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Ásia Oculta Magia Sexual

O Perigo Real do Hype dos Ativadores de Kundalini

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por Antar Firak

Invoco o Sagrado Nome de Kali Maa, a Maravilhosa Grande Mãe que Ama e Protege os Filhos e Filhas do Vama Marga Tantra, que Ela nos abençoe com discernimento e clareza na transmissão dessa sabedoria que me foi entregue pelos Mestres e Mestras que me guiaram até aqui.

Honro e reverencio as linhagens que guardam a fonte das águas sagradas das quais eu bebi através de José Trigueirinho Netto, Swami Atmavidyanandaji, Swami Nirmalatmanandaji e Swami Aghorananda e, em unidade com vossos anseios, que cada palavra minha seja uma transmissão verdadeira dos preceitos que aprendi e vivenciei aos Pés do Único Guru e Primeiro Iniciador: Om Namah SHIVAYA!

Quero começar essa exposição dizendo que esse texto não veio de uma vontade pessoal, tampouco se trata de um ataque às pessoas que estão envolvidas com a popularização das tais “ativações de kundalini”. Pelo contrário, pois, mesmo sabendo das contradições aparentes entre esse hype da internet e os ensinamentos tradicionais, eu ainda me mantive dentro de uma postura neutra, mas deixou de ser possível à medida que vemos um crescimento sem contenção de pessoas falando de algo que não conhecem, o que já implica uma indevida apropriação cultural, mas, ainda pior que isso, as pessoas estão apenas repetindo palavras sem conhecer o perigo real que existe em um trabalho como esse de ativar kundalini, sem o devido preparo, como a tradição repete de forma exaustiva ao longo do tempo.

Se tornou inevitável a produção desse artigo de forma que possamos esclarecer e trazer os apontamentos básicos e introdutórios a respeito do conceito central de KUNDALINI, conforme ensinados de forma ininterrupta a partir de mestres e mestras que transmitem isso aos seus discípulos através de linhagens e escolas secretas, mas que hoje, na era da informação, estão mais que disponíveis nesse momento, tanto para a nossa apreciação quanto para a nossa prática devidamente instruída por um acharya.

Quero traçar alguns pontos importantes dentro de nosso raciocínio e, para isso, vou separar essa exposição em três partes diferentes: 1) demonstrar o que de fato são esses fenômenos experienciados nas pretensas “ativações de kundalini”, dentro de um viés científico; 2) apresentar o ponto de vista tradicional dos tantras e do yoga a respeito do verdadeiro significado de KUNDALINI; e, por fim, 3) disponibilizar uma síntese teórica e prática do tema, baseada na tradição e adaptada ao contexto contemporâneo e à vida comum do buscador consciencial.

Acredito que dessa forma teremos um material verdadeiramente embasado sobre o tema, a fim de que aqueles que estão em uma busca verdadeira possam de fato ter em mãos as bases do que vem sendo desenvolvido há séculos e periga de cair em superficialidades, e ter o seu verdadeiro arcano esotérico revelado tanto quanto possível. Desejo um bom estudo a todos.

Desmistificando a fenomenologia das ativações de Kundalini

Certa vez um aluno me mandou um vídeo no direct do Instagram e me perguntou: “Isso está certo?”. As imagens mostravam a cantora Anitta em um show, falando que a apresentação ia ser incrível, pois naquele dia ela tinha ativado a sua kundalini, e pode parecer uma forma meio estranha de começar essa reflexão tão importante, mas é real: kundalini está no hype, e os famosos estão em polvorosa. Angélica, Carolina Dieckmann e Marina Sena são apenas alguns nomes que falam sobre as suas experiências dentro do tema.

Só posso me espantar e ficar curioso em relação à transformação que ocorreu de um momento para o outro, e qual foi a gênese desse processo que fez Kundalini, um dos conceitos centrais do Tantrismo, que antes era assunto secreto transmitido de mestres e mestras para discípulos e sempre alertado como perigoso, agora se alastra para os quatro cantos do mundo através de vídeos curtos e dopaminérgicos de pessoas manipulando energias com as mãos e corpos tremelicando de forma descontrolada (ou encenada, talvez… quem sabe?).

