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por Shirlei Massapust
A internet discada chegou à periferia onde moro em outubro de 1997. A novidade tecnológica parecia algo saído da animação futurista The Jetsons (1962-1963), da Hanna-Barbera, pois podíamos trocar correspondência com outras pessoas sem comprar selos e ir aos Correios. Incrivelmente as páginas de conteúdo publicadas fora do Rio de Janeiro e fora do Brasil estavam acessíveis por linha telefônica sem precisarmos pagar DDD e DDI!
Meu primeiro ato pós inclusão digital foi a realização de uma pesquisa sobre horror gótico no AltaVista, que era o buscador web favorito de toda a gente antes do Google começar a ganhar espaço a partir de setembro de 1998. Localizei e imprimi Christabel (1816) de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), posto online no site da Universidade da Virginia.[1] Outros links respeitáveis disponibilizavam Varney the Vampire (1845) e também o texto original em inglês de Dracula (1897). Encontrei fragmentos de Lord Byron (1788-
1824) e outras importâncias. Além de obras em domínio público a internet proporcionava acesso à pirataria posta online por fãs aloprados, criadores de páginas pessoais geralmente hospedadas no provedor GeoCities. Deste modo pude ler, por exemplo, o poema Vampire Sestina de Neil Gaiman, subtraído da revista Fantasy Tales # 2 vol. 10 (primavera de 1989). Apesar de tudo não localizei Carmilla (1872), um importante clássico da literatura gótica de autoria do escritor irlandês Joseph Thomas Sheridan Le Fanu (1814-1873).
Talvez eu estivesse cometendo erro de digitação[2], pois encontrei referência a uma outra vampira “Carmila”, personagem de uma crônica de Clélia Romano.[3] Eu só conhecia o autor como Sheridan Le Fanu e, no início, pensava ser um cidadão francês.
Essas coisas muito boas se amontoaram de um jeito que não me permitia encontrar uma folha de papel específica sem grande dificuldade. Então tive uma experiência negativa com armazenamento de grandes volumes de papéis com má aparência para olhos humanos e apetitosos para traças. Os livros digitais impressos se revelaram uma conveniência, mas também um estorvo. As homepages ainda não ofereciam opção de download de PDF, ePub, etc. Quem desejasse baixar um livro deveria copiar e colar um capítulo de cada vez em arquivo de formato TXT ou Documento do Word (DOC). Nas residências dos belos e bem nascidos a internet discada atingia no máximo uma velocidade de 56,6 kbps, geralmente variando de 20 a 40 kbps. Nunca existiu uma estimativa para velocidades em morros cariocas. Em 1997 levei mais de meia hora para baixar uma figura de 16,2 KB.
Nem me preocupei em baixar o BitTorrent, que faculta o download de arquivos torrente, quando lançado em 2001. Além do mais, era necessário pensar se você realmente necessitava daquilo, pois não caberiam muitos arquivos em antigos computadores com configurações de memória que variavam entre 32 MB e 128 MB. Os estudantes ainda armazenavam dados essenciais em disquetes de 3,5 polegadas com memória de 720 KB (0,70 MB). Enfim, mesmo investindo valores consideráveis em caixas de disquetes não podíamos salvar arquivos pesados. A Amazon só viria a lançar o Kindle em 19/11/2007.
Minha busca por Carmilla
A primeira tradução brasileira do conto Carmilla (1872) foi realizada por Gilda Helena Behring Costa, recebeu o título O Vampiro de Karnstein e foi lançada pela editora GRD em 1966. A segunda tradução brasileira manteve o título original, foi realizada por Pedro Pôrto Carreiro Ramires e lançada pela Bruguera Editorial, em 1971 (sendo ela o volume 13 da polêmica coleção Trevo Negro). Posteriormente os contos Green tea (1945) The Familiar (1859) e The room in the Dragon Volant (1872), todos de J. Sheridan Le Fanu, foram traduzidos por Francisco Bittencourt e publicados pela Cedibra.
