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Thantifaxath e as Crianças da Grande Serpente

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por Douglas Verden

Thantifaxath (תאנטיפצת) ou, de forma mais simplificada para o português, Tantifatzat [1], guarda o 32º Túnel e pode ter seu nome e, portanto seus poderes, entendidos a partir de três palavras derivadas dos componentes tan, tifa e tzat. A palavra tan (תַּן), H8565, significa “monstro, serpente marinha (baleia); chacal”, sendo que esse monstro pode ser entendido como tendo existência transcósmica. Nesse ponto devemos entender também que o chacal-dourado (Canis aureus), espécie específica à qual a palavra tan se refere, sendo um animal predador e necrófago, e também um rastreador de caráter onívoro já que adapta sua dieta conforme o habitat e a estação do ano, era observado nas ruínas de cidades abandonadas no contexto histórico do Tanakh, tornando-se um símbolo tanto de desolação quanto do julgamento contra indivíduos e nações pecadoras (Harris, Theological Wordbook of the Old Testament, p976), o que explica o fato do título dessa Guardiã ser também traduzido como “Grande Carniçal”. Essa imagem de um animal necrófago nos remete ao ghoul (غول) do folclore árabe, uma entidade humanoide monstruosa associada a lugares abandonados, cemitérios e ao consumo de carne humana, inclusive de cadáveres. Curiosamente era uma palavra tratada como substantivo feminino no árabe antigo, diferenciando-se em duas palavras, no feminino e no masculino, posteriormente, o que nos remete diretamente ao conceito cabalístico de que a julgamento (Guevurá) está no Pilar da Esquerda, logo, associada à Polaridade Feminina. Neste trabalho, naturalmente, relacionamos o simbolismo do chacal para desolação e julgamento com a implacabilidade compassiva de Tehiru para com as falhas cognitivas de YHVH, ou seja, o chacal é aquele que devora as falhas divinas.

Resta-nos, então, analisar os dois componentes seguintes de Thantifaxath: presume-se que tanto a palavra tan quanto tanniyn (תַּנִּין), H8577, que significa “dragão, serpente ou monstro marinho”, e também é usado como um termo figurativo para os mais poderosos oponentes de Deus, derivem da raiz tanan (תנן), que não consta no texto bíblico em hebraico, mas que provavelmente significa “alongar-se, esticar-se”, denotando a característica de grandeza desse monstro e sua natureza serpentoide. Curiosamente, a palavra ugarítica tnn, língua de um ramo do proto-semítico do qual deriva o hebraico, é traduzido como “dragão”.

O componente tifah pode ser relacionado à palavra tipah (טִפָּה), que significa “gota de um líquido; um pouco, uma pequena parte”, como uma gota de água de um lago, por exemplo, que se desprende de um todo. É possível que tenha relação com a raiz nataf (נטף), “cair, pingar”. Se acrescentarmos o pronome feminino à palavra taf (טַף), “crianças, bebês”, formaremos tapah (טַפָּה), “crianças dela”. E, finalmente, o componente tzat pode ser relacionado à tze’t (צֵאת), que significa “saída ou partida” em hebraico moderno, da raiz yatza’ (יצא), H3318, “ir, sair, partir”. 

Thantifaxath é a Guardiã que rege sobre os Mistérios da Herança e das Crianças da Grande Serpente, que são como as gotas que se desprendem ou “gotejam” das Águas Primevas, sendo a Serpente a personificação das Águas Primordiais. As Crianças da Grande Serpente são os Tannim (תָּנִּים), plural de tan, “monstros, dragões marinhos; cobras”, ou seja, elas são os Dragões do Sitra Achra cujo lar original é Tehom, o Abismo de Tehiru não tocado pela Luz Pensante, e a essência dos Taninnim é a Chama Negra à qual a Bruxa recém-iniciada se conecta  gradativamente por meio da natureza de seus Vasos (Kelim). A Grande Serpente-Dragão Primeva é a maior oponente das anomalias presentes na Mente Universal, já que ela possui o poder para aniquilá-las. Aqueles que iniciam a trilha da Via Noturna reivindicam a sua herança como filhas e filhos da Grande Serpente, ou seja, pretendem tornar-se o que, no fundo, já são, e é Thantifaxath quem desperta em seu Sangue essa Descendência oculta. 

