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Sobre os Nomes Divinos de Dionísio, o Areopagita

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por Dionísio, o Areopagita

Deus habita o santuário de uma luz inacessível. Ele é, para si mesmo, o próprio espetáculo; mas o olhar da criatura não suportaria o excesso dessas eternas esplendores: sobretudo nesta vida, o homem só pode contemplar a divindade como que em enigma e através de um véu.

Pois o conhecimento que temos de Deus nos chega pelas criaturas, que são como um eco distante, um reflexo obscuro das perfeições infinitas. Ele nos é concedido também pelas Escrituras, que nos ensinam a pensar e a falar de maneira digna sobre nosso Criador e Rei. Os nomes que lhe damos encerram esses ensinamentos elevados, que são o objeto da nossa fé, pois os nomes são sinais, representações das realidades, e aquilo que é nomeado é concebido e existe.

Esses múltiplos nomes que Deus recebe nas Santas Escrituras são tomados, ora das processões inefáveis, ora das produções temporais; eles expressam tanto os benefícios da Providência quanto as formas sob as quais Ele se dignou a aparecer. Como os objetos criados por Ele se assemelham a Ele em algum aspecto, já que Ele é seu princípio e possui o arquétipo de todos, e, ao mesmo tempo, diferem essencial e infinitamente d’Ele, por serem efeitos contingentes de uma causa absoluta e soberanamente independente, conclui-se que se pode aplicar a Ele todos os seus nomes e, ao mesmo tempo, nenhum; pode-se falar Dele por afirmação e por negação, pois, dependendo da maneira como se deseja compreendê-Lo, Ele é tudo o que é e nada do que é.

Do mesmo modo, por haver em Deus unidade de natureza e Trindade de pessoas, deve-se admitir que as qualificações que tocam a substância são aplicáveis a toda a divindade; mas não se deve proceder da mesma forma com os atributos relativos que caracterizam as pessoas, pois estes devem ser reservados exclusivamente a elas. Assim, foi a Trindade que criou o mundo; e foi também a segunda Pessoa da Trindade que realizou a obra da nossa redenção.

Os nomes divinos são tomados indistintamente tanto da ordem sobrenatural quanto da ordem natural, do mundo puramente inteligível e do mundo sensível. Mas, de qualquer que seja a sua origem, todos convêm a Deus na medida em que exprimem qualidades ou modos de ser que Ele possui antecipadamente e eternamente, por direito natural e de modo imutável, por necessidade de essência e de forma suprema. Assim, tudo existia n’Ele antes de existir fora d’Ele; tudo Lhe pertence por essência, e o fato de Ele o ter concedido às criaturas não pode nem enriquecê-Lo, nem empobrecê-Lo: tudo é d’Ele e n’Ele, mas nada está n’Ele da forma ou no grau em que está em nós. Aquilo mesmo pelo qual somos, já era Ele antes da nossa criação; e desde que fomos criados, isso já não é mais Ele, somos nós.

Consequentemente, todas as coisas que têm uma existência positiva, como substância ou como modo, e mesmo todas as que são apenas possíveis, têm n’Ele seu princípio e causa, seu modelo e regra, seu fim e objetivo último: princípio incomunicável, mas não inacessível; causa absoluta, mas que age livremente; exemplar perfeito, mas que se reflete imperfeitamente nas criaturas, por causa da sua necessária limitação, não por restrições da sua bondade; fim supremo, que cada ser busca à sua maneira, e encontra, ou pode encontrar, nos limites determinados pela sua própria natureza. Pois, se o mal, vislumbrado pelos seres finitos, torna-se o objeto de sua ardente busca, isso não ocorre por ser mal, mas por parecer bem: com efeito, nada é totalmente desprovido de bem, e o mal é uma privação do ser, não uma existência positiva.

É assim que devem ser explicados e compreendidos todos os nomes gloriosos que a Escritura atribui a Deus: a bondade, o maior de todos os títulos, pois se estende não apenas a tudo o que é, mas também a tudo o que pode ser; o amor, que fecunda até mesmo o nada; a luz, símbolo doce e exato daquele que é o sol dos espíritos e que vestiu de esplendor as estrelas; a beleza e o amor, o ser, a vida, o poder, a justiça, a salvação e a redenção. Até mesmo os extremos se encontram unidos e harmonizados em Deus, a quem a Escritura atribui ao mesmo tempo a grandeza e a pequenez, a identidade e a distinção, a semelhança e a dissemelhança, o repouso e o movimento. Por fim, Sua superioridade e excelência transcendente são expressas pelos nomes de Deus dos deuses, Rei dos reis, Senhor dos senhores.

Deus habita o santuário de uma luz inacessível. Ele é, para si mesmo, seu próprio espetáculo; mas o olhar da criatura não suportaria o excesso dessas esplendores eternas: sobretudo nesta vida, o homem só pode contemplar a divindade em enigma e sob um véu.

Ora, esse conhecimento de Deus nos chega por meio das criaturas, que são como um eco longínquo, um reflexo obscuro das perfeições infinitas. Ele também nos é concedido pelas Escrituras, que nos ensinam a pensar e a falar corretamente sobre nosso Criador e Rei. Os nomes que Lhe são atribuídos encerram esses ensinamentos elevados, que são o objeto da nossa fé; pois os nomes são sinais, representações das realidades, e o que é nomeado é compreendido e existe.

Esses nomes múltiplos que Deus recebe nas Santas Escrituras são tomados ora das processões inefáveis, ora das produções temporais; eles expressam os benefícios da Providência ou as formas sob as quais Ele se dignou a aparecer. Como os objetos que Ele cria se assemelham a Ele em certo grau, já que Ele é seu princípio e possui seu arquétipo, e como, por outro lado, eles diferem essencial e infinitamente d’Ele, pois são efeitos contingentes de uma causa absoluta e soberanamente independente, segue-se que se pode aplicar a Ele todos os nomes e nenhum; que se pode falar Dele tanto afirmando quanto negando; pois, dependendo de como se deseja compreendê-Lo, Ele é tudo o que é e nada do que é.

Além disso, por haver em Deus unidade de natureza e trindade de pessoas, é necessário admitir que as qualificações que tocam a substância são aplicáveis à divindade inteira; mas o mesmo não se pode dizer dos atributos relativos que caracterizam as pessoas e que lhes devem ser exclusivamente reservados. Assim é que a Trindade criou o mundo; assim também a obra da nossa redenção foi realizada pela segunda Pessoa da Trindade.

Os nomes divinos são tomados indistintamente, como se pode ver, tanto da ordem das coisas sobrenaturais quanto da ordem das coisas naturais, tanto do mundo puramente inteligível quanto do mundo sensível. Mas, qualquer que seja a sua origem, todos convêm a Deus, pois exprimem qualidades ou modos de ser que Ele possui de forma antecipada e eterna, por direito natural e de maneira imutável, por necessidade de essência e de modo sobreeminente. Assim, tudo existia n’Ele antes de existir fora d’Ele; tudo Lhe pertence por essência, e o fato de tê-lo concedido às criaturas não pode enriquecê-Lo nem empobrecê-Lo: tudo é d’Ele e n’Ele; mas nada está n’Ele do modo e na forma como está em nós. Aquilo mesmo por meio do qual somos, já era Ele antes da nossa criação; após a nossa criação, já não é mais Ele, mas sim nós.