Naquela época Jaime Rodrigues trabalhava como diretor geral do Departamento Editorial da Cedibra, que também utilizava o nome fantasia Bruguera. Na qualidade de detentor de direitos autorais ele poderia ter reunido todas versões da Cedibra / Bruguera no mesmo volume; mas, ao invés disso, preferiu privilegiar a editora concorrente quando cedeu as traduções de Francisco Bittencourt para serem compiladas junto à supracitada tradução de Gilda Helena Behring Costa na antologia O Vampiro de Karnstein e Outras Histórias, editada e largamente distribuída pelo Círculo do Livro entre 1975 e 1979.
Grande parte do público alvo era constituído por jovens adultos de sexo masculino, fãs das produções do estúdio britânico Hammer Films; sobretudo da trilogia roteirizada por Tudor Gates, constituída pelos filmes The Vampire Lovers (1970), Lust for a Vampire (1971) e Twins of Evil (1971)[4], que eles importavam na forma de fitas VHS. Ou então eles não viam; só iam na onda dos jornalistas que escreviam artigos ilustrados com fotos impactantes, assegurando que esses filmes eram muito bons.
Maria Lucia Machado foi responsável pela terceira tradução brasileira publicada com o título estendido Carmilla: Morrer de prazer, na Coleção Cantadas Literárias da editora Brasiliense, cujos volumes foram lançados de 1982 até 1985. Houve um hiato de dezessete anos até que Flávio Moreira da Costa fez a terceira tradução de Carmilla e a incluiu na sua antologia 13 dos Melhores Contos de Vampiro da Literatura Universal (Ediouro, 2002). Na segunda década do século XXI voltou a ficar fácil encontrar edições brasileiras em qualquer livraria física ou virtual. Desta vez o principal público alvo não seriam os cinéfilos, mas sim os ativistas LGBTQIA+ e militantes da causa feminista.
Dentre as versões publicadas ad náusea, as mais abundantemente bem distribuídas seriam as traduções de José Roberto O’Shea (editora Hedra, 2010), Martha Argel e Humberto Moura Neto (Via Leitura, 2018), Jan Wigmar (Dying Tree Books, 2020), Giovana Matoso e Regina Nowaski (Pandorga, 2021), Lucas Montenegro (Principis, 2021), Enéias Tavares (Darkside, 2022), Claudio Blanc e Natália Hugen (e-book Kindle da Camelot Editora, 2023), José Awning (e-book Kindle da Awning, 2024), etc.
Os bibliófilos focados no gênero horror colecionam um volume indispensável e pouco acessível: a versão de Marco Aurélio Lucchetti, amadurecida durante trinta e dois anos antes do lançamento pela Editorial Corvo em 2020. A subcultura gótica paulista, entretanto, reconhece a tradução de Carlos Primati, cuja primeira edição saiu pelo Sebo Clepsidra em 2022, como sendo o trabalho mais obsessivamente primoroso.[5] Essa levou dezoito anos para ser concluída e lançada, deixando muita gente ansiosa.
Repare que houve uma época em que não era tão fácil localizar Carmilla no Brasil. Uma modesta adaptação para romance gráfico em vinte páginas, com roteiro de Gedeone Malagola e arte do Rodolfo Zalla, saiu na revista Calafrio nº 33, editada pela D-Arte em 1987. Isso era tudo que eu tinha. (Comprei usado no sebo Gibimania, quando a loja ainda estava situada à rua Jurupari, nº 19-E, Tijuca). O célebre autor global Antônio Calmon chamou de “vampiromania” à busca frenética por material temático suscitada pela exibição de suas telenovelas… Pois bem, quando comecei minha pesquisa o mercado de usados no Rio de Janeiro já estava completamente exaurido pela horda de fãs de Vamp (15/07/1991 – 08/02/1992). O fato de eu desconhecer o título alternativo que Gilda deu à obra também não ajudou os livreiros a localizarem o pedido. Mesmo quando o nome próprio feminino singular estava na capa em letras grandes talvez alguns pais de família hajam omitido informações, julgando que o inventivo subtítulo “morrer de prazer” não era adequado à leitura de uma guria de treze anos. Em todo caso, nove anos depois Carmilla continuava em falta, mas era muito citado dando a impressão de que o mundo inteiro precisava lê-lo.