Segundo nos conta o mito sumério-babilônico da cosmoteogênese registrado no poema Enuma Elish [2], sem entrar em detalhes a respeito de como essa obra representa uma mudança de paradigma em relação à tradição mítica mesopotâmica, sendo um texto fechado em si mesmo, substituindo uma noção anterior de uma mãe primeva aquosa [3] para uma versão onde já se configura a dominação do masculino sobre o feminino cósmico tipificada na luta entre Tiamat e Marduk e na morte da primeira pelo segundo, “reescrevendo” a mítica da Criação tanto por motivações políticas quanto teológicas, a humanidade descende diretamente de Tiamat e seu filho-consorte Kingu. Do corpo de Tiamat provém a matéria, a base fundamental para formar o ser humano, similar ao “pó da terra” no Gênesis, e do sangue de Kingu vem a força vital, similar ao “sopro de YHVH” (Gênesis 2:7). 

Thantifaxath ressuscita na Bruxa os segredos velados nessas narrativas sobre grandes deidades primevas relacionadas às Águas Primordiais, como Tiamat, e como a raça humana carrega, de forma latente, essa herança, como o mito que envolve o sangue de Kingu. Ela é a Guardiã que promove a visão e o entendimento do que é a consciência transcósmica, derramando-a no corpo a partir dos domínios do sonho, no acoplamento entre as matrizes astrais formadas pela linguagem cósmica, e revelada pela Árvore do Conhecimento através da Mãe Mais Antiga, a Senhora das Águas da Pureza, HVHY. Para a Bruxa esse é o ponto onde vive-se a experiência do limiar entre o “aqui e o lá”, Este Lado e o Outro Lado, a Encruzilhada entre-mundos, pois a Cruz (Tav) é a Marca primigênia da primeira infiltração das energias de Tehiru no interior da Criação Cósmica – e talvez seus primeiros representes humanos tenham sido Qalmaná e Qayin, os primeiros filhos e herdeiros do conhecimento da Grande Serpente, receptores da Antiga Arte. A Bruxa, por meio da Encruzilhada, acessa a capacidade do reconhecimento e do trabalho com os seus egos – no ontem, no agora e no amanhã – ressuscitando-os, curando-os e transformando-os conforme a Vontade, com o objetivo de tornar-se ela mesma Filha do Sempre, rompendo com a cristalização do Eu atual que provoca uma morte ainda em vida. Tal experiência provém da consciência dessa ancestralidade primeva, onde entende-se que a substância-consciência essencial da qual se faz parte, provém do Outro Lado – as Águas Escuras do Princípio – e não das configurações demiúrgicas impressas nos Níveis da Alma. Essas configurações, ou Luzes (Orot) não serão descartadas pela Bruxa, mas ela precisa, desde o começo, entender que deverá se tornar hábil no processo de se assenhorar e manejar as mesmas como uma ferramenta, iniciando o processo de inversão.

Neste Túnel entende-se que cada coisa corporificada no cosmos possui, em algum grau, a essência dessa Substância Primeva, e que aqui essa corporificação é fragmentada e finita, implicando num processo de possessão da Argila pelo Verbo Criador, perpetuando-se a partir da contínua autofagia de uma coisa por outra. Essa percepção vai se abrindo pelo entendimento do que representa a conexão entre Nahemoth e Gamaliel, que são as Qlifot nas quais esse Túnel se conecta: os mistérios profundos da corporeidade, associados á essência da matéria se entrelaçam com os mistérios dos subprodutos do Verbo Criador, subprodutos estes que escancaram todas as falhas presentes no Verbo, onde a forma aparente apenas revela as configurações falhas que descrevem Este Mundo – e a Bruxa tem olhos para ver.

