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Thelema

Se Magia funciona, por que você não é rico?

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Rodrigo Lamore (@rodrigolamorerock)

“Então o sacerdote caiu em um profundo transe ou desmaiou, e disse para a Rainha do Céu: ‘Escreve para nós os Ordálios; escreve para nós os rituais; escreve para nós a lei’! Mas ela disse: ‘os Ordálios eu não escrevo, os rituais deverão ser metade conhecidos e metade ocultos: a Lei é para todos”. – Liber Al vel Legis

Você estudou Magia, colocou em prática tudo o que aprendeu, assimilou todos os conhecimentos, foi iniciado em várias Ordens, e depois de tanta espera, você executa um ritual de prosperidade, mas algo “saiu errado” e você não apenas não ganhou dinheiro, como perdeu o pouco que tinha. O que houve aqui? Fui tapeado? Magia não funciona? Isso é coisa do capeta? Devo me converter e pedir perdão ao senhor?

É provável que você deva ter ouvido falar, em algum momento durante os estudos, em uma palavra chamada Ordálio (ou ordália). Possivelmente é a parte mais negligenciada para quem está no Caminho, do iniciante ao veterano. Ironicamente, os cristãos da moda, também conhecidos como seguidores de coaches motivacionais, estão mais atentos a essa questão do que os ocultistas. Eles até costumam utilizar uma pequena passagem da bíblia, como uma forma de “preparar” o seguidor para tudo o que vem pela frente, ao iniciar algum empreendimento, principalmente quando se trata de negócios: “Até aqui nos ajudou o Senhor.” Samuel 7:12 (em outras palavras, a partir de agora tu tá fudido meu irmão).

Lembra do início dos anos 2000, quando houve uma explosão de homens e mulheres que se auto intitulavam ex maçons, ex satanistas, ex macumbeiros, etc, em púlpitos de empres…, digo, igrejas neopentecostais? Dando os seus testemunhos, de como as suas vidas se tornaram um inferno após virarem membros de Ordens como a Maçonaria, Rosa Cruz, e das próprias religiões de matriz africana, como o Candomblé. É claro que não devemos levar a sério grande parte dessas pessoas, pois sabemos das habilidades teatrais dessas igrejas, em especial daquela que é dona de uma emissora e promove as suas “entrevistas” com exus e cia. Mas muitos realmente se converteram legitimamente, em consequência dos tais Ordálios em que foram acometidos. E por não entenderem o que estava ocorrendo, fizeram o que 99% dos seres humanos fariam: correriam chorando pros braços da mamãe. Nesse caso, pros braços de Jesus.

É um pouco complexo tentar explicar do que se trata tudo isso. Antes de passar para as explanações, deixarei um trecho do meu livro Ocultismo Para o Proletariado”, no capítulo Ordálio:

“… Pode ser que, o indivíduo de posse do conhecimento e da técnica da Magia, tenha feito um ritual onde ele ordena ao universo para que tenha mais dinheiro e prosperidade. Se todo o processo for executado de maneira correta, ele irá obter os resultados. Mas, caso a sua situação naquele momento for muito ou totalmente incongruente com o pedido, coisas desagradáveis podem acontecer para que ele consiga ter em mãos o peditório. Diversas pessoas abandonam o caminho exatamente nessa fase. Muitos se convertem ao cristianismo e sobem no altar para discursar no microfone sobre o seu “terrível passado adorando o diabo”. Ao quererem riqueza, recebem miséria. Enfim, associam o Ocultismo às coisas ruins que surgiram após o ritual. Na verdade, o que acontece é que, como mostrado na estória do Joãozinho acima, todos os fatos, ações, decisões que estiverem relacionadas à Verdadeira Vontade do sujeito, irão se manifestar, principalmente se elas forem realizadas de maneira consciente pela pessoa. Portanto, qualquer coisa que estiver impedindo que essa Vontade se manifeste, ela irá ser derrubada e destruída para que ela possa acontecer no plano concreto. Isso quer dizer que, no caso daquele que produziu um ritual de prosperidade e em seguida perdeu o emprego, caso ele esperasse mais um pouco, iria descobrir que havia um segundo emprego com um salário maior, com maiores benefícios, e que estaria mais adequado aos seus gostos pessoais, se comparado ao emprego anterior.

