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Good Vibeismo, doença infantil do Ocultismo

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por Rodrigo Lamore

Mentiras, falsários e charlatões sempre existiram na história da humanidade, mas atingiram, atualmente, um nível absurdo com a ajuda das redes sociais, já que não é mais necessário falar para as massas e torcer para que algumas pessoas prestem atenção nesses golpistas, para, assim, conseguir clientela às custas de milhões gastos em empresas de marketing e propaganda. Agora, com o conceito de nicho e os conteúdos produzidos e direcionados apenas para públicos afins, dá pra ir direto ao ponto e angariar seguidores fiéis de forma rápida, precisa, barata e segura. É só abrir um perfil no Instagram e começar a falar merd… digo, criar conteúdo e esperar o pessoal chegar. É bem mais conhecido de todos a instrumentalização do cristianismo, com as igrejas neopentecostais, que na verdade são empresas que vendem salvação, não mais no formato antigo promovido pela Igreja Católica Apostólica Romana, com as tais “vendas de pedaços do céu”; a moda vigente é ser empreendedor (ou “camelô” para os íntimos), com as graças de Jesus, contra os impostos, contra o “marxismo cultural” e a favor da família (!?). Porém há algo menos conhecido, mas que apresenta a mesma carga negativa, destrutiva e altamente individualista. Nos dois casos, o espaço que os separa do fascismo é apenas um pequeno escorregão numa casca de banana (“quem me conhece sabe” …). Estou falando do movimento “good vibe”.

Esse movimento já estava, há tempos, sendo alvo de memes e sátiras diversas na internet, pois certos tipos ridículos são bem óbvios e fáceis de gerar risadas (ou prantos, dependendo do seu nível de desespero). No entanto, esse debate chegou ao grande público, por causa da participação de uma artista no programa da rede Globo, Big Brother Brasil, expondo todos os clichês inerentes ao dito good vibeismo. Em resumo, as características presentes nos indivíduos que fazem parte dessa seita informal são uma espécie de ocultismo deformado pequeno burguês, onde os praticantes acendem incensos em qualquer lugar em que estão, (pra “limpar” o ambiente), meditações em público (pra que todos vejam o quanto sou iluminada e superior), uso de jargões durante os diálogos, para sugerir um certo conhecimento em culturas e religiões antigas, como Hinduísmo, Budismo, Cabala, Gnose; veganismo ou vegetarianismo (durante a pandemia, quando pouca gente tinha dinheiro pra comprar carne, essas pessoas elogiaram o fato de que estavam “parando de comer carne” para salvar os animais), negacionismo científico (“não  preciso tomar vacina pois meus chakras estão alinhados”…), maconha recreativa como método de transcendência, tocar violão na praia e na cachoeira (“funk não é música, pi pi pi pó pó pó”…).

O melhor dos mundos seria que tudo isso não passasse da descrição de um personagem de algum programa de esquetes de humor, da TV ou de algum canal no youtube, liberando apenas o lado criminoso para os mercadores da fé, os ditos pastores, que mentem, roubam, manipulam, desinformam e geram caos, divisões e ignorância na sociedade. Porém, o good vibeismo caminha junto na estrada da catástrofe, mesmo que esta se mostre com menos intensidade em sua brutalidade (lembrando que se deve separar os caricatos dos bandidos para evitar apedrejamento indevido às pessoas inocentes; ser esquisito não é crime).

O Brasil, com sua formação escravocrata, fez construir uma sociedade própria, que parece existir somente aqui, mesmo que haja certos aspectos comuns em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, os africanos escravizados sempre foram minoria. A economia era doméstica, estimulando o desenvolvimento interno, e obtenção de terras aos imigrantes ingleses. Após o fim da escravidão, houve a formação de milícias anti integração, como a ku klux klan, leis contra casamentos inter-raciais, segregação explícita, leis Jim Crow, etc. Em resumo, a separação entre brancos e negros era patente, legal e culturalmente. Por aqui as coisas se desenvolveram por outro caminho. Brancos eram minoria, com predomínio indígena e na sequência, dos negros escravizados. A miscigenação era ao mesmo tempo natural e espontânea, ou imposta (casamentos arranjados, estupros…). Esse era o método português de colonização, que consistia em se misturar à população local como uma forma de dominação facilitada, já que estavam em minoria, e dessa forma acabavam se “tornando um dos seus”, e gerando a sensação de familiaridade e normalidade. Com essa mistura, ficava difícil de identificar quem era rico, pobre, branco, negro, pardo, escravo, liberto, nascido livre, etc., uma vez que todos se pareciam fisicamente. Como gerar a distinção de classe?

