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PSICO

A luz da saúde, a sombra da doença

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LARRY DOSSEY
Excerto de “Ao Encontro da Sombra

O poeta Gary Snyder comentou certa vez que só as pessoas que fossem capazes de desistir do planeta Terra estariam aptas a trabalhar pela sua sobrevivéncia ecológica. Com esse comentário, ele elucidou uma perspectiva que é frequentemente esquecida: existe uma ligacáo intrínseca entre os opostos, mesmo os extremos da morte ou da sobrevivência planetárias.

Essa mesma força unificadora aglutina os extremos da saúde e da

doenga. Existe uma profunda reciprocidade, um elo inquebrantável entre a hediondez da doença e o esplendor da saúde. Pode parecer estranho sugerir a existência de tal relação, tendo em vista a crença geral de que a doença deve ser exterminada, de que ela é o arauto da morte, uma precursora da extinção pessoal, Ainda assim, essas conexões entre os “opostos” não deixam de existir. Elas permanecem nos nossos ossos, no nosso sangue. Elas são parte da nossa sabedoria coletiva e sobrevivem, intactas, em muitas culturas da Terra. Mesmo na nossa sociedade, ainda não conseguimos expulsá-las apesar das campanhas oficiais contra diversas doenças e de uma tecnologia médica que promete uma eventual erradicação das principais doenças dos nossos tempos.

Esquecemos como pensar sobre a doença. Na verdade, tentamos com todas as nossas forças não pensar nela — tirando-a da nossa mente até que chega a hora do check-up anual ou até que contraímos algum tipo de doença. Parte de ser saudável, dizem-nos, é pensar saudável — o que, presumimos, não inclui ficar ruminando doenças. Esquivamo-nos das moléstias, temos horror de ir aos funerais de amigos mortos ou ao hospital visitar amigos doentes, e até mesmo de ir ao dentista, ao clínico geral, ao médico da família, ao pediatra ou ao ginecologista.

No entanto, não conseguimos não pensar na doença. Ela nos envia constantes lembretes, sob a forma do resfriado comum que contraímos ou da doença de um amigo. A morte faz parte da estrutura social coletiva. Por mais que tentemos, não conseguimos evitar o confronto com a doença.

Parece que a nossa simples incapacidade de nos esconder da doença, de trocar permanentemente seu abraço pelo abraço da saúde, nos diz algo sobre o relacionamento das duas: elas estão misteriosamente unidas; conhecer uma é conhecer a outra; não podemos ter uma sem ter a outra. Assim como não conseguimos conhecer o lado de cima sem o lado de baixo, ou o preto sem o branco, parece que não conseguimos dividir nossa consciência de um modo que exclua a

doença e a morte em favor da saúde.

De fato, não conseguimos nos envolver em nenhum tipo de cuidado com a saúde sem perguntar a nós mesmos: “O que estou tentando prevenir?” Mesmo quando o envolvimento é com algo tão prosaico como uma vacinação, em algum nível psicológico nos defrontamos com a pergunta: “Contra o que estou me vacinando?” Mesmo quando tudo o que fazemos é permitir que nos meçam de graça a pressão arterial numa dessas “campanhas de saúde” cada vez mais populares, o medo subterrâneo ainda ronda: “O que aconteceria se eu ignorasse a minha pressão arterial?” Todos os atos de saúde trazem em si esse

lado escuro e cinzento, porque nos fazem lembrar aquilo que mais queremos evitar: a doença e a morte são inevitáveis e, por mais que tentemos, nunca conseguiremos separar a saúde da doença nem a morte do nascimento. E nosso frenesi de ser saudáveis apenas aumenta a nossa sensibilidade aos fenômenos da doença e da morte — assim como a luz, no mundo material, sempre lança sombras. As duas caminham juntas, atraem-se mutuamente e não podem ser seccionadas.

