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de Gabriel Buzzi
Em 1891, trabalhadores que retiravam terra de um pântano na Dinamarca encontraram um grande caldeirão de prata, desmontado em placas e escondido ali havia cerca de dois mil anos. À primeira vista, era só mais uma peça para museu. Uma de suas placas, porém, guardava uma imagem que mudaria a forma como muita gente olha para o sagrado: uma figura sentada de pernas cruzadas, com chifres de cervo na cabeça, cercada de animais, segurando numa das mãos um torques (um colar rígido de metal, símbolo de nobreza entre os povos antigos da Europa) e na outra uma serpente. Era o Deus de Chifres, que voltava à luz depois de séculos de esquecimento.
O Caldeirão de Gundestrup, como ficou conhecido, não traz nenhuma palavra escrita, e ninguém sabe ao certo como seus criadores chamavam aquela figura. O nome mais utilizado hoje, Cernunnos, aparece em outra peça antiga, encontrada em Paris, e quer dizer algo como “aquele que tem chifres”. A falta de certeza não diminui a força da imagem. Quando a Wicca se tornou pública na Inglaterra, em meados do século XX, foi nesse rosto que muitas bruxas reconheceram o Deus que caminha ao lado da Deusa, o Horned God dos textos ingleses.
Para a Wicca Tradicional Britânica, que tem origem na Inglaterra de Gerald Gardner e de Doreen Valiente, esse Deus não é uma metáfora nem uma lembrança de folclore. Ele recebe muitos nomes, como Cernunnos, Herne e Pã, mas todos apontam para a mesma força: aquela que se move, caça, fecunda, morre e renasce. Pode parecer assunto reservado a poucos, mas a ideia central é simples. Na Cabala, ele corresponde a Chokmah, a sabedoria criadora, uma energia pura que se lança para fora de si mesma. Sozinha, essa energia não gera nada, porque precisa encontrar Binah, que lhe dá forma, assim como a semente precisa da terra. Eis a primeira lição do Deus de Chifres: a força masculina só cria quando encontra aquilo que a acolhe.
A segunda lição tem a ver com a nossa própria história. Durante muitos séculos, a cultura ocidental partiu o sagrado masculino em dois pedaços. Um deles subiu ao céu e virou um Deus Pai severo, distante e sem companheira. O outro desceu ao inferno, levando consigo os chifres, os cascos, o desejo e a natureza selvagem, até se transformar na imagem do diabo que conhecemos dos quadros e dos sermões. É curioso perceber que a civilização que mais deu poder aos homens foi justamente a que tirou do masculino a sua face divina, deixando-lhe apenas duas opções: ser um tirano ou ser uma fera.
O Deus de Chifres desfaz essa divisão. Ele é ao mesmo tempo Senhor dos Animais e amante da Deusa, caça e caçador, aquele que celebra a vida e aquele que guarda o caminho da morte. Nele o desejo não precisa ser escondido, porque é sagrado. Sua força, ao contrário do que se poderia imaginar, também não está em dominar. Na Wicca Tradicional, essa lógica é visível no próprio coven (o grupo de iniciados que pratica junto): quem o conduz é a Alta Sacerdotisa, enquanto o Alto Sacerdote coloca a sua força a serviço dela e do ritual, oferecendo seu apoio em vez de impor. É nessa entrega que o Deus mostra a sua verdadeira dignidade.
A vida desse Deus é contada ao longo do ano, na chamada Roda do Ano, o ciclo de celebrações que acompanha as estações. Ele nasce quando os dias voltam a crescer; torna-se jovem e amante na primavera; chega à plenitude junto com o sol; entrega-se na colheita e, quando começa a metade escura do ano, reina sobre o mundo dos mortos, à espera de nascer outra vez. Esse ciclo foi feito para ser vivido. No Brasil, ele acontece ao contrário do europeu, já que aqui o inverno chega em junho e o verão em dezembro. Quem pratica a Wicca no hemisfério Sul aprende o Deus olhando para a terra onde pisa.
Hoje, muitos de nós vivemos uma espécie de orfandade. As velhas figuras de autoridade perderam o sentido, os novos modelos ainda parecem frágeis e tantos oscilam entre a dureza que aprenderam em casa e uma ternura que não sabem bem onde apoiar. Mas quem procura no Deus de Chifres um manual de comportamento sai de mãos vazias, porque ele oferece outra coisa: um caminho em que a força é reconhecida, tornada sagrada e colocada a serviço tantas vezes que deixa de ser um gesto e passa a ser uma forma de viver.
Ele não grita nas redes sociais nem vocifera nas ruas. Aparece no silêncio do bosque, nos sonhos, nos ritos de passagem e ensina que o maior poder de um sacerdote está em se doar, seja com o seu tempo, o seu conhecimento ou a sua energia. O caldeirão passou dois mil anos debaixo da terra e reapareceu justamente quando o mundo moderno começava a sentir falta do deus que havia expulsado. Talvez por isso a pergunta que ele nos faz vá além da religião.
Em casa, no trabalho e na política, vivemos uma época em que o poder é questionado em toda parte e quase sempre discutimos se há força demais ou de menos; raramente olhamos para a maneira como ela é usada. A Wicca Tradicional guarda uma resposta simples e exigente: a de que a força só se torna sagrada quando é oferecida, e essa resposta vale para homens, mulheres e todos que entre estes transbordam, porque as forças que o Deus e a Deusa representam vivem dentro de cada pessoa. O sagrado masculino nunca foi o oposto do feminino, mas seu par na dança que mantém a vida em movimento. E, como todo par, só se completa diante Dela.
*Gabriel Buzzi é Alto Sacerdote da Wicca Tradicional Alexandrina. Escreve aqui para aproximar o leitor de uma religião que tem fama de difícil, mas que se aprende, antes de tudo, na simplicidade e constância de uma prática sincera e devocional.
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