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Biografias Bruxaria e Paganismo

Rosaleen Norton: A Bruxa Ocultista

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Por Gilmara Ígnea
gilmaraignea@gmail.com

“Por toda parte, eles minaram a superfície de toda a criação, e por onde passaram a velha ordem morreu e as formas criadas foram derrubadas pelo poder dos Espíritos que os homens chamaram de maus. Somos as fileiras do adversário.”
– Rosaleen Norton

Rosaleen ”Roie” Miriam Norton (1917-1979): Uma história de vida espetacular, quase nunca contada em português. Exceto pelo documentário lançado em 2020, que popularizou a história dela, temos pouco acesso, aqui no Brasil, a sua vida. Por isso, decidi escrever a respeito, para informar aos leitores que desconhecem essa história, a vida de uma das maiores bruxas da via sinistra da contemporaneidade, em minha opinião. Mulher forte, transgressora e livre, que desafiou o sistema, as regras morais e a religiosidade oficial da Austrália em meados do século XX. O texto abaixo segue a cronologia de vida dela e em seguida trago um resumo da sua vida mágicka e de suas obras.

Foi no segundo dia do mês das bruxas, outubro, do ano de 1917 que Rosaleen Norton veio ao mundo nas terras da Nova Zelândia e, junto com os seus pais ortodoxos protestantes, mudou-se para a Austrália em 1925. Para a infelicidade de seus pais, Norton desde cedo admirava o universo sombrio e, aos 17 anos de idade, já escrevia ficções de terror, desenhava imagens macabras e sobrenaturais. Em 1934 ela publicou três histórias de terror no jornal Smith’s Weekly, em que se destacou e acabou sendo convidada para trabalhar como jornalista e ilustradora.

Ainda muito jovem iniciou seus estudos sobre o Ocultismo. Em 1943 um artigo sobre ela foi publicado na revista Pertinent, com o título A vision of the Boundless. Nesse texto Norton foi descrita como uma artista mística que acessava os reinos astrais por meio de estados alterados de consciência e do êxtase.

Apresentando as suas pinturas numa exposição na Universidade de Melbourne, Norton foi acusada de indecência, mas os estudiosos da universidade defenderam o seu trabalho e suas acusações foram retiradas. Mas, infelizmente, em 1952 ela foi acusada novamente, desta vez por obscenidades em seu livro publicado The Art of Rosaleen Norton e teve o livro censurado, tendo seus argumentos no tribunal desmerecidos.

Estabelecendo seu próprio espaço de trabalho e rituais, ela levava uma vida livre, tendo o seu “estúdio-templo”, radicado na rua King Cross (daí o nome “a bruxa de King Cross”), o lugar onde fazia suas pinturas e seus rituais, acompanhada por outras pessoas que juntos formavam um coven. Dessas reuniões, registros fotográficos eram feitos e, por meio de um roubo, foram parar no jornal The Sun; diversas fotos com atos sexuais, as quais levaram Norton a ser acusada de publicação obscena. Dessas reuniões também resultou um artigo intitulado Adoração ao demônio, escrito por D.L Thompson, que visitou Norton e conheceu os outros integrantes do coven. O jornalista a questionou sobre as crueldades que ela e seu coven faziam e ela respondeu que isso era uma informação falsa e que crueldade quem praticou foram as religiões desde o início dos tempos, mas os seguidores de Lúcifer não praticavam maldades nem com seres humanos e nem com animais.

Em 1957, Norton publicou diversos artigos autobiográficos no Australasian Post intitulados I Was Born Witch, foi quando ela se declarou publicamente ser uma Bruxa. Três anos depois a polícia apreendeu cerca de 30 de suas pinturas que estavam expostas e queimaram suas obras como forma de censura.

Norton era uma mulher livre, que desafiou o sistema moral e dominante da Austrália. Perturbou as estruturas de gênero assumindo, muitas vezes, uma estética masculinizada. Foi perceptível que ela não considerava as categorias binárias e um dos indícios foi que em Sunday Night Norton descreveu um encontro que ela teve no plano astral e perguntaram se ela era homem ou mulher e ela respondeu ”nenhum e ambos”. Sua resistência aos padrões de gênero desafiou as representações dominantes na Austrália em meados do século e perturbou a moral cristã.

