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Autor: Yury Henrique
Ao observarmos o avanço da física, notamos também uma profunda transformação na cosmovisão dos pensadores. Ou melhor: a visão de mundo mudou.
Antes, predominava uma cosmovisão antropomórfica, isto é, acreditava-se que tudo na natureza ocorria em função de um motivo ou como chamavam, “causa final” que era frequentemente ligada à vontade. Os antigos mitos ilustram bem esse pensamento: a chuva, por exemplo, era vista como uma bênção dos deuses, destinada a garantir a fertilidade da terra. Boas colheitas significavam oferendas generosas, e as oferendas, por sua vez, mantinham os deuses satisfeitos.
Com o declínio desse pensamento e o avanço da física moderna, essa interpretação finalista deu lugar a uma visão mecânica da natureza. A natureza passou a ser vista como uma máquina que opera por leis fixas, sem intenções ou desejos, apenas causa e efeito. Se você lança uma pedra para o alto, ela cai devido à gravidade. Esse mesmo princípio se aplica a tudo que é natural.
O ser humano por outro lado não só é mecânico como a natureza, como também obedece à causalidade eficiente; por sua vontade (ou por seu espírito, onde a vontade supostamente se aloja). Imagine que você quer pintar um quadro, seu corpo pega os materiais, posiciona-os da melhor forma, senta na frente deles e inicia o processo, mas o que iniciou isso? sua vontade, você decidiu realizar uma tarefa e por tão impetuosa vontade seu corpo a realizou, fez acontecer. Aqui entramos em uma linha curiosa, peço que reflita sobre isso antes de partir para o próximo parágrafo: De onde vem a sua vontade?
Talvez a sua resposta varie entre consciência (cérebro) e espírito (ou alma), mas será que somos capazes de definir isso com exatidão?
Para compreendermos melhor como responder à questão anterior, é necessário relembrarmos a filosofia de Platão. No tão famosinho Mito da Caverna, Platão nos apresenta a ideia de que existem dois mundos: o mundo sensível, correspondente à realidade material e perceptível pelos sentidos, onde habitamos com nossos corpos; e o mundo das ideias, uma realidade superior, eterna e imutável, acessada apenas por meio da consciência plena e do pensamento filosófico.
Séculos depois, durante a Idade Média, Santo Agostinho resgata esse dualismo platônico e o adapta à realidade cristã. Para ele, o ser humano também está dividido entre corpo e alma, sendo esta última a parte superior do ser, responsável por conectar-nos a Deus e ao mundo espiritual.
Até aqui, podemos perceber que existem pelo menos duas grandes interpretações possíveis sobre a natureza da nossa existência:
- Possuímos uma alma, e portanto existimos independentemente do corpo físico.
- Somos o nosso cérebro, e é nele que residem tanto a consciência quanto a vontade.
Entretanto, essa dicotomia nos coloca diante de um impasse complicado. A neurociência moderna, apesar de seus avanços extraordinários, ainda não foi capaz de localizar com precisão onde, no cérebro, está a consciência. Sabemos que o cérebro interpreta os estímulos corporais e interage com o ambiente externo, mas não sabemos onde, nem como, surge a consciência em si.
E essa lacuna não é recente. Ela nos acompanha há séculos e permanece, até hoje, sem solução definitiva. E como o objetivo aqui não é solucionar essa questão, mas sim compreendê-la, aceitemos, por ora, que se a ciência não consegue explicar satisfatoriamente a origem e a sede da consciência, talvez ela não esteja contida no corpo físico. Nesse sentido, é plausível considerar a consciência como algo imutável, imaterial e inacessível aos sentidos comuns, o que justifica a hipótese da alma como a mais coerente dentro do nosso escopo de reflexão.
Se seguirmos apenas o caminho da explicação mecânica, diremos que a vontade emerge de processos neuroquímicos no cérebro. Essa resposta é funcional, mas não resolve o problema. A vontade não se limita aos impulsos elétricos que conseguimos medir; ela se manifesta de forma empírica, como uma decisão consciente que nenhum aparelho registra plenamente. Por isso, dentro do que exploramos, torna-se natural pensar que a vontade nasce naquele mesmo lugar de onde vem a consciência: em uma dimensão que ultrapassa o corpo, seja ela a alma, espírito ou qualquer princípio imaterial. A vontade, então, pode ser compreendida como expressão dessa dimensão profunda e invisível, que nos move, orienta nossas escolhas e sustenta a sensação de identidade. Talvez não possamos demonstrá-la empiricamente, mas se refletirmos sobre ela será inevitável não entendermos o peso da responsabilidade de carregar ferramenta tão importante quanto a vontade.
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