Mas a coisa só melhora, porque a fenomenologia chama a atenção e, quando percebemos, a tal ativação de kundalini estava sendo procurada em massa pelos curiosos de plantão. O hype alimentado cresce, e onde tem demanda tem oferta, ou seja, para ativar algo tem que ter o ativador, não é mesmo?

Eis que surge pela primeira vez na história dessa pequena bola azul que flutua no espaço vazio o profissional de kundalini, ou melhor dizendo, os ativadores de kundalini. Mas você pode se perguntar: como a fenomenologia do tremelique começou antes dos profissionais aparecerem?

Vou te dar uma pista… antes eles eram chamados de magnetizadores, hipnoterapeutas e especialistas no sistema nervoso humano… mas perceba um fato: isso é chato pra caralho, não é verdade? Você há de concordar comigo que Kundalini chama muito mais atenção, e eu não sei quem foi o primeiro da espécie, mas eu alucino que provavelmente ele pensou: “Esse fenômeno é interessante e eu gosto do nome, vai ficar top!”.

Brincadeiras à parte, dentro das minhas pesquisas acredito que muito da influência desse processo vem por mais uma má interpretação do trabalho do Osho, que foi o criador de uma meditação ativa com o nome de Kundalini, e na sua primeira fase, que dura 15 minutos, o praticante é convidado a chacoalhar e tremer o corpo para soltar as tensões, ou pelo menos é isso que os instrutores de Neotantra mais recentes ensinavam, embora Osho enfatizasse que o tremor não fosse causado, consciente ou inconscientemente, mas permitido de forma natural, muito mais conectado ao princípio de Spanda (vibração) contido nos textos clássicos da escola de mesmo nome.

Como isso acontece? Do meu ponto de vista, e isso é uma opinião pessoal pautada em conversas com pessoas do meio, muitos dos instrutores de Neotantra que ensinavam essa técnica associaram esse tremor/chacoalhar ao conceito ancestral de Kundalini, por conta do nome dado a essa meditação ativa do Osho, o que já é uma limitação evidente, já que a técnica por si só é composta de várias outras etapas.

Mas a questão aqui não é de onde veio, mas a associação indevida de um conceito tão amplo e definitivo dentro de uma tradição ancestral a um fenômeno explicado à exaustão pela própria medicina ocidental e atualmente por toda a neurociência, inclusive permitindo, pela primeira vez, o acesso a novas percepções sobre o processo de cura e desenvolvimento dos seres humanos.

Esse fenômeno experienciado dentro das ativações de kundalini é genuíno e é descrito desde os primórdios da ciência contemporânea e, citando a minha linha pessoal de estudo e especialização, que é a terapia corporal, sabemos há muito tempo que existem dois tipos de experiências internas correlacionadas à fisiologia dos tremeliques.

Dentro do meu primeiro livro, Os Segredos da Massagem Tântrica, eu citei a fórmula do orgasmo (fórmula da vida), evidenciada por Reich e apresentada em quatro etapas diferentes, dentro das quais poderia se experimentar esse fenômeno que estamos descrevendo como “espasmo muscular involuntário”, ou seja, uma resposta fisiológica natural de uma das fases da experiência orgástica, e que definitivamente não tem nenhuma conexão com o conceito tradicional de Kundalini.

Mas existe uma segunda forma de experienciar esse fenômeno fisiológico e que não está conectada à experiência do orgasmo, mas ao processo inverso, ou seja, à impotência orgástica, que gera congelamento ou sobrecarga de energia no sistema nervoso, e que podemos chamar de fonte dos traumas grandes e pequenos comuns à vida humana de forma geral.

Na visão da atual neurociência, os tremores neurogênicos representam uma forma do sistema nervoso liberar esses traumas que estão registrados como tensões psicofisiológicas e carregam consigo a carga energética correspondente ao trauma vivenciado. Peço que leia isso novamente, pois esse conceito é central dentro das últimas descobertas da ciência, e grandes nomes do desenvolvimento humano atual encabeçam essa visão, como Stephen Porges e a sua Teoria Polivagal, a Traumatologia de Peter Levine e a TRE do Dr. David Berceli são alguns exemplos.

