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Astennu Sever
Às vezes, a diferença entre religião e magia é bastante tênue, e as duas parecem caminhar lado a lado. Afinal, qual é a diferença entre Moisés transformar um cajado em cobra e o mago da corte egípcia fazer a mesma coisa? As pragas e maldições lançadas sobre o Egito por Moisés também não seriam atos de feitiçaria?
E quanto a Jesus e seus “milagres”? Como o fato de Jesus andar sobre as águas não seria considerado mágico? E, para citar um exemplo mais recente: o ato da transubstanciação na missa católica não é também um ato mágico?
Há muitos outros exemplos religiosos que podem ser interpretados como magia. E talvez o sejam. Sempre me fascinou essa distinção entre os dois, principalmente por causa da Inquisição Medieval. Mas também por conta de algumas figuras religiosas e intelectuais que, recentemente, manifestaram opiniões negativas sobre a magia, com destaque para Roger Scruton.
Portanto, essa é uma questão mais atual do que parece. Li alguns excelentes artigos acadêmicos e livros sobre o tema (as fontes estão listadas abaixo), e estas são as cinco diferenças mais importantes segundo antropólogos, escritores religiosos e magos:
1. Religião é pública, magia é uma questão privada
As religiões são criadas para atender a uma comunidade mais ampla. Não é necessário nenhum conhecimento ou habilidade especial para fazer parte do Cristianismo, do Islã ou do Budismo. Apenas os membros da elite (sacerdotes) precisam ter um conhecimento mais aprofundado dos ritos religiosos. Além disso, os objetivos (ou ao menos os objetivos proclamados) das religiões dizem respeito ao bem coletivo.
Os rituais religiosos “funcionam” independentemente do nível de piedade dos envolvidos. Basta alguém ouvir o sacerdote e rezar junto para que uma missa seja considerada válida e eficaz.
Em comparação, a magia exige habilidades e conhecimentos especiais de cada pessoa envolvida num ritual mágico. Isso porque a eficácia da magia depende dessas capacidades. Os rituais mágicos requerem bem mais esforço de todos os envolvidos. Isso, por si só, já torna qualquer caminho espiritual esotérico uma empreitada elitista.
Há também a questão da moralidade. O desejo declarado de toda religião é a salvação ou a felicidade da coletividade. Por exemplo, uma missa católica não é realizada apenas para beneficiar os participantes, mas por toda a humanidade.
Esse não é necessariamente o caso da magia. A maioria dos rituais mágicos é realizada por indivíduos que buscam alcançar algum objetivo pessoal. Isso pode ou não prejudicar outras pessoas. Mas o ponto é que, no caso da magia, o indivíduo tem prioridade sobre o coletivo, enquanto na religião, a lógica se inverte.
É por isso que a Igreja sempre teve especial cautela com todas as formas de magia e esoterismo, considerando-as empreitadas espirituais egoístas que poderiam, em potencial, prejudicar a comunidade mais ampla que não participa desses rituais privados.
2. Milagres religiosos são atos de Deus
O poder da magia depende do poder do mago. Existem diversas características que precisam ser desenvolvidas por um praticante para que sua magia seja eficaz:
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concentração
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capacidade de visualização
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força da intenção
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resistência física e vigor (sim, como jogadores de xadrez)
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conhecimento e experiência
Nenhum desses treinamentos exaustivos é exigido de um profeta escolhido por Deus. Moisés não precisou meditar por dez horas por dia para cobrir o Egito de gafanhotos. Nenhum desses “atos mágicos” exigiu dele qualquer poder próprio. Ele foi apenas um canal através do qual os poderes de Deus se manifestaram — porque Deus assim quis, não porque Moisés o desejasse. Na verdade, Moisés não estava nada satisfeito com a missão que recebeu, mas se submeteu à Vontade divina.
Um mago, por outro lado, QUER realizar o ato mágico e PRECISA se esforçar para desenvolver a habilidade. Caso contrário, nada acontece.
A situação de Jesus é um pouco diferente, já que ele afirmava ser Deus encarnado. É por isso que muitos ensinamentos gnósticos consideram Jesus como uma representação das habilidades inatas que temos para transcender a humanidade e nos tornarmos deuses.
Isso pode ser verdade. Aqui, a diferença entre milagre e magia não é tão clara quanto no caso de Moisés. Temos que acreditar ou que Jesus era o Filho único de Deus, ou que todos nós podemos nos tornar como ele. Isso depende, em última instância, de como interpretamos o Novo Testamento.
3. A religião é altruísta, a magia é egoísta
Existe magia branca e magia negra. A magia branca está relacionada a ajudar os outros ou a si mesmo sem causar danos a terceiros. Em comparação, a magia negra é realizada com fins egoístas e pode ser usada para prejudicar outras pessoas.