Outros exemplos similares: se alguém deseja um parceiro ou parceira com determinadas características, sendo estas de acordo com a Verdadeira Vontade dos envolvidos, caso a pessoa que desejou esteja em algum relacionamento que não possui essas características, obviamente que essa união irá se encerrar para dar espaço a uma nova. O problema é o processo que se dará entre o término e a chegada do (a) novo (a) companheiro (a), e é aqui que residem as questões que envolvem os Ordálios. No caso do Joãozinho, ele terá sucesso na sua trajetória, galgando diversas conquistas nos seus sonhos, mas o processo pra se chegar lá, principalmente levando em consideração a sua vida naquela cidade é que gerará as adversidades. Veja que em qualquer ação que não esteja ligada a Vontade Verdadeira do ser humano não causa a mesma reação. Os impedimentos surgem quando estão relacionados a decisões de desejos reais. Quem domina os conhecimentos ocultos e magísticos, e consequentemente sabe desse elemento no caminho do Mago, compreende, observa e manipula a seu favor todas as situações para chegar ao propósito…”

Após a leitura dessas linhas, é menos difícil de tentar expor os significados daquilo que estamos debatendo aqui no nosso artigo. Antes de tudo, é o seguinte: ter sucesso na vida não necessariamente representa a manifestação da Verdadeira Vontade de um indivíduo. Passar por momentos de sofrimento e duras penas, por outro lado, não necessariamente significa que essa pessoa está no caminho errado da sua trajetória de vida. Quando falamos coisas dessa natureza de forma superficial, soamos como um reles palestrante coache que está pretendendo vender o seu curso de como conquistar o seu primeiro milhão. Aqui, especificamente dentro do tema de Magick, estamos tratando de algo maior, não em vontade de comer uma barra de chocolate ou de ir com os amigos beber no bar da esquina. Não é por acaso que em assuntos esotéricos (e científicos) é comum o uso de palavras em seus idiomas originais ou em línguas antigas, para se aproximar ao máximo do seu significado real, sem dubiedades. Portanto usamos expressões em grego, latim, sânscrito, etc, fugindo assim das imperfeições e deturpações que se formam ao longo dos séculos ou milênios, que afastam as palavras de suas origens. Assim, temos a palavra Thelema, que em grego representa nossa Vontade, com V maiúsculo para se diferenciar da vontade mundana que muda a cada estação e humor cotidiano. É o que a literatura, religião, poemas e canções chamam de Destino, ou o que os romances, novelas, filmes chamam de Sonho, ou o que os ditos populares chamam de “aquilo que faz o coração bater mais forte”.

Se o seu sonho é ser uma dançarina de balé e há uma escola de dança desse segmento ao lado da sua casa, parabéns! Se o seu sonho é ser um especialista em eletrônica e seu pai é professor dessa mesma área numa Universidade, palmas para você. Mas como atingir seus objetivos de vida quando, nesses mesmos casos, o aspirante a dançarino for de família conservadora que entende que balé é coisa de esquerdista vagabundo, que você precisa encontrar um “emprego de verdade” ou “fazer concurso público igual seu primo”, ou querer ser técnico em elétrica e morar numa zona rural no interior do Amazonas que não tem energia elétrica disponível na região, sendo obrigado o uso de lampião à noite? Sendo fácil ou difícil, a Magia poderá ajudar. Mas procure compreender: a água que irá passar pelo encanamento possui força e velocidade extremas, e ela sairá pela torneira, estando esta fechada ou aberta. Caso esteja aberta, tudo permanecerá em perfeitas condições. Se ela estiver fechada, a água não a poupará, e ela sofrerá danos para permitir a passagem. Na nossa metáfora de exemplificação, a torneira aberta ou fechada representa todas as facilidades e dificuldades que possam existir ou surgir até o momento da manifestação do objetivo. É muitíssimo provável que esses dois sujeitos, após as realizações dos rituais e iniciações, sejam levados a expulsão de suas casas ou surgirão oportunidades de emprego em cidades em que poderão vivenciar suas Vontades, ou qualquer outro fato que os afastarão de suas vidas atuais (família, casa, cidade…), e os empurrarão para novas vidas congruentes aos seus sonhos. Quanto mais eles impedirem, forçarem e postergarem essas mudanças, piores as coisas ficarão. Os Ordálios vão acontecer, mas não da mesma forma e com a mesma intensidade pra todos. Não se pode construir um castelo junto com um barraco. Esse barraco precisa ser destruído para acomodar o castelo, ou no mínimo, que esse castelo seja construído em outro endereço. De toda forma, mudanças deverão ocorrer, e a dor, angústia, dúvidas, crises serão diretamente proporcionais às barreiras encontradas entre a fase atual e a etapa futura, ou seja, TODOS OS MUROS QUE SEPARAM VOCÊ DO SEU PROPÓSITO SERÃO DERRUBADOS, sejam esses muros indivíduos, localidade, situação financeira, família, amigos, emprego, paradigmas, etc.