Portanto, todas as coisas que têm uma existência positiva, seja como substância, seja como modo, mesmo aquelas que são apenas possíveis, têm n’Ele seu princípio e causa, seu modelo e regra, seu fim e objetivo último: um princípio intransmissível, mas não inatingível; causa absoluta, mas que age com liberdade; exemplar perfeito, que resplandece de forma imperfeita nas criaturas por causa de sua limitação necessária, e não por insuficiência da bondade divina; fim supremo, que cada ser busca à sua maneira e encontra — ou pode encontrar — nos limites próprios de sua natureza. Pois, se o mal vislumbrado pelos seres finitos se torna objeto de sua busca ardente, isso não ocorre por ser mal, mas por se apresentar como aparência de bem: nenhuma coisa é completamente desprovida de bem, e o mal é uma privação do ser, não uma existência positiva.

Assim devem ser compreendidos todos os nomes gloriosos que a Escritura atribui a Deus: a bondade, o maior de todos os títulos, porque se estende não apenas a tudo o que é, mas a tudo o que pode ser; o amor, que fecunda até mesmo o nada; a luz, símbolo suave e exato d’Aquele que é o sol dos espíritos e que revestiu as estrelas de esplendor; a beleza e o amor, o ser, a vida, o poder, a justiça, a salvação e a redenção. Mesmo os extremos se encontram e se unem harmoniosamente em Deus, a quem a Escritura atribui simultaneamente a grandeza e a pequenez, a identidade e a distinção, a semelhança e a dissemelhança, o repouso e o movimento. Finalmente, sua superioridade e excelência transcendentes são expressas pelo nome de Deus dos deuses, Rei dos reis, Senhor dos senhores.

CAPÍTULO I
QUAL É O OBJETIVO DESTE DISCURSO, E O QUE NOS É ENSINADO A RESPEITO DOS NOMES DIVINOS

ARGUMENTO.
I. Deve-se buscar nas Escrituras o conhecimento de Deus; pois as coisas sensíveis nos fazem compreender mal as realidades espirituais, e ainda pior a divindade.
II. Por isso, só se deve falar de Deus com base nas Escrituras, onde Ele se revelou conforme a capacidade da nossa natureza.
III. Por conseguinte, ao receber o que nos é ensinado, não se deve sondar com olhar ousado a majestade divina.
IV. Na verdade, aqui embaixo só a conhecemos de modo enigmático, por meio de Suas operações misteriosas;
V. Pois tudo vem d’Ele, e é correto dizer que os nomes de Suas diversas obras Lhe convêm e não Lhe convêm; que tudo se pode afirmar e tudo se pode negar a Seu respeito;
VI e VII. Assim, nenhum nome O exprime adequadamente, e todos os nomes Lhe são aplicáveis;
VIII. Por esse mesmo motivo, os benefícios providenciais de Deus e Suas diversas ações são usados para qualificá-Lo.

I. Após minhas Instituições Teológicas, ó piedoso companheiro, creio dever empreender a explicação dos nomes divinos. Aqui também, retornemos à regra traçada pelas Escrituras: que não apoiemos aquilo que afirmamos sobre Deus em palavras persuasivas da sabedoria humana, mas sim naquela ciência firme que o céu inspirou aos nossos mestres, pela qual nos unimos de modo inefável e desconhecido àquilo que não pode ser dito nem compreendido: uma união, sem dúvida, superior a tudo quanto a nossa razão e nosso entendimento podem atingir. Que ninguém, pois, se atreva a dizer ou mesmo pensar qualquer coisa sobre a natureza superessencial e misteriosa de Deus, além daquilo que nos foi revelado do alto pelos oráculos sagrados. Pois apenas à divindade pertence conhecer infinitamente a sua perfeição infinita, que ultrapassa todo discurso, todo pensamento, toda substância; ao passo que o homem a ignora.

Elevemos apenas nosso olhar para os céus, tanto quanto a luz das palavras divinas nos quiser iluminar, e cheios de reverência e santidade diante desses mistérios, não aspiremos às mais sublimes esplendores. Com efeito, segundo os profundos e verídicos ensinamentos da teologia, as coisas divinas são reveladas e apresentadas a cada inteligência segundo sua própria capacidade; e a bondade eterna, usando de uma reserva salutar e santa, não entrega sua incompreensível imensidade aos seres finitos. Porque, assim como aquilo que é inteligível não pode ser percebido pelas coisas sensíveis; nem o que é simples e imaterial, pelas coisas múltiplas e compostas; nem o que é incorpóreo, impalpável, sem figura ou forma, por aquilo que tem figura e forma corpóreas; da mesma forma — e por esse mesmo princípio — o Infinito em sua excelência está acima de todos os seres; a unidade suprema escapa necessariamente a toda concepção. Unidade sublime: nenhum pensamento pode alcançá-la, nenhuma palavra pode expressar esse bem inexprimível; unidade mãe de toda unidade, natureza suprema, inteligência incompreensível, palavra inefável, sem razão, sem entendimento, sem nome; ela não existe à maneira das outras existências; é a causa de todas as coisas, e, no entanto, não é — porque ela ultrapassa tudo o que é, como ela mesma afirma exclusivamente, nas profundezas de sua ciência.

II. Por isso, como já afirmei, só é permitido dizer e pensar sobre a natureza suprema e misteriosa de Deus aquilo que foi revelado nas Sagradas Escrituras. Pois ali, o próprio Deus se dignou ensinar-nos que nenhum ser pode ver ou conhecer o que Ele é, por causa da absoluta superioridade de sua essência. E vereis, de fato, a multidão dos teólogos proclamar não apenas que Ele é invisível e incompreensível, mas também que seria vão tentar sondar esse abismo, pois não há caminho que leve às suas misteriosas e infinitas profundezas.

Entretanto, isso não significa que o Bem soberano exclua qualquer ser de sua participação; ao contrário, Ele tira de seu tesouro inesgotável e derrama sobre todas as coisas, proporcionalmente à sua capacidade, os benefícios de seus esplendores sagrados. Mais ainda, Ele eleva, tanto quanto possível, à sua contemplação, à sua comunhão e à sua semelhança, as inteligências piedosas que se lançam para Ele com ardor reverente, que não ambicionam, por orgulho insensato, mais luz do que lhes foi concedida, nem caem numa vergonhosa preguiça espiritual; mas, sem hesitação e sem inconstância, caminham rumo à claridade com que Deus as favorece, e, medindo seu amor pelos dons celestes, seguem seu voo com discrição, fidelidade e coragem.

