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de David Hall, tradução Caio Ferreira Peres
Apesar das aparências, e de acordo com o testemunho do próprio autor, a tese de Nightside of Eden é bastante simples. Ela trata do lado inverso ou sombrio da Árvore da Vida e com a entrada para esse mundo que é a sephira sombria Daäth, o Jardim do ODN ou Éden. É o propósito deste breve artigo mostrar por citações de que as visões propostas neste livro, por mais bizarras e perigosas como elas possam parecer para alguns, não são de forma alguma exclusivas do Sr. Grant ou do Culto de Thelema mas podem ser achadas em diversos lugares como os escritos de alguém a quem Crowley conhecia como “o Verme” e um monge do Monte Atos.
De acordo com o nosso autor, a Árvore da Morte (Death) ou Daäth não é de forma alguma “má” mas é a “fonte numenal da existência fenomenal”. Em comparação com esta Fonte numenal e numinosa, é o mundo fenomenal que é falso, sendo um mundo apenas de aparências.
Afirmado assim, esta é a posição da metafísica universal e da philosophia perennis. Ela é um princípio básico de todas as religiões do Oriente e do Ocidente, antigas e novas, e volumes inteiros com textos de escrituras sagradas para demonstrar a sua universalidade. Aqui citaremos apenas o maior expoente contemporâneo da metafísica tradicional, Frithjof Schuon. Em um ensaio intitulado ‘Concerning the Proofs of God’ (Sobre as Provas de Deus), ele escreve: “Os homens imaginam que esta terra, estas montanhas ou corpos, só podem ser destruídos por forças em seu próprio nível, por massas ou energias pertencentes ao nosso universo físico. O que eles não conseguem ver, entretanto, é que este mundo, tão compacto em aparência, pode colapsar ab intra, que a matéria pode fluir de volta ‘para dentro’ por um processo de transmutação e que todo o espaço pode se encolher como um balão esvaziado de ar; em resumo, essa fragilidade e impermanência não apenas afeta coisas dentro de um espaço ingenuamente considerado estável, elas também afetam a própria existência com todas as suas categorias”. Estamos certos de que o Sr. Grant adquiriu esse conhecimento em sua própria experiência e, sem dúvida, foi isso que motivou a tese básica do livro, conforme afirmado acima.
A distinção entre a frente e a traseira da Árvore, feita em termos kantianos de fenomenal e numenal, também é feita na linguagem do Ser e do Não-ser: “Não-ser, cujo símbolo é a escuridão, é a fonte do Ser . . .”; também de Ser e existência: “O Ser por si só é real. É a interioridade das coisas; o númeno. A existência é irreal, pois, como a palavra implica, ela pressupõe a objetividade do Ser em algum estado externo, e não há nenhum. (Nightside of Eden, p.40.) O termo Ser é, portanto, visto como algo se expandindo e se contraindo de acordo com o contexto, incluindo existência quando em oposição ao Não-ser mas incluindo o Não-ser quando em oposição à existência, tudo numa tradição de ontologia ambígua.
Esses conceitos foram tomados diretamente da metafísica tradicional, correspondendo ao Brahma Nirguna (“não qualificado”) e o Saguna (“qualificado”) do hinduísmo, e a distinção escolástica entre Deus como Essência ou Além-Ser (o Ungrund de Boehme) e Deus como Criador ou Ser (Maya). Além disso, temos o refinamento, em reconhecimento do relativamente Absoluto, de dois tipos de Vazio: “Primeiro EXISTE (i.e., Malkuth) — Forma (i.e., Presença do Objeto). Então NÃO existe (i.e., Kether) — Vazio (i.e., Presença do Sujeito). Então EXISTE (i.e. Ain) — Nem Forma nem Vazio, mas ausência da presença tanto do Objeto quanto do Sujeito (i.e. a Ausência Absoluta ou Vazio)”. (Nightside of Eden, p.40.) Não é com esse tipo de percepção metafísica que alguém poderia querer questionar, mas sim com a materialização mágica de tais ideias, no processo pelo qual somos conduzidos por caminhos muito estranhos e por túneis muito tortuosos.
Apesar de não existir nenhuma ponte verdadeira entre a a frente a traseira da Árvore, entrre o Vazio Absoluto de Kether e o Vazio Absoluto de Ain, existe uma “solução de continuidade” pela qual o Vazio Absoluto dá origem à existência fenomenal: “O que é numenal (i.e. interior) é anterior ao que é exterior (i.e. fenomenal). Não existe realidade objetiva, mas existe a manifestação da não-manifestação; a sombra do ser que é lançada pelo não-ser. Esta corrente, quando aplicada à fisiologia da encarnação, produz os teratomas tifonianos que se tornaram os tipos das Qliphoth simbólicas da influências emanando do ‘outro mundo’; na terminologia da metafísica cabalística, o outro lado da Árvore”. (Nightside of Eden, pp.52-53.) Esta é uma passagem importante contendo a maioria dos conceitos com os quais iremos tratar na análise que se segue.