Outra posição importante de Norton foi o Anticristianismo. Essa filosofia reverberou quando ela fez uma crítica ao “deus ciumento”que gera a “felicidade da ignorância”com suas “promessas infinitas”. Norton acreditava que a hegemonia cristã afastava as pessoas do natural. E podemos atestar esse caráter anticristão de Norton em diversas obras, principalmente em Witches Sabbath de 1949 e sua reformulação para Black Magic em 1952, no qual o cristianismo é subvertido e elementos como a cruz invertida aparecem.

Norton era uma artista que escrevia, pintava e expressava sua cosmovisão por meio da arte, mas não só isso, ela tinha uma postura política. Chegou a se pronunciar diversas vezes, usou da mídia e seu envolvimento social para afirmar seu estilo e recuperou a imagem da “bruxa” para representar seu legado, defendendo uma bruxaria com valores de liberdade e resistência com manifestações por meio da arte da escrita e das artes visuais. Seria a arte de Norton um ato de resistência política e religiosa naquele período? Mais uma vez, assistimos a bruxaria como um ato político.

SUA PRÁTICA MÁGICKA

Norton aproveitou o interesse de jornalistas e da imprensa para colaborar com publicações ao seu respeito e divulgar sua arte e sua cosmologia. Em uma entrevista para o jornalista Thompson, ela afirmou que seu clã era formado por 7 pessoas de ambos os sexos e que os iniciados faziam juramentos às divindades Pan e Hecate. Além disso, afirmou que praticavam rituais para os quatros elementos antes e depois da iniciação.

Seu moto mágicko era Thorn e, segundo o pesquisador Richmond (2009), a imprensa da cidade de Sydney na Austrália, onde Norton residia, a denominava A Bruxa de King Cross. Suas práticas mágickas envolviam o transe, a auto hipnose para alterar o estado de consciência e acessar outros planos, que Norton alegava neles encontrar formas divinas e entidades não humanas de sua cosmologia mágicka, conforme afirmou o pesquisador Drury (2008). O autor afirma em sua pesquisa que Norton se referia a si mesma como “Alta Sacerdotisa de Pan”, o Deus grego chifrudo. Em seu sistema, Pan era a divindade suprema, mesmo ela dialogando com outras divindades como Hécate, Lilith e Lúcifer. Este último era entendido por ela como O grande adversário. Além disso, Norton praticava magia sexual, tendo como influência o mago Aleister Crowley, executando rituais com práticas sexuais com mulheres e homens.

A partir de 1950, Norton teve influência da folclorista e pesquisadora Margaret Murray e, por causa disso, passou a alinhar suas práticas com os cultos pagãos das bruxas pré-cristãs da região da Grã-Bretanha e da Europa pré-cristã. Ela também teve acesso a diversas leituras cabalísticas, a bruxaria de Gardner, a psicologia de Jung, entre outros. E, além disso, ela se interessava pelo Vodu, pelo tantra do caminho da mão esquerda, pelo Yoga Kundalini e pela magia goética, conforme apontou o pesquisador Drury (2008). Segundo a própria Norton, seu sistema era idiossincrático e que ela o chamava de “Bruxaria”. É importante notar que no século XX ela foi uma das, se não a primeira, a se assumir como Bruxa. Nesse período havia a lei que proibia esse tipo de prática na Inglaterra, fazendo com que muitos praticantes não se assumissem bruxos.

Norton não era satanista e se incomodava quando alguém a denominava assim, principalmente pelo caráter negativo e cruel que a sociedade dava a esta filosofia. Ela era uma pessoa livre, mas não cruel, tinha um carinho e fascínio muito grande pelos animais e afirmava que sacrifícios de animais não deveria ocorrer porque eles são os instintos naturais e a percepção deles é conectada com a natureza, disse ela em seu “grim-memoire”, Thorn in the Flesh.

Lúcifer, na cosmogonia de Norton, era o terceiro da tríade menor. Em seu poema Star of Satan, ela descreveu Lúcifer como um adversário e portador da luz, aquele que pode limitar o ego. E ela tinha convicção de que seu ocultismo panteísta deveria ser algo público, ainda mais num país conservador, anglicano, presbiteriano e católico romano. Contexto complexo para se divulgar práticas e ideais tão controversas e revolucionárias. Por tudo isso, Norton passou a ser uma mulher inaceitável para aquela sociedade, além das práticas mágicas e seu anticristianismo, ela desestabilizou os binários feminino/masculino e afirmou uma vida sexual livre, coisa abominável para aquela época e naquele país.

