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por Romulo Angélico
Como visto, o Sêfer Hanock (O Livro de Enoch) faz menção a uma raça de gigantes, nascidos de íntimos contatos realizados entre Irin e mulheres humanas. Aqueles gigantes teriam encontrado seu fim durante o grande dilúvio e, como seres híbridos, após suas mortes, as almas que lhes pertenciam se mantiveram no mundo, vagando, interferindo em nossas vidas à guisa de demônios perturbados e famintos – não encontraram abrigo nem nos Céus, nem no Abismo.
No Tanakh (Antigo Testamento) encontramos certa referência aos gigantes – possíveis fragmentos de textos e cosmovisões ainda mais antigos, também presentes, como veremos, nas visões de mundo mesopotâmicas. Em B’reshit 6: 4, encontramos:
Os n’filim estavam sobre a terra naqueles dias, e também depois, quando os filhos de Deus se relacionaram sexualmente com as filhas de homens, e elas lhes geraram filhos; estes eram os heróis antigos, homens de renome.
Percebamos que, nesta síntese extrema do mito dos Vigilantes, os mesmos são chamados “filhos de Deus”; e os gigantes são considerados “heróis antigos” e “homens de renome”. Aqui não aparece nenhuma referência às barbaridades cometidas por eles, conforme encontramos em Enoch. Porém, se tentarmos traduzir a palavra n’filim, encontraremos algo como “os caídos” ou “os que fazem cair”, visto que, como seres híbridos, frutos de corrupção, são forças que romperam um equilíbrio sagrado e, por conseguinte, consciências afastadas da Ordem Divina – cujos pais quebraram os limites entre o espiritual e o material. O sentido de “queda” está oculto no nome da categoria da entidade.
Se seguirmos a trajetória dos gigantes, presente no Antigo Testamento, perceberemos que os nephilim não foram extintos com o Dilúvio – alguns sobreviveram e, conforme veremos, se organizaram em linhagens familiares e chegaram a ocupar postos de comando em meio a certas comunidades, antes de serem completamente exterminados pelos hebreus. Assim, encontramos em B’midbar (Números) 13: 33 a narrativa do momento em que os espiões israelitas faziam o reconhecimento da terra de Canaã e se depararam com descendentes dos gigantes:
Vimos os n’filim, os descendentes de Anak, procedente dos n’filim; nós nos sentíamos como gafanhotos, comparados a eles; e tínhamos também essa aparência para eles.
Por ‘Anakin compreendemos, literalmente, “os de pescoço longo”, “os adornados com colares”, “os imponentes”. Descendentes de um gigante chamado Anak que misteriosamente sobreviveu à enchente. Mas esta nação de gigantes não é a única citada na Bíblia Sagrada. Vejamos, agora, em D’varim (Deuteronômio) 2: 10-11 e 20-21, linhagens familiares de n’filim:
Os emim viviam ali, um povo alto e numeroso, tão alto quanto os ‘anakim. Eles são também considerados refa’im, como o são os ‘anakim, mas os mo’avim os chamam emim. […] Essa também é considerada uma terra dos refa’im: os refa’im, chamados zamzumim pelo emori, viviam ali. Eles eram um povo grande, numeroso, tão alto quanto os ‘anakim, mas Adonai os destruiu à medida que o povo de ‘Amon avançou e se estabeleceu no lugar deles.
Os refa’im foram um antigo povo gigante, que habitou a região localizada entre a Transjordânia e Canaã. Emim, zamzumim e enakin são ramificações dos refa’im. Conforme a cultura cananeia dos séculos XIV aec e XIII aec, os refa’im seriam os heróis ancestrais das populações que habitavam a citada região – reis gigantes divinizados após a morte, espíritos ancestrais reais.
Dando crédito aos fatos narrados no Deuteronômio, durante o início do século XV aec os gigantes ainda caminhavam na Terra. Sigamos com o capítulo 3, versículo 11, de D’varim:
Og, rei de Bashan, era o último sobrevivente dos refa’im. Sua cama era feita de ferro; ela ainda se encontra em Rabbah, com o povo de ‘Amon. Seu cumprimento era de 9 côvados [4 metros], e de 4 côvados [1,8 metro] sua largura, usando-se o côvado padrão.