III. Obedientes a essas santas leis, às quais nem mesmo os coros sagrados do exército celestial escapam, nós nos aproximamos do segredo divino, que ultrapassa todo ser e todo entendimento — não com uma curiosidade temerária, mas com um respeito religioso — e honramos o inefável com um silêncio humilde. Lançamos nosso olhar sobre os esplendores que a Escritura divina nos transmite e, nessa luz, encontramos os verdadeiros louvores a Deus. Pela graça desse ensinamento sobrenatural, somos moldados para receber a augusta claridade que ela nos comunica na medida da nossa aptidão, e para celebrar o doce princípio de toda iluminação santa, segundo aquilo que Ele nos revelou de si mesmo nas Escrituras.

Assim dizemos: Ele é a causa, a origem, a essência e a vida de todas as coisas; Ele chama de volta e ressuscita aqueles que se afastaram d’Ele; Ele refaz e restaura aqueles que deixaram corromper-se neles a santa imagem de Deus; Ele fixa no bem aqueles que vacilam ao sopro das paixões impuras; Ele fortalece a virtude; Ele anima e sustenta o justo que aspira à perfeição. Ele é a luz dos iluminados, a santidade dos perfeitos. É em Sua divindade que as criaturas se divinizam, em Sua simplicidade que se simplificam, em Sua unidade que elas próprias alcançam a unidade. Ele é o princípio radical e supremo de todo princípio; Ele manifesta o segredo de Sua perfeição com uma bondade sábia. Em suma, Ele é a vida do que vive, a essência do que existe, o princípio e a causa de toda vida e de toda existência, por meio da fecundidade de seu amor, que criou e conserva as criaturas.

IV. Eis o que nos ensinam as Escrituras, e observareis que, para nos fazer conhecer e louvar a divindade, os teólogos compuseram todos os nomes com que a invocam, a partir de seus atributos e de suas obras augustas. Que vemos, então, em quase todas as páginas dos santos oráculos? Deus é ali celebrado, ora como suprema unidade, por causa de Sua simplicidade, de Sua absoluta indivisibilidade, na qual os homens são criados com sua individualidade própria e, apesar de suas múltiplas e diversas potências, são reconduzidos a um maravilhoso conjunto e a uma espécie de unidade divina; ora como Trindade, para exprimir essa fecundidade suprema das três pessoas, de onde toda paternidade tira sua origem e seu nome, tanto no céu como na terra.

Ele é louvado aqui como soberano autor de tudo, porque de fato todas as coisas receberam o ser de Sua bondade criadora; ali, como sábio e belo, porque os seres, se conservam sua natureza em sua pureza original, estão cheios de harmonia divina e beleza celeste. Finalmente, Ele é excelentemente chamado nosso amigo, porque uma das pessoas divinas dignou-se tornar-se verdadeiramente homem, chamar a si e unir a Si a fraqueza humana: aliança milagrosa, em que duas substâncias se encontraram em um só Jesus, em que o eterno se submeteu às condições do tempo, em que aquele que ultrapassa infinitamente toda natureza, por mais elevada que seja, desceu até o nada da nossa, sem que, no entanto, suas propriedades diversas fossem alteradas ou confundidas.

Em suma, há uma multidão de outras luzes conformes às das Escrituras, que nossos antepassados nos transmitiram no segredo de seu ensinamento tradicional. Ora, nós as acolhemos, mas sob o véu de símbolos religiosos, como exige nossa condição presente; pois, por amor à humanidade, a tradição sacerdotal, assim como os oráculos divinos, esconde o que é inteligível sob o que é material, e aquilo que ultrapassa todos os seres sob o véu desses mesmos seres; ela dá forma e figura ao que não tem forma nem figura, e pela variedade e materialidade desses emblemas, ela torna múltiplo e composto o que é excelentemente simples e incorpóreo.

Mas, quando formos tornados incorruptíveis e imortais, e quando Cristo nos tiver associado à Sua glória, então, como está escrito, habitaremos eternamente com o Senhor; e, admitidos à casta contemplação de Sua santa humanidade, Ele nos inundará com os torrentes de Sua luz esplêndida, como aconteceu com os discípulos no mistério da transfiguração; igualmente, Ele fará brilhar Suas claridades inteligíveis sobre nossa alma, então liberta da matéria e das paixões; e, entre as doçuras de uma união inconcebível, ela se embriagará dos raios resplandecentes desse maravilhoso sol, à semelhança das inteligências celestes; pois, como diz a Palavra da Verdade, seremos semelhantes aos anjos e filhos de Deus, porque seremos filhos da ressurreição. Mas aqui embaixo, as coisas divinas não nos aparecem senão através de símbolos acomodados à nossa natureza enferma; por meio deles é que alcançamos, até certo ponto, as realidades espirituais em sua simplicidade e unidade; e é também assim que, possuindo essas noções sobre o mundo angélico, fazemos cessar toda operação do entendimento, para contemplar, tanto quanto possível, o esplendor de Deus: luz infinita, onde estão fixados de forma inefável os limites do nosso saber, e que não pode ser compreendida, nem expressa, nem perfeitamente vista, porque está acima de todas as coisas e é absolutamente desconhecida; porque ela contém e ultrapassa eminentemente os limites que podem alcançar a essência e a força de todas as criaturas reunidas; porque, enfim, em sua sublimidade, ela não é captada nem mesmo pela inteligência das naturezas angélicas.

V. Mas se Deus excede toda palavra, todo saber, todo entendimento, toda substância — pois Ele envolve, penetra, abraça e sustém eternamente todas as coisas —, se Ele é absolutamente incompreensível, se não pode ser atingido pelos sentidos, pela imaginação, pelas conjecturas, se não pode ser nomeado, descrito, alcançado pelo entendimento ou conhecido, então como ousamos nós propor um tratado sobre os nomes divinos, quando se demonstra que o Ser supremo não possui nome e está acima de todo nome?

Com certeza, como já expusemos no nosso tratado Instituições Teológicas, não se pode expressar nem conceber o que é esse Um, esse Desconhecido, essa Natureza infinita, essa Bondade essencial — quero dizer: essa Unidade em três Pessoas, que são um só e mesmo Deus, um só e mesmo Bem. Mais ainda: essa comunhão sagrada entre as virtudes celestes e a Bondade que é ao mesmo tempo luminosa e misteriosa, seja considerando o que Deus comunica, seja o que os anjos recebem, essa comunhão piedosa não é nem explicada, nem conhecida; e mesmo entre os coros sagrados, apenas aqueles que foram elevados a um grau de conhecimento superior sabem algo a respeito.

Entre nós há também espíritos que receberam semelhante graça, tanto quanto é possível ao homem se aproximar do anjo: são aqueles que, pela cessação de toda operação do intelecto, entram em união íntima com a luz inefável. Ora, esses não falam de Deus senão por negações — e isso é perfeitamente apropriado: pois nessas suaves comunicações com Deus, foram sobrenaturalmente iluminados por esta verdade: que Deus é a causa de tudo o que existe, mas Ele próprio não é nada do que existe, pois Seu ser transcende infinitamente todo ser.

Assim, qualquer que seja em si a natureza supra-substancial de Deus e Sua bondade imensa, aquele que honra essa verdade que ultrapassa toda verdade não Lhe atribuirá nomes como razão, poder, entendimento, vida ou essência; antes, dirá que Ele está infinitamente acima de tudo o que é hábito, movimento, vida, imaginação, conjectura, denominação, palavra, raciocínio, intuição e substância; acima de tudo o que é invariante e estável; acima de toda união, de todo limite, de toda infinitude — acima de todas as coisas.

