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Alquimia

Os Primeiros Alquimistas Europeus

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Por Archibald Cockren, (Alquimia Redescoberta e Restaurada, Capítulo 2.) Tradução de Ícaro Aron Soares.

Por volta do período das primeiras Cruzadas, a alquimia mudou seu centro para a Espanha, país ao qual foi introduzida pelos mouros. No século XII, Artéfio escreveu “A Arte de Prolongar a Vida Humana” e é relatado que viveu durante um período de mil anos. Ele mesmo afirma isso:

“Eu, Artéfio, tendo aprendido toda a arte no livro de Hermes, já fui como os outros, invejoso, mas tendo agora vivido mil anos ou mais (que mil anos já se passaram desde meu nascimento, pela graça de Deus somente, e o uso desta admirável quintessência), como vi, através deste longo espaço de tempo, que os homens foram incapazes de aperfeiçoar o mesmo magistério por conta da obscuridade das palavras dos filósofos, movido pela piedade e boa consciência, resolvi, nestes meus últimos dias, publicar com toda sinceridade e verdade, para que os homens não tenham mais nada a desejar a respeito desta obra. Exceto apenas uma coisa, que não é lícita que eu escreva, porque pode ser revelada verdadeiramente somente por Deus ou por um mestre. No entanto, isso também pode ser aprendido neste livro, desde que não sejamos teimosos e tenhamos um pouco de experiência.’

Da literatura do século XIII, uma obra chamada ‘Tesero’ foi atribuída a Afonso, Rei de Castela em 1272: Guillaume de Loris escreveu ‘Le Roman de Rose (O Romance da Rosa)’ por volta de 1282, auxiliado por Jean de Meung, que também escreveu ‘A Remonstrância da Natureza ao Alquimista Errante’ e ‘A Resposta do Alquimista à Natureza’. Pedro de Abano, nascido perto de Pádua em 1250, escreveu vários livros sobre ‘magia’ e foi acusado pela Inquisição de possuir sete espíritos, cada um encerrado em um recipiente de cristal, que lhe ensinaram as sete artes e ciências liberais. Ele morreu na roda dentada.

Entre outros nomes famosos que aparecem sobre esse período está o de Arnaldo de Vilanova ou Villanova, cuja obra mais famosa é encontrada no ‘Theatrum Chemicum (O Teatro Químico)’. Ele estudou medicina em Paris, mas também foi teólogo e alquimista. Como seu amigo, Pedro de Abano, acreditava-se que ele obtinha seu conhecimento do diabo e foi acusado por muitos de práticas mágicas. Embora ele próprio não tenha caído nas mãos da Inquisição, seus livros foram condenados a serem queimados em Tarragona por esse corpo por conta de seu conteúdo herético. Pois Villanova sustentava que obras de fé e caridade eram mais aceitáveis ​​aos olhos de Deus do que a Missa Sacrificial!

A autoridade de Alberto Magno (1234–1314) deve, sem dúvida, ser respeitada, pois ele renunciou a todas as vantagens materiais para dedicar a maior parte de uma longa vida ao estudo da filosofia na reclusão de um claustro. Quando Alberto morreu, sua fama desceu para seu “santo aluno” Aquino, que em seu “Thesaurus Alchimae (O Tesouro da Alquimia)” para seu amigo, o abade Reginaldo, fala abertamente sobre os sucessos de Alberto e dele mesmo na arte da transmutação.

Raimundo Lúlio é um dos alquimistas sobre cuja vida há tantas evidências conflitantes que é praticamente certo que seu nome foi usado como disfarce por um segundo adepto no mesmo período ou em um período posterior. Ele provavelmente nasceu em Maiorca por volta de 1235 e, após uma juventude um tanto dissoluta, foi induzido, aparentemente pelo término trágico de um caso de amor malsucedido, a voltar seus pensamentos para a religião. Ele ficou imbuído de um desejo ardente de espalhar o evangelho entre os seguidores de Maomé e, para esse fim, dedicou anos ao estudo dos escritos maometanos, para melhor refutar os ensinamentos muçulmanos. Ele viajou muito, não apenas pela Europa, mas pela África e Ásia, onde seu zelo religioso quase lhe custou a vida em mais de uma ocasião. Dizem que ele conheceu Arnaldo de Villanova e a Ciência Universal um pouco tarde na vida, quando seu estudo da alquimia e a descoberta da Pedra Filosofal aumentaram sua antiga fama como um cristão zeloso.

De acordo com uma história, sua reputação finalmente chegou a John Cremer, abade de Westminster na época, que depois de trabalhar na alquimia por trinta anos, ainda não conseguira atingir seu objetivo, a Pedra Filosofal. Cremer, portanto, procurou Lúlio na Itália e, tendo conquistado sua confiança, o persuadiu a vir para a Inglaterra, onde o apresentou a Eduardo II. Lúlio, sendo um grande campeão da cristandade, concordou em transmutar metais básicos em ouro com a condição de que Eduardo continuasse as Cruzadas com o dinheiro. Ele recebeu um quarto na Torre para seu trabalho, e estima-se que ele transmutou 50.000 libras em ouro. Depois de um tempo, no entanto, Eduardo tornou-se avarento, e para obrigar Lúlio a continuar o trabalho de transmutação o fez prisioneiro, embora com a ajuda de Cremer ele tenha conseguido escapar da Torre e retornar ao Continente. Registros afirmam que ele viveu até os cento e cinquenta anos de idade e foi eventualmente morto pelos sarracenos na Ásia. Nessa idade, ele é conhecido por ter sido capaz de correr e pular como um jovem.

A enorme produção de escritos atribuídos a Lúlio (eles totalizam cerca de 486 tratados sobre uma variedade de assuntos que vão de gramática e retórica a medicina e teologia) também parece sugerir que o nome Lúlio era meramente um pseudônimo.

Foi nessa época que a ciência caiu em grave descrédito, pois a alegação do alquimista de transmutar metais oferecia grandes possibilidades a qualquer velhaco com plausibilidade suficiente e falta de escrúpulos para explorar a credulidade ou ganância de seus semelhantes, e não houve falta de charlatões ou vítimas. Comerciantes ricos e outros gananciosos por lucro foram induzidos a confiar aos supostos alquimistas ouro, prata e pedras preciosas — que eles perderam — na esperança de multiplicá-los, e Atos do Parlamento foram aprovados na Inglaterra e Bulas do Papa foram emitidas sobre a cristandade para proibir a prática da alquimia sob pena de morte, embora se diga que o Papa João XXII praticava a arte ele mesmo e enriqueceu o tesouro público por esse meio.

No século XIV viveram os dois Isaque Holando, pai e filho, adeptos holandeses, que escreveram ‘De Triplici Ordinari Exiliris et Lapidis Theoria (Sobre a Tríplice Ordem do Exílio e a Teoria da Pedra)’ e ‘Mineralia Opera Sue de Lapide Philosophico (Obras Minerais sobre a Pedra Filosofal)’. Os detalhes de suas operações em metais são os mais explícitos que foram dados, e por causa dessa mesma lucidez foram desconsiderados. John Read, por exemplo, Professor de Química, em seu ‘Prelúdio à Química, um Esboço da Alquimia’, descarta a escrita do par Holando em poucas palavras, possivelmente porque sua clareza de detalhes o levou a suspeitar de um cego. Infelizmente, quão cegos às vezes são nossos próprios especialistas.

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