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por André Correia
Por muito tempo acreditei e defendi que a bruxaria era sim uma religião. Isso, pois observava um sistema lógico de crenças, hierárquico, liturgia e afins. Porém, com o passar dos anos, percebi que a minha impressão se aplicava única e exclusivamente a estruturas de práticas modernas de bruxaria, como a Wicca. No entanto, em outras estruturas mais folclóricas e que traziam mais características campestres, essas características eram algo menos estático e mais orgânico. Naturalmente, em busca de estudos e referências para esclarecer tal questão, ou pelo menos para me ajudar a pensar, encontrei estudos como os dos historiadores como Jeffrey Burton Russell, Brooks Alexander, Carlo Ginzburg, Mircea Eliade e outros autores dedicados ao estudo comparado dos mitos, das religiões e das expressões mágicas. Com base nesses autores, a bruxaria não é uma entidade homogênea, mas um fenômeno cultural plural que se transforma conforme o contexto histórico, social e simbólico em que aparece. O que logo de cara, já põe por terra a idéia de uma religião certa, mas coloca que a religião é uma das possibilidades. Jeffrey Russell descreve a bruxaria como uma construção histórica complexa que mistura crenças populares, heranças pagãs, medos sociais e interpretações teológicas cristãs, enfatizando que a “bruxa” perseguida na Idade Moderna é, acima de tudo, uma figura criada pelo imaginário europeu, uma síntese entre o herético, o mágico e o demoníaco, mais próxima de uma ideologia de acusação do que de uma religião organizada. O que questiona, inclusive as referências atuais às práticas antigas: o que estamos referenciando e reverenciando em nossas práticas, as bruxas reais ou aos mitos?
Brooks Alexander segue uma linha semelhante ao definir a bruxaria como um “sistema de crenças associado à magia e ao sobrenatural”, mas ressalta que o conceito de bruxaria na Europa cristã deriva principalmente de uma cosmovisão que demoniza práticas mágicas pré-existentes, reinterpretando-as como alianças com forças maléficas.
Em The Triumph of the Moon, Hutton demonstra que a ideia de uma “antiga religião das bruxas”, preservada na clandestinidade e perseguida durante a Idade Média, é uma construção moderna criada a partir de leituras equivocadas, suposições antropológicas do início do século XX e um forte desejo espiritual de reconectar-se com o passado pagão europeu.
Hutton entende a bruxaria histórica como uma mistura instável de práticas mágicas populares, folclore rural, crenças em espíritos e curandeiros, e sobretudo como uma categoria jurídica e teológica usada para acusação. Ele deixa claro que as pessoas condenadas por bruxaria não pertenciam a um culto organizado, e que o “Sabbath das Bruxas”, com pactos demoníacos, vôos noturnos e assembleias, é uma construção formada pela imaginação inquisitorial, alimentada por medos sociais e pela teologia cristã. Desse modo, a “bruxa” dos julgamentos é fruto de um processo cultural específico, não a representante de uma religião antiga.
Ao mesmo tempo, Hutton reconhece que existiram práticas visionárias e mágicas mais antigas, algumas com estrutura xamânica, algumas devocionais, outras vinculadas a cultos agrários, mas nenhuma delas formando uma religião europeia contínua. O que chamamos hoje de bruxaria é, para ele, um mosaico de crenças e práticas que variam imensamente entre regiões, épocas e classes sociais. Sua grande contribuição é demonstrar que a bruxaria moderna, especialmente a Wicca, não é um resíduo arqueológico, mas uma criação espiritual do século XX, influenciada por esoterismo, folclore, românticos do século XIX, estudos antropológicos, ocultismo cerimonial e pelas obras de figuras como Gerald Gardner e Doreen Valiente. Nessa estrutura moderna, que inclui a Wicca e outros sistemas e tradições atuais que chamamos de bruxaria moderna, podemos reconhecer sim uma estrutura de religião, mas esse é somente um recorte dentro de um imenso guarda-chuva que abarca a bruxaria.
Portanto, para Ronald Hutton, a bruxaria deve ser entendida como um fenômeno histórico plural, no passado, uma categoria construída pela sociedade cristã para nomear magia popular, supostos desvios e inimigos simbólicos, no presente, uma espiritualidade moderna legítima, porém recente, surgida da criatividade religiosa e do sincretismo cultural do século XX. Acredito que seja importante ressaltar, que Hutton não reduz a bruxaria moderna a invenção, mas a reconhece como uma expressão religiosa autêntica, apenas a reconhecendo comode origem contemporânea, que dialoga com mitos, folclore e imaginação espiritual, sem pretender ser continuidade literal de um culto pagão antigo.
André Correia
Psicólogo clínico, escritor e faroleiro
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