Eu costumava frequentar a Blue Velvet Locadora, no bairro Rio Comprido. Na estante de horror ainda existia um antigo VHS de Luxúria de Vampiros[6], legendado em português pelo estúdio carioca Vídeo Interamericana (VTI). Loquei pela primeira vez em 1994. Na segunda ocasião em que manifestei interesse eles me venderam o original.
A banda de rock gótico finlandesa Two Witches gravou a música Mircalla como sétima faixa do álbum The Vampire Kiss lançado em fevereiro de 1993. Em 1997 eles fizeram um tour no Brasil que teve episódios hilários comentados entre o nicho posto em comunicação por meio de duas listas de discussão do recém-criado eGroups. A banda se perdeu no aeroporto, sem saberem falar português. Pessoas fugiam sem dar informações quando viam gente de má aparência pronunciando mal inglês. Foram guiados por um fã extasiado – o único ser vivo que os reconheceu em um raio de quilômetros – até o hotel onde a banda havia reservado hospedagem. Outra fã alegou havê-los encontrado no hotel onde recebeu tanta atenção que conseguiu até ir para a cama com Jyrki Witch. Eu não fui ao show em São Paulo, mas obtive o CD a bom preço em uma barraca temática de camelô ao lado da Biblioteca Nacional. Era cativante o refrão: “Carmilla, Marcilla, Mircalla,… it’s love at the first bite. It’s lust of a vampire. A beautiful young Karnstein… Mircalla”.
Em 2005 se tornaria simples e fácil consultar os acervos de sebos e livreiros de todo o Brasil através do portal de comércio eletrônico Estante Virtual; porém, em outubro de 2001, o leitor ainda necessitava percorrer todas as lojas físicas da sua cidade vezes seguidas, torcendo pela ocorrência do evento aleatório que facultaria a reposição do estoque.
Eu tinha enviado minha lista de compras tantas vezes para tantos lugares que já havia perdido a esperança de encontrar alguns títulos. Quando faltavam obras famosas nas prateleiras da Saraiva era indício de que já não havia exemplares novos. Quando faltava um livro usado na Academia do Saber e na Berinjela a busca seria dificílima. A Livraria Francisco Laissue realizava a proeza de desvelar os segredos das fraternidades místicas, mas não tinha muitos romances profanos. Não sabendo que a livraria Leonardo da Vinci importava volumes de outros países, não pensei em obter Carmilla em inglês.
Certo dia me aconteceu de acordar pela manhã com uma voz surda repetindo: “Carmilla. Carmilla. Carmilla”. Fui à aula e o título ecoante não saia de minha mente. Abri a bolsa e contei três reais. Mesmo que saísse para procurar e miraculosamente achasse, quanto haveria de custar uma obra esgotada muito necessária para os estudantes de teoria literária? Três reais eram quase nada… Em dado momento a voz do misterioso desconhecido finalmente cansou de obscurantismo e disse muito claramente: “Carmilla na Livraria Camões”. Então levantei e comecei a caminhar.
Minha mãe estava aguardando o fim da aula de Filosofia para me conduzir direto à nossa casa. Deste modo ela e meu pai teriam a certeza de que eu não frequentaria aulas de Sociologia ministradas por “professor narcotraficante”, não correria perigo fazendo algazarra ao participar de manifestações políticas, não me envolveria em quaisquer circunstâncias sociais nos intervalos entre aulas nem seria vítima de assalto na rua.