Para começar, e complementando as distinções já feitas entre a frente e a traseira da Árvore, numenal e fenomenal, Não-ser e Ser, temos as noções de dentro e fora, o interno e o externo. O interior é um com o númeno do Não-ser e é a fonte do fenômeno do Ser. É a Escuridão da qual o mundo fenomenal se origina e na qual ele pode colapsar a qualquer momento ab intra, para dentro, como descrito por Schuon. No processo de manifestação, o interior do Vazio Absoluto dá origem a entidades ou inteligências que o Sr. Grant opta por chamar de “Teratomas Tifonianos”, mas que outras tradições as chamavam de Titãs, Asuras ou Demiurgos. O termo Titã aparece no Culto de Thelema como TEITAN, cujo número é 666 e é idêntico à Besta com cabeça de Jano Choronzon (333) – Shugal (333), cuja morada é o Pilone de Daäth, o portão para o “outro mundo” na traseira da Árvore.
Agora é verdade, como o Sr. Grant diz, que as entidades de natureza tifoniana ou titânica foram geralmente consideradas como metafísica e moralmente ambíguas, quando não simplesmente condenadas como “malignas”. Na mitologia grega, os titãs eram os “Deuses antigos” que lutaram numa tremenda batalha contra os novos deuses liderados por Zeus, os quais conseguiram aprisionar os titãs nas profundezas mais baixas do submundo, tão abaixo do Hades quanto o céu está acima da terra. Os titãs eram os filhos de Urano (o céu) com Gaia (a terra) e após a sua derrota sua mãe Gaia copulou com o Tártaro, i.e. o mesmo lugar o qual os titãs foram confinados, e deu luz a Tifoeus ou Tífon, o maior e mais terrível de todos os titãs. Percebe-se, portanto, que os titãs sempre conseguem chegar ao mundo superior, como observou Jane Harrison em sua obra Themis: “Eles são constantemente impelidos para as profundezas da terra, até o Tártaro mais baixo, e sempre retornam. A própria violência e persistência com que são enviados para baixo demonstram que o seu lugar é lá em cima”. Isso implica que os titãs e os deuses são ab origine e em essência da mesma natureza. Isto aparece ainda mais claramente na tradição indiana.
A ideia de que os Devas e os Asuras são em essência da mesma natureza foi notada por vários escritores, e.g. Alain Daniélou em seu Hindu Polytheism, mas a sua documentação e explicação mais cuidadosa foi realizada em vários ensaios pouco conhecidos de Ananda K. Coomaraswamy. Por exemplo, ele introduz o seu ensaio intitulado “You couldn’t make it up could you. Angel & Titan: An Essay in Vedic Ontology” como se segue: “A principal ideias que será desenvolvida no presente artigo é a de que os Devas e os Asuras, Anjos e Titãs, poderes da Luz e poderes da Escuridão no Rig-Veda, apesar de distintos e opostos em operação, são em essência consubstanciadas, sua distinção sendo uma questão não de essência mas de orientação, revolução or transformação, conforme indicado por declarações expressas como “As Serpentes são os Sóis” no Pancavimsa Brahmana e o constante uso de vrt, “virar”, “vert”, “volver”, etc, no Rig-Veda e nos Brahmanas, no contexto com a relação dos Anjos e Titâs, passim. Neste caso, o Titã é potencialmente um Anjo, o Anjo ainda sendo por natureza um Titã; a Escuridão in actu é Luz, a Luz in potentia é Escuridão; por isso as designações de Asura e Deva podem ser aplicadas à uma mesma “Pessoa” de acordo com o modo de operação, como no caso de Varuna ou, alternativamente, pode haver uma distinção de nomes no mesmo sentido, como no Rig-Veda 1.163.3, “Trita és tu (Agni) pela operação interior” (guhyena vratena). Ao mesmo tempo, se propõe a mostrar que enquanto os anjos são tipicamente “homens” ou “pássaros”, os Titãs são tipicamente teriomórficos e, em particular, ofidianos (sarpya)”.