E falando do trabalho de Peter Levine, vou te apresentar um excerto do meu próximo livro, onde cito esse querido professor:

“O que todos esses tremores e arrepios involuntários têm em comum? Por que trememos de medo e raiva? Por que temos arrepios no clímax sexual? E qual será a função fisiológica do tremor no êxtase espiritual? O que há em comum entre todos esses tremores, estremecimentos, arrepios e calafrios? E o que eles têm a ver com a transformação do trauma, a regulação do estresse e uma vida plena? Essas rotações e ondulações são formas pelas quais o nosso sistema nervoso “se livra” da última experiência estimulante e nos “ancora”, deixando-nos preparados para o próximo encontro com o perigo, a excitação e a vida. São mecanismos que ajudam a restaurar o equilíbrio depois de uma ameaça ou de uma grande agitação.”

No ano de 1927, no livro A Função do Orgasmo, Reich afirmou que já naquela época entre 60% e 90% das pessoas de suas pesquisas eram impotentes orgasticamente. Isso implica que os tremeliques atuais não são orgásticos, mas um fenômeno de segunda ordem, mas não menos importante, ou seja, fenômenos que estão expulsando os traumas que você ainda não consegue lidar e digerir sozinho, por isso o corpo encontra uma forma de fazer isso por você.

E você aí achando que postar seu vídeo tremendo estava mostrando sua iluminação, quando na verdade está apenas demonstrando o quanto seu sistema psicofisiológico está traumatizado, como todo mundo. A diferença é que você posta e deseja o like de validação, e o que sobra é apenas uma pergunta: E a Kundalini?

Mas calma, a imaturidade das pessoas é grande e, mesmo com evidências, elas preferem seguir no seu próprio imaginário, então não vamos dar chance pro Lázaro ressuscitar. Se ele rolar a pedra, vai ser desvivido. Afinal de contas, a missão aqui é eliminar a dúvida e deixar tudo às claras.

A teoria polivagal de Stephen Porges é a menina dos olhos da atual neurociência, embora as tradições antigas já descrevam processos até mais profundos. É inegável o peso das descobertas atuais, afinal de contas, elas têm sido vistas e medidas através de tecnologias de ponta, e seguimos vendo todos esses novos aprendizados confirmarem, vez após vez, a sabedoria das tradições ancestrais.

Dentro da visão polivagal, Porges define o sistema nervoso em três estados diferentes:

Vagal ventral (segurança e engajamento social): é o sistema mais recente evolutivamente, presente em mamíferos, e seu estado tem características como calma, conexão, segurança e sociabilidade.

Simpático (luta ou fuga): ativado quando o sistema detecta perigo, e seu estado característico é definido pela mobilização, ansiedade, raiva ou medo.

Vagal dorsal (imobilização e colapso): é o sistema mais primitivo, compartilhado com répteis, e tem o estado correlacionado às características de desligamento, congelamento, dissociação, depressão ou “fingir-se de morto”.

Para você compreender na prática, Freud compreendeu que a líbido reprimida gerava a neurose que ficava recalcada no inconsciente. Reich complementa dizendo que essa energia reprimida não fica apenas no inconsciente, mas sobretudo na estrutura somática (corpo/emoção), registrada como tensão muscular e determinando o comportamento através do que ele chama de couraça caracterial.

Reich nos ensina que essa energia reprimida que gerou a neurose no campo psicofisiológico não se desfaz; pelo contrário, ela se acumula no que ele chama de núcleo da estase sexual. Esse núcleo alimenta a neurose que, por sua vez, nutre a couraça caracterial e que volta a alimentar a repressão, em um ciclo vicioso infinito em muitos casos.

Na vegetoterapia reichiana, ele estimulava essa energia literalmente soltando as couraças musculares na mão, gerando catarses profundas em seus pacientes, capazes então de liberar as energias presas no núcleo estásico, permitindo assim que o organismo encontrasse a sua harmonia de forma gradativa. As mesmas experiências, embora em outro formato, foram feitas por Osho e sua comunidade de terapeutas orientais e ocidentais através das meditações ativas, que também geraram profundas catarses na intenção de liberar essas energias reprimidas que adoecem o ser humano.

