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Excertos e anotações de aula dada por Dr. Justin Sledge[1]
Um dos aspectos mais intimidadores ao começar a estudar alquimia é simplesmente saber por onde começar. A alquimia se estende por quase dois mil anos de desenvolvimento filosófico, técnico, teórico e espiritual. E, para complicar ainda mais, grande parte desse legado está marcada por textos literários e representações artísticas que estão entre os mais difíceis, obscuros e desconcertantes da história. A situação se agrava pelo fato de a maioria desses textos ainda ser conhecida por seus títulos latinos, frequentemente pouco acessíveis, e mesmo para especialistas, obter uma noção clara de quem escreveu o quê, e quando, continua sendo um desafio. A natureza fragmentária dos manuscritos medievais latinos e árabes, somada à prática comum da pseudepigrafia (atribuição intencional de autoria a figuras lendárias), dificulta enormemente a filologia alquímica. Muitos tratados foram transmitidos apenas em cópias tardias e altamente corrompidas
E, mesmo que você consiga escolher um texto, ele frequentemente está repleto de imagens incrivelmente esotéricas e simbolismos crípticos. A iconografia alquímica do século XVI, como a de Basil Valentine ou dos tratados atribuídos a Michael Maier, tende a representar conceitos filosóficos através de imagens animais, metáforas mitológicas e até estruturas de arquitetura celestial, muitas vezes servindo como ‘máquinas mentais’ para a meditação do praticante. Até mesmo os nomes dos elementos químicos e dos processos que eles sofrem estão frequentemente codificados no que agora chamamos de Decknamen.
Estudar alquimia, especialmente como iniciante, pode ser desorientador, difícil e desencorajador. E recebo com frequência a pergunta: dado o grau de dificuldade, por onde começar a estudar esses textos e imagens? Neste episódio, vamos apresentar e explorar o que considero ser o melhor texto único para introduzir qualquer pessoa à teoria, à prática e à história da alquimia: a Summa Perfectionis. A escolha de um texto “mediano” em termos cronológicos permite perceber a alquimia não como um sistema fixo, mas como uma tradição viva em transição. O século XIII foi marcado pela tentativa de sistematização filosófica da alquimia, em contraste com os textos gregos alexandrinos anteriores, que eram predominantemente empíricos e operacionais.
Em vez de escolher um texto das origens da alquimia no Egito greco-romano, ou do auge da imagética esotérica dos séculos XVI e XVII, ou mesmo textos clássicos da alquimia islâmica, prefiro começar mais ou menos no meio do caminho por volta do século XIII ou início do XIV. Isso nos dá a vantagem de poder olhar para trás e ver como teorias anteriores levaram até a Summa Perfectionis, e também nos permite antecipar os desdobramentos dramáticos da teoria e prática alquímicas durante a Alta Idade Média e até o período moderno.
Na minha opinião, o texto é um ponto de partida ideal porque nos coloca justamente no meio, permitindo uma visão panorâmica para trás e para frente tanto dos desenvolvimentos práticos quanto teóricos da alquimia, tanto no mundo islâmico quanto no europeu.
Como você talvez saiba, foi Robert de Chester quem efetivamente introduziu a alquimia na Europa Ocidental com sua tradução completada em 11 de fevereiro de 1144. Por sinal, faço aqui uma proposta: 11 de fevereiro deveria ser o Dia Mundial da Alquimia.
Do século XII até meados do século XIII, a alquimia europeia foi basicamente dominada pelas teorias e práticas herdadas do mundo islâmico. Mas, por volta do século XIII, essas ideias já começavam a amadurecer e se desenvolver autonomamente no contexto europeu. Estamos falando da mesma época de Tomás de Aquino, Fibonacci, e do círculo de Moshe de León, que produziu o Sefer ha-Zohar e, por extensão, a Cabala. Esta coincidência cronológica não é trivial. Enquanto Tomás de Aquino sintetizava Aristóteles com a doutrina cristã e Fibonacci introduzia o sistema indo-arábico de numeração, Moshe de León e o círculo do Zohar estavam desenvolvendo uma mística numerológica altamente sofisticada o que sugere uma convergência oculta entre as matemáticas alquímica, teológica e cabalística no período.