Cada parte da citação acima poderia ser comentada detalhadamente e relacionada ao tema de Nightside of Eden. Para pegar apenas os pontos mais óbvios, vrt, “virar”, se relaciona à fórmula de reversão ou “dar a volta” na traseira da Árvore. No Jaimaniya Brahmana está escrito que: “Os encantamentos que os Anjos pronunciam para frente (avastat), os Titãs pronunciam ao contrário (parastat)”. Toda a ideia de virar ou agitar está ligada com a “Agitação do Oceano”, a qual é o próprio processo de criação no qual os Devas e os Asuras puxam em direções opostas, assim como Set e Hórus fazem no mito egípcio (consulte Hamlet’s Mill passim). Sobre essa virada, Coomaraswamy observa que: “a ‘direção oposta’ não é para trás, mas para frente”, o que significa que a “força espiral” ao continuar o seu movimento para frente, deixa de ser centrífuga e se torna centrípeta, levando à reintegração em vez da dissolução.
O terceiro capítulo de Nightside of Eden é intitulado “A Luz que é Não”, no qual é explicado que: “A escuridão é a ausência de luz, uma ausência que torna possível a presença de tudo o que parece ser. O Não-ser, cujo símbolo é a escuridão, é a fonte do Ser . . .” (Nightside of Eden, p.25). Isso encontra paralelo na citação de Coomaraswamy: “A Escuridão in actu é Luz, a Luz in potentia é Escuridão”. O tema da Escuridão e da Luz nos traz à importante questão de qual é a relação das criaturas do Escuro, os Teratomas Tifonianos, os Titãs e os Asuras com o Infinito e o Vazio Absoluto do Não-ser. Como pode o Vazio Absoluto que está por trás da Árvore estar cheio de monstros lovecraftianos?
Assim como os Antigos Profundos dos mitos de Cthulhu, os Teratomas Tifonianos do Culto de Thelema e os Titãs da mitologia grega, os Asuras são anteriores aos Devas. Indra, o rei dos deuses, é de origem titânica e se rebela contra seu Pai no inicio. Coomaraswamy observa sobre Indra que: “sua posição é, estritamente falando, a de Lúcifer antes da Queda”, mas ele continua ao significativamente acrescentar: “É preciso compreender que, é claro que Indra, Lúcifer e Satã não devem ser confundidos com o poder ‘maligno’ da Escuridão, Morte (mrtyu, mara), a Divindade, o próprio ‘Pai cruel’. A vastidão de todo o universo divide uma da outra, divide a ‘escuridão exterior’ da Escuridão ab intra, “impermeável a toda iluminação e oculta de todo conhecimento” (Dionysius, Ep. ad Caium Monach., citando São Tomás, Sum. Theol. 111,92.1), mas da qual São Tomás diz que é chamada ‘Escuridão’ “devido ao seu brilho excepcional”, i.e. como sendo luz cegante. Indra, embora como todos os outros Anjos de origem titânica, permanece um anjo mesmo em seu orgulho, sendo como Satã ‘caído não em natureza, mas em graça’; enquanto o Pai-Dragão nunca foi e nem pode ser naturalizado, é ele que por sua natureza naturaliza todas as coisas”.
Temos portanto a importante distinção entre os Teratomas Tifonianos luciferianos, i.e. portador da luz e criador, e o Pai-Dragão do Vazio Absoluto, que “por sua natureza naturaliza todas as coisas”. As terríveis criaturas do Abismo são o primeiro movimento da Escuridão ab intra em direção à “escuridão exterior” do Ser e da existência. Estritamente falando, elas existem entre o Vazio Absoluto e o mundo manifesto na parte frontal da Árvore. A “vastidão de todo o universo” é o espaço entre a Escuridão do Vazio Absoluto ab intra e o passo final “para baixo” ou “para fora” em direção à manifestação e dissolução.
A afirmação de Coomaraswamy de que: “os Titãs são tipicamente teriomórficos e, em particular, ofidianos”, poderia muito bem ser uma citação de qualquer livro de Kenneth Grant. Isso é ainda mais verdadeiro em relação a muitas das declarações subsequentes de Coomaraswamy: “não há dúvida, a partir de RV.1.32. e de outros textos, da identidade do Dragão, Vrta, com Ahi, a Serpente”, “Ahi corresponde ao Azhi avestano, conhecido como Vishapa, ‘do escravizador venenoso’ e também ao Mushussu sumério, o dragão de sete cabeças morto por Ninurta, mais tarde Tiamar dividida por Marduk, quem cria o Céu de uma de suas partes . . .”, etc. No glossário de Nightside of Eden, Aza é definida como: “A mãe maligna de todos os demônios”, correspondendo não apenas ao dragão-rei Azhi Dahaka, mas também ao Az zurvanita e maniqueísta, quem R. C. Zaehner define como: “o princípio da desordem que invadiu a ordem natural: ela é excesso e deficiência em oposição ao Meio. Mas ela parece ser bem mais do que isso; pois ela é basicamente desejo – fome e sede por um lado e desejo sexual pelo outro. Sendo assim, ela é a própria condição prévia da vida física quanto da morte física”. Mais uma vez, ecos grantianos inconfundíveis.
