quais dessas coisas possuem maior importância para sua existência. Aqueles que condenam o egoísmo frequentemente parecem imaginar que os homens deveriam agir em benefício dos outros sem experimentar qualquer satisfação pessoal. Mas, se alguém encontra prazer em ser generoso, por que deveria negar esse prazer? E, se não deseja compartilhar alguma coisa que legitimamente lhe pertence, por que deveria sentir culpa simplesmente porque outra pessoa gostaria de recebê-la? A generosidade praticada voluntariamente pode ser uma experiência agradável; a generosidade exigida como obrigação moral pode transformar-se apenas em outra forma de submissão. A diferença não está necessariamente no resultado material da ação, mas na liberdade daquele que a realiza.




Você já sabe onde encontrar conhecimento. Mas sabe como aprofundá-lo? Transforme artigos isolados em uma jornada de estudos:

💀 Faça parte do problema

Deixe um comentário