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por Cassius Petrova
A figura de Lilith possui uma trajetória complexa que atravessa diferentes eras, tradições e momentos, sendo frequentemente reinterpretada conforme os contextos históricos e simbólicos nos quais é inserida. No princípio associada a espíritos do vento e do ar na Mesopotâmia, Lilith foi posteriormente incorporada à tradição judaica, especialmente em textos como o Alfabeto de Ben Sira, em que é descrita como a primeira mulher de Adão que, ao recusar submissão, abandona o Éden; uma invenção literária com tons irônicos, pois o que pouco se fala é que esse livro é uma sátira ficcional/paródica e não adiciona nenhum valor ou acréscimo canônico ao status de divindade que nos é entregue hoje pela percepção do ocultismo moderno e do neopaganismo. Por diversas vezes, é elevada à condição de símbolo de autonomia e poder feminino, mas será que é verdade? A análise acadêmica de suas origens e funções simbólicas revela problemáticas significativas que colocam em questão a legitimidade de seu culto, como também a reinterpretação equivocada que temos dessa entidade na contemporaneidade.
Dentre minhas experiências pessoais não-voluntárias com esse daemon, pude perceber que a visão que as pessoas têm a respeito dessa força é completamente ilusória: a autonomia que promete é falsa, você se torna uma marionete. Ao presenciar esporadicamente essa força arquetípica em minha vida durante 5 anos, consigo relatar que você é escravizado por suas sombras por meio da égide dela, principalmente se quiser um pouco da autonomia que prometem ao exercer o culto. Esses seres são capazes de mexer em seções da nossa psique das quais muitas vezes não temos acesso e podem usar isso contra nós (e ela certamente vai), se quiser fazer algo que contrarie a vontade dela ou desejar abandonar o culto.
Ela não se configura como uma divindade estruturada dentro de um sistema teológico coerente, diferentemente de deidades pertencentes a panteões consolidados. Sua presença é fragmentária e frequentemente associada a forças caóticas, noturnas e potencialmente perigosas, como doenças, morte infantil e perturbações espirituais. Essa ausência de um culto formal estruturado em fontes antigas sugere que sua função original não era ser venerada, mas sim temida e apotropaicamente afastada. Até mesmo outras figuras com leituras ‘demoníacas’, como, por exemplo, Pazuzu na antiguidade, eram chamadas para afastar esses espíritos que hoje ganham notoriedade estridente no cenário ocultista brasileiro e mundial. Todos os dias vemos jovens moças e rapazes atribuindo caráter materno e paterno a forças Qliphóticas, como se isso fosse brincadeira. Até onde vai a integração de entidades como essas em nossas práticas? Até que ponto o jovem místico influencia outras pessoas a destruírem suas próprias vidas e isso é romantizado?
Por fim, é importante relembrar que muitas das representações modernas de Lilith são construções recentes, frequentemente desvinculadas de suas raízes históricas. Isso levanta questionamentos sobre a autenticidade e coerência de práticas devocionais contemporâneas direcionadas a essa figura. A adaptação seletiva de elementos simbólicos, sem uma compreensão aprofundada de seu contexto original, pode resultar em práticas sincréticas frágeis e conceitualmente inconsistentes que podem levar a prejuízos gravíssimos num futuro não tão distante, visto que forças Qliphóticas trazem consigo um viés destrutivo quase que inevitável em contato com a psique humana.
Dessa forma, a partir de uma análise histórica e teológica conclui-se que o culto a Lilith carece de fundamentação sólida nas tradições religiosas que a originaram, além de envolver implicações simbólicas potencialmente problemáticas. Tal constatação não invalida o estudo ou a reflexão sobre sua figura, mas sugere cautela quanto à sua elevação ao status de objeto de devoção.
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