Nesse momento histórico, os grandes projetos de tradução que haviam alimentado a Renascença do século anterior já estavam essencialmente completos. E a Europa estava pronta para começar a produzir suas próprias ideias teóricas e práticas no campo alquímico. Então, após herdar um legado filosófico e alquímico iniciado no século XII, cerca de cem anos depois a Europa começava a criar sua própria linguagem e vocabulário dentro desse campo.
Foi justamente nesse contexto, no fim do século XIII e começo do XIV, que Summa Perfectionis apareceu em manuscrito. E não poderia ter vindo em melhor hora.
A alquimia, com apenas um século de presença no ocidente, já enfrentava sua primeira crise teórica e prática. Como se pode imaginar, na transição do árabe para o latim, muitos textos foram corrompidos. Passagens inteiras ficaram embaralhadas, e questões de autoria tornaram-se profundamente confusas. Esse mesmo processo havia ocorrido anteriormente com a tradução do grego para o árabe durante o período clássico tardio. O exemplo mais famoso disso foi quando textos de Plotino, fundador do que hoje chamamos de neoplatonismo, foram traduzidos para o árabe e, por razões obscuras, atribuídos a Aristóteles. O texto passou a ser conhecido como a Teologia de Aristóteles e teve enorme impacto no desenvolvimento do neoplatonismo islâmico.
Então temos aqui um texto de Plotino circulando sob o nome de Aristóteles. Nomes trocados? Sim. Mas o conteúdo era tão influente que isso acabou não importando tanto. Algo semelhante ocorreu com a alquimia no contexto europeu.
No início do século XIII, um certo Alfredo traduziu um texto do filósofo islâmico Ibn Sina (Avicena), no qual ele sustentava duas ideias devastadoras para a alquimia:
(1) nada produzido artificialmente pode superar a natureza;
(2) os metais não são transmutáveis ou seja, não se pode transformar um metal em outro, assim como não se pode transformar um burro em um cachorro.
Essa era uma crítica dupla ao cerne da teoria alquímica. Afinal, a alquimia parte da ideia de que o que a natureza faz, o ser humano pode imitar e aperfeiçoar por meio da arte, em laboratório. Além disso, muitos viam a transmutação de metais como um dos objetivos centrais da alquimia.
O problema se agravou porque o texto de Ibn Sina foi acoplado, na tradução, ao final de um texto atribuído a Aristóteles. Com o tempo, esse apêndice foi absorvido e passou a ser lido como parte integrante do texto aristotélico. Ou seja: passou-se a crer que era o próprio Aristóteles quem dizia que a transmutação era impossível.
Isso foi devastador. Se fosse apenas Ibn Sina negando a transmutação, ok. Mas quando o pai da filosofia natural diz que a arte nunca pode superar a natureza, aí a coisa fica feia. Mesmo assim, alquimistas discordaram desde cedo. Um dos primeiros textos dissidentes foi o anônimo Livro de Hermes. E quem melhor para discordar de Aristóteles do que o próprio fundador da alquimia, Hermes Trismegisto?
Essa disputa deu origem a um grande debate sobre se a alquimia poderia ou não superar os limites da natureza. Tomás de Aquino ficou do lado do pseudo-Aristóteles: arte é sempre inferior. Já Roger Bacon defendeu que a arte poderia, sim, fazer melhor alquimistas, segundo ele, poderiam fabricar um ouro melhor do que aquele extraído de minas.
Esse embate entre arte vs. natureza nunca foi totalmente resolvido. Mesmo hoje, no imaginário popular, o “natural” ainda é visto como superior. Basta olhar para prateleiras de supermercado.
Mas, como disse Hannibal Lecter: o mesmo Deus que fez os cisnes fez a cólera.
Summa Perfectionis toma partido nesse debate: defende que a arte pode, sim, imitar e até superar a natureza. E faz isso com base teórica e prática, descrevendo como metais podem ser transmutados usando uma grande medicina o que hoje chamamos de pedra filosofal.
A autoria? Atribuída a Geber. Só que… não. Geber, ou Jābir ibn Hayyān, é uma figura lendária. São atribuídos a ele cerca de 3.000 textos, mas há consenso crescente de que se trata de uma construção coletiva, provavelmente por uma escola de alquimistas xiitas no século VIII ou IX, na região de Bagdá.