Eu menti dizendo que o professor de Filosofia mandou comprar um livro didático. Precisaríamos ir a pé do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), situado no Largo São Francisco de Paula nº 1, até a Livraria Camões, situada à Rua Bittencourt da Silva nº 12, loja C, com saída para a Av. Rio Branco.[7] O alfarrabista não estava longe. Ambos os prédios se encontravam no Centro, Rio de Janeiro, RJ. Mesmo assim a voz aumentou o tom ao matracar “Carmilla. Carmilla. Carmilla”. Só eu escutava. No meio do caminho pedi à minha mãe que apressássemos o passo porque se os outros alunos chegassem antes de nós o estoque poderia acabar. Era mentira, mas funcionou. Quase começamos a correr.
Quando entrei na Livraria Camões havia um cliente segurando um livro de bolso com capa preta ornamentada com desenho de boca sensual pintada de batom vermelho, manchada por uma discreta gota de sangue. O título em vermelho dizia: Carmilla. Era a tradução portuguesa realizada por Cascais Franco, publicada como volume nº 13 da coleção Pêndulo da editora Publicações Europa-América, impressa entre 1983 e 1997.
O homem estava a retirar dinheiro da carteira para pagar ao alfarrabista. Eu me apresentei apressadamente com o mínimo de educação e passei a expor meu domínio da temática do vampirismo literário até que ele entendeu o quanto eu necessitava daquilo para minha monografia. Sendo assim o gentil cliente aceitou perder a chance de adquirir o que quase foi seu. O livro custou exatamente três reais e me foi útil pelo resto da vida.[8]
Resta a dúvida: o conhecimento que não poderia ser sabido está além das fronteiras da experiência humana? O que tem de ser nosso será mesmo por meios esdrúxulos?

O vampiro capitalista
Quando eu era criança pequena certa vez olhei para a porta do banheiro e vi nosso pássaro lá dentro (onde ele ficava protegido em dias de chuva) através de um buraco ilusório na porta fechada. O furo sumiu e fiquei achando que podia ver através de sólidos – com um herói com visão de raio x – até avistar um objeto posto em local que não poderia ser observado em linha reta nem mesmo pelo Superman, se este existisse.
Desta vez minha mãe e minha irmã armaram uma brincadeira onde uma escondia um pente de cabelo e eu tinha que procurar. Elas ocultaram o objeto na borda alta de uma estante no quarto de minha irmã onde ficaria perfeitamente camuflado. Eu não queria brincar disso, mas não se deve contrariar parentas mais velhas desejosas de ocupar uma criança com afazeres inúteis. Nesta hora eu estava em meu quarto, de olhos abertos, virada para a parede. Vi mentalmente a mão de minha mãe depositando o objeto na borda da parte alta do armário, no outro cômodo. Quando elas voltaram caçoando, confiantes de que eu nunca acharia o pente, fui diretamente ao local, apanhei o objeto e o trouxe, para o espanto geral, sem que elas conseguissem descobrir como fiz para roubar no jogo.
Algo semelhante tornou a acontecer quando eu estava na universidade. Frequentei aulas no curso de graduação no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) desde o primeiro semestre de 1997 até o primeiro semestre de 2002. Permaneci cursando mais disciplinas do que o necessário durante todo o tempo em que pude, afim de aprender mais. Um dos docentes deixou capítulos dos Manuscritos Econômicos-filosóficos (1844) de Karl Marx (1818-1883) na xérox, para lermos, e eu julguei que seria possível contextualizar tal descrição do sistema capitalista em relação de atravessamento com a metáfora do vampirismo. Pesquisando por conta própria eu havia efetivamente encontrado a palavra “vampiro” impressa no primeiro volume de O Capital (1867). Essas e outras referências coletadas a miúdo ao longo dos anos viriam a integrar meu artigo O vampiro capitalista na obra de Karl Marx e Friedrich Engels (2019).