Ainda naquele período, a manipulação já era uma realidade, e para evitar uma espécie de união dos povos contra as elites, os portugueses arquitetaram as divisões na sociedade, criando assim as figuras do negro nascido no Brasil versus o negro vindo da África; do indígena livre versus o negro escravizado; do branco versus o pardo; do pardo versus o negro; do negro livre versus o negro escravizado; da zona rural versus zonas urbanas. E essas divisões ilusórias se mantiveram até dos dias de hoje, com outras embalagens adaptadas às situações atuais. Assim, temos: nordestinos versus sulistas; classe média versus favelados; autônomos versus CLT; beneficiários do bolsa família versus não beneficiários; roqueiros versus funkeiros; jovens versus “na minha época era melhor”. E o que tudo isso tem a ver com o tema do artigo? Tem tudo! No quesito religião, temos Good vibes versus ignorância. Ou seja, se você não pratica a meditação para limpar a sua mente, não controla a sua raiva com a respiração ritmada e profunda, fala palavrão, ingere álcool, come carne, faz sexo com várias pessoas, só come industrializados, toma vacina (com microchips), então você é uma pessoa que está presa na Matrix, é um idiota, retrógrado, ignorante, repleto de carmas de outras vidas, com baixa vibração, aura apagada, cheio de encostos, e dessa forma precisa manter distância, pois essas coisas pegam com o contato.

(A distinção).

O indivíduo Good vibes acredita ser uma entidade superior, e nessa condição, entende que apenas as coisas boas lhe serão atraídas, já que é um iluminado, detentor dos conhecimentos secretos milenares. Qualquer um que conteste isso será atacado e amaldiçoado. Até aqui estamos falando de aspectos culturais e comportamentais. Mas há casos muito mais problemáticos que entram no âmbito do crime; transgressores, inescrupulosos, criminosos, se escondendo atrás da capa de guru, líder espiritual, padre, pastor, pai de santo, etc., se valendo de prestígio, conhecimentos avançados de suas doutrinas e retórica, cometem abusos contra incautos, que no desespero os procuram, buscando apoio metafísico quando o mundo material já não os ampara. Talvez o caso brasileiro mais famoso seja João de Deus.

Além disso, há outro fator intensificador, o aumento do aspecto egóico, resultado das práticas ocultistas. Quando se inicia em alguma Ordem, umas das consequências imediatas é a exacerbação das energias altas e baixas, ou seja, a luz e a escuridão ou Lux e Nox. Elas são necessárias para o bom funcionamento do corpo, do espírito, da manifestação da Verdadeira Vontade. O problema surge quando uma delas fica mais em evidencia do que a outra. Se há excesso de Lux, ou falando de maneira popular, bondade, o indivíduo apresenta características que apelidamos de ingênuo, besta, que abaixa a cabeça pra todo mundo, que é passado pra trás, etc. Quando há mais o Nox, resulta em uma pessoa egoísta, individualista, em constante estado de alerta, sem empatia, vingativo. O good vibeismo, nesse caso, é uma deformação, uma tentativa da escuridão de se esconder por trás da luz.

Como sempre, a cura para o retrocesso é a coletivização do conhecimento, do debate, dialogo, exposição de ideias e informações, porque o acesso e a oportunidade inibem o monopólio, a distinção, os privilégios e a censura. Se tens algo que possa contribuir para um mundo melhor, faça, exponha, contribua; dessa forma lembremos o ditado popular: “Os idiotas podem não dominar o mundo pela sua inteligência, mas pelo seu número”.

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