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Sexo, Mitos de Cthulhu e a Regra 34

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Por Bobby Derie, Sex and Cthulhu Mythos (Sexo e os Mitos de Cthulhu). Tradução de Ícaro Aron Soares.

“Se algo existe, existe pornô disso — sem exceções.”
— Regra 34 da Internet.

A publicação eletrônica é uma das fronteiras mais significativas para a produção e distribuição de materiais dos Mitos de Cthulhu, desde a publicação gratuita de obras sem direitos autorais pelo Projeto Gutenberg até e-books originais dos Mitos sendo vendidos pela Amazon.com. Milhares de fãs e profissionais publicaram seus trabalhos gratuitos e comerciais pela Internet e continuarão a fazê-lo. Mais do que isso, a Internet hospeda grandes obras de referência e discussões que lidam com quase todos os aspectos dos Mitos de Cthulhu, servindo como um meio para os leitores dos Mitos analisarem, criticarem e entenderem melhor os Mitos, seus autores e a tradição da ficção estranha.

Uma quantidade considerável do material dos Mitos online lida com sexo, desde o escrutínio de postagens de blogs acadêmicos até pornografia com a temática dos Mitos e tudo mais. Embora raramente publicadas em jornais ou livros tradicionais, as discussões, fanfictions e arte on-line sobre os Mitos são influentes na formação do conhecimento e interpretação dos leitores sobre o sexo e os Mitos. A popular confusão dos Mitos com a erótica dos tentáculos, por exemplo, provavelmente se deve em grande parte à proliferação desses materiais on-line. Esta é uma breve olhada em algumas das formas que o sexo e os Mitos de Cthulhu assumem on-line e seu impacto e influência em outras mídias dos Mitos.

DISCUSSÃO

“PARA QUE SERVE ESTE GRUPO? Para a descrição e discussão sobre sexo, amor e luxúria com seres dos Mitos de Cthulhu e outros superdotados dimensionais.”

– (“FAQ alt.sex.cthulhu”)

Uma das primeiras discussões on-line sobre sexo e os Mitos foi por meio do alt.sex.cthulhu e grupos de notícias relacionados na Usenet.[NOTA 14] Aqui, os usuários se reuniam para trocar fanfics, fazer perguntas e, em geral, debater e brincar sobre todos os tipos de coisas relacionadas a sexo e aos Mitos de Cthulhu. O tom era geralmente leve e explícito, como evidenciado por postagens como ““The Complete Guide to Shoggoth Sex (O Guia Completo para Sexo com os Shoggoth)” de Steven Harris, tomando o humor não apenas como uma forma de discutir o sexo abertamente, mas combinando-o com os Mitos. Outros sites antigos incluem a presença na web da Cthulhu Sex Magazine por meio do cthulhusex.com e myspace.com/cthulhu_sex.

Discussões contemporâneas sobre o sexo e os Mitos de Cthulhu são focadas principalmente em sites de categorização como tvtropes.org e wikipedia.org com páginas como “Did You Just Romance Cthulhu? (Você Acabou de Namorar Cthulhu?)” e “Tentacle erotica (Erótica dos Tentáculos)”. Os tropers no tvtropes.org reconhecem a aparência da miscigenação cósmica nos Mitos (páginas como “Interspecies Romance (Romance Interespécie)” e “Half-Human Hybrid (Híbrido Meio-Humano)”), bem como vários tropos relacionados (como “All Anime is Naughty Tentacles (Todos os Animes são Tentáculos Travessos)”). Embora muito informais e nunca completos ou exaustivos, esses sites fornecem fóruns públicos importantes para os leitores reconhecerem e discutirem amor e sexo nos Mitos.

FANFICTION

A ficção criada por fãs usando os Mitos de Cthulhu é prolífica online, um resultado eletrônico do mesmo desejo que impulsiona a criação de fanzines e publicações “não profissionais” semelhantes. Dado que essa ficção é frequentemente criada por amadores, a fanfiction é frequentemente ridicularizada por sua relativa falta de qualidade, mas também é uma expressão honesta dos desejos e compreensão dos Mitos por seu fandom. Com a crescente popularidade dos Mitos de Cthulhu na cultura popular, muitos nomes e conceitos lovecraftianos entraram no léxico cultural geral, de modo que uma vasta quantidade de ficção publicada online pode conter referências aos Mitos em quase qualquer contexto. Assim como a própria ficção dos Mitos de Cthulhu, uma boa parte da fanfiction pode ser cooperativa, representada em um universo compartilhado ou histórias round-robin. Um bom exemplo dessa ficção cooperativa envolvendo os Mitos é o ciclo de histórias de fanfics da Whateley Academy.