“Quanto mais eu aprendo sobre Magia, menos rituais eu pratico”.  

Ass.: Eu

 Então porque eu não fiquei rico após executar o ritual? Antes é preciso se perguntar: o que o dinheiro representa pra você? Quais sentimentos ele gera no seu íntimo? Quais experiências virtuosas ou traumáticas você vivenciou na sua infância e juventude relacionadas à dinheiro? Já pensou em, antes de se embrenhar pela Magia, ir a procura de terapia para compreender a si próprio, descobrir fobias, traumas, gatilhos, fazer aquilo que é conhecido na Psicologia, o tal “enfrentamento da sombra”? Em rituais, há diversas habilidades que precisam ser dominadas para a correta realização destas, a saber: visualização, respiração, foco, emoção. Quais imagens você está visualizando? Quais sensações são geradas? Você consegue manter o foco sem dispersar em pensamentos diversos? Você sente felicidade e transbordamento ou ansiedade? O ambiente onde você pretende realizar o ritual é adequado? É barulhento?

Se o simbolismo do dinheiro em seu inconsciente possuir significados e sensações relacionados à distinção de classe, divisões entre ricos e pobres, etc e ao mesmo tempo seus paradigmas ou “filosofias de vida”, envolvem justiça social, luta de classes e noções de caridade, pode haver um desencadeamento de reações de contradição inexplicável, resultando na não realização do intento. Se seus pais viveram suas infâncias e juventudes em situação de pobreza econômica, é possível que durante o processo, surjam pensamentos e perturbações causadas pela culpa de “ter aquilo que meus pais não tiveram”. Ou caso tenha vivido alguma experiência no passado, em que foi vítima de roubo ou qualquer tipo de golpe financeiro, perpetrado por algum conhecido, amigo ou pior, um parente, também é plausível que venhas a desenvolver internamente, uma compreensão de que o dinheiro é a causa de desgraças, inimizades, crises, falências, ou coisas do tipo. Esses são alguns poucos exemplos que servem para iniciar as reflexões acerca desse tema que é vasto e labiríntico.

É por essas e outras que Magia não é algo feito para crianças. Isso foi, aliás, uma das motivações para que Crowley criasse o grau de Estudante na AA⸫, como explicado por ele mesmo: “Devido à tensão desnecessária lançada sobre os Neófitos por pessoas despreparadas totalmente ignorantes do básico tomando o Juramento do Probacionista, o Imperator da A⸫ A⸫, sob o selo e pela autoridade de V.V.V.V.V., ordena que todas as pessoas que desejam se tornar um Probacionista da A⸫ A⸫ devem primeiro passar por três meses como um Estudante dos Mistérios.”

Isso não vale apenas para rituais que envolvem prosperidade. É sobre tudo: relacionamento, amor, amizade, trabalho, filosofia, política, arte, cultura, etc. O autoconhecimento, nossos comportamentos, nossa relação com as pessoas, amigos, família, nossa visão de mundo. Tudo são variáveis, símbolos, elementos, fatores, aspectos e definidores de como iremos nos comportar enquanto magistas e terão influências diretas e definitivas nos resultados dos nossos rituais. Todo ato intencional é um ato de Magia. Mas mesmo os atos não intencionais e despretensiosos, por mais que não possuam poder de mudança no nível macro e a longo prazo, irão no mínimo influir nos desdobramentos que se seguirão.


Rodrigo Lamore. Cantor, instrumentista, compositor, produtor musical, redator, ocultista nas horas vagas, Thelemita autodidata, conheceu o mundo mágiko durante a adolescência navegando na internet. Baiano, veio pro Rio em 2012 pra viver de música. Tem um livro lançado que mistura Ocultismo com Comunismo, intitulado “Ocultismo Para O Proletariado”

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