E veja bem, embora tudo isso seja maravilhoso e de alto valor terapêutico no sentido de restituir ao ser humano a sua dignidade de ser ele mesmo e viver uma vida feliz, nada disso tem qualquer coisa a ver com Kundalini no sentido do conceito tradicional, pois, em um dos seus significados mais profundos, que entraremos mais adiante, Kundalini é um evento de ordem espiritual e, embora muitas pessoas ensinem que ela é meramente a energia vital que habita o sistema orgânico, conhecido como pranamayakosha, o fato real é que Kundalini Shakti nunca se separou realmente de Shiva, e a sua morada definitiva sempre será o centro da coroa, junto ao seu amado, desfrutando da realidade do êxtase espiritual e da união divina em anandamayakosha.

Nós vamos entrar no contexto mais profundo em breve, mas antes convém adicionarmos um último prego no caixão, citando mais uma vez Peter Levine:

“Os animais conseguem se restabelecer e os seres humanos ficam acuados num ciclo aprisionante de medo e sintomas [devido à inibição da resposta de tremer]…

O acúmulo de energia depois de situações estressantes é eliminado espontaneamente pelos bichos por meio de reações como tremores, enquanto nós, humanos, podemos manter a energia congelada por anos…

Animais selvagens, ao escapar de um perigo mortal, ‘sacodem’ o trauma. Eles tremem para liberar a energia da luta ou fuga, restaurando o equilíbrio do sistema nervoso.”

Veja como é interessante esse relato de Levine, e o cara simplesmente é uma das maiores referências do campo atual. Suas descobertas têm revolucionado a forma como os profissionais da saúde têm trabalhado no campo do trauma, e dentro do seu trabalho fica evidente que um dos pilares que mais influenciaram o seu trabalho foi a observação do reino animal e as conclusões de inúmeros biólogos que estudaram com profundidade o fenômeno dos tremores como uma forma do animal de liberar os estados de tensão, e isso basicamente acontece da mesma forma no reino humano.

O que muda no contexto humano é que, como temos uma civilização extremamente mental e focada na parte superior do corpo, a grande maioria das pessoas perde contato com a sua base, seu corpo e sensações, e com ela a capacidade de ter respostas fisiológicas naturais que reequilibrariam o seu sistema.

Percebe?

Estamos tão desconectados do que nós somos enquanto seres corporificados que simplesmente ficamos fascinados com um tremelique, que nada mais é do que uma reação fisiológica natural, uma tentativa desesperada do corpo e das emoções encontrarem equilíbrio frente à grande inabilidade do indivíduo em processar as suas experiências traumáticas e estressantes.

Embora os animais sejam expressão do mesmo divino que habita no ser humano, é inegável que uma mente pensante e um cérebro que processa as informações no sentido intelectual nos coloca à frente dentro da cadeia evolutiva, e isso acredito estar fora de discussão. Sendo assim, Kundalini como força espiritual só pode ser conscientizada dentro do nível humano de consciência, e mesmo que os animais estejam tremendo para liberar o estresse melhor que nós, pois seguimos bloqueados e traumatizados, eles ainda não estão se arrogando por estarem “ativando as suas kundalinis, nem tampouco ativando isso no outro”… ou estariam?

De qualquer forma, é importante ressaltar que não estamos falando que o tremelique é algo negativo. Acredito que já conseguimos, para efeito de prova real e evidenciável, demonstrar que os tremores neurogênicos, nome mais correto, são genuínos e um fenômeno muito positivo no reestabelecimento do equilíbrio humano, ou seja, têm um impacto profundo e benéfico no organismo humano, nem tampouco desmerecendo os profissionais que trabalham com isso. Afinal de contas, eu seria um grande hipócrita se o fizesse, pois quem me conhece sabe que sou terapeuta e fundador da Escola Mahara Tantra, que conta com mais de 350 alunos em 4 países, ou seja, eu trabalho com isso e ensino isso para os meus alunos.

O que estou atacando de forma direta e clara é o erro de intitular esse fenômeno bem conhecido pela literatura acadêmica e na prática clínica de Kundalini, porque nunca foram sinônimos, e dizer que são coisas associadas pode ser apenas duas coisas: ou o ativador de kundalini não conhece nada sobre a tradição e está repetindo o que aprendeu de outro ativador que também não conhece a tradição, ou é uma evidente desonestidade intelectual com intenção de ganhar hype, fama, exposição e dinheiro.

