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por Shirlei Massapust
Em um belo dia apareceu-me gente jurando de pés juntos que no passado da Ásia haveriam personalidades vampíricas bebendo sangue humano: “no Japão, acreditava-se que um homem idoso poderia ser rejuvenescido tirando e bebendo o sangue fresco de uma bela virgem”. Essas pessoas supostamente teriam uma prova histórica para sustentar tal alegação: um desenho de época onde vemos um idoso sangrando o pulso de uma jovem.
Pesquisando a respeito da autoria da imagem supracitada e de seu contexto em fontes fidedignas, descobrimos que a realidade não espelha nossos medos e expectativas mirabolantes. Kuniyoshi Utagawa (歌川国芳; 1798-1861) foi um pintor, desenhista e xilógrafo japonês que produzia estampas realísticas e historicamente precisas, mas também cenas folclóricas cujo exemplo mais frequentemente reimpresso e reproduzido é um quadro em estilo ukiyo-e (浮世絵) onde a feiticeira Takiyasha invoca o gashadokuro, que é um esqueleto gigante composto pelos restos mortais de cem combatentes mortos.
Entre a comunidade acadêmica a obra mais aclamada de Kuniyoshi Utagawa é a antologia Honcho Suikoden goketsu happyakunin no hitori (通俗水滸伝豪傑百八人之一個; c. 1836) onde o autor retrata vividamente as imagens de cento e oito heróis corajosos e exóticos descritos pelo chinês Shi Nai’an (施耐庵; c. 1296–1372) no romance histórico Shuǐhǔ zhuàn (水浒传), o qual narra fatos ambientados na China por volta do ano 1121.
Na referida antologia o herói nº 56 é identificado como Shényī An Doquan (神醫安道全), um médico chinês nativo de Jiànkāng (建康), conhecido por promover curas milagrosas. Kuniyoshi Utagawa representou-o praticando sangria em uma importante personagem feminina conhecida como Gù Dàsǎo (顾大嫂), a “Tigresa”. Pois bem, essa poderosa mulher da noite era tudo menos uma virgem indefesa. A sangria foi uma prática comum entre médicos do período, tanto no oriente quanto no ocidente, pois acreditavam ser possível abaixar febres e escoar patologias deste jeito.
O mistério original estava solucionado e a prova invalidada. Entretanto, o processo de busca por informações mínimas forneceu-me algumas pedras de tropeço! A vida real é uma coisa louca. No período Edo havia um funcionário do xogunato chamado Asaemon Yamada (山田浅右衛門) que sempre dava o próprio nome ao filho que haveria de lhe substituir na profissão. No início o ofício de Asaemon Yamada consistia em testar espadas recém forjadas cortando os cadáveres dos sentenciados à pena de morte. Mais tarde um descendente reivindicou a função de carrasco para melhor testar as lâminas em corpos ainda vivos. Finalmente, o sexto Asaemon Yamada estaria fabricavam drogas vendidas sob nomes como “Yamada-maru” (山田丸) e “Jincho-gan” (人胆丸), feitas com fígado, vesícula biliar e outras partes dos criminosos que ele executava. Naquela época acreditava-se que a carne humana era eficaz contra a tosse da tuberculose. Muitas pessoas compraram este medicamento, gerando uma renda robusta aos testadores de espadas.[1]
Pois bem, se houvesse vivido uns quinhentos aos após sua época, talvez Shényī An Doquan até tivesse o que fazer com o sangue da enferma Gù Dàsǎo. Entre os próprios asiáticos uns poucos artistas chegaram sim a imaginar cenas exóticas onde figuras humanas imitam deidades bebedoras de sangue. A antologia de xilogravuras Kaidai Hyaku Sensô (魁題百撰相; 1868) compilou uma centena de cenas retratando a fisionomia de samurais que participaram de batalhas históricas ocorrias no Japão feudal. Uma dessas xilogravuras representa o general Sakuma Morishige (佐久間 盛重), também chamado Sakuma Daigaku (佐久間大学), bebendo o sangue que flui da cabeça decepada de um inimigo.[2]