Em contraste, a fanfic erótica dos Mitos de Cthulhu é tipicamente um esforço solo. A fanfic erótica dos Mitos é publicada online desde pelo menos os primeiros dias do alt.sex.cthulhu, e continua a ser publicada em sites populares de fanfics adultas como o AdultFanFiction.net e o Alt.Sex.Stories Text Repository (asstr.org). Embora seja impossível fazer um levantamento completo das fanfics adultas dos Mitos, algumas afirmações gerais podem ser feitas com confiança: as fanfics eróticas dos Mitos tendem a ser sexualmente explícitas, seguem tropos populares dos Mitos (como cultistas, sacrifícios de virgens, sexo com tentáculos, etc.) em vez de permanecerem fiéis ao “cânone” das principais histórias publicadas dos Mitos e frequentemente apresentam parafilias sexuais específicas, como horror corporal, impregnação e gravidez, fetiche por tamanho, etc. Nisso, geralmente há pouca diferença entre a fanfic dos Mitos e a erótica comercial de e-books que recentemente ganhou alguma proeminência.

FANART

Junto com fanfics online, fãs dos Mitos carregaram uma vasta gama de artes pictóricas e de vídeo. Novamente, a qualidade varia consideravelmente, de desenhos animados grosseiros a pinturas elaboradas e renderizações 3D tão impressionantes quanto qualquer coisa publicada profissionalmente. A fanart dos Mitos abrange uma tremenda variedade de estilos e escolas e, assim como a arte dos Mitos publicada mais tradicionalmente, segue muitos dos mesmos tropos, como uma inclinação geral para a nudez — embora nem sempre seja o caso, como pode ser visto no trabalho cuidadosamente pesquisado dos Mitos de Cthulhu por Michael Bukowski (yog-blogsoth.blogspot.com).

A fanart dos Mitos online também contém material adulto e sexualmente explícito, alguns deles abertamente pornográficos. Assim como na fanfic dos Mitos, nenhum lugar online contém todo esse material, mas vários artistas mantêm suas próprias páginas em sites como o DeviantArt (deviantart.com), e os usuários postam e reúnem coleções de material pornográfico dos Mitos em painéis de imagens e sites relacionados, como o Rule*34 (rule34.paheal.net). Assim como na fanfic erótica, nenhuma pesquisa completa desse material é possível, e a maioria das suposições gerais dadas acima (uso de tropos, parafilia sexual, etc.) também se aplicam. Um elemento que parece particularmente mais proeminente na fanart dos Mitos do que na arte tradicional dos Mitos ou na fanfic dos Mitos é a representação de entidades dos Mitos como femininas,[NOTA 15] frequentemente com características sexuais exageradas — daí a representação de múltiplas imagens de uma Cthulhu com seios nus e/ou vagina.

WEBCOMICS

O declínio dos jornais tradicionais e suas páginas de quadrinhos também viu o surgimento de webcomics, que variam de trabalhos de painel único a páginas multipainéis no estilo de história em quadrinhos completas, de piadas engraçadas do dia a obras sérias de terror sobrenatural. Muitas webcomics fazem algum uso dos Mitos de Cthulhu, particularmente se seu foco for fantasia ou terror, e vários são focados amplamente ou exclusivamente nos Mitos para seu cenário e personagens. Enquanto os quadrinhos impressos dos Mitos ainda são um tanto dominados por adaptações, as webcomics dos Mitos são principalmente trabalhos originais. Várias webcomics dos Mitos foram publicadas em formato impresso, incluindo os três volumes de El joven Lovecraft/Young Lovecraft/O Jovem Lovecraft (2009, 2012 e 2013) e três volumes de Goomi’s Unspeakable Vault of Doom (O Cofre Indizível da Perdição de Goomi, 2004 e 2007; reimp. 2012), mas escolhi abordá-los aqui em vez de na seção de quadrinhos para enfatizar sua origem e influências.

Embora grande parte da arte e ficção dos Mitos apresente mais personagens masculinos do que femininos, as webcomics dos Mitos tendem a ter uma mistura mais equilibrada, com personagens femininas mais fortes. Em Lovecraft Is Missing/Lovecraft Está Desaparecido (lovecraftismissing.com) de Larry Latham, por exemplo, uma das principais protagonistas é Nan Mercy, uma bibliotecária sem frescuras que busca Lovecraft e vingança; da mesma forma, El joven Lovecraft (“Young Lovecraft/O Jovem Lovecraft”, eljovenlovecraft.blogspot.com) de Jose Oliver e Bartolo Torres apresenta Siouxie (“Susie”), uma personagem composta e contraparte feminina do jovem Lovecraft homônimo, bem como as tias de Lovecraft. O atualmente em espera Ow My Sanity/Ai, Minha Sanidade! (http://owmysanity.comicgenesis.com/) tem a maioria das entidades dos Mitos manifestadas como mulheres humanas ou humanoides.