Com isso estou falando que é errado você ganhar dinheiro com o que você faz? Ou que você não pode buscar aumentar a sua exposição nas redes sociais, por exemplo, para atrair mais clientes e assim gerar mais transformação e também renda financeira? Jamais! Mais uma vez estaria sendo hipócrita, porque dentro do meu trabalho as redes sociais são importantes para o trabalho que faço com a Escola Mahara Tantra. Nunca vou condenar o marketing bem feito e ético que visa ajudar as pessoas, mas JAMAIS serei conivente com estratégias que deturpam tradições milenares, e, nesse caso, é exatamente isso que está acontecendo.

Não é apenas vergonhoso ver a superficialidade e ignorância em cada um desses vídeos que se alastram cada vez mais pelas redes, mas é desrespeitoso com a tradição, com as linhagens e com a miríade infinita de mestres e mestras que ousaram ensinar e deixar para nós a delicadeza do sagrado, para vermos um massacre sem nome… e em troca de que?

E eu confesso pra você que está lendo esse artigo, mesmo com todos esses motivos, eu ainda não me colocaria a escrever isso e falar na internet, porque você pode imaginar o tanto de problemas e ataques que isso nos gera, porque é óbvio que a verdade incomoda, não porque fulano ou beltrano está falando, não pelo mensageiro, mas pela mensagem que confronta e te faz sair de um mundo encantado de contos de fadas e lidar com a realidade visceral na sua frente, e sim, ela é tão linda quanto brutal. Aceita que dói menos!

Mas quer saber o que realmente me motiva a escrever isso? É porque, por trás de “apenas” um erro de nome superficial, ou por “apenas” um profundo desrespeito a uma tradição milenar, estão perigos que a grande maioria das pessoas desconhece, e que a simples menção, estudo ou práticas (mesmo essas ignorantes), com intenção de “despertar” ou “ativar” a tal da Kundalini, pode ser algo que vai simplesmente destruir a sua vida em tantos sentidos que você nem imagina, e isso não é exagero: é relato histórico de inúmeros mestres e mestras de praticamente todas as tradições esotéricas e crepusculares, por isso tantos alertas sobre perigo, sobre anos de preparo adequado e, principalmente, dentro de um contexto espiritual; ou seja, olhar para isso sem um amor sem medidas pelo divino é um caminho tortuoso que levou inúmeros bons chelas a cadeias que ainda hoje os prendem a cadeias de renascimento sem fim.

Recentemente eu tive a honra de ver se manifestar algo incrível no Brasil: a Oficina Palimpsestus, com contribuição direta do Erick Schulz do Naradeva Shala, conseguiu financiar o projeto de publicação da tradução da trilogia dos Aghoras, a linhagem de mão esquerda mais transgressiva do tantrismo, e que foi escrita pelo renomado dr. Robert Svoboda.

Neste trabalho, que tive o prazer de ler na versão em inglês, o dr. Svoboda narra os ensinamentos de seu mestre aghori Vimalananda, e o segundo livro fala especificamente sobre a sua visão do conceito de Kundalini. E é realmente algo lindo e profundo de se ver, e agora, apenas por saber que esse trabalho será publicado em português e vai estar disponível para os estudantes e praticantes brasileiros, meu coração se alegra demais. Sei que é uma bênção de nossa Grande Mãe, se tornando disponível.

Em 2023, participei de um seminário com o Dr. Svoboda, mas meu péssimo inglês não me permitiu entender muito bem, mas, com todo esse movimento, pude revisitar a gravação da masterclass e, junto aos meus estudos do livro, quero finalizar esse primeiro capítulo com a visão dessa tradição e desse mestre da mão esquerda do tantrismo, mesma linha de trabalho que representamos na escola Mahara, de forma que possamos apresentar os perigos reais de Kundalini na visão de um mestre verdadeiro.