Finalmente, entre os séculos XIV aec e XV aec, Y’hoshua (Josué) e seus companheiros exterminaram boa parte dos últimos descendentes dos gigantes que sobreviveram ao Dilúvio e que viviam, então, como um povo guerreiro. Vejamos o livro de Y’hoshua 11: 21-22:
Naquele tempo, Y’hoshua veio e exterminou os ‘anakim da terra – de Hevron, D’vir, ‘Anav e de todos os montes de Y’hudad e Yisra’el; Y’hoshua os destruiu completamente, bem como as suas cidades. Nenhum dos ‘anakim foi deixado vivo na terra do povo de Yisra’el – somente em Azah, Gat e Ashdod é que alguns sobreviveram.
Nos meados do século XI aec, os gigantes remanescentes se encontravam entre os filisteus. Como frequentemente invadiam o território em que viviam os israelitas, vários confrontos ocorreram – e durante aquelas batalhas, ao menos aparentemente, acabou-se a era dos gigantes. Vejamos em Sh’mu’el Alef (1 Samuel) 17: 4 a descrição de um descendente de n’filim mais conhecido como Golias:
Saiu do acampamento dos p’lishtim um guerreiro chamado Golyat, de Gat, que tinha 2,9 metros de altura.
E sigamos com Sh’mu’el Bet (2 Samuel) 21: 15-22:
Mais uma vez, os p’lishtim guerrearam contra Yisra’el. David desceu com seus servos e lutou contra os p’lishtim, porém David começou a se mostrar cansado. Yishbi-B’nov, um dos filhos do gigante, disse que mataria David; sua lança pesava mais de 3 quilos e ele usava uma armadura nova. No entanto, Avishai, o filho de Tz’ruya, veio em socorro de David, golpeando o p’lishti e matando-o […]. Algum tempo depois disso, houve uma nova guerra contra os p’lishtim, em Gov. Sibkhai, o hushati, matou Saf, um dos filhos do gigante. Houve outra guerra contra os p’lishtim em Gov; e Elchanan, o filho de Ya’arei-Orgim, o beit-lachmi, matou Golyat, o gitti, o qual tinha uma lança cujo cabo era como a lança de um tecelão. Houve guerra novamente em Gat, onde apareceu um guerreiro com seis dedos em cada mão e seis dedos em cada pé – 24, ao todo –, e ele também era um dos filhos do gigante. Quando ele zombou de Yisra’el, Y’honatan, o filho de Shim’ah, irmão de David, o matou. Esses quatro eram filhos do gigante em Gat; eles caíram pelas mãos de David e seus servos.
Encerrando-se em Divrei-HaYamim Alef (1 Crônicas) 20: 4-8, os últimos informes bíblicos sobre a situação dos descendentes dos filhos dos Vigilantes com os entes humanos. Analisemos:
Depois disso, houve guerra em Gezer com os p’lishtim. Sibkhai, o hustati, matou Sipai, um dos gigantes, e eles foram derrotados. Houve mais guerra com os p’lishtim; e Elchanan, o filho de Ya’ir, matou Luchmi, o irmão de Golyat, o gitti, que tinha uma lança cuja haste parecia uma lançadeira de tecelão. Houve novamente uma batalha em Gat, onde havia um homem muito alto cujos dedos dos pés e das mãos somavam 24, seis [dedos em cada mão] e seis [dedos em cada pé]; e ele também era filho de um gigante. Quando ele zombou de Yisra’el, Y’honatan, o filho de Shim’a, irmão de David, o matou. Eles eram filhos do gigante de Gat; caíram nas mãos de David e seus servos.