Pois, já que Deus, que é a bondade por essência, em virtude de Seu ser, produziu todos os seres, convém louvar Sua providência — fonte de todo bem — por meio das Suas próprias obras. Porque todas as coisas estão ao redor d’Ele, e existem por causa d’Ele; Ele precede todas as coisas e, n’Ele, todas subsistem. É porque Ele é que o universo foi criado e continua existindo; toda a criação gravita em direção a Ele: os seres dotados de inteligência e razão, por meio do conhecimento; os inferiores, por meio da sensibilidade; e os demais, pelo movimento da vida ou, ao menos, pelo simples fato de existirem como substâncias ou como modos de ser.

VI. É com base nessa dupla ideia que os teólogos afirmam que Deus não pode ser nomeado — e, no entanto, Lhe aplicam todos os nomes. Assim, de um lado, relatam que numa dessas misteriosas manifestações sensíveis da divindade, quando um mortal perguntou: “Qual é o teu nome?”, Deus lhe respondeu com uma espécie de reprovação: “Por que perguntas o meu nome? Ele é Admirável.” E de fato, não é realmente admirável esse nome sublime, que não pode ser pronunciado e está acima de todos os nomes, seja neste século, seja no século futuro?

Por outro lado, a teologia aplica a Deus todas as denominações; ela O apresenta dizendo de Si mesmo: “Eu sou aquele que é”; “Eu sou a vida, a luz, o Senhor, a verdade.” Ela O celebra como criador; e, descrevendo a multiplicidade de Suas obras, chama-O de bom, belo, sábio e amado; chama-O de Deus dos deuses, Senhor dos senhores, Santo dos santos, o Eterno, o Ser, o Pai dos séculos; chama-O de autor da vida, de sabedoria, de inteligência, de Verbo. Ele conhece e possui todos os tesouros da ciência; é forte e poderoso; é o Rei dos reis, o Ancião dos dias; é sem velhice e sem mudança; é salvação, justiça, santificação e redenção; sobrepuja tudo em grandeza; é levado por um sopro leve.

Ele habita os corações, os espíritos e os corpos, o céu e a terra; imóvel em Si mesmo, está no mundo, em torno do mundo, além do mundo, além dos céus, além de toda substância; é sol, estrela, fogo e água, vento, orvalho e nuvem, pedra angular e rochedo; Ele é tudo o que é — e não é nada do que é.

VII. Por isso, convém dizer igualmente que nenhum nome se aplica a Ele e que todos os nomes Lhe convêm: por esse modo, confessa-se que Ele tem um domínio absoluto sobre a criação; que todas as coisas estão centradas n’Ele, como seu princípio, causa e fim; que Ele é tudo em todos, como dizem as Escrituras; e que, ao mesmo tempo, Ele não é nenhuma dessas coisas. Por isso, proclama-se com razão que Ele produz os seres, concedendo-lhes o ser e a perfeição; que Ele vela pela sua conservação e lhes serve de abrigo, por assim dizer; que Ele os reconduz a Si, permanecendo sempre Um, incompreensível, inefável.

Com efeito, Deus não é apenas o princípio da conservação, da vida e da perfeição, a ponto de se Lhe atribuir algum bem particular para representar Sua bondade, que está acima de todo nome; mas, ao contrário, porque, na riqueza infinita e simplicidade da Sua natureza, Ele viu e abarcou eternamente todos os seres, por meio da doce bondade de Sua providência universal, tudo aquilo que é real em qualquer coisa pode ser afirmado a Seu respeito.

VIII. E não é apenas dos atos e objetos dessa providência geral ou particular que os teólogos tomam os nomes divinos; mas também se inspiram nas aparições maravilhosas que, nos templos ou em outros lugares, iluminaram os iniciados e os profetas. Conforme as diversas circunstâncias e visões, atribuem diferentes nomes a essa Bondade que ultrapassa toda magnificência e toda expressão. Atribuem-Lhe formas humanas, representando-a sob o símbolo do fogo e do âmbar; dão-Lhe olhos, ouvidos, cabelos, rosto, mãos, ombros, asas, braços, costas e pés. Falam de Sua coroa, de Seu trono, de Seu cálice, de Sua taça, e de uma infinidade de outras atribuições figuradas, que tentaremos explicar mais adiante em nossa teologia simbólica.

Mas, por ora, recolhamos dos santos oráculos o que se refere ao tratado que empreendemos; e, sem perder de vista a regra que previamente estabelecemos, avancemos para a explicação mística dos nomes divinos. Para nos conformar às piedosas prescrições da teologia, contemplemos com os olhos de um espírito divinizado esses nomes pelos quais Deus verdadeiramente se manifesta, e inclinemos os ouvidos de um coração puro à interpretação que deles é dada.

E, obedientes ao ensinamento tradicional segundo o qual as coisas santas devem ser reservadas aos santos, não as entreguemos à zombaria e ao escárnio dos profanos; e, se por acaso encontrarmos tais pessoas, afastemo-las antes dessa guerra infeliz que fazem contra Deus. Guarda, pois, fielmente esse segredo, como ordena a tradição, ó bem-amado Timóteo, e não te aventures a divulgar inconsideradamente as coisas divinas aos indignos. Quanto a mim, que Deus me conceda louvar dignamente todos os nomes dessa Bondade infinita que nenhum nome pode designar, e que Ele não retire dos meus lábios a palavra da verdade.

CAPÍTULO II

DAS DENOMINAÇÕES COMUNS E PARTICULARES DAS PESSOAS DIVINAS, E O QUE SIGNIFICAM UNIDADE E DISTINÇÃO EM DEUS

ARGUMENTO
I. A bondade, a beleza, a verdade, a sabedoria e outros atributos absolutos, assim como as operações ad extra, como diz a teologia, devem ser atribuídas a toda a Trindade, pois dizem respeito à essência de Deus, que é única nas três pessoas.
II. Assim como não se deve afirmar de modo distinto os atributos essenciais, também não se deve confundir os atributos pessoais,
III. cuja perfeita distinção é importante conhecer.
IV. Os primeiros constituem o que se chama unidade ou união em Deus; os segundos, as distinções.
V. As pessoas divinas se distinguem por relações, mas não pela obra da criação, na qual Deus é participado pelas criaturas finitas, não substancialmente, mas de forma real.
VI. Mesmo essa participação varia conforme as criaturas, de acordo com sua capacidade natural, não por imperfeição das comunicações divinas.
VII. É por essas participações — irradiações misteriosas da natureza divina nas coisas contingentes — que podemos formar algum conceito sobre a divindade.
VIII. Assim, todas as coisas procedem de Deus, que é verdadeiramente a fonte da paternidade e da filiação; mas deve-se notar que o efeito representa a causa, sem contudo esgotá-la.
IX. Além disso, o mais incompreensível entre os atos de Deus é a encarnação do Verbo,
X. fato admirável pelo qual a natureza humana foi unida à glória da divindade.
XI. Enfim, apesar da multiplicidade e diversidade das obras e dos benefícios divinos, a natureza de Deus permanece sempre idêntica e imutavelmente una.