Certo dia minha mãe marcou de me buscar após a aula, mas não teve aula. Andei pelo IFCS procurando um lugar vazio onde eu pudesse sentar quieta enquanto esperava ela fazer o que tinha de fazer pelo centro da cidade. Fui abordada pelo típico cidadão que nos conhece sem que nos recordemos de já o havermos visto alguma vez na vida. Queria ouvir sobre minha pesquisa pois ele próprio necessitava formular um trabalho. Expliquei o melhor que pude, sem meus livros e anotações. Ele pôs-se a escrever e falou-me o que entendeu, que era coisa bem diferente daquilo que eu havia ditado, apesar de eu não haver elaborado nada tão complicado quanto as críticas de Eugen von Böhm-Bawerk, Voeglin ou Ludwig Von Mises. Pensei: “como eu poderia satisfazer sua ânsia de interpolar duas matérias totalmente diferentes? O que poderia ser ainda mais simples do que uma interpretação quase literal do Primeiro Manuscrito?” Então lembrei da existência de um livro chamado O que é Vampiro (Brasiliense, 1986), de José Luiz Aidar e Márcia Maciel.
Este era uns dos livros esgotados que eu vinha procurando a muito tempo, sem sucesso. Entretanto apareceu-me uma imagem mental muito clara da página 17 com um desenho a nanquim e uma legenda: “algumas bocas afirmam que os vampiros eram nobres ociosos que promoviam grandes orgias noturnas, atraindo donzelas da plebe”. Eu li as letras nítidas da alucinação – coisa rara – e o rapaz foi anotando tudo. Pedi licença para sair durante uns cinco minutos, andei poucos metros até encontrar o Sr. Jorge, que vendia livros em um banco ao lado da escadaria. Desta vez ele havia achado para mim O que é Vampiro, de José Luiz Aidar e Márcia Maciel. Voltei à sala desocupada onde o aluno marxista me esperava e mostrei o opúsculo. Nós lemos algumas páginas, ele entendeu, anotou e depois voltou para agradecer dizendo que tirou nota dez no trabalho.
Invólucro alucinatório sobre um livro útil
Na época em que ainda havia um cinema situado à Rua Conde de Bonfim, nº 338, na Tijuca, os camelôs julgaram por bem encher o espaço ao lado de flores e livros. Em geral eram bons livros. Vinícius Fernandes fundou a barraca Livreiro Saens Peña em 2003 e logo contratou um funcionário chamado Amir Pereira. Eu fui cliente durante alguns anos. Nunca tentaram enganar-me de modo algum. Contudo, certa vez vi o que parecia ser uma nítida tradução para português de Les Chants de Maldoror (1869) do poeta francês Isidore Ducase (1846-1870), obra que eu conhecia graças a uma citação em O Xangô de Baker Street (1995) do humorista carioca Jô Soares (1938-2022).
Eu falei: “quero o livro Cantos de Maldoror”. O livreiro, muito educado, pegou exatamente aquilo que eu estava vendo e me entregou um livro de capa simples, toda preta com título em letras brancas. Nós dois lemos o título correto. Paguei pelo livro, recusei a sacola plástica poluente e saí com o objeto na mão. Não larguei em nenhum momento. Minha mãe estava presente e não percebeu nada de incomum. Demos alguns passos lentos para chegar ao ponto de ônibus na Rua Conde de Bonfim, entramos no veículo e, ao sentar, percebi uma figura laranja na capa. “Caramba! Eu trouxe outro livro”. Era uma reprodução em fac-símile da primeira edição do Páginas Ocultistas y Cuentos Macabros de Roso de Luna (1919), de Mario Roso de Luna (1872-1931), impressa pela Editorial Eyras.
Eu certamente não teria adquirido essa raridade a baixo custo se tal livro – mais útil do que a ficção de Isidore Ducase – não viesse miraculosamente a ser meu, porque eu ignorava o fato de tal obra conter a versão hispânica sem cortes do artigo que viria a ser adaptado no capítulo XVIII do livro Isis Unveiled (1877), o qual versa sobre vampirismo.
O livro escondido que estava me esperando
Certa vez, quando ainda não existia internet no Rio de Janeiro, datilografei uma lista de duas páginas na máquina de escrever contendo títulos de ficção e não-ficção, todos abordando a temática do vampirismo e/ou da crença em vampiros. Procurei em todas as livrarias do bairro sem achar nada mais incomum do que Bram Stoker e Anne Rice.