A maioria das culturas pré-modernas parece ter tido uma compreensão mais profunda da natureza inseparável da saúde e da doença; seus mitos e rituais incorporam essa sabedoria. Em muitas sociedades tentava-se viver coma doença, não esconder-se da doença. Pode-se argumentar, é claro, que essas culturas não fugiam da doença e da morte porque não tinham condições de fazê-lo; e que, se tivessem sido tão avançadas tecnologicamente quanto a nossa sociedade, elas teriam tanto horror à doença e à morte quanto nós. Embora possa haver algum mérito nesse argumento, o mais provável é que as atitudes de muitas sociedades pré-modernas diante da morte e da doença fossem uma expressão de um modo orgânico de ser, uma maneira de estar no mundo na qual a aceitação da realidade não era uma função da impotência, mas a expressão de uma compreensão profunda do mundo.

A doença pode ser vista como se fosse uma coisa em si mesma, com suas próprias necessidades — a necessidade de que falemos e raciocinemos com ela, a necessidade de que a cuidemos e lhe demos atenção. A doença pode ser vista como razoável: barganhas podem ser conseguidas, negócios podem ser feitos. Essa atitude está em agudo contraste com o modo como nos vemos emboscados e derrubados, por exemplo, pelo câncer ou pelo ataque cardíaco.

Hoje em dia, nosso senso de ligação com a doença perdeu-se, trocado que foi por formas tecnológicas de intervenção que acabaram por nos custar grande parte do nosso senso de ligação com a saúde. Não sabemos como saborear a saúde porque perdemos as ligações vitais entre a saúde e a doença. Não é possível substituir uma ligação orgânica com o mundo por antibióticos, cirurgias e promessas de imortalidade, sem destruir alguma coisa vital, uma coisa que é a saúde em si. Não que as intervenções modernas sejam “más”; o que ocorre é que elas não podem substituir a sabedoria do “é assim que as coisas são”, como diz Huston Smith, filósofo das religiões. A tecnologia, em si, não é sabedoria; ela não garante a experiência da saúde.

Estaremos, nos dias de hoje, redescobrindo a organicidade do mundo

conhecida pelos primitivos habitantes do planeta? Talvez. Está claro que nào temos as respostas que gostaríamos de ter em relagáo ao entendimento da saúde e da doença; está claro que a nossa sociedade se consome de ressentimento pelas promessas não cumpridas e pela desumanidade que percebe na medicina moderna. Mas, na minha opinião, essa raiva (de cuja existência não se pode duvidar) não está bem dirigida. É uma raiva que se dirige abertamente contra o “sistema” — mas um sistema que é, na realidade, nós mesmos. Estamos desapontados com nós mesmos por termos sido iludidos e por termos deixado que nos vendessem o esquecimento de algo que um dia conhecemos, desapontados por termos cortado nossos laços orgânicos com o mundo em que vivemos. Estamos aprendendo, de modo doloroso e profundo, que longevidade não equivale a qualidade de vida. Estamos percebendo a vacuidade de conceitos tais como “o intervalo livre de doenças”. Não podemos ignorar que algo vital está faltando à nossa saúde — algo sem o qual saúde não é saúde.

O que é esse “algo”, esse elemento faltante? Acho que esse algo é “a sombra que a doença é”, a sombra que sempre acompanha a luz da saúde. É a ligação orgânica que sentimos com o mundo, a convicção de que o mundo não pode ser forçado a aceitar formas que não são parte de sua natureza. E a disponibilidade para aceitar a doença com tanta convicção quanto aceitamos a saúde, sabendo, ao fazê-lo, que nenhuma dessas experiências tem sentido sem a outra.

É difícil admitir necessidades recíprocas tais como a ligação entre saúde e doença, pois nossa cultura acredita que podemos ter as coisas “de um modo ou do outro” — que podemos ter o lado de cima sem o lado de baixo, ter o preto sem o branco. Podemos ter saúde sem doença ou, talvez, até mesmo nascimento sem morte. Seria só uma questão de tempo, de mais fundos para pesquisas, de mais recursos humanos. Pedir que ultrapassemos esse tipo de pensamento do tipo “e/ou” parece convidar a uma forma de pensamento primitiva que não se enquadraria no potencial da época moderna.

No entanto, nào foi só o homem primitivo que compreendeu a natureza inseparável dos opostos. Essa é uma visão a que chegaram os homens em todas as épocas da história. Essa é uma sabedoria perene, inerente às tradições místicas e poéticas de todos os tempos.

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