I. Segundo o ensinamento das Escrituras, a bondade essencial é um atributo que caracteriza e dá a conhecer a própria natureza de Deus. E não é exatamente isso que a teologia quer dizer quando nos mostra a própria divindade pronunciando as palavras: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus somente.” Ora, examinamos e estabelecemos em outro lugar que todas as denominações aplicáveis a Deus são atribuídas nas Escrituras não a uma única das adoráveis pessoas, mas à divindade considerada em sua plenitude, totalidade e perfeição. São designações gerais, absolutas, que se referem à infinita riqueza da essência divina em sua totalidade.

De fato, como já demonstramos em nossas Instituições Teológicas, negar que essa palavra se refira às três pessoas ao mesmo tempo é um blasfemo atentado à unidade da sua natureza indivisível. Portanto, a interpretação que damos é fiel ao sentido do oráculo: pois o Verbo, que é bondade por essência, disse: “Eu sou o Bom”, e o Espírito Santo é chamado de bom nos salmos inspirados do profeta.

Se alguém disser que a afirmação “Eu sou aquele que sou” não se aplica à divindade inteira, mas apenas a uma das pessoas, como explicar então o que lemos em outra passagem: “Assim fala aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso”? Ou ainda: “Para Vós, Senhor, os séculos são iguais, e Vós sois sempre o mesmo”? Ou mais: “O Espírito da verdade, que é e que procede do Pai”?

E se se pretender que a vida não pertence à Trindade inteira, como então se entenderá esta palavra do Verbo sagrado: “Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, também o Filho dá a vida a quem Ele quiser”? E também esta: “É o Espírito que vivifica.”

É evidente que a soberania da divindade sobre todo o universo pertence tanto ao Pai quanto ao Filho, já que as Escrituras os chamam, em muitos lugares, de Senhor. Mas também o Espírito Santo é chamado Senhor. Da mesma forma, a beleza e a sabedoria são atribuídas à divindade toda. E a luz, a capacidade de divinizar, a causalidade e os outros atributos absolutos da essência divina são mencionados nas Escrituras como próprios da divindade sem distinção.

Assim está escrito de forma geral: “Tudo vem de Deus”. E a uma pessoa em particular se aplica: “Todas as coisas foram feitas por Ele e para Ele, e subsistem n’Ele.” E sobre a terceira pessoa: “Enviareis o Vosso Espírito, e eles serão criados.”

Em suma, o próprio Verbo divino disse: “Eu e o Pai somos um.” E ainda: “Tudo o que é do Pai é meu.” E: “Tudo o que é meu é teu, e o que é teu é meu.”

E aquilo que Ele possui em comum com o Pai, como operar obras divinas, ser adorado, ser causa fecunda e inesgotável, e distribuir os dons da graça, Ele comunica substancialmente ao Espírito Santo. E creio que qualquer um que estude as Sagradas Escrituras com intenção pura reconhecerá sem dificuldade que tudo o que existe em Deus está igualmente nas três pessoas, todas igualmente perfeitas.

Por isso, limito-me aqui a apenas indicar esse ponto, pois já o estabeleci com provas abundantes das Escrituras em outro lugar. As denominações comuns e absolutas que tentarei explicar devem ser compreendidas como se referindo a toda a Trindade.


II. Se alguém objetar que, ao proceder assim, confundimos em Deus aquilo que deveríamos distinguir, responderemos que é impossível justificar tal censura. Pois, se tal contraditor nega desde o início a autoridade dos divinos oráculos, ele se coloca fora do nosso campo teológico; e, uma vez que não dá valor à sabedoria sagrada das Escrituras, por que razão quereríamos iniciá-lo na ciência teológica?

Mas, se aceita a verdade da Palavra revelada, nós, guiados por essa regra e iluminados por sua luz, apressar-nos-emos em lhe oferecer nossos argumentos com boa vontade. Diremos que o ensinamento sagrado fala ora de identidade, ora de distinção; que não se deve dividir aquilo que é um, nem confundir o que é distinto; e que, obedientes a essa doutrina, devemos acolher fielmente suas sublimes revelações. Pois é por meio delas que os segredos divinos nos são revelados; e aquilo que nos é dado conhecer, devemos conservar como uma norma perfeita da verdade, sem adição, nem subtração, nem alteração.

Esse respeito religioso será, ao mesmo tempo, nossa proteção pessoal e nossa força ao justificar todo aquele que professa a mesma submissão às Escrituras.


III. Segundo isso — e como já foi amplamente demonstrado nas Instituições Teológicas pela autoridade das Escrituras — são comuns a toda a Trindade os nomes que a colocam acima de toda bondade, divindade, essência, vida e sabedoria; e todos os nomes usados pela teologia negativa e transcendental; e também os que expressam causalidade, como bondade, beleza, ser, força vivificante, sabedoria; bem como aqueles que manifestam os doces benefícios pelos quais Deus é chamado princípio de todo bem.

Por outro lado, são próprios e exclusivos os nomes e as pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a tal ponto que não se pode fazer sobre eles afirmações recíprocas ou generalizações absolutas. Também se deve considerar como pessoal e intransmissível a encarnação de Jesus, que se fez homem sem deixar de ser Deus, e as obras misteriosas que Ele verdadeiramente realizou em sua santa humanidade.


IV. Mas creio necessário retomar a explicação desde o princípio, para esclarecer o que significam essa unidade e essa distinção perfeitas em Deus, e dar assim mais clareza às nossas palavras, evitando confusão e obscuridade, e conduzindo nosso raciocínio com toda a precisão, clareza e ordem possíveis.

Pois bem, como foi dito em outro lugar, os antigos mestres da teologia chamam unidade em Deus às propriedades misteriosas e absolutas dessa essência indivisível, que não se pode nem expressar nem conhecer; e chamam distinções às processões e manifestações da fecundidade divina. Afirmam ainda, sempre com base nas Escrituras, que essa unidade fundamental possui caracteres próprios, e que, em cada distinção, há uma unidade e também distinções relativas.

Por exemplo, na unidade absoluta de sua natureza transcendente, a Trindade inteira possui em comum o ser no mais alto grau, a divindade com toda sua riqueza, a bondade imensurável, a eterna imutabilidade de uma independência sem limites, a unidade por excelência. À Trindade inteira pertence o privilégio de não poder ser nomeada, e ainda assim merecer todos os nomes; de ser incompreensível e, no entanto, concebida; de criar e destruir, sem poder ser criada nem destruída.

Às três adoráveis pessoas, juntas, pertence a glória de habitar constantemente uma na outra — se é permitido falar assim — de modo que a mais estrita unidade subsista com a mais real distinção.

É como, por exemplo, num aposento iluminado por diversas lâmpadas, as várias luzes se combinam e estão todas em todas, sem, contudo, confundir-se ou perder sua existência própria e individual, unidas com distinção e distintas na unidade. De fato, da luz irradiada por cada lâmpada, forma-se um único brilho total, uma mesma e indivisível claridade; e ninguém, que eu saiba, poderia, no ar que recebe essas luzes, discernir a luz desta da luz daquela, ou ver uma sem a outra, pois todas estão reunidas, mas não misturadas, num mesmo feixe comum.