A afirmação de que Marduk cria o Céu de uma das partes da Serpente morta aponta para o significado por trás de todo o simbolismo da Serpente. Como diz Coomaraswamy: “A tremenda ênfase está no motivo da matança do dragão em todas as tradições pode facilmente ser compreendida quando percebemos que o desmembramento do poder ofidiano é precisamente o ato de criação”. Em RV.I.11.5, encontramos: “Tu, Campeão (Indra), com tua força viril, golpeaste a Serpente, a Maga, enquanto ela se escondia e ocultava em segredo nas Águas, aquela que retinha as Águas e a Luz do Céu”; e ainda em RV.I1.19. 2-3: “Este poderoso Indra, despedaçando a Serpente que detinha a inundação, impulsionou a torrente de águas para o mar (da vida), provocou o nascimento do Sol, encontrou o gado, por meio da noite cumpriu a obra dos dias”.
A palavra noite no contexto acima traz as mesmas implicações como no título Nightside of Eden. Os túneis no “lado noturno” ou sombrio da Árvore contém os poderes mencionados nos textos védicos e em outros. Veja, por exemplo, a afirmação de Kenneth Grant sobre o túnel de Dagdagiel: “É aqui onde a Serpente e a Aranha se encontram . . .” (Nightside of Eden, p.180), paralela a RV.11.11.18, “Tu (Indra) prendes o aracnídeo Vrta, filho de Danu”.
É na “escuridão” dessa cosmogonia primordial onde podemos encontrar as origens da lenda de São Jorge (Indra) e o Dragão. São Jorge tem sido um dos santos mais universalmente populares precisamente devido à sua função cosmogônica pré-humana foi compreendida instintivamente pelos “menos sofisticados” em todos os lugares. O fato de que é difícil determinar o santo historicamente e de que dragões não mais “existem”, longe de serem razões para a sua eliminação do calendário, deveria indicar a sua Realidade, que foi perfeitamente compreendida na Idade Média. Este é apenas mais um exemplo de como a Igreja deixou de compreender os Mistérios dos quais ela outrora fora a guardiã.
Escrevendo sobre o simbolismo da serpente em Nightside of Eden, Kenneth Grant diz: “Nos Cultos osirianos posteriores, a serpente foi igualada à energia solar-fálica na forma do leão-serpente que gerou o espermatozoide. No draconiano, entretanto, Teth é a serpente simbólica da mulher que periodicamente troca de corpo, assim como a serpente troca de pele. (Nightside of Eden, p.20). (O aspecto feminino do simbolismo da serpente é tratado por Coomaraswamy nos ensaios intitulados “On the Loathly Bride” e “The Darker Side of Dawn”.) Nos excertos do Rig-Veda citados acima, as “Águas” das quais Indra libera ao matar o Dragão Vrta podem ser consideradas tanto astronomicamente, como as águas do espaço subindo e caindo na precessão equinocial (consulte Hamlet’s Mill, passim), ou seguindo Kenneth Grant, as “águas” menstruais e os kalas que são a chave física para o útero metafísico do princípio.
Isto nos leva à Parte II de Nightside of Eden, que explica o Liber 231, um misterioso grimório publicado pela primeira vez sem comentários por Crowley em The Equinox Vol.I no.vii. Essa segunda parte assume a forma de um conjunto estendido de correspondências e comentários sobre os túneis que são os aspectos aversos dos 22 caminhos da Árvore da Vida, uma área que a maioria dos ocultistas anteriores deixou na obscuridade que consideravam merecida.
De acordo com Coomaraswamy, o Asura-pitr, Ahi-Vrta, é idêntico ab intra com o deus Varuna. Sobre aqueles que têm dificuldade em aceitar a identificação de duas personagens tão diferentes, ele escreve: “Deve-se observar que, mesmo para um acadêmico que não é um cristão professo, uma herança cristã moderna e preocupação “moralista” tornou difícil aceitar a posição do ensinamento antigo, de modo algum desconhecido, mesmo na Europa da Idade Média, de que “bem” e “mal” tem uma validade significante apenas ‘sob o sol’ e ‘dentro dos mundos’, mas na Identidade Suprema são coincidentes sem oposição ou composição”. É sem sombra de dúvida que essa “preocupação moralista” se tornará o principal obstáculo para uma boa recepção de Nightside of Eden. Antecipando tal reação, o Sr. Grant faz questão de enfatizar que as entidades que habitam os túneis na traseira da Árvore, apesar de serem indubitavelmente antigas, profundas, primitivas e tifônicas, e completamente aterrorizantes e perigosas, sejam lá o que forem, elas não são “más”.