Vimalananda diz: “Quando você desperta Kundalini antes que a sua mente esteja firmemente sob controle, ela provavelmente se identificará ainda mais fortemente com as suas limitações e isso pode causar estragos em seu progresso evolutivo… neste caso, o discípulo provavelmente será tomado pelo desejo por comida, sexo e sono. Então, antes de pensar em Kundalini, pense em estar o mais equilibrado possível, pois o acesso à Shakti é desestabilizador. Outro ponto importante é que Kundalini se identifica com o corpo físico, mas não reside nele, e sim no corpo sutil.” E o dr. Robert Svoboda completa: “Então, se quisermos despertar Kundalini e continuar vivo, é melhor fazer isso devagar e gradualmente.” E, mais uma vez, não existe exagero em afirmações desse tipo, porque a completa e total ascensão de Kundalini elimina definitivamente a identificação dela com o corpo, causando assim o desencarne da alma individual.

Ainda segundo Svoboda, dentro do tema de Kundalini, “pouco conhecimento é mais perigoso do que nenhum conhecimento sobre o tema”, pois vemos atualmente a concretização desse alerta através de ensinos que ou repetem as palavras antigas em versões adaptadas e convenientes com os costumes ocidentais ou, simplesmente, falam de coisas que não sabem, o que, “inocentemente”, muitas vezes, pode causar estragos muito maiores do que se simplesmente as pessoas ficassem em silêncio sobre o que não têm experiência real, sobretudo quando estamos falando de um conceito ancestral e que tem séculos e séculos de desenvolvimento.

Veja bem, esses alertas não estão se referindo ao contexto atual dos ativadores de kundalini, mas foram emitidos no contexto das práticas tântricas e yóguicas que se dedicam ao despertar gradativo de Kundalini. Ou seja, mesmo dentro da tradição, esse é um trabalho perigoso e que exige supervisão constante de um Guru preparado. Agora imagine se esses mestres estivessem vendo o assunto mais delicado e profundo do sistema sendo tratado de forma tão pueril quanto os vídeos virais do TikTok. É tanto uma triste realidade quanto algo extremamente perigoso.

Sri Aurobindo, no livro A Síntese do Yoga, escreve sobre a prática do Hatha Yoga no processo de despertar de Kundalini: “O primeiro objetivo da imobilidade da ásana é liberar-se da agitação que infligimos ao corpo e forçá-lo a conservar a energia prânica, em lugar de dissipá-la e desperdiçá-la… O corpo, habituado a eliminar a energia supérflua pelo movimento, no início está mal preparado para suportar esse aumento e essa ação interior contida, e revela seu desconforto por tremores violentos.”

Veja que Aurobindo aqui se refere ao trabalho direto sobre a energia prânica e vital, a mesma que é “mal trabalhada” pelos ativadores de kundalini, deixando evidente que Prana e Kundalini nunca foram realidades análogas, e os perigos de se aproximar disso, mesmo num contexto tradicional, imagine então as possibilidades quando olhamos para o nosso contexto e vemos a forma completamente fora de base como isso é feito atualmente.

Nos doze anos que passei vinculado à Comunidade Figueira, vivenciando a jornada sob orientação de José Trigueirinho Netto, que no Brasil foi o maior difusor do trabalho de Aurobindo e Mirra Alfassa e o Yoga Integral, sempre nos alertou do perigo dos asanas do Hatha e dos pranayamas dessa e de outras linhas como Raja, Kriya e Kundalini Yoga, pois estas técnicas têm um profundo impacto no campo psicofísico, ativando faculdades e potências latentes que, muitas vezes, o indivíduo não tem preparo para lidar, e eu pessoalmente sigo isso à risca até hoje.

Fuja de aprender esse tipo de coisa nas redes sociais ou no YouTube, porque você pode muito bem ativar certas capacidades psíquicas que podem desorientar não apenas o seu processo de desenvolvimento consciencial, mas a sua vida comum como um todo.

Em 2010, quando fui iniciado em Kriya Yoga por Swami Atmavidyanandaji e ao receber as kriyas posteriores, me foi ensinado alguns poucos pranayamas que continuam conduzindo a minha prática até os dias de hoje, sem necessidade de inúmeras técnicas diferentes, ou, como diria Trigueirinho: “Quando recebido de um mestre verdadeiro, um mantra, um pranayama ou um símbolo pode conduzir a consciência pela vida toda.”