E se se retirar uma dessas lâmpadas do recinto, sua luz se retirará com ela, mas ela não levará nada da luz das outras, nem lhes deixará nada da sua. Pois, como dissemos, a aliança de todos esses raios é íntima e perfeita, sem implicar, no entanto, alteração ou confusão.

Ora, se tal fenômeno pode ser observado no ar — uma substância grosseira — e com relação a um fogo puramente material, o que se deve então pensar da união divina, infinitamente superior a toda união que se realiza não só entre os corpos, mas até mesmo entre as almas e os espíritos puros?

V. Se os nomes divinos devem ser aplicados com distinção, isso não se verifica apenas ao afirmar, como fizemos acima, que as três adoráveis Pessoas, embora unidas perfeitamente, conservam sua subsistência própria, mas também quando é preciso mostrar que, na geração eterna, nem tudo se realiza de modo recíproco. Com efeito, somente o Pai é a fonte substancial da divindade; o Pai não é o Filho, e o Filho não é o Pai. A linguagem sagrada atribui invariavelmente a cada Pessoa as suas propriedades relativas. Eis, pois, o que há de comum e de distinto nessa natureza inefável e indivisível.

Mas também se deve considerar como distinção em Deus as obras que Ele realiza por Sua bondade fecunda, permanecendo, contudo, a unidade inalterada, ainda que velada sob formas múltiplas. Nessa obra de distinção, encontramos a ação comum às três Pessoas, pois seu fundamento é o ato incompreensível pelo qual Deus comunica o ser, a vida, a sabedoria e as demais maravilhas da Sua benevolência. Essa benevolência se manifesta em Suas dádivas e naqueles que delas são objeto como algo ao mesmo tempo inefável e condescendente.

É, pois, uma ação indivisível e, por conseguinte, própria de toda a Trindade, admitir as criaturas à Sua participação — não substancial, mas real. Assim como o ponto central de um círculo está igualmente relacionado com todas as linhas que partem da circunferência até ele, ou como múltiplas impressões participam de um mesmo selo, cada uma conservando a forma total sem que o selo perca sua substância ou se divida, do mesmo modo participam as criaturas da perfeição divina.

Entretanto, mesmo essas comparações são insuficientes para expressar a relação entre a causa suprema do universo e os seres que participam dela. Pois não existe nenhum contato, nenhuma união real que estabeleça identidade entre ela e aqueles que são admitidos à sua participação.

VI. Alguém poderá objetar que as impressões deixadas pelo selo nem sempre são perfeitas, nem idênticas entre si. Mas isso não é culpa do selo, que sempre se apresenta com as mesmas condições. A desigualdade observada entre as impressões deve-se exclusivamente à diversidade das matérias sobre as quais ele atua. Se o material for suave e facilmente moldável, se for polido e novo, se não oferecer resistência pela dureza ou deficiência pela moleza excessiva, então ele receberá uma imagem pura, perfeita e duradoura. Mas, se lhe falta alguma dessas qualidades, o selo não será reproduzido fielmente, ou será reproduzido de forma deficiente, por causa das imperfeições da própria matéria.

Do mesmo modo, embora Deus ofereça Sua plenitude de maneira perfeita e idêntica a todos, os seres a recebem de modo desigual, conforme sua própria capacidade natural. A perfeição e a variedade das participações não provêm de uma limitação da fonte, mas da limitação dos recipientes.

É também preciso reconhecer uma distinção, e muito singular, no que diz respeito à salvação que nos foi concedida pela misericórdia divina: pois foi o Verbo superessencial quem unicamente assumiu realmente a nossa natureza em todos os seus elementos; e somente Ele realizou e padeceu, em Sua santa humanidade, tudo aquilo que Deus quis operar e sofrer. Nem o Pai, nem o Espírito Santo tomaram parte nesse rebaixamento, exceto — se assim se pode dizer — pela compaixão amorosa com que nos favoreceram, e pela incomparável dignidade dos atos realizados por meio da humanidade daquele que permanece imutável em sua divindade e como Verbo de Deus.

É assim, pois, que tentamos, em nossas palavras, unir e distinguir o que é uno e o que é distinto na divindade.

VII. As razões profundas e piedosas dessas uniões e distinções divinas foram por nós extraídas das Sagradas Escrituras e desenvolvidas, com tanto detalhamento quanto possível, nas nossas Instituições Teológicas. Expusemos as razões racionais com clareza, aplicando um espírito sereno e puro às luzes da Palavra Sagrada. E quanto às razões místicas, estudamo-las como prescreve a tradição: por meio de uma faculdade mais elevada que toda operação do intelecto. Pois só conhecemos as coisas divinas e aquilo que o céu nos manifesta na medida em que participamos delas; mas dizer o que elas são em seu princípio e em suas formas é algo que ultrapassa todo entendimento, toda natureza e toda ciência.

Assim, quando chamamos esse oceano misterioso do ser com os nomes de Deus, Vida, Substância, Luz ou Verbo, não concebemos senão as graças que dele nos vêm e pelas quais nos são comunicadas a divinização, a existência, a vida ou a sabedoria. Mas quanto a Ele mesmo, só podemos alcançá-Lo pelo completo silêncio das nossas faculdades intelectuais, sem ver claramente nessas noções nem divinização, nem vida, nem substância que possam se comparar, de modo exato, com essa Causa primeira que está infinitamente acima de tudo.

Aprendemos também nas Sagradas Escrituras que o Pai é a fonte da divindade, e que o Filho e o Espírito são, por assim dizer, os frutos maravilhosos dessa fecundidade, flores e esplendores dessa natureza rica. Mas como isso se dá, é o que não se pode dizer, nem conceber.

VIII. Nossa inteligência se limita a compreender que toda paternidade e filiação sagrada, tanto entre nós quanto entre os anjos, provêm daquela paternidade e filiação primordiais e sublimes. E que, desse modo, os espíritos puros tornam-se deuses pela graça e são chamados filhos e pais de deuses.

Essa misteriosa fecundidade realiza-se espiritualmente, ou seja, sem mediação dos sentidos ou da matéria, mas apenas pela inteligência. Aliás, o Espírito Santo eleva-se acima de toda imaterialidade e deificação possíveis, do mesmo modo que o Pai e o Filho ultrapassam, em excelência, toda paternidade e filiação criadas.

Com efeito, não existe comparação perfeita entre os efeitos e suas causas. É verdade que os efeitos guardam uma certa semelhança distante com a sua causa, mas esta conserva sempre uma superioridade invencível, justamente porque é o seu princípio. Assim, para tomar exemplos acessíveis: diz-se que o prazer e a dor produzem alegria e tristeza, mas não se diz que eles próprios se alegram ou se entristecem; o fogo aquece e queima, mas ele mesmo não é aquecido nem queimado. E não me parece exato dizer que a vida vive, ou que a luz é iluminada — exceto talvez para indicar que a causa possui essencialmente e em grau supremo tudo aquilo que se encontra nos seus efeitos.

