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Sim podem.
Existe uma pergunta que pouquíssimas tradições tiveram coragem de fazer com seriedade e a resposta está no coração das ordens iniciaticas templários: e se os demônios também puderem ser salvos? E a resposta é a Reintegração de todos os seres de Martines de pascoally e Já respondendo, Sim eles podem, e não existe excessão para nenhum Ser, todos e tudo pode ser reintegrados.
É comum em certos grimórios dizer que o Daemon X anseia voltar para o céu ou antigo couro celestial, outros já dizem que o livro X diz que o mago pode dar bênçãos aos espirros pra que o criador os perdoe, como vemos no tehilim Asmodeus Ajudando um cego porque ele ouviu que quem ajudasse aquele homem justo seria recompensado por Deus
A maioria das religiões evita essa questão porque ela desestabiliza tudo borra a fronteira entre bem e mal e coloca em cheque a lógica punitiva que sustenta boa parte da teologia ocidental. Mas no século XVIII, um homem chamado Martinès de Pasqually não apenas fez essa pergunta ele construiu toda uma cosmologia em torno dela, fundou uma Ordem para operá-la na prática, e deixou um texto que até hoje é um dos documentos mais densos e menos compreendidos do esoterismo ocidental.
Pasqually nasceu provavelmente em 1727 e morreu em 1774 no Haiti. Sua origem é disputada, sua formação é obscura mas o que ele construiu é concreto: em 1767 fundou a Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Coëns do Universo, os Élus Coëns, uma ordem iniciática que combinava estrutura maçônica com teurgia operativa de alto grau. Os Élus Coëns não eram apenas estudiosos da doutrina eram operadores. Realizavam rituais teúrgicos complexos, com círculos, nomes de poder e hieróglifos angélicos, precedidos de jejum e oração, com o objetivo de estabelecer contato direto com entidades angélicas que confirmavam ao iniciado que ele estava no caminho correto da reintegração. Era uma prática espiritual ativa, não contemplativa e ela estava inteiramente fundamentada numa cosmologia específica que Pasqually destilou no seu tratado maior.
O *Tratado sobre a Reintegração dos Seres em sua Primeira Propriedade, Virtude e Potência Espiritual e Divina*, escrito entre 1772 e 1773, era reservado aos iniciados do grau mais alto da Ordem os Réau-Croix. Não era leitura para curiosos. Era a doutrina secreta do sistema inteiro, um comentário místico e teúrgico ao Pentateuco de Moisés escrito com gematria, Cabala cristã, simbolismo rosacruz e filosofia neoplatônica fundidos numa síntese coerente.
O quadro cosmológico que Pasqually constrói começa na origem: Deus a unidade absoluta e original emana seres da sua própria essência. Esses seres são espíritos puros, hierarquizados em graus, cada um portando uma fração da potência e virtude divina. Todos existem para operar em glória do Criador. E aqui está o ponto que fundamenta tudo o que vem depois: cada ser emanado carrega em si, por definição, uma centelha da essência divina. Não há ser espiritual que exista fora de Deus, porque nenhum ser pode ser criado do nada eles são emanações, extensões da própria substância do Criador.
O primeiro colapso vem de dentro. Lúcifer o espírito mais elevado, o que possuía a maior carga de poder emanado quer exercer poder criativo por conta própria, quer ser criador à revelia das leis estabelecidas como fronteiras. Ele e os espíritos que o seguem são confinados numa prisão que Deus prepara especificamente para eles. O detalhe que o Tratado enfatiza é teologicamente decisivo: eles não são destruídos. São contidos. Destruição seria o fim da emanação e a emanação divina não pode ser simplesmente apagada, porque ela é parte da substância de Deus. O confinamento preserva o ser enquanto corrige a direção. Há uma diferença enorme entre prisão e aniquilação, e Pasqually escolheu a prisão deliberadamente.
Então Deus cria o homem e aqui está o coração de todo o sistema. O homem não foi criado apenas para si mesmo. Foi criado com dois objetivos cósmicos precisos: substituir a hierarquia dos espíritos caídos nas funções que eles abandonaram, e facilitar a reconciliação deles com Deus. O ser humano original era andrógino, revestido de um corpo glorioso não sujeito à corrupção e à morte, dotado de poderes imensos e tinha como missão ser o agente da reintegração de toda a criação, incluindo os que caíram.
Mas Adão falha. Um dos espíritos perversos se aproxima e o convence de que seu poder é igual ao do Criador, que ele pode operar por conta própria. Adão usa as palavras de poder que recebeu do Criador mas segundo a lógica e o ritual ensinados pelo demônio. Ele repete, na escala humana, exatamente o que os espíritos fizeram. O corpo glorioso é perdido. A comunicação direta com Deus é cortada. E o homem cai na mesma prisão que devia vigiar. O guardião vira prisioneiro e agora está tão preso quanto aqueles que devia ajudar a reconciliar.