SUA ARTE ESOTÉRICA

Norton tinha conhecimento do paganismo antigo, sobretudo o grego. Percebemos isso diante das suas pinturas com ritos bacanais e mistérios dionisíacos evidentes. Uma de suas obras foi denominada de Dionysus e a outra de Bacchanal. Nelas a sua cosmologia é evidenciada por meio de cenas místicas e orgiásticas com criaturas sobrenaturais e diversos animais. Além de indícios de bruxaria. Uma das leituras já citadas que influenciou Norton foi da Murray, em seu livro O deus das bruxas (1931) a autora fala sobre as danças das bruxas, os êxtases e os bacanais, os quais a autora acreditou derivarem da mesma fonte e que foram bem representados em suas obras.

Não farei aqui uma análise de suas obras, já que não caberia nesse espaço, mas incito você leitora (o) a buscar por essas pinturas e fazer a sua própria investigação, pois as artes da Norton é um alimento para as almas sombrias que habitam esse mundo material. As suas obras delineiam formas divinas, sobrenaturais e entidades não humanas que habitam o seu cosmo e que podem ser acessadas por meio do transe. Segundo Norton, esses elementos foram mostrados a ela por meio de seres que habitam o mundo dos pensamentos, a mente cósmica.

Técnicas mágickas para alterar o estado de consciência por meio da e para a arte ressurgiram nesse período, segundo o pesquisador Drury (2008); a Golden Dawn documentou diversos estados de transes e experiências místicas, os chamados “rolos voadores”; uma sacerdotisa da Golden Dawn, chamada de Florence Emery, chegou a relatar seus transes por meio da arte do tarot. Ou seja, as práticas de Norton estavam alinhadas com as práticas ocultistas do século XX e, apesar de não conseguir provas, é possível identificar a sua forma de pintar em estado de transe similar ao desenho automático do Osmar Spare, também seu contemporâneo.

Norton afirmou aos amigos que acreditava na reencarnação e que por meio dela havia encarnado na ordem elemental e também humana e, devido a isso, ela estava familiarizada com os reinos do outro lado, atravessando livremente os reinos da inteligência humana. Então, a sua arte e a sua espiritualidade estavam entrelaçadas. Norton declarou usar estados de transe para “projetar seu corpo astral com intenção mágica”. Na pintura Astral Scene, ela projeta um sigilo acima dela e mapeia a si mesma em várias dimensões. Norton alegou que o plano astral era “governado e dirigido pelo pensamento e pela vontade e intencionalidade”. Ela foi ententida como uma artista surrealista que utilizava seus conhecimentos esotéricos e sua magia para fazer arte. Analisar as suas obras é, portanto, digno de uma investigação mais profunda e caberia outro texto investigativo. Não somente Norton foi uma mulher que utilizou da arte da pintura, performance, escrita como portal oculto; podemos fazer um paralelo entre ela e Marjorie Cameron (1922-1955), que foi outra mulher atraída pela iconografia ocultista e reza a lenda que seus trabalhos funcionavam como feitiços e invocações.

A cosmologia de Norton é encantadora, cheia de mistérios e arte mágicka. Apesar das perseguições e da censura, Norton permaneceu fiel a suas convicções até o fim de sua vida. Acometida por um câncer em 1979, ficou reclusa, mas com coragem e determinação. Sua trajetória única e sua arte desafiadora continuam a inspirar e provocar reflexões sobre magia, política, religião e liberdade até os dias de hoje. Em seus últimos momentos de vida, ela declarou: “Vim a este mundo com coragem e sairei dele com coragem”.

Algumas Obras de Rosaleen Norton:

Astral Scene

 

Bacanal de Norton

 

O Adversário (1952)

Witches Sabbath (1949)

 

Black Magic (1952)

 

Lilith(1952)

 

Hecate

 

Lúcifer

 

Pan


Texto publicado originalmente na Revista Aquelarre de 2024.
Autora: Gilmara Ígnea: Pesquisadora de Práticas Mágicas e Feitiçaria no Brasil Colonial, com Graduação, Mestrado e Doutorado em História. Autora do livro “Práticas mágicas de feitiçaria: o caso de Maria Gonçalves Cajada”. Organizadora, junto a um professor e uma colega, do evento acadêmico “Jornada de Filosofias Ocultas: Bruxaria como cultura, ciência e política” da USP. Além disso, Gilmara é investigadora da relação corpo/dança/magia/oculto, sendo professora e orientadora desde 2006, e é criadora do conceito de Dança Performágicka e do Coven All The Witches Dance, além de outros diversos trabalhos.

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