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Por Mark Epstein
Atualmente, há diversos equívocos comuns sobre o conceito budista central de anatta, ou ausência de ego. Para começar, muitos meditadores iniciantes confundem ausência de ego com o abandono do ego freudiano. As noções convencionais de ego, como aquilo que modula os impulsos sexuais e agressivos, levaram muitos americanos a equiparar, equivocadamente, ausência de ego com uma espécie de grito primal, em que a pessoa finalmente se liberta de todas as restrições limitantes. A ausência de ego é entendida aqui como equivalente à potência orgástica de Wilhelm Reich, e o ego é identificado como tudo aquilo que tensiona o corpo, obscurece a capacidade de descarga prazerosa ou atrapalha a sensação de se sentir “livre”. Popularizada nos anos sessenta, essa visão permanece profundamente enraizada no imaginário popular. Vê o caminho para a ausência de ego como um processo de desaprendizado, de se livrar das amarras da civilização e voltar a uma franqueza infantil. Também tende a romantizar a regressão, a psicose e qualquer expressão emocional desinibida.
Outro equívoco popular é que a ausência de ego seria uma espécie de unidade ou fusão, um esquecimento de si mesmo com uma identificação simultânea com o que está fora do ego, um estado de transe ou uma união extática. Essa visão tem raízes profundas, é a visão influenciada pelo LSD e também encontra respaldo na explicação psicodinâmica tradicional. O amigo de Freud, o poeta e escritor francês Romain Rolland, era um devoto seguidor de Ramakrishna e Vivekananda. Sob sua influência, Freud descreveu o “sentimento oceânico” como uma sensação de onipotente e ilimitada unidade com o universo que busca a “restauração de um narcisismo ilimitado” e a “ressurreição da impotência infantil”. Assim, a ausência de ego é identificada com o estado infantil anterior ao desenvolvimento do ego, ou seja, o do bebê ao se alimentar no seio, sem fazer distinção entre si e a mãe, fundindo-se em uma união simbiótica e indiferenciada.
Essa formulação se complica pelo fato de que realmente existem estados acessíveis na meditação que proporcionam tais sensações de harmonia, fusão e perda de fronteiras do ego; mas esses não são os estados que definem o conceito de ausência de ego. Quando as práticas de concentração de focalização única são levadas adiante com perseverança, levam inevitavelmente a sensações de relaxamento e tranquilidade que são apaziguadoras e sedutoras. No entanto, a estratégia atencional distintiva do Budismo não é a concentração em um único ponto, mas sim a atenção plena, ou atenção nua — “a consciência clara e de mente única do que nos acontece e em nós acontece nos sucessivos momentos de percepção”. É essa prática que, em estágios avançados, foca a atenção no autoconceito, na experiência do “eu” no meditador, e leva à compreensão da ausência de ego.
Mas intérpretes psicanalíticos, e os meditadores ingênuos que seguiram seu rastro, buscaram inspiração apenas nas práticas de concentração. Freud foi influenciado pelas experiências de meditação hindu de Rolland. Outro analista proeminente, Franz Alexander, chegou a analisar textos budistas recém-traduzidos para o alemão na década de 1920, mas também se concentrou apenas em passagens que descreviam a concentração. “Nessa condição, o monge é como uma lagoa”, citou ele, “enchendo-se e saturando-se completamente de todos os lados com a alegria e os sentimentos prazerosos que nascem das profundezas da absorção; de modo que não reste nem a menor partícula insaturada. Nenhum analista pode descrever mais adequadamente a condição de narcisismo do que este texto. É a descrição de uma condição que nós apenas reconstruímos teoricamente e denominamos ‘narcisismo’.” Em anos mais recentes, Herbert Benson, em seu Relaxation Response, pintou um retrato da meditação baseado exclusivamente em relatos de práticas de concentração, e gerações de meditadores aspiraram a se dissolver na lagoa de sentimentos de êxtase que os tornariam “um só” com o universo, ou o Vazio. No entanto, ausência de ego não é um retorno às sensações da infância — uma experiência de êxtase indiferenciado ou fusão com a mãe — mesmo que muitas pessoas busquem tal experiência quando começam a meditar, e mesmo que algumas realmente encontrem uma versão dela.