É nesse cenário de queda dupla espíritos e homem ambos confinados que a teurgia dos Élus Coëns ganha seu sentido mais profundo. As operações rituais da Ordem não eram magia por curiosidade ou poder pessoal. Eram o método prático pelo qual o iniciado começava a restaurar a comunicação com o plano divino que Adão havia cortado. Ao estabelecer contato com as entidades angélicas através das operações teúrgicas os círculos, os nomes, os hieróglifos o iniciado provava a si mesmo e aos anjos que estava ativamente no caminho da reintegração, cumprindo a função para a qual o ser humano foi originalmente designado. Era uma retomada operativa da missão perdida de Adão.
E é dentro dessa lógica operativa e cosmológica que o Tratado responde com clareza à pergunta sobre os demônios. O título completo que Pasqually deu à obra numa carta de 1770 aos seus adeptos em Paris é explícito: *”A Reintegração e a Reconciliação de Todo Ser Espiritual com suas Primeiras Virtudes, Força e Potência na Fruição Pessoal que todo Ser gozará distintamente na presença do Criador.”* Todo ser espiritual. Sem exceção declarada. E a síntese doutrinária que o Tratado estabelece é direta: todos os seres provêm de Deus os espíritos diretamente, os corpos materiais por ministério dos anjos. No fim, a matéria se dissolverá no nada e todos os espíritos serão reintegrados. A universalidade não é uma esperança vaga é uma consequência lógica da própria cosmologia: se todo ser espiritual emana de Deus e carrega essa emanação divina em si, então todo ser espiritual tem em sua natureza mais profunda a capacidade e o destino da reconciliação. Demônios incluídos. A centelha divina que os constitui não desaparece com a queda ela fica contida, distorcida, aprisionada, mas não extinta.
A reintegração dos espíritos caídos, porém, depende de uma cadeia. Cristo o Reparador, a Palavra incriada abre o caminho para a geração presente. As gerações anteriores foram reconciliadas pelos patriarcas: Seth, Enoque, Noé, Abraão, Moisés, Elias, cada um atuando como agente de reintegração em seu tempo. O homem que segue o caminho seja pela teurgia dos Élus Coëns, seja pelo caminho interior que Saint-Martin desenvolveria depois vai se reconciliando com Deus progressivamente. E o homem reconciliado cumpre o papel original: facilitar a reconciliação dos espíritos caídos. É uma cadeia de responsabilidade cósmica onde cada elo depende do anterior.
A tradição se bifurca depois de Pasqually em dois caminhos que interpretam essa missão de formas diferentes. Louis-Claude de Saint-Martin o discípulo mais brilhante, cujo manuscrito é a base das edições modernas do Tratado abandona a teurgia ritual e desenvolve a Via do Coração: um caminho completamente interior, de contemplação e autoperfeiçoamento moral, sem os rituais complexos do mestre. Jean-Baptiste Willermoz toma o caminho oposto: codifica as ideias de Pasqually dentro da maçonaria e cria o Regime Escocês Retificado por volta de 1780, preservando a estrutura doutrinária numa forma institucional organizada. Em 1886, Augustin Chaboseau e Gérard Encausse o Papus fundam a Ordre Martiniste, sintetizando as duas correntes e levando as ideias de Pasqually a um público muito maior do que os Élus Coëns jamais alcançaram.
O que Pasqually faz é filosoficamente corajoso e internamente consistente. A premissa é simples e: se Deus é a origem de todos os seres e é bom por natureza, e se todo ser espiritual carrega em si uma emanação divina, então a reintegração final de todos é a única conclusão lógica. Um Deus que cria seres para condenação eterna não é criador é carrasco. Pasqually recusa essa lógica, e o Tratado é a demonstração sistemática dessa recusa.
O demônio, dentro desse sistema, não é o oposto eterno de Deus é um ser emanado que se desviou, está contido, e cuja centelha divina permanece intacta aguardando a reconciliação. A queda não extingue a emanação. Ela a aprisiona. E o que está aprisionado pode ser libertado desde que a cadeia de reintegração funcione: Cristo abre o caminho, o homem de desejo percorre esse caminho ativamente, e a reconciliação dos espíritos caídos segue como consequência natural.
A tensão real que o Tratado deixa em aberto não é se os demônios podem ser reintegrados isso está respondido. É se o homem vai cumprir o papel para o qual foi criado. Essa é a pergunta que Pasqually faz a cada iniciado dos Élus Coëns, a cada leitor do Tratado, e que continua sem resposta definitiva. Não porque a reintegração seja incerta mas porque ela depende de nós.
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