Podemos deduzir que há muito da história dos gigantes que atualmente desconhecemos. Episódios estranhos ante e pós-diluvianos, dos quais apenas restaram fragmentos. A Bíblia no-los apresenta como heróis e guerreiros; Sefer Hanock, como uma espécie violenta e insana, destruidora e devoradora de tudo – inclusive de seres humanos. O Dilúvio deveria ter-lhes encerrado a história, como seres encarnados, legando aos mesmos o destino de se tornarem o que hoje comumente se chama “demônios”. Entretanto, ultrapassaram o fim imposto pelas águas e alcançaram os tempos de Davi (havendo relatos da existência de gigantes, notícias provenientes de períodos muito posteriores, em culturas e continentes distintos).
Podemos nos perguntar: existirá algum relato ou informação que explique como os descendentes dos n’filim sobreviveram à grande inundação? Acredito que encontramos indícios de uma resposta a esta questão nos Manuscritos do Mar Morto: um gigante chamado Hiwa, filho de Semyaza, teria sonhado com o Dilúvio. Em uma espécie de precognição oniromântica, Hiwa sonhou com uma gigantesca rocha suspensa sobre a Terra, como a tábua de uma mesa, contendo uma inscrição com quatro letras (seria o Tetragrama?). O gigante, acorrendo a seu pai, contou-lhe o sonho e recebeu a seguinte explicação: JHVH destruiria a humanidade – e os únicos sobreviventes serão Noach e sua família [HOWARD, 2011, p. 84]. Suponho que Hiwa organizou-se com os seus para sobreviver à hecatombe.
Práticas mágicas antediluvianas provenientes dos gigantes poderiam ter alcançado o mundo antigo por meio dos que sobreviveram. Se os últimos n’filim, conforme o Antigo Testamento, encontravam-se entre os filisteus, lembremos que os israelitas acusavam aquele povo de adorar falsas divindades (como Dagom, Astorete e Baal-Zebube), mas não apenas isso – possuíam práticas divinatórias (dentre as quais muito provavelmente esteve presente a oniromancia); produziam amuletos; possivelmente faziam uso ritualístico de plantas alucinógenas ou enteógenas (isso era relativamente comum entre as antigas civilizações), etc.
Nos já citados Manuscritos do Mar Morto, os Nefilins são considerados “guardiões de um conhecimento arcano que sabiam ‘todos os mistérios ocultos da natureza e da ciência’” [HOWARD, 2011, p. 62].
Para além do texto bíblico e outros a ele diretamente relacionados, encontramos informações sobre os gigantes no conhecido trabalho mesopotâmico Epopeia de Gilgamesh. As narrativas mais antigas presentes neste clássico literário já citado neste livro datam de 2100 aec – mas foi entre 1300 aec e 1000 aec que sua versão definitiva veio a ser concluída. O protagonista do conto, Gilgamesh, conforme apresentam-no as cronologias reais da Mesopotâmia, foi o quinto rei da era pós-diluviana (primeiro período protodinástico de Uruk, XXIX aec – XXVIII aec) – sendo ele mesmo dois terços divino e um terço humano, filho de um espectro (seria um Irin?); medindo mais de sete metros de altura; e responsável pela reconstrução de templos que haviam sido arrasados pelo Dilúvio.
Na tabuinha de número 5 da Epopeia, nos deparamos com o conflito ocorrido entre Gilgamesh (e seu companheiro de aventuras, Enkidu) e um gigante chamado Humbaba.
[…]
Triste fim o de Humbaba, morto por Gilgamesh e seu parceiro; o Guardião da Floresta de Cedros. Mais alto que o próprio Gilgamesh, o n’filim remanescente é apresentado como um indivíduo com cabeça de leão e dentes de dragão, com hálito mortal e um rugido que lembrava uma inundação. Shamash, manipulando os ventos, aturdindo e paralisando Humbaba, contribuiu com sua morte: após sua queda, embora clamasse por misericórdia, o gigante foi despedaçado.