Uma terceira visão mais interpessoal da ausência de ego sugere uma espécie de subjugação do eu ao outro. É como se a experiência idealizada de fusão fosse projetada nas relações interpessoais, no que os terapeutas da Gestalt chamaram de “confluência”, ou perda de fronteiras egóicas interpessoais. O problema aqui é que a realidade do outro é aceita, enquanto a do eu é negada. Trata-se, na verdade, de uma espécie de masoquismo disfarçado.
A psicanalista Annie Reich, em um artigo clássico sobre a regulação da autoestima em mulheres, descreve isso muito bem. A “feminilidade”, diz ela, é muitas vezes “equivalente a uma aniquilação completa”. A única forma de recuperar a autoestima necessária é então fundir-se ou mesclar-se com um outro glorificado ou idealizado, cujo poder ou grandeza ela pode então incorporar. Para ambos os sexos, algo semelhante existe em círculos espirituais: a pressão para abandonar o apego ao próprio ego gera uma confusão entre a compaixão que deveria crescer a partir da ausência de ego, a chamada bodhicitta, com essa identificação mais primitiva com um outro glorificado. Meditadores com esse mal-entendido ficam vulneráveis a uma espécie de apego erotizado a professores, gurus ou outros íntimos, para quem direcionam seus desejos de se libertar “no abandono”. Com frequência, acabam também permanecendo masoquisticamente enredados com essas figuras a quem tentam se entregar.
Um quarto equívoco comum, popular em círculos chamados transpessoais, surge de uma leitura equivocada de importantes artigos de Ken Wilber e Jack Engler. A crença aqui é que a ausência de ego é um estágio de desenvolvimento além do ego; que o ego deve primeiro existir e depois ser abandonado. É o reverso da crença de que a ausência de ego precede o desenvolvimento do ego — aqui é vista como aquilo que sucede o ego.
Essa abordagem implica que o ego, embora importante do ponto de vista do desenvolvimento, possa de algum modo ser transcendido ou deixado para trás. Aqui encontramos uma mistura infeliz de vocabulário. O sistema a que essas formulações se referem é a psicologia psicodinâmica ocidental do desenvolvimento do ego. Depois há um salto, ou mudança, para um vocabulário espiritual de base oriental que faz parecer que o ego que foi formado é o mesmo ego que está sendo abandonado. Mas ouça o Dalai Lama sobre esse ponto: “A ausência de ego não é um caso de algo que existia no passado se tornar inexistente. Na verdade, esse tipo de ‘eu’ é algo que nunca existiu. É necessário identificar como inexistente algo que sempre foi inexistente.”
Não é o ego, no sentido freudiano, que é o alvo do insight budista. É, antes, o autoconceito, o componente representacional do ego, a experiência interna real de si mesmo que é alvo.
Segundo o estudioso budista Jeffrey P. Hopkins, na meditação budista é preciso, em última instância, “apurar bem a aparência de um eu substancialmente existente”. É necessário “encontrá-lo como ele aparece” na própria experiência, desenvolvendo uma “sensação clara do objeto a ser negado”. Só buscando e identificando as maneiras pelas quais pensamos em nós mesmos como existindo inerentemente é que podemos expor a autorrepresentação como infundada.
O que está sendo transcendido aqui não é o ego inteiro. É a autorrepresentação que se revela carente de existência concreta. Não se trata de eliminar algo real, mas de perceber a falta de essência pelo que ela sempre foi. Nas palavras do Dalai Lama, “Esse aparentemente sólido, concreto, independente, autoinstituído Eu, que surge por seu próprio poder, na realidade não existe de modo algum.”