Por se dirigirem a um público adulto, alguns dessas webcomics contêm mais sangue e referências a sexo do que o típico em histórias em quadrinhos de jornais. Por exemplo, The Unspeakable Vault (of Doom)/A Cripta Indizível (da Perdição) (goominet.com/unspeakable-vault/) de François “Goomi” Launet faz referências ao sexo, frequentemente, mas nem sempre, baseadas na personagem Shubby (Shub-Niggurath), ou trocadilhos como em “Vault 422: Delights from Beyond (Cripta 422: Delícias do Além)”. O trabalho de Launet nunca é sexualmente explícito e lembra em alguns aspectos a provocação divertida de Gahan Wilson nos Mitos e no sexo, ou os limeriques de Robert M. Price sobre o mesmo assunto em Crypt of Cthulhu (A Cripta de Cthulhu).

Poucas webcomics dos Mitos são sexualmente explícitos; webcomics pornográficas que ultilizam os Mitos tendem a ser one-shots, ou imagens pornográficas de painel único com legendas. Onde os Mitos de Cthulhu são usados em um trabalho pornográfico mais longo, geralmente é para explorar os tropos sexuais e a parafilia relacionada que passaram a ser associados aos Mitos. Por exemplo, as séries episódicas intermináveis ​​de Otto Maddox/Jag27, como “Langsuir Chronicles (As Crônicas de Langsuir)” (crazyxxx3dworld.com), às vezes incluem referências e representações de entidades lovecraftianas como Cthulhu, Yog-Sothoth e o Necronomicon; Maddox usa o teratalogicismo e a miscigenação cósmica da ficção dos Mitos tanto como um elemento do enredo quanto para fornecer um veículo para os fetiches sexuais aos quais ele atende, principalmente a maiesiofilia (fetiche por mulheres grávidas), incesto e fetiches de horror corporal/tamanho envolvendo personagens que têm ou desenvolvem características sexuais improvavelmente exageradas.

POSFÁCIO

Esta não é a palavra final sobre o sexo e os Mitos de Cthulhu. Espero que este trabalho seja um marco para leitores e acadêmicos interessados, para resumir e apresentar o que foi feito no assunto até este ponto, as principais obras e autores, e o desenvolvimento de certos temas e ideias. Agora, gostaria de sugerir alguns caminhos para qualquer um que queira olhar um pouco mais adiante e cavar um pouco mais fundo.

Todos os autores e seus trabalhos discutidos neste livro merecem um exame mais longo e de diferentes pontos de vista; e há dezenas de autores e trabalhos que, por restrição de espaço e julgamento pessoal, escolhi mencionar apenas de passagem ou omitir completamente. Brian McNaughton em particular está pronto para uma biografia ou bibliografia adequada, principalmente se alguém pudesse rastrear alguns dos trabalhos mais obscuros lançados sob seus pseudônimos. Da mesma forma, cada uma das seções individuais de Além da Cthulhuerótica poderia facilmente ser o assunto de um ensaio ou série de artigos por si só, e se beneficiaria da atenção daqueles com um profundo conhecimento em arte, cinema, quadrinhos, mangás, ocultismo e história. Eu também geralmente negligenciei jogos de RPG baseados e influenciados pelos Mitos, jogos de computador, cartas, tabuleiro e caneta e papel, brinquedos sexuais,[NOTA 16] bem como audiolivros e música — há pelo menos um ou dois artigos substantivos possíveis sobre cada um desses assuntos.

Embora eu tenha abordado várias obras dos Mitos de Cthulhu que se originaram em línguas estrangeiras, optei por não tentar nenhum esforço concentrado para examinar o sexo e os Mitos publicados em outros idiomas que não fosse o inglês. A tradução e disseminação dos escritos de Lovecraft, seus contemporâneos, colaboradores e sucessores passaram para mais de uma dúzia de idiomas, com reimpressões estrangeiras em países ao redor do mundo — e essas obras, por sua vez, inspiraram e influenciaram gerações de escritores a escrever novos contos dos Mitos de Cthulhu e incorporar elementos lovecraftianos em sua própria ficção em língua nativa. Infelizmente, relativamente pouco desse material voltou para o inglês. Sem os recursos para fazer uma resenha adequada do material, recuso-me a tentar dizer algo definitivo sobre o sexo nos Mitos em língua estrangeira, exceto que ele existe e merece sua própria avaliação.

A erótica e a pornografia são frequentemente negligenciadas ou esquecidas nos estudos dos Mitos; elas também são frequentemente as mais relevantes para esse assunto em particular. Seja por depreciação de seu conteúdo explícito ou de sua relativa qualidade literária ou estética, é precisamente porque essas obras escaparam amplamente da atenção (ou foram deliberadamente ignoradas) que as torna atraentes: são territórios amplamente desconhecidos, prontos para exploração. Em vez de enviar mais um ensaio sobre uma história clássica, estudiosos intrépidos podem descobrir o próximo diamante bruto como Edward Lee.

Como pensamento final, só posso apontar para o país não descoberto. Novos trabalhos lovecraftianos e sobre os Mitos provavelmente serão produzidos em um futuro próximo e, embora eu não possa adivinhar sua natureza, pelo menos alguns deles desenvolverão temas sobre o sexo, o amor e o gênero e merecerão exame e consideração. Estou ansioso para lê-los e espero que você também o faça.

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