Na Europa, houve uma espécie de eco desse fenômeno: assim como autores islâmicos fingiram ser gregos, autores europeus fingiram ser islâmicos para dar mais autoridade aos seus textos. Foi isso que aconteceu com Summa Perfectionis. Trata-se de um texto europeu atribuído a um nome islâmico para emprestar-lhe prestígio.
E quem escreveu, então? Depois de muito estudo, acredita-se que o autor foi Paul de Taranto (e não Paul Atreides, infelizmente). Paul também escreveu Theorica et Practica, por volta de 1310, um texto muito parecido em conteúdo e estrutura com Summa Perfectionis. Ambos revelam um profundo entendimento da teoria alquímica islâmica, mas principalmente mostram experiência prática de laboratório o que os torna únicos.
A obra está dividida em três partes principais: uma defesa teórica da alquimia, uma descrição detalhada das substâncias e aparelhos utilizados, e um guia prático para testar os metais resultantes. O texto propõe uma visão clara: a arte alquímica pode, sim, transformar e aperfeiçoar a natureza.
A teoria herdada é a do enxofre e mercúrio: todos os metais são combinações desses dois princípios, sob influências astrológicas e condições subterrâneas. O diferencial de Summa é propor que esses princípios têm tamanhos corpusculares diferentes alguns mais densos, outros mais porosos. Isso explicaria, por exemplo, por que o ouro é resistente ao fogo e aos ácidos.
Ou seja, é uma adaptação sutil da teoria clássica, com insights que beiram a concepção moderna de densidade e reatividade química. E tudo isso baseado em observações de laboratório.
O objetivo? Purificar metais impuros removendo os corpusculares defeituosos e substituindo-os por corpusculares perfeitos, por meio de medicamentos. Alguns medicamentos apenas tingem os metais. Outros os mais poderosos realizam a transmutação completa, ou seja, são a própria pedra filosofal.
E sim, são dois tipos de pedra filosofal: uma vermelha (para ouro), outra branca (para prata), pois a proporção entre enxofre e mercúrio difere entre esses metais.
O mais fascinante é que a explicação teórica de como a pedra filosofal funciona é clara e integrada à prática laboratorial. Ao contrário de outros textos alquímicos que mergulham em alegorias vagas, Summa Perfectionis explica com precisão como os metais reagem, se transmutam e como identificar essas mudanças.
E mais: o texto quase não recorre à retórica esotérica vazia. Não há floreios dizendo que “só o autor conhece os segredos do universo” ou que “o iniciado deve decifrar o enigma da alma do cosmos dentro da alma do cosmos dentro da alma…”. É um manual. Prático. Direto.
Não à toa, tornou-se o manual-padrão da alquimia medieval, influenciando figuras como John Dee e Paracelso.
Hoje, temos uma edição crítica fenomenal feita por William Newman, publicada pela Brill caríssima, como tudo da Brill. Mas vale cada centavo: introdução extensa, texto latino crítico e tradução anotada por um químico, que explica cada processo em linguagem científica moderna.
Se não puder adquirir a edição da Brill, há alternativas: edições latinas do século XVI (disponíveis em PDF), ou uma tradução inglesa de 1678, republicada em 1928 por Holmyard e Russell. Estas têm seus problemas, mas ainda são úteis para consultas gerais.
Enfim, por que recomendo tanto a Summa Perfectionis?
- Porque ela está no ponto médio entre tradições islâmicas e europeias.
- Porque integra teoria e prática como poucos textos.
- Porque é clara.
- Porque foi o texto de entrada de milhares de alquimistas reais.
- E porque, mesmo sem descrever a natureza com precisão científica moderna, tenta entendê-la com honestidade e engenho.
E isso já é um começo notável.
Dr. Justin Sledge. Estudioso da chamada “Tradição Esotérica Ocidental” ou Tradição Hermética no pensamento religioso e filosófico. Com sua pesquisa procura apreender os compromissos filosóficos que sustentam o suposto funcionamento da magia, da influência esotérica, da possessão espiritual, da alquimia, etc.
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