Para enfatizar o caráter amoral das Qliphoth, várias citações de A. E. Waite são usadas, de modo que parece que o pobre e pomposo Edwin Arthwaite, afinal, ainda tem sua utilidade. Grant cita Waite ao dizer: “Assim como existe uma porta na alma que se abre para Deus, assim também existe outra porta que se abre para as profundezas recreativas e não há dúvida de que as profundezas surgem quando são abertas efetivamente. Existem também os poderes do Abismo . . .” após o qual Grant observa, com aprovação, que “Waite distingue entre as ‘profundezas’ e os ‘poderes do abismo'”. Presumivelmente, os “poderes do Abismo” são aqueles em que Waite se refere em outro lugar quando ele escreve: “No Egito, na Índia e na Grécia, não havia trato com demônios no sentido cristão da expressão; Tífon, Juggernaut e Hécate não eram menos divinos que os deuses do mundo superior, e os ofícios de Canidia eram provavelmente tão sagrados em sua maneira quanto os mistérios pacíficos de Ceres”. Em contraste com esses poderes, as “profundezas” são: “os pântanos da vida espiritual e o abismo da segunda morte: seus poderes são os de um hospício, e estão tão distantes dos sombrios horrores do Inferno de Dante quanto as estrelas e os lírios da Bem-Aventurada Donzela estão distantes — e quão distantes — da Visão e da União”.
Disso parece que existem duas “portas” na alma humana que se abrem para dois diferentes terrores. Existe a porta de Daäth que se abre para o Abismo entre as sephiroth inferiores e as Supernas e a porta que se abre para as “profundezas”, o “abismo abaixo de Malkuth”. Esta, certamente, é a distinção feita anteriormente neste artigo entre a Escuridão ab intra e a “escuridão exterior”. A “vastidão de todo o universo” entre o Não-ser da fonte primordial do Vazio Absoluto e a exaustão do Ser nos confins da existência. Mas, em contraste com Waite, Kenneth Grant insiste que existe apenas uma porta – “o abismo abaixo de Malkuth é acessível ao homem apenas por meio do portão de Daäth” (Nightside of Eden, p.44). Essa é a mesma porta que é a entrada para o Vazio Absoluto de Ain; eis aqui, de fato, uma armadilha para os incautos.
A solução certamente está no fato de que apenas ao passar pela porta de Daäth (Death) para o “outro lado” da Árvore que a porta para o abismo ou as “profundezas” abaixo de Malkuth pode ser encontrada. Pois os dois pólos do universo são claramente entendidos por Grant assim como eles foram por Waite, como podemos ver da descrição de Grant do “reflexo de Malkuth”, o lugar de: “desintegração e encarnação de formas instáveis de existência como elementais, demônios, etc. É o antípoda de Plutão (Kether) e representa a lama de Satã que se origina nos espaços exteriores, além da periferia distante do universo conhecido (a “escuridão exterior”). Nesse sentido, Malkuth é o antipolo da constelação do espaço além de Plutão” [a Escuridão ab intra] (Nightside of Eden, p. 151).
Portanto, existem as “Profundezas” além de Kether e as “profundezas” abaixo de Malkuth. Os Titãs “antes da queda” não são da mesma espécie, nem habitam a mesma escuridão que os resíduos psíquicos e os demônios das “profundezas” da “segunda morte”, mas é somente aventurando-se além do Pilone de Daäth que qualquer um deles pode ser encontrado ou dominado. Nisto, seguimos as pegadas de Alguém que “desceu ao inferno”. Como escreveu o Arquimandrita Sofrônio ao descrever a vida de Staretz Silouan: “Deus abrange todas as coisas, até mesmo os abismos insondáveis do inferno, pois não há domínio fora de Seu alcance, e os Santos contemplam e permanecem no inferno, mas este não tem poder sobre eles, e a maneira como permanecem difere da maneira como permanecem aqueles que constituem o inferno”.
© David Hall, 1978; Janet Audley-Charles, 2013, 2021.
Esta resenha de David Hall apareceu pela primeira vez em Sothis Volume Il, Número 2, 1978. Foi reproduzida pela cortesia de Jan e Mike Magee, os editores e publicadores ainda vivos de Sothis.
Link para o original: https://www.starfirepublishing.co.uk/Nightside_review.htm
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