Maestre Aurobindo continua expondo alguns alertas, mas dessa vez sobre o Raja Yoga: “Ele não começa com ásanas e pranayamas, mas primeiro insiste em uma purificação moral da mentalidade. Essa prática preliminar é de suprema importância; sem ela, é provável que o resto do Raja-Ioga seja perturbado, danificado e exposto a perigos mentais, morais e físicos inesperados.”

E conclui em uma nota de rodapé: “Na Índia moderna (Aurobindo escreveu sua síntese entre 1920 e 1921), pessoas atraídas pelo Ioga, mas buscando seus processos em livros ou com pessoas pouco instruídas na matéria (qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência), muitas vezes mergulham diretamente no pranayama ou no Raja-Ioga (ou em ativações de kundalini), com resultados muitas vezes desastrosos. Só aqueles muito fortes em espírito podem permitir-se cometer erros nesse caminho.”

Aurobindo alerta que forçar esse despertar de Kundalini Shakti através desses processos psicofísicos, mesmo dentro de caminhos tradicionais como os do Hatha e do Raja Ioga, é algo definitivamente perigoso e pode gerar inúmeras reações negativas para o buscador, e mais uma vez te peço de verdade: não deixe de levar isso a sério, porque tive a oportunidade de ver essa realidade na minha frente inúmeras vezes e a verdade desses alertas não é uma coisa bonita de se ver.

Recentemente estive em um retiro de um guru que veio para o Brasil ensinar sobre Tantra e Kundalini Yoga. Até então, sem novidades, mas, na minha frente aconteceu exatamente o que estamos elucidando neste estudo.

As práticas do mestre eram todas genuínas, o problema é que grande parte das pessoas que estavam naquele retiro não estavam prontas para essas etapas avançadas do trabalho e, ainda mais perigoso, muitas delas carregavam quadros claros de neurose, enquanto outros evidentemente apresentavam quadros ainda mais complexos, o que seria facilmente potencializado através das práticas conduzidas no retiro.

Por amor tentei ainda fazer alguns alertas mas sem sucesso, de forma que acabei me retirando do evento devido às discordâncias. Algumas semanas depois do evento nós ficamos sabendo que alguns familiares dos participantes fizeram um grupo no whatsapp com a intenção de tentarem encontrar um caminho para resolver a situação ocorrida com pelo menos dois participantes que apresentaram piora considerável dentro de quadros estabilizados de bipolaridade, esquizofrenia, entre outros problemas.

Foi uma situação profundamente triste para mim, mas foi um acontecimento real e que demonstra o perigo das práticas tradicionais, e se isso é possível dentro do ensino e um guru verdadeiro, vindo do Oriente e conectado a uma linhagem real, imagina o que não pode acontecer nas mãos de ativadores de kundalini?

O buraco é muito mais embaixo e as pessoas precisam estar conscientes para falar do Poder entre os poderes. Nossa Grande Mãe é Viva em Tudo o que Há, e acreditar que Ela pode ser ativada por mãos humanas é uma ignorância sem tamanho. A Serpente vai te envenenar e a dor será imensa!

Mas Firak, não tem uma forma segura de acessar esse Poder chamado de Kundalini Shakti?

Tem sim, e será o ponto que vamos explorar na segunda parte deste texto, e para encerrar essa introdução te deixo mais um trecho de Sri Aurobindo, para que o seu intelecto e intuição degustem o sabor dessa passagem:

“Para um Ioga Integral, os métodos especiais do Raja-Ioga e do Hatha-Ioga podem ser úteis em certos estágios do progresso, mas não são indispensáveis. É verdade que seus objetivos principais devem ser incluídos na integralidade do Ioga, mas podemos chegar a isso por outros meios. Pois os MÉTODOS DO IOGA INTEGRAL DEVEM SER SOBRETUDO ESPIRITUAIS, e depender em grande escala de métodos físicos ou de processos psíquicos ou psicofísicos é substituir um modo de funcionar superior por um modo de funcionar inferior.”

Nos vemos na próxima parte!

Jaya Kali Maa

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