IX. O aspecto mais sensível da doutrina sagrada — o fato da encarnação do Salvador — não pode ser expresso por nenhuma palavra, nem compreendido por nenhuma inteligência, nem mesmo pela mais elevada entre as inteligências angélicas. Que Deus tenha realmente se feito homem, é uma verdade que aceitamos com reverência. Mas como Ele foi formado do sangue puro de uma virgem, contra todas as leis da natureza? Como andou sobre as águas com pés sólidos, sem que a sua leveza natural cedesse ao peso de seu corpo? E como se realizaram os outros milagres do Senhor? Isso nos é impossível de entender.

Tratamos disso suficientemente em outro lugar, e nosso ilustre mestre — em seus Elementos de Teologia — escreveu coisas admiráveis sobre esse ponto, seja porque as tenha recebido dos teólogos piedosos, seja porque as tenha descoberto nas Escrituras por uma pesquisa profunda, seja, finalmente, porque as tenha recebido por uma inspiração particular, tendo não apenas aprendido, mas experimentado as realidades divinas, e, por assim dizer, formado interiormente por esse ensinamento do coração, para essa união mística e essa fé que jamais se adquire nas lições de um homem.

Para dar uma breve amostra das suaves contemplações dessa inteligência iluminada, citamos o que ele escreveu a respeito de Jesus Cristo, em seu tratado mencionado.

X. Trecho dos Elementos de Teologia do bem-aventurado Hiérothée:

“A divindade do Senhor Jesus é a causa e o cumprimento de todas as coisas; ela mantém os seres num conjunto harmonioso, sem ser nem o todo, nem uma parte; e, no entanto, é tanto o todo como as partes, pois contém em si, por excelência e de toda a eternidade, tudo e cada coisa.

Como princípio de perfeição, ela é perfeita nas coisas imperfeitas; e, precisamente porque sua perfeição é superior e anterior, ela não é perfeita nas coisas perfeitas.

Como forma suprema e primordial, dá forma ao que não a possui; e, nas coisas já dotadas de forma, parece não ter forma — pela excelência da sua própria forma.

Substância augusta, penetra todas as substâncias sem manchar sua pureza, sem descer de sua sublime elevação.

Ela determina e classifica entre si os princípios das coisas, e permanece infinitamente acima de todo princípio e de toda classificação.

Ela fixa a essência dos seres.

Ela é a duração; ela é anterior aos séculos e mais poderosa que os séculos.

Sua plenitude se manifesta na carência das criaturas; sua superabundância se revela naquilo que as criaturas possuem.

Indizível, inefável, superior a toda inteligência, a toda vida, a toda substância, ela possui sobrenaturalmente tudo o que é sobrenatural, e por excelência tudo o que é excelso.

É por isso (e que estas palavras sejam acolhidas com piedade) que, descendo até a nossa natureza e assumindo-a verdadeiramente, deixando-se chamar homem, o Verbo divino permaneceu acima da nossa natureza e da nossa substância — não apenas porque se uniu à humanidade sem alteração nem confusão da sua divindade, e porque a plenitude infinita de seu ser não foi diminuída por essa condescendência inefável — mas, o que é ainda mais admirável, porque ele se revelou superior à nossa natureza e substância até mesmo naquilo que nos é próprio e característico: ele possuiu de modo transcendente o que é nosso, o que procede de nós.”


XI. Mas voltemos ao nosso objetivo, e procuremos agora desenvolver os nomes divinos que exprimem uma distinção absolutamente comum às três pessoas da Trindade. E, para evitar qualquer ambiguidade, é preciso lembrar, como já foi dito, que chamamos de distinção todas as obras da bondade divina — ou seja, as suas manifestações ad extra —, realizadas por toda a Trindade, sem divisão de essência ou de operação.

Com efeito, ao chamar os seres à participação de sua bondade, ao derramar sobre eles o fluxo de seus dons, a divindade se manifesta como múltipla, separada, distinta nas suas operações, mas permanece em si mesma simples, indivisível, una.
Deus, sem sair de Sua unidade adorável, distribui a existência, a vida, a sabedoria a todos os seres. Por isso se diz que essa unidade sublime se multiplica nas coisas diversas que ela cria; e, no entanto, por entre essa multiplicidade, essa distinção, essa produção contínua de tudo, Deus permanece idêntico, imutável, indivisível — porque Ele está infinitamente acima de tudo; porque sua fecundidade não fragmenta sua substância; porque seus dons não empobrecem sua plenitude.

Do mesmo modo, quando comunica unidade a cada parte e a cada totalidade, a cada indivíduo e a cada conjunto, Ele conserva essencialmente sua unidade imutável — não como parte de um todo, nem como um todo composto de partes.
Não é dessa forma, certamente, que Ele é uno, ou que possui a unidade, ou que participa dela; antes, Ele é a unidade transcendental, a unidade radical de todos os seres; Ele é uma totalidade indivisível, uma plenitude sem medida; Ele cria, aperfeiçoa e abraça toda unidade e toda multiplicidade.

Assim também, quando, por graça divina, as criaturas são transformadas em deuses conforme suas capacidades próprias, parece — e de fato se diz — que há uma pluralidade de deuses diversos. Contudo, o Deus-princípio, o Deus supremo, permanece essencialmente único, unido a Si mesmo, indivisível nas coisas divisíveis, imune a toda mistura e sempre simples em meio às coisas múltiplas.

Foi isso que compreendeu, com iluminação sobrenatural, aquele que nos guiou — a mim e ao meu mestre — à luz celeste, esse homem profundo nas coisas sagradas, luz gloriosa do mundo, quando escreveu estas palavras inspiradas:

“Ainda que existam os que são chamados deuses, tanto no céu quanto na terra — como há muitos deuses e muitos senhores —, para nós, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e para quem nós somos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem são todas as coisas, e por quem nós também somos.” (1Cor 8,5-6)

Pois, em Deus, a unidade precede e domina a distinção; mas a distinção não fere, não divide a unidade.


Queremos, portanto, com todo o nosso zelo e reverência, celebrar essas distinções — ou, se preferirmos, essas obras de bondade — absolutamente comuns a toda a divindade. Explicaremos os nomes divinos pelos quais as Escrituras nos revelam essas obras.

Mas permanece como princípio firme e inalterável que todos os nomes sagrados que exprimem benevolência, operação, providência, poder ou dom, devem ser entendidos como se referindo indistintamente à Trindade inteira, independentemente da Pessoa divina à qual se queira aplicá-los em determinado contexto.


CAPÍTULO III
DA FORÇA DA ORAÇÃO, DO BEM-AVENTURADO HIÉROTHÉE, DA PIEDADE E DA MANEIRA DE FALAR DE DEUS

ARGUMENTO
I. Só pela oração podemos nos elevar a Deus — não que Ele esteja distante de nós, mas que nós nos elevamos até Ele; pois na oração, Deus não desce, nós é que subimos.
II. Há utilidade em tratar as questões que seguem, mesmo após outros autores tê-las abordado.
III. Sentimentos de humildade do autor em relação à sua obra.