Em 1556 o verdadeiro samurai Sakuma Daigaku (佐久間大学) lutou na Batalha de Inō (稲生の戦い) ou “confronto do arroz” onde seu clã defendeu os interesses do daimyo Oda Nobunaga (織田 信長, 1534–1582) contra os de seu próprio irmão, o daimyo Oda Nobuyuki (織田 信行, 1536–1558). Morishige continuou a servir Oda Nobunaga até sua morte, em 11/06/1560.[3] Isso aconteceu quando o daimyo Imagawa Yoshimoto (今川 義元, 1519–1560), governante de Suruga (駿河), Totomi (遠江) e Mikawa (三河国), liderou um grande exército contra Oda Nobunaga na intenção de anexar Bishu (尾州) aos seus domínios. Nesta ocasião Morishige defendeu o forte Marune (丸根の砦) e, após uma dura batalha, encontrou a morte atingido pelo disparo de arma de fogo.[4]
Reconheço que há limitações sobre o que um homem do século XIX poderia saber sobre uma personagem do século XVI, coletando narrativas orais infladas por trezentos e oito anos de confabulações imprecisas. Para um historiador talvez seja difícil pensar em uma combinação pior do que artes em estilo ukiyo-e (浮世絵) – ditos “retratos do mundo flutuante” – trazendo personagens icônicos do turbulento período Sengoku (戦国時代), caracterizado pelos mais caóticos conflitos entre estados beligerantes. Importa ressaltar que a ilustrador Tsukioka Yoshitoshi (月岡 芳年; 1839-1892) foi um mestre pioneiro no gênero nuzan-e (無残絵) ou “gravuras sangrentas”, sensacionalistas.
Um padrão iconográfico similar existe desde épocas remotas e perdura até os dias de hoje na cultura popular da Índia. Por exemplo, a capa do nº 52 do romance gráfico hindi “Palácio de Espelhos”, Shishe ka Mahal (शीशे का महल), traz uma entidade preternatural, provavelmente Ravana, bebendo o sague que escoa do pescoço de um elefante decapitado, vencido por ele e tratado como um inimigo valoroso.


Figuras: 1) Xilogravura de Tsukioka Yoshitoshi (月岡 芳年; 1839-1892) retratando Sakuma Morishige (佐久間 盛重; † 1560).[5] 2) Entidade preternatural vence um elefante e bebe o sangue, na capa do nº 52 do romance gráfico hindu Shishe ka Mahal (शीशे का महल).
Olha… não garanto nada… tenho me deparado com uma quantidade expressiva de referências a um padrão de mitologema ou mitologia em obras de ficção para meninos adolescentes (que são os materiais mais suspeitos e capengas possíveis e imagináveis). Fiquei com a pulga atrás da orelha depois de assistir aos desenhos animados da franquia de jogos Hakuōki (薄桜鬼), uma sequência de seriados fortemente embasados na história real dos samurais e do Japão, que inicia parecendo um romance histórico ordinário, mas onde – numa fase avançada – um cientista inventa uma droga[6] que transforma soldados em rasetsu (羅刹) sanguissedentos incontroláveis; e então existe o verdadeiro oni (鬼) aborrecido com a cópia até que o humano transformado prove o seu valor em batalha.
Há algo digno de nota a partir do minuto 38:37 até o final do terceiro episódio da animação de Sōryūden (創竜伝), conhecido no ocidente como Legend of the Dragon Kings (1991). Nesta trama fictícia repleta de valores tradicionais japoneses ninguém menos que o Shogun descobre que é possível adquirir longevidade e outras habilidades bebendo o sangue dos descendentes do imperador dragão, em especial daqueles que são dragões encarnados em avatares humanos. O sangue de uma única mulher abatida foi dividido em cinco partes e bastou para suprir as necessidades do Shogun durante cinquenta anos.[7] Porém o que o Shogun realmente desejava era a potência do sangue do misterioso quarteto de elite conhecido como shitennō (四天王). (Sim, avatares dos primeiros deuses da época da fundação da China. Geralmente benéficos, como em Legend of the Dragon Kings. Mas as vezes aparecem como anti-heróis feiticeiros e até como mortos-vivos, a exemplo das representações nas franquias Bastard!! e Sailor Moon).
Se ingerir sangue de ryū (龍) te faz meio-dragão temporariamente, sangue de oni (鬼) te faz oni para sempre conforme a versão do mangá Kimetsu no Yaiba (鬼滅の刃), desenhado e roteirizado por Koyoharu Gotōge (吾峠 呼世晴). Essa autora de ficção sequer utiliza o termo kyūketsuki (吸血鬼) – vampiro em nihongo – para distinguir o oni sanguessuga do oni genérico pois na sua perspectiva todo e qualquer oni anseia por sangue. (E esse foi o mangá mais vendido no Japão durante um longo período).