Então fui comprar caixa de coração de chocolates para minha mãe em uma doceria no antigo Campus Rebouças da UNESA – um lugar que virava Hogwarts no período de férias tamanha era a quantidade de cursinhos de anjos, tarô, astrologia e outros holismos. – Olhei para cima e tinha uma passarela. Subi e era só uma ponte muito estreita de acesso complicado. Atravessei e tinha uma livraria escondida do outro lado.
O livreiro – um moreno simpático – pediu prazo de uma semana para procurar algo bom. Voltei conforme combinado e ele havia conseguido A Condessa Sanguinária de Valentine Penrose. Também Em Busca de Drácula e Outros Vampiros do McNally e Florescu, entre outras pérolas. “Achei o melhor livreiro do mundo”, pensei.
Ele pediu minha lista e mandou esperar outra semana. Voltei e ele não tinha nada da lista, mas parecia receoso, quase amedrontado. O livreiro começou a falar que depois de procurar sem sucesso coisas como as dissertações de Calmet, ele desistiu e foi limpar o estoque. Então ouviu um barulho de alguma coisa presa na parte traseira da estante caindo no chão. Era um livro que de algum modo esteve imprensado lá sem ser visto ou notado por ninguém desde 1978. “Por acaso isso é seu?” Eu olhei a edição de O Vampirismo de Robert Amberlain e respondi: “Pode crer que é meu!”
Ele ainda tentou me convencer a não comprar porque estava amarelado e porque o título não constava na lista, mas foi nesse livro que aprendi o que era definido como vampiro quando o vernáculo nasceu no século dezoito.
NOTAS:
[1] COLERIDGE, Samuel Taylor. Christabel. Em: LIBRARY – University of Virginia. URL: <http://lib.virginia.edu/etext/stc/Coleridge/poems/Christabel.html>. Acessado em 16/10/1997.
[2] Escrevendo em novembro de 2002 para a lista [sepiazine] o promotor de eventos Cid Vale Ferreira alertou que o texto integral de Carmilla, em inglês, apareceu para ele entre os resultados da busca do AltaVista.
[3] ROMANO, Clélia. O Vampiro. Em: Falando de Psicologia. Acessado em 18/10/1997. URL: <http://www.phocus.com.br/clelia/psi02.htm>.
[4] Os três filmes foram respectivamente dirigidos por Roy Ward Baker, Jimmy Sangster e John Hough. Ingrid Pitt interpretou Carmilla em The Vampire Lovers, mas recusou a oferta de repetir o papel em Lust for a Vampire e Twins of Evil. As atrizes Yutte Stengaard e Katya Wyeth interpretaram Carmilla nas sequências, de modo que a mudança de aparência da vampira deixou tudo muito confuso.
[5] Carlos Primati também foi responsável pela seleção e lançamento em DVD, no Brasil, das duas principais películas da trilogia da Hammer Films, fornecidas como brinde da revista Dark Side DVD, vol. 2 (novembro de 2002) e vol. 4 (dezembro de 2002), componentes da caixa Vampiros Collection.
[6] Este é o Lust for a Vampire, da Hammer Films.
[7] Inaugurada em 1972, a Livraria Camões se tornou um ponto de referência para leitores interessados em obras lusófonas. Em 2014 mudou de nome para Livraria Almedina Camões, pois passou a ser administrada pelo Grupo Almedina, se especializando em livros de Direito, Ciências Sociais e Economia. Se antes tudo era barato e atraente, depois virou um desses ambientes que causa imbróglios de tão chique e higienizado. Em 26/07/2019 o estabelecimento comercial encerrou suas atividades.
[8] Talvez não seja inútil ressaltar que não obtive a tradução de Francisco Bittencourt na Rua Bittencourt da Silva. Por ignorância, eu não tinha motivo para suspeitar que a família Bittencourt estivesse relacionada a Carmilla. Só descobri a existência da outra tradução brasileira alguns meses depois, quando visitei a Livraria Berinjela, situada na Av. Rio Branco, 185, e encontrei O Vampiro de Karnstein na prateleira.
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