Meditadores com esse mal-entendido frequentemente sentem-se pressionados a renunciar a aspectos cruciais de seu ser que são identificados com o “ego nocivo”. Mais comumente, sexualidade, agressividade, pensamento crítico ou até mesmo o uso ativo do pronome na primeira pessoa são abandonados, na ideia geral de que abrir mão disso ou deixar isso ir é alcançar a ausência de ego. Aspectos do eu são transformados em inimigos e então o meditador tenta se distanciar deles. Mas as qualidades que são identificadas como nocivas acabam fortalecidas pelas tentativas de repudiá-las! Não é incomum encontrar meditadores em terapia insistindo que não precisam de sexo ou não sentem necessidade de um orgasmo, ou negando sentimentos de raiva. Em vez de adotar uma atitude de consciência não julgadora, esses meditadores estão tão preocupados em deixar isso ir que nunca experimentam a real insubstancialidade de seus próprios sentimentos. De forma parecida, aqueles que entendem mal a ausência de ego tendem a supervalorizar a ideia de uma mente vazia, livre de pensamentos. Nesse caso, o pensamento em si é identificado com o ego, e essas pessoas parecem cultivar uma espécie de vacuidade intelectual em que a ausência de pensamento crítico é vista como a conquista suprema. Como descreve Robert A. F. Thurman sobre esse equívoco: “Refutam todas as visões, rejeitam o significado da linguagem, e presumem que, desde que permaneçam desprovidos de qualquer convicção, sem opiniões, sem saber nada e conseguindo esquecer todo o aprendizado, estão solidamente no caminho do meio, no silêncio dos sábios.”
Um último mal-entendido sobre a ausência de ego é vê-la como algo em si mesmo, um estado a ser alcançado ou almejado. Aqui, manifesta-se a necessidade de identificar algo como existente por direito próprio, e a crença no ego como concretamente existente é, de certo modo, transferida para a crença na ausência de ego como concretamente existente. De acordo com Huang-po Hsi-yun, um mestre Ch’an do século IX: “Existe apenas o vazio onipresente da Natureza real autoexistente de todas as coisas, e nada mais. Todos esses fenômenos são intrinsecamente vazios e, ainda assim, esta Mente com a qual são idênticos não é um mero nada. Quero dizer que ela existe, mas de uma forma maravilhosa demais para compreendermos. É uma existência que não é existência, uma não existência que, no entanto, é existência.”
A ausência de ego não é, explica Jeffrey Hopkins, uma “vacuidade do nada” com realidade própria. Ela se encontra em relação à crença na existência inerente de um objeto. É uma compreensão de que as aparências concretas às quais estamos acostumados não existem “da forma como imaginamos”. O Dalai Lama certa vez comparou a realização da vacuidade a alguém que sabe que está usando óculos escuros: a própria aparência da cor distorcida serve de lembrete de que não é real.
Não é que o ego desapareça, mas que a crença na solidez do ego, a identificação com suas representações, seja abandonada na realização da ausência de ego. “Pensamentos existem sem um pensador”, insiste o psicanalista britânico W. R. Bion, e é exatamente isso que os insights budistas revelam. Mas esse insight não surge facilmente. É muito mais tentador usar a meditação para se afastar de nossa confusão sobre nós mesmos, permanecer na estabilização tranquila que a meditação oferece e pensar nisso como uma aproximação do ensinamento da ausência de ego. No entanto, o objetivo final da meditação budista não é se retirar do eu falsamente concebido, mas reconhecer o equívoco, enfraquecendo assim sua influência. “Sem descrer do objeto desse equívoco”, disse Dharmakirti, “é impossível abandonar o equívoco.” Existe uma resistência profunda e tenaz a essa descrença, uma espécie de apego que ocorre, um medo de um vazio que se imagina ser tão real quanto o eu parece ser. Diz Huang-po: “Os homens têm medo de esquecer suas mentes, temendo cair pelo Vazio sem nada que detenha sua queda. Não sabem que o Vazio não é realmente Vazio, mas o reino do verdadeiro dharma.”
Mark Epstein é psiquiatra e autor, com diversos livros sobre a interface entre o Budismo e a psicoterapia. Seus livros mais vendidos incluem Thoughts without a Thinker, Going to Pieces without Falling Apart, The Trauma of Everyday Life e What the Buddha Felt. Sua obra mais recente é The Zen of Therapy: Uncovering a Hidden Kindness in Life.
Fonte: https://tricycle.org/magazine/freud-and-dr-buddha/
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