Falhas Cognitivas

Esses são alguns dos padrões demiúrgicos que Thantifaxath auxilia a Bruxa a erradicar:

– Sensação de restrição e prisão em em si, decorrente de alguma limitação física e psíquica que não se consegue identificar, bem como o sentimento persistente de velhice e decadência. Isso envolve diferentes níveis de depressão, da incapacidade de enxergar além e sentir-se sem vida e sem brilho. Essa restrição física pode se expressar como diferentes formas de somatização, e Kenneth Grant sugere que uma delas é a “[…] arteriosclerose, o endurecimento das artérias que é o coadjuvante da senilidade e o início do rigor final.” (Grant, Nightside of Eden, p254).

– Medo dos que habitam os mundos não materiais, ou seja, medo de Espíritos, dos Mortos, de Demônios, de Anjos, etc., que, em outras palavras, é o medo da Encruzilhada que leva ao intercâmbio com outras formas de consciência e inteligência.

– Incapacidade de sequer cogitar a possibilidade da existência da reencarnação, uma expressão tanto do temor dos atavismos humanos e pré-humanos quanto do temor das semi-possessões por esses mesmos atavismos – inevitável, já que a própria constituição da Alma é o resultado da reificação desses Atavismos, ainda que não os reconheçamos como tal.

– Medo de ataques mágickos, a ponto da pessoa se tornar paranoica. Na verdade trata-se de um estado de confusão entre sinais legítimos, que brotam por meio de um processo intuitivo, e sinais que a pessoa está “procurando” obsessivamente a partir de um estado de confusão mental-astral.

– E dada a referência a Saturno, há o medo da morte, que pode ser decorrente da “ansiedade provocada pela crença cristalizada na ilusão do estado de separação definitivo”. Quando esse medo é encarado de frente, por meio da compreensão dos mecanismos e dos mistérios da morte (se estamos encarnados, um novo “eu” será formado de uma maneira ou de outra, com ou sem atividade mágicka), alcança-se uma energia e um gosto pela vida, por mais paradoxal que isso possa parecer, e ultrapassa-se essa descompensação psicológica que envolve o medo da perda.

Configurações Desbloqueadas

Trabalhe com Thantifaxath para alcançar:

– Habilidade de transitar entre dimensões, transpondo limites entre as diferentes manifestações de realidade do Cosmos, o que se dá por meio dos diferentes tipos de transe mágicko, especialmente aqueles provocados por experiências com a energia sexual e com os enteógenos e plantas de poder – fundamentos na Cabalá de Mão Esquerda.

– Capacidade de enxergar a conexão entre mundos aparentemente cingidos por meio de si mesma enquanto uma Encruzilhada Viva, unindo interior e exterior, consciência e inconsciência, intelecto e instinto, céu e inferno, acima e abaixo, nascidos e mortos, etc.

– Da mesma forma, como a Bruxa invocou o poder da Encruzilhada, ela se torna plenamente capaz de se comunicar com consciências de outros planos, sejam eles quais forem.

– Entendimento profundo do poder do tempo em seus ciclos expressos no eterno agora, ou seja, a percepção de diferentes linhas do tempo convergindo no momento presente, alcançando um estado onde não se vive apenas sob o tempo cronológico fracionado, mas num entendimento da realidade temporal como uma malha onde há reverberações constantes em todas as direções.

– Capacidade de auto-regeneração.

– Melhora da capacidade de se relacionar com as informações que chegam via Astral, especialmente os sonhos. Na feitiçaria Voltec, esse Túnel está relacionado com a possibilidade de gerar mudanças “via criação/produção de sons, recebimento de canções poderosas e mantras em estados alternativos, e observação de sons” (Dray, Liber Obsidian Obscura, p121).

