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Rodolfo Sánchez Garrafa
Os fatos a que vou me referir a seguir começam em Cusco e podem somar-se a certos relatos surpreendentes que se alimentam de estranhas coincidências.
Eu havia entrado no que fora o quarto privado de meu falecido pai. Ao meu lado, minha mãe, um tanto entristecida por ter de me mostrar um ambiente quase vazio. Já não estavam ali os pequenos objetos nem outras curiosidades que, ao longo de seus últimos anos, formaram parte do curioso cenário que cercava suas horas íntimas, de descanso e de sono. Não restava nada; se algo persistia, era apenas um leve odor e uma energia vaga e flutuante que me era familiar. Passeei o olhar pelas prateleiras nuas, no que parecia ser o prelúdio do afastamento definitivo de sua presença calorosa e um tanto arredia.
— Já se foi, pai — pensei — e eu não pude ouvir tuas últimas palavras. Você devia ter me dito algo, tenho certeza de que gostaria de ter-me ao seu lado.
Enquanto estava nessas cavilaciones, chamou-me a atenção uma pequena mancha presa a uma das tábuas horizontais, num canto pouco visível. Aproximando-me, distingui que poderia tratar-se de uma moeda. Peguei-a nas mãos, limpei a poeira e comprovei que se tratava de um medalhão com inscrições simbólicas, muito próprias de um campo de interesse que, de vez em quando, atraía a atenção de meu pai, um adepto pouco constante desses estudos.
— Olha, mãe, este pedaço metálico estava me esperando — disse à minha progenitora, que não deixou de se surpreender e que talvez já tenha até esquecido o incidente. Guardei o medalhão e não pude deixar de dizer: — Obrigado, pai. Você quis que este objeto chegasse às minhas mãos.
Na peça lia-se claramente: “DIVINA METAMORPHOSIS NOSTRADAMUS CAMBIA DESTINO”. Frases que acompanhavam algumas figuras em alto-relevo.
Já não me importava mais nada. Fui invadido por uma sensação de paz e de profundo contentamento.
O tempo passou. De volta a Lima, retomei minhas atividades, deixando praticamente relegado aos cantos da memória o assunto do referido medalhão. Até que, um dia, encontro, quase por pura casualidade, um arquivo sobre matérias alquímicas, no qual, para minha surpresa, havia uma imagem semelhante à registrada na peça cunhada que agora estava em meu poder.
Não vou negar que isso estimulou minha natural curiosidade de investigador. Para abreviar, direi que meu medalhão de Nostradamus inspirava-se visivelmente em uma rara peça de numismática, cujos detalhes passo a compartilhar.
No ano de 1648, estando o imperador Fernando III em Praga, centro que, desde a época de Rodolfo II da Áustria, acolhia os mais destacados alquimistas, ele testemunhou a transmutação de três libras de mercúrio em ouro por meio de apenas um grão de pó de projeção.
O adepto Labujardière havia deixado “como herança” a seu melhor amigo, Johann Conrad Richthausen, uma caixa contendo uns pós vermelhos, com os quais este se apresentou diante do imperador Fernando III da Boêmia (1608-1657), alegando estar em posse da pedra filosofal. O imperador, versado em filosofia hermética, permitiu, sob certas condições, que o experimento fosse realizado. “No dia 15 de janeiro de 1648, levou-se a cabo essa ‘divina metamorfose’ no castelo de Praga. O adepto Richthausen, diante do imperador Fernando III e do prefeito, o conde Russstatt (conde de Rutz, diretor de minas), teria nobilitado, com um grão de pó de projeção (tintura ou pó vermelho), duas libras e meia de mercúrio, que transmutou em ouro. Com esse ouro, o imperador mandou cunhar algumas moedas de 300 ducados como lembrança”.(1)

De um lado da moeda, figura a representação de um jovem nu, cuja cabeça é um sol radiante. Na mão direita, segura a lira de Apolo; na esquerda, o caduceu de Mercúrio. A inscrição em latim diz: “Divina Metamorfosis, realizada em Praga, 15 de janeiro de 1648, na presença de Sua Santíssima Majestade, o Imperador Fernando III”. No verso, também em latim, lê-se: “Assim como poucas pessoas conhecem esta arte, é raro que venha à luz. Bendito seja Deus por toda a eternidade, que de tempos em tempos revela a suas miseráveis criaturas parte de sua imensa sabedoria”.(2)
O tal Richthausen, operador dessa transmutação, recebeu um prêmio em dinheiro e o título de Barão. Com o ouro filosofal, o imperador mandou cunhar uma medalha que, em 1797, ainda se conservava no Tesouro de Viena. Richthausen, homem astuto, vendeu o segredo da pulverização ao imperador e a vários outros senhores, operações que lhe renderam enormes somas de dinheiro.