Findava a geração dos n’filim, cujo Dilúvio havia dado-lhe o golpe mais brutal – serviço que foi continuado por sumérios, hebreus e outros povos. Todavia, os gigantes parecem ter migrado para regiões muito além do Oriente Médio: ultrapassando o mundo mesopotâmico, nos deparamos, como já foi dito, com seus descendentes em outras partes do Globo – inclusive no território brasileiro, no início da modernidade, conforme apresentarei em um livro sobre as divindades e encantados dos povos juremeiros, trabalho que já estou produzindo.
Se nos deparamos, em capítulos anteriores, com ancestrais antediluvianos divinizados que, após a Enchente, permaneceram sendo cultuados; com divindades ou anjos que desceram a este mundo e, materializando-se, nos transmitiram conhecimentos secretos; assim como com uma Tradição muito antiga que teria sido desvelada ao próprio Adão pelo Anjo Raziel e transmitida ao longo das eras a indivíduos capazes de guarnecê-la; o que podemos dizer sobre os gigantes, seres híbridos nascidos do enlace entre anjos (ou espectros, seres extra-humanos) e as mulheres de nossa espécie – o que podemos imaginar a respeito dos mesmos, em sentido mágico e espiritual?
A chave presente em Enoch nos deixa claro que suas almas se tornaram espíritos maus, em realidade, entidades terríveis. Um ocultista clarividente que tenha visto, em algum momento de sua vida, o tipo de entidade que atualmente chamamos “demônios” sabe que essas criaturas de modo algum se parecem com a alma de uma pessoa morta, com um espírito elemental ou com um anjo – muito menos com um encantado, com um daimon ou um djinni. Um “demônio” é um ente sem forma (não possui estabilidade imagética): se parece com um aglomerado de coisas em movimento que por onde passa transfere peçonhas e perturbações. Revestidos por cascas (klipot), tem sua luminosidade obstruída – sendo esse um dos motivos pelos quais se manifestam em tons sombrios. Talvez sejam essas criaturas entidades muito antigas que transitam por entre as subjetividades deste mundo.
Mas os n’filim do passado, conforme os relatos que sobreviveram ao tempo, parecem ter tido algum nível positivo de cultura. Desde antes do Dilúvio, interagiam com os Vigilantes e, se tudo o que Michel Howard e Nigel Jackson sobre os mesmos escreveram em Os Pilares de Tubalcaim for de fato coerente, encontraremos em Philo Judaeus “um relato de sete imagens áureas de demônios ancestrais adorados pela raça de gigantes Amoritas” [2008, p. 52] – um povo semítico da Idade do Bronze (3000 aec – 700 aec) que migrou do Levante para a Mesopotâmia e dominou a região entre 2000 aec e 1600 aec, fundando a Babilônia. Neste caso, as “imagens áureas de demônios” nada mais seriam que representações de Anunnaki. Quanto aos filisteus, entre os quais, como vimos, encontravam-se descendentes de gigantes, além de diversas práticas mágicas (o que era muito comum em todas as antigas sociedades, especialmente nas grandes civilizações, como a persa, a egípcia e a mesopotâmica), as mais importantes divindades cultuadas eram: Dagon, o principal deus masculino, ligado à vegetação – colheitas e grãos; Astarote, deusa do amor, da fertilidade e da guerra; e Baal-Zebul, o Senhor da Habitação Celestial (ou “Senhor da Morada”; ou ainda “Senhor Príncipe”) – uma divindade oracular posteriormente depreciada pelos hebreus, que o chamaram Baal-Zebube, ou seja, “Senhor das Moscas” (com o passar dos séculos a cristandade passou a relacionar diretamente “Belzebu” a “Satanás” – e os satanistas contemporâneos, por extensão, inspirados na doutrina clerical, consideram “Belzebu” um demônio poderoso, havendo, inclusive, quem o relacione a Exu, o que, realmente, é uma distorção tremenda impetrada pela Igreja e assimilada por ocultistas e espiritualistas de outras tradições).
Dito isto, acredito que se houve um culto originado entre os n’filim (ou salvaguardado por eles) é possível que encontremos algo sobre o mesmo nas antigas fórmulas e ritos mágicos filisteus e amoritas.
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