As religiões não apresentam essas ambiguidades morais, pelo menos não em nível doutrinário. Todas as grandes religiões ensinam a bondade, o altruísmo e o amor como objetivos finais. Nenhuma religião prega a violência, especialmente para alcançar riqueza material ou status social. Já a magia pode ser usada com esses propósitos.
Assim, a magia é moralmente neutra, enquanto a religião é, por essência, moralmente boa. Isso não quer dizer que a religião nunca tenha causado sofrimento, mas nunca teve como objetivo explícito causar dano por motivos egoístas. Mesmo nas Cruzadas e Jihads, a violência era executada “para a Glória de Deus”.
Claro, pode-se argumentar que isso é apenas uma manipulação semântica, já que o resultado final ainda é violência e sangue derramado. Mas do ponto de vista doutrinário, isso mostra que as religiões têm um núcleo altruísta, mesmo quando praticam atos que podem ser considerados moralmente errados. Enquanto isso, a magia, na sua essência, costuma ser um empreendimento egoísta — mesmo quando se trata de ações moralmente boas ou neutras.
4. A magia dobra as leis naturais à vontade
O objetivo de qualquer ritual mágico é dobrar as leis da natureza. Religiões como o Cristianismo, o Islã e o Judaísmo ensinam que apenas Deus tem habilidades sobrenaturais, pois Ele está fora da Natureza.
Portanto, Deus é incondicionado, enquanto o homem, condicionado pelas leis naturais, não pode influenciá-las de forma alguma. O ser humano pode apenas se submeter a essas leis e agir em conformidade com elas. No entanto, muitos magos acreditam possuir uma essência divina que, se desenvolvida através de práticas espirituais, lhes permite agir como deuses.
Ou seja, ao transcender sua humanidade e se tornar um “deus vivo”, o mago adquire a capacidade de dobrar as leis naturais em benefício próprio, à vontade. Diferente de Moisés, que recebeu seus poderes diretamente de Deus, um mago como Fausto acredita que esses poderes já estão dentro de si. Basta acessar esse potencial interno e manifestá-lo no mundo real.
Contudo, é importante mencionar que a magia judaica tradicional é diferente, pois depende inteiramente dos poderes de Deus. Nesse caso, o mago alinha-se com o poder divino (ou com espíritos malignos), mas ele próprio não possui poderes especiais. Sempre depende de outras entidades espirituais ou do Criador.
De qualquer forma, a diferença entre milagres religiosos e magia permanece clara. A magia oferece um conjunto específico de instruções para alcançar determinado resultado. Um mago experiente e poderoso pode alcançar esses resultados a qualquer momento. Já os milagres religiosos são atos da vontade de Deus, e um santo ou profeta só os realiza quando recebe essa bênção.
5. A magia inclui rituais devocionais e não devocionais
As religiões são em sua maioria limitadas a práticas espirituais devocionais, como orações e mantras, que visam agradar uma divindade. Todas essas práticas são usadas para estabelecer uma conexão espiritual e emocional com a divindade desejada, a fim de receber algum benefício dessa relação. Seja esse benefício o amor, a paz interior ou a cura.
A prática devocional também existe na magia. Contudo, há muitas outras práticas mágicas que não se encaixam nesse molde, como sexo tântrico, adivinhação, astrologia, necromancia, cartomancia, telepatia, telecinese… e a lista continua. Alguns dos objetivos dessas práticas podem até depender de uma abordagem devocional, mas essa não é a única via disponível.
Por exemplo, invocar o demônio Astaroth para obter conhecimento sobre o futuro, em vez de usar astrologia ou outro método divinatório. Ou ainda, cultuar a deusa Afrodite para se tornar um amante mais desejado.
Palavra final: A diferença entre religião e magia
Embora eu tenha mencionado as principais diferenças entre religião e magia, elas nem sempre são claras na prática. Devemos lembrar que ambos os caminhos espirituais se desenvolvem e assimilam influências ao longo do tempo.
Enquanto católicos acusam os livros de Harry Potter de corromper a juventude com feitiçaria, os protestantes acusavam os católicos de praticar magia há poucos séculos, por conta das muitas regras “mecânicas” e rituais impostos a Deus (como a transubstanciação e os sacramentos).
Ainda assim, podemos reconhecer que a religião representa uma comunidade pública, enquanto os caminhos mágicos se relacionam a comunidades privadas com objetivos particulares que podem, inclusive, contrariar o bem coletivo. Também podemos separar milagres da magia: milagres dependem da vontade e da bênção de Deus, enquanto os feitiços mágicos dependem das capacidades mágicas do praticante.
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