Correlações

  • Pronúncia: “Tantifatzat”
  • Em Copta: Thath-th-thith’thuth-thist
  • Valor guemátrico: 1040 
  • Chave sonora: B# – Si sustenido
  • Cores: preto e azul
  • Focos Mágickos: Cruz de braços iguais, ossos, terra (especialmente de cemitério) 
  • Atavismos: Chacal, serpentes; dragões e grandes serpentes marinhas
  • Correlações astrológicas: Saturno ♄ – regente de Capricórnio e Aquário
  • Letra Hebraica: TAV (ת) – cruz, estacas cruzadas; valor 400
  • Arcano Noturno: XXI A Marca de Qayin
  • Espírito Planetário: Zazel (זזאל)

NOTAS

[1] A partir da grafia proposta por David Godwin em sua Godwin’s Cabalistic Encyclopedia.

[2] O cativeiro babilônico do povo hebreu no século VI aEC nos permite inferir um intercâmbio cultural entre as duas culturas, e dado que o Enuma Elish e a Torá compartilham tópicos em comum, isso torna relevante uma leitura em paralelo dos das duas narrativas míticas, ainda que considerando suas particularidades.

[3] Como, por exemplo, Nammu, “primeira mãe que deu à luz todos os deuses,” nas tradições sumérias mais antigas, e Amatuanki, “mãe que deu à luz o céu e a terra”, nas divindades paleobabilônicas (Jacyntho Lins Brandão, Epopeia da Criação: Enūma Eliš)

REFERÊNCIAS

– Aleister Crowley, Liber CCXXXI, trad. Frater Set Rah. Originalmente publicado em The Equinox Vol. I No. 7, 1912. (Disponível em: hadnu.org)

– Alexander Minfield Dray, Liber Obsidian Obscura. Dark Harvest Occult Publishers, 2010.

– Brian Pivik, Gematria and the Tanakh, 2011.

– David Godwin, Godwin’s Cabalistic Encyclopedia. Llewellyn Publications, 2002. 

– Ernest Klein, A Comprehensive Etymological Dictionary Of The Hebrew Language for Readers of English. Carta, Jerusalem, 1st Ed, 1987. (Disponível em: sefaria.org/Klein_Dictionary)

– Frater Apollonius, Supplement to a Greek Sepher Sephiroth, 2009. (Disponível em: http://www.astronargon.us/Greek%20Qabalah.htm)

– James Strong, A Concise Dictionary of the Words in the Hebrew Bible. Abingdon Press, New York, 1890.

– Jacyntho Lins Brandão (tradução), Epopeia da Criação: Enūma Eliš. Autêntica, 2022. Ebook, paginação irregular.

– Kenneth Grant, Nightside of Eden. Skook Books Publishing, London. 1994

– Linda Falorio, The Shadow Tarot. Aeon Books, London, 2004

– Marcus Jastrow, A Dictionary of the Targumim, the Talmud Babli and Yerushalmi, and the Midrashic Literature. London, Luzac, 1903. (Disponível em: sefaria.org/Jastrow)

– N.A-A.218, The Book of Sitra Achra. Ixaxaar Occult Literature, 2013.

– Ophis Christos e Aeshma Nachashomer, Anima Satanae: O Livro do Satanismo Tradicional, Manus Gloriae Editora, 2022.

– Robert Laird Harris, Gleason Leonard Archer, Bruce K Waltke, Theological Wordbook of the Old Testament. Moody Press, Chicago, 1980.

– Abarim Publications, Free online Dictionary of Biblical Old Testament Hebrew (Disponível em: abarim-publications.com/Dictionary/index.html)

– Pealim, Hebrew Verb Tables. (Disponível em: pealim.com)

– Wikipedia (Disponível em: en.wikipedia.org)

– Wiktionary (Disponível em: en.wiktionary.org)

(Artigo atualizado em junho de 2025)

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“In Nomine Serpentis”

© Douglas Verden

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