Fernando III fez uma nova projeção em Praga, em 1650, e com o ouro resultante fabricou-se outra medalha que, no século XVIII, ainda figurava na coleção do castelo imperial de Ambras, no Tirol. Em virtude desses feitos, o imperador concedeu a Richthausen o título de Barão do Caos, e com esse nome percorreu toda a Alemanha fazendo projeções. Sua operação mais célebre foi a que, em 1658, o Eleitor de Mogúncia executou, convertendo quatro onças de mercúrio em ouro.(3)

Johann Konrad Richthausen, químico austríaco que um dia chegaria a ser Barão do Caos, nasceu no início do século XVII, em 27 de novembro de 1604, em Viena, e faleceu em 25 de julho de 1663 em Schemnitz, hoje Banská Štiavnica. Filho de comerciante, tornou-se conhecido como reputado alquimista na região que hoje corresponde à Áustria. Em 1653, Richthausen foi detido por supostas irregularidades financeiras, mas, após rápida reabilitação, foi enobrecido e estabeleceu-se na rua Pretorio, no distrito 17 de Viena, que leva seu nome, e também no beco Pin, no distrito 7 de Neubau, depois de sua fundação. Em 1659, já era conde camareiro na chamada Alta Hungria (atual Eslováquia), região que então abrigava um grande número de vilas mineradoras. Em seu testamento, no final do século XVIII, Richthausen destinou parte de seu patrimônio à Fundação Chaos, que sustentava um orfanato. A terra para o edifício principal foi comprada na Kärntnerstraße, e outro terreno, no subúrbio de Laimgrube, serviu para erguer uma casa de verão.
O imperador Leopoldo I (1640-1705), na presença de seu médico da câmara, Dr. Johann Zwölfer, tirou de uma caixa que mantinha oculta uma dessas medalhas douradas cunhadas com o ouro transmutado por Richthausen. Mostrou-a e permitiu que fosse cunhada em cobre, de modo que, em sua “Mantissa Pharmospagyrica”, pode-se ver uma reprodução da mesma. Na face anterior, está o jovem nu com um sol brilhante sobre a cabeça.
Para concluir, vejamos a iconografia do medalhão. O jovem nu com cabeça radiante representa o deus Apolo, chefe das Musas e regente de seu coro, que, segundo a mitologia, atuava como patrono da música e da poesia, motivo pelo qual a lira tornou-se atributo comum dessa divindade solar, em cuja honra eram entoados hinos chamados peãs.
Quanto ao caduceu, diz-se que foi presente de Apolo a Hermes (Mercúrio). A vara mágica do arauto possuía inicialmente dois laços brancos como ornamento, os quais foram depois substituídos por duas serpentes (símbolo de prudência e vida) e, finalmente, completados por um par de asas mercuriais que expressam a rapidez com que o mensageiro dos deuses podia deslocar-se de um lugar a outro.
Em nossos dias, a simbologia filosofal, mais do que referir-se à transmutação dos metais vis em ouro, deve ser entendida como está no medalhão atribuído a Nostradamus, isto é, como um caminho para uma mudança de destino, para a divina transformação do espírito, das intenções em ação humana. Por coincidência, li há alguns dias um manuscrito do renomado cientista norte-americano de origem indiana Pradeep B. Deshpande, parte do que será seu próximo livro: The Nature of Ultimate Reality and How it can Transform our World: Evidence from Modern Physics; Wisdom of YODA, no qual ele nos fala da grande transformação que podemos esperar no século XXI a partir do fortalecimento do nexo humano com a realidade última, que é a consciência cósmica — algo como uma divina metamorfose em escala planetária.
Então, a resposta está em cada um de nós, em cada ser humano concreto e no que cada um pode fazer para que esse princípio seja compreendido pelos demais.
Referências:
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JOSEF SVÁTEK: “Kulturhistorische Bilder aus Böhmen – Die Alchemie in Böhmen“ – Ano 1879.
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Ibid.
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Para mais detalhes, consulte: L. Figuier: L’Alchimie et les Alchimistes, 3ª edição, pág. 248. (G.T. H.P.B.)
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