I. Comecemos, se julgares apropriado, pelo estudo do nome “Bondade”, que exprime de maneira mais perfeita a totalidade das obras divinas. Antes de tudo, invoquemos a Trindade, suprema Bondade, causa de todo bem, para que ela mesma se digne revelar-nos os segredos da sua doce Providência. Pois é necessário que a oração nos conduza, primeiramente, ao Criador benevolente e que, aproximando-nos continuamente d’Ele, sejamos assim iniciados no conhecimento dos tesouros de graça que o cercam.

Na verdade, Ele está presente a todas as coisas; mas nem todas as coisas estão presentes a Ele. Quando O invocamos com oração pura, com espírito livre de ilusões e o coração preparado para a união divina, então nos tornamos presentes a Ele. Não se pode dizer que Ele esteja ausente, pois não habita um lugar determinado nem se move de um ponto a outro. E mesmo dizer que Ele está em todos os seres é expressar mal Sua infinitude, que abrange e transcende todas as coisas.

A oração, portanto, nos eleva à contemplação das esplêndidas perfeições da Bondade divina. É como se uma corrente de luz, suspensa no céu, descesse até a terra: se a segurássemos e, com as mãos, a puxássemos uma após a outra, pensaríamos estar atraindo essa luz para nós, quando, na verdade, ela permanece imóvel em suas duas extremidades — e somos nós que avançamos em direção ao seu brilho radiante.

Ou então, se num barco amarrado à costa segurássemos uma corda presa a uma rocha, ao puxá-la, não moveríamos a rocha, mas sim nos aproximaríamos dela. Ou, ainda, se alguém, no convés de um navio, empurrasse as montanhas da margem, não faria com que elas se afastassem, mas sim afastar-se-ia delas com seu próprio impulso.

Da mesma forma, em todos os nossos atos — e sobretudo ao tratar das coisas divinas — devemos começar com oração, não para atrair até nós essa força que está em toda parte e em parte alguma, mas para nos colocar sob sua influência e nos unir a ela pelo fervor da piedade e da invocação santa.

II. Mas talvez alguém me pergunte: já que o nosso mestre, o bem-aventurado Hiérothée, compôs seu admirável tratado dos Elementos da Teologia, seria necessário que eu escrevesse este e outros textos, como se o que ele nos legou fosse incompleto?

Com certeza, se ele houvesse continuado sua exposição teológica ordenadamente e desenvolvido, em tratados particulares, todo o conjunto da doutrina divina, jamais teríamos cometido a loucura ou a audácia de pensar que poderíamos falar das mesmas coisas com maior profundidade ou de forma mais elevada do que ele.

Não teríamos nos dado ao trabalho de repetir desnecessariamente seus ensinamentos, nem teríamos nos permitido essa desonestidade para com nosso mestre e amigo — a quem, depois de São Paulo, devemos a nossa iniciação à ciência divina — de nos apropriarmos da glória de seus pensamentos e sublimes instruções.

Mas como ele exprimia suas ideias de maneira elevada, por meio de sentenças breves, repletas de significados ocultos, todos nós que exercemos o ministério junto às almas ainda iniciantes na perfeição recebemos a ordem de tornar mais claros e acessíveis os ensinamentos profundos e concisos dessa inteligência poderosa.

Tu mesmo, repetidamente, me pediste isso, e confessaste que o livro de Hiérothée ultrapassava tua capacidade. E, de fato, vejo nele um guia para as almas avançadas na perfeição, quase como uma segunda Escritura, que se segue aos oráculos inspirados dos apóstolos — e creio que ele deve ser reservado aos espíritos superiores.

Quanto a mim, transmito, conforme posso, os mistérios divinos aos que são semelhantes a mim. Pois se a comida sólida é para os perfeitos, que perfeição não se requer naquele que se encarrega de a distribuir?

Por isso, julguei que convinha tratar dos primeiros elementos da doutrina sagrada com linguagem mais acessível, ainda que de modo imperfeito, sem repetir aquilo que nosso glorioso mestre já esclareceu de forma manifesta. Seria inútil tentar iluminar o que já está claro. Pois entre os próprios doutores inspirados, Hiérothée brilhava com esplendor especial — como tu mesmo testemunhaste naquela solene ocasião em que estivemos reunidos, tu, eu e muitos irmãos, para contemplar o corpo santíssimo que havia dado à luz a Vida, que carregara em si o próprio Deus encarnado.

Ali estavam Tiago, irmão do Senhor, e Pedro, chefe supremo dos teólogos. E pareceu conveniente que todos os bispos, cada um a seu modo, louvassem a Bondade divina que se dignara revestir-se de nossa fraqueza. Pois bem: depois dos apóstolos, Hiérothée superou todos os outros santos doutores; entrou em êxtase diante das maravilhas que proclamava; foi reconhecido por todos, mesmo por aqueles que não o conheciam, como um homem inspirado do céu e digno cantor da divindade.

Mas por que te repito essas coisas? Pois, se minha memória não falha, lembro-me de ter ouvido muitas vezes da tua própria boca trechos dessas divinas louvações, tanto era o fervor com que as recitavas.

III. Encerremos aqui essas recordações místicas, que não devem ser confiadas a ouvidos profanos e que tu mesmo conheces perfeitamente. Apenas lembremos o seguinte: quando se tratava de instruir o povo e conduzi-lo à santidade da fé, Hiérothée se distinguia pela firmeza de propósito, pela retidão de espírito, pela força de seus argumentos e pela elevação de seus discursos — ao ponto de nós mesmos ficarmos como que eclipsados diante do brilho desse sol espiritual.

Temos plena consciência da nossa inferioridade. Sabemos bem que não compreendemos como deveríamos aquilo que se pode saber de Deus, nem somos capazes de explicar como convém aquilo que d’Ele se pode dizer.

E, por isso, sendo tão inferiores aos homens perfeitos que possuem em plenitude a verdade teológica, uma espécie de temor sagrado nos impediria de abordar a filosofia divina, se não estivéssemos convencidos de que não se deve desprezar a ciência sagrada, mesmo quando ela nos é dada em pequena medida.

Esse impulso em nós se alimenta de dois sentimentos: de um lado, o desejo natural da alma, que aspira insaciavelmente à contemplação das realidades sobrenaturais; de outro, o sábio desígnio da lei divina, que nos proíbe de perscrutar com curiosidade o que nos excede e para o qual somos indignos e incapazes, mas que também nos ordena aprender com zelo e transmitir com bondade aquilo que é útil e permitido conhecer.

Por isso, nem a dificuldade do trabalho, nem a nossa própria fraqueza nos desviarão da busca das coisas divinas, dentro dos limites das nossas forças. Não queremos abandonar sem guia aqueles que ainda não podem subir a alturas maiores do que as nossas. Assim fomos levados a escrever — não para propor novidades ousadas, mas apenas para desenvolver e dividir, em forma mais acessível, os ensinamentos que Hiérothée expressou de maneira mais angélica.

FONTE: https://remacle.org/bloodwolf/eglise/denys/noms.htm

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