Na ficção de Kōji Matsumoto vemos algo brutalmente diferente. Vampiros originas são produto de mutação genética. Quando eles transformam humanos comuns estes se tornam vampiros imperfeitos que necessitam ingerir sangue regularmente para impedir que se transformem em oni (鬼) monstruosos ou retardar a transformação.[8]
NOTAS
[1] OGATA, Yuri (緒方裕理). 山田浅右衛門、死刑執行人の仕事とは。斬った人間の臓器で薬を製造した?Posto online em 02/10/2020. URL: <https://intojapanwaraku.com/rock/culture-rock/118430/>.
[2] HUNTER, Jack. Dream Spectres. Extreme ukiyo-e: sex, blood and the supernatural. China, Shinbaku Books, 2010, p 66.
[3] SAKUMA MORISHIGE. Em: WIKIPEDIA. Acessado em 28/03/2024 14h14. URL: <https://en.wikipedia.org/wiki/Sakuma_Morishige>.
[4] 『月岡芳年の世界』 吉田漱・監修/悳俊彦・編著. Resenha de livro publicada no blog ひとでなしの猫 em 12/05/2014. URL: <http://leonocusto.blog66.fc2.com/blog-entry-730.html>.
[5] AN UKIYO-E OF SAKUMA MORISHIGE. Em: Wikimedia Commons. Acessado em 28/03/2024 13h50. URL: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sakuma_Daigaku.jpg>.
[6] Na franquia Hakuōki (薄桜鬼) composta por jogos, seriado, etc., há famílias nobres de oni no Japão e há aqueles que tentam imitá-los. O verdadeiro oni não precisa de nada para atuar como um excelente guerreiro enquanto o falso oni, alcunhado rasetsu (羅刹), se transforma bebendo um medicamento que aumenta a capacidade regenerativa e diminui a dor ao mesmo tempo em que reduz a capacidade de raciocínio e o tempo de vida do usuário. A droga vampirizante foi chamada oshimizu (押水), conhecida marca de água mineral e nome popular de um remédio produzido com extrato da planta alucinógena Euphorbia Tirucalli, vendido em barracas de curandeiros. Na ficção exageraram os efeitos da droga lícita fazendo o usuário ficar viciado em sangue, etc. Na vida real é o kansui (甘遂) ou sal alcalino – outro componente da fórmula – que causa sede secando a saliva. Na franquia Higanjima (彼岸島) uma injeção de solução salina causa uma sede incontrolável em vampiros. Talvez não seja inútil acrescentar a PoPo Doll, sediada na China, lançou em 2011 o boneco Ji Tian com uma gotícula de sangue escorrendo do canto da boca. O boneco Ji Tian possui dentes caninos longos e seis dentes incisivos superiores (a arcada dentária humana apresenta quatro incisivos superiores), sendo o excesso de dentes serrilhados comum em deidades do fogo, da guerra e da morte. Seu nome foi inspirado na medicina chinesa onde ji tian ou ba ji tian (巴戟天) designa a planta Morinda officinalis usada no combate à anemia e perda de energia vital, que eles chamam de Qi (氣).
[7] Acesse o link e mova a barra para a posição 38:37 se quiser ver o shogum explicando como um guerreiro se torna dragão bebendo sangue: <https://www.youtube.com/watch?v=TyDSIunFWAM&list=PLlgs-bz3H7FMgQgINdEIhr-XuX_zM4lKj&index=4>.
[8] A série em quadrinhos Higanjima (彼岸島), com roteiro e desenho de Kōji Matsumoto (松本 光司), foi publicada na antologia de quadrinhos Shukkan Young Magazine (週刊ヤングマガジン), pela editora Kōdansha (講談社), desde 04/04/2003 até 06/12/2010. Mais recentemente Kōji Matsumoto criou duas séries derivadas, Higanjima Saigo no 47 Hiai (彼岸島 最後の47日間), publicada na mesma antologia, de 02/08/2010 a 28/07/2014, e Higanjima 48 Nichigo… (彼岸島 48日後